PIONEIRAS: HELOISA PONTES, INTÉRPRETE DA METRÓPOLE.


No apêndice da coletânea Estilos de Antropologia, Mariza Corrêa (1944-2016) faz uma esperta distinção entre os “mestres” e os “fundadores” da disciplina tal como feita no Brasil. Segundo ela, enquanto os últimos poderiam ser equiparados a totens por inaugurarem com um espírito pioneiro (e mítico) certas linhagens a partir das quais a antropologia estaria apta a florescer, os primeiros seriam “antepassados de si mesmos” ao criarem, além de instituições e tradições intelectuais localizadas, uma linguagem nova para a formulação de seus problemas.[1] Se hoje o legado de Mariza Corrêa certamente autoriza-nos a posicioná-la, segundo seus próprios termos, entre as fundadoras da história da antropologia no Brasil, Heloisa Pontes pode ser considerada uma mestra na exata acepção do termo.

Curiosamente, a trajetória da mestra cruza-se com a da fundadora. Formada em Ciências Sociais pela Unicamp no início da década de 1980, Heloisa ingressou no Mestrado em Antropologia Social na mesma instituição sob orientação de Mariza Corrêa. Desde cedo, o gosto pela academia, fomentado por um clima de surpreendente liberdade intelectual, aliado a uma militância feminista que educou, política e emocionalmente, uma geração inteira de mulheres, aproximaram Heloisa dos estudos de gênero e da etnografia dos movimentos sociais urbanos. Nesse sentido, o SOS-Mulher, organização não-governamental criada em 1980 na cidade de São Paulo, condensou os interesses tanto da jovem feminista quanto da pesquisadora estreante. Em Do Palco aos Bastidores, sua dissertação de mestrado, o caráter ambivalente de quem estuda o movimento do qual participa – hoje algo muito comum entre nós antropólogos(as) – chama a atenção por aquilo que rende em termos analíticos. O fato de ser “sujeito e objeto” do próprio discurso, em vez de neutralizar o conhecimento produzido sob a acusação de um curto-circuito epistemológico, a fez refletir sobre o lugar do pesquisador(a) em campo e amplificar, assim, a voz compósita de uma “categoria oprimida”.[2] A sensibilidade etnográfica uniu-se, no caso de Heloisa, a um cuidado quase obsessivo com a linguagem – que vai da forma narrativa à escolha das palavras –, fazendo de sua pegada a um só tempo literária e sem rodeios um dos traços distintivos de uma dicção autoral única.

Heloisa é igualmente mestra, segundo a definição de sua primeira orientadora, devido ao caráter híbrido de sua formação. Concluída a etnografia sobre o SOS-Mulher, em 1986, ela já integrava o quadro docente do Departamento de Antropologia da Unicamp quando decidiu realizar o doutoramento em Sociologia – espécie de disciplina “vizinha”, no bom e no mau sentido do termo. Tal transição, em grande medida decorrente de sua curta, porém prolífica atuação como pesquisadora do IDESP e colaboradora do projeto História das Ciências Sociais no Brasil, promoveria uma significativa inflexão em sua carreira. Da etnografia participante do movimento feminista na capital paulista ela passaria ao estudo da primeira geração de intelectuais brasileiros formados na então recém-criada Faculdade de Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde ela própria, Heloisa, ingressava como doutoranda. “A ligação”, escreve ela em seu memorial, “entre a antropologia e a sociologia na área que escolhi, a sociologia da cultura, guiada pela orientação segura e firme da profa. Maria Arminda do Nascimento Arruda, era nítida para mim. Mas obscura e até mesmo ‘suspeita’ para vários antropólogos e colegas meus, que não entendiam o que os meus temas e objetos tinham a ver com essa disciplina”.[3]

Obscuridade e suspeição que, olhadas em retrospecto sob lentes contemporâneas, flagram não a impostura, mas a carpintaria de um campo de investigação até então inédito entre cientistas sociais brasileiros. Destinos Mistos, [4] a tese resultante de seu trabalho sobre o grupo Clima – do qual fizeram parte intelectuais do calibre de Antonio Candido, Decio de Almeida Prado e Gilda de Mello e Souza –, trouxe para o campo da sociologia dos intelectuais e da cultura a indissociabilidade entre a atividade acadêmica, as práticas de sociabilidade e o espaço da cidade, que não apenas acolhe os intelectuais em seu ofício mas lhes fornece um repertório específico de problemas e conceitos. Além disso, Destinos Mistos pôs em primeiro plano a perspectiva das relações de gênero que informava o olhar de Heloisa desde os tempos de graduação. Conforme argumentou em seu trabalho, o pensamento não apenas possui uma espessura social determinada, mas traz as marcas de seu contexto de produção. Talvez por isso as luzes tenham adquirido um brilho especial na figura de Gilda de Mello e Souza em relação aos demais. Assistente de Roger Bastide na cadeira de Sociologia, Gilda escreveu sobre a moda no século XIX, tema até então restrito aos domínios das Artes e da Estética. Em 1950, quando defendeu O Espírito das Roupas na forma de um ensaio conciso e arguto, a tese foi bem acolhida no meio intelectual uspiano, mas – também – não sem certa dose de suspeição. Associada “simbólica e metonimicamente”[5] ao universo feminino, a moda entrava pela mão de uma mulher no rol dos objetos possíveis a uma ciência repleta de “varonilidade sociológica”, na muito bem sacada expressão de Gilberto Freyre.

Gilda de Mello e Souza também foi figura-chave na elaboração da tese de livre docência de Heloisa Pontes, Intérpretes da Metrópole. [6] Em um breve ensaio de 1954 intitulado Teatro ao Sul, Gilda apontou para a interessante homologia entre o teatro moderno paulista e o romance social nordestino no que diz respeito à experimentação com a linguagem e à tomada de consciência política acerca do país. A proeminência das artes cênicas em São Paulo se daria, entre outras coisas, pelo processo acentuado de metropolização da capital, pela presença duradoura de companhias estrangeiras e pela atuação da USP como um epicentro intelectual. A confluência desses fatores motivou o último trabalho de fôlego de Heloisa até agora. Versátil no manejo da documentação – fotos, biografias, entrevistas, ensaios críticos e literários recebem o mesmo tratamento rigoroso – e sem paralelo no domínio da forma ensaística, Intérpretes da Metrópole consegue dosar antropologia das relações de gênero, história social da cultura, sociologia dos intelectuais e crítica literária sem que nenhuma dessas áreas denuncie ou desequilibre a outra.

Enquanto a socióloga não descuida dos aspectos morfológicos e estruturais de uma cidade em transformação, a antropóloga se atenta a detalhes que somente a argúcia etnográfica é capaz de captar. Tal é o caso, por exemplo, da análise reluzente sobre Cacilda Becker, atriz que conseguiu, como nenhuma outra, “burlar” os constrangimentos de classe, gênero e idade nos diversos papéis que interpretou em sua carreira. Não porque se tratasse de um gênio atemporal, mas porque eram, segundo Heloisa, uma atriz e um teatro. Em Intérpretes, portanto, a correlação bem calibrada entre a experiência social e as modalidades expressivas (sejam elas o teatro ou a crítica cultural) é o que torna possível apreciarmos as particularidades de cada prática sem recorremos ao endeusamento de quem as pratica.

Heloisa Pontes passou por tantas cidades quantas tradições intelectuais até encontrar sua própria voz. A belo-horizontina criada em Brasília que estudou em Campinas e elegeu São Paulo como objeto de reflexão permanente traz no modo de pensar e escrever o interesse pela forma urbana e a paixão pela linguagem, equacionando-as à luz de processos sociais que são sempre criativos e disruptivos, políticos e intelectuais, produtos e produtores de temporalidades e subjetividades. É, assim, uma mestra interdisciplinar. E quando perguntada “o que isso tem a ver com antropologia?”, ela mesma arrisca uma réplica: “A resposta, se necessária, encontra-se no que escrevi, nos trabalhos que orientei, nos cursos que ofereci”. Da resposta, Heloisa, prescindimos. Do resto, não.

NOTAS

[1] Mariza Corrêa, “Mestres e precursores”, Estilos de Antropologia, 1995, p. 193. Agradeço Gustavo Rossi pela referência.

[2] Heloisa Pontes, Do Palco aos Bastidores: o SOS-Mulher (SP) e as práticas feministas contemporâneas, 1986, p. 6.

[3] Heloísa Pontes, “Memorial”. Concurso para Professor Titular do Departamento de Antropologia da Unicamp. Agosto de 2014.

[4] Idem. Destinos Mistos: os críticos do Grupo Clima em São Paulo, 1940-1968, 1998.

[5] Heloisa Pontes, "Modas e modos: uma leitura enviesada de O Espírito das Roupas", 2004.

[6] Idem. Intérpretes da Metrópole: história social e relações de gênero no teatro e no campo intelectual, 1940-1968, 2010.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORRÊA, Mariza. “Mestres e precursores”. In: Oliveira, Roberto Cardoso e Ruben, Guilhermo Raul, Estilos de Antropologia. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

PONTES, Heloisa. Do Palco aos Bastidores: o SOS-Mulher (SP) e as práticas feministas contemporâneas. Dissertação de Mestrado. IFCH/Unicamp, 1986.

______________. Destinos Mistos: os críticos do Grupo Clima em São Paulo, 1940-1968. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

______________. “Modas e modos: uma leitura enviesada de O Espírito das Roupas”, Cadernos Pagu (22), 2004.

______________. Intérpretes da Metrópole: história social e relações de gênero no teatro e no campo intelectual, 1940-1968, São Paulo: EDUSP, 2010.

______________. “Memorial”. Concurso para Professor Titular do Departamento de Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Unicamp), 2014.

Rafael do Nascimento Cesar é mestre e doutorando em Antropologia Social pela Unicamp. Atualmente trabalha com música popular e relações raciais nas Américas e é pesquisador visitante do Lemann Institute for Brazilian Studies na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

Contato: rafaelnascimentocesar1@gmail.com

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

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