A CLASSE OPERÁRIA TEM DOIS SEXOS:  O SOCIALISMO FEMINISTA DE FLORA TRISTAN

3 Jul 2018

           

Esta publicação inaugura uma proposta especial da seção Memória, que tem como objetivo relembrar importantes contribuições intelectuais de pioneiras/os das Ciências Sociais. Neste texto, trazemos às leitoras e aos leitores alguns trechos selecionados do capítulo 3 do livro União Operária, da socialista e feminista franco-peruana Flora Tristan (1803-1844). 

 

Embora tenha escrito e circulado em importantes meios intelectuais no século XIX, é somente no começo dos anos 2000 que a autora será traduzida para o público brasileiro. A primeira obra que conquistou atenção foi  Peregrinações de uma Pária, veiculada pela Editora Mulheres e pela Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul (EDUNISC). Em 2015, União Operária, redigido e impresso em Paris no ano de 1843, ganhou uma versão em português sob a responsabilidade da Editora Fundação Perseu Abramo.      

  

Segundo consta no prefácio desta edição, Flora Tristan foi a primeira a ter proclamado o princípio da autoemancipação dos proletários, antecedendo em 4 anos a publicação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels. A obra foi pensada como “um instrumento de propaganda de uma fé verdadeira, aquela da salvação da classe operária por ela mesma, e mais do que isto, da humanidade pela classe operária”.

 

A escolha dos trechos abaixo não foi aleatória, pois neles reside grande parte da força da obra de Flora Tristan: ao mencionar as mulheres, a militante socialista está se referindo à “metade da humanidade” que, assim como a classe operária, geralmente é tratada de um ponto de vista que universaliza a experiência masculina. Tristan coloca no centro de sua análise a relação entre gênero e classe, fazendo questão de marcar o gênero das palavras – operário e operária; proletário e proletária – a fim de conferir visibilidade ao papel das mulheres na constituição e na luta da classe operária.

 

Flora Tristan dizia que as mulheres ainda estavam esperando soar “o seu 89” – em referência à exclusão das mulheres da Declaração Universal de Direitos do Homem e do Cidadão durante a Revolução Francesa de 1789. Depois de 200 anos, ainda se invoca o universal sem levar em conta as mulheres, de modo que nosso “89” continua um desafio a ser perseguido.

 

 

Trechos do capítulo Porque eu menciono as mulheres, de Flora Tristan:

           

“Operários, meus irmãos, trabalho para vocês com amor porque vocês representam a parte mais vivaz, mais numerosa e mais útil da humanidade e assim me satisfaço em servir sua causa; peço a vocês que se disponham a ler com a maior atenção este capítulo, pois é importante que eu possa vos persuadir; considerem seus interesses materiais e vocês compreenderão porque sempre menciono as mulheres designando-as por: operárias ou todas. [...]

             

Até o momento a mulher não contou para nada nas sociedades humanas. – Do que isto resulta? Que o padre, o legislador, o filósofo a trataram como uma verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi colocada fora da Igreja, fora da lei, fora da sociedade. Para ela nada de representação frente à lei, nada de funções no Estado. O padre lhe disse: – “Mulher, tu és a tentação, o pecado, o mal; representas a carne – isto é, a corrupção, a podridão. – Chores por tua condição, jogues cinza na sua cabeça, te encerres no claustro, e lá maceres teu coração que é feito para o amor, e tuas entranhas de mulher feitas para a maternidade; e quando tiveres assim mutilado teu coração e teu corpo, ofereça-os sangrando e ressecados a teu Deus pela remissão do pecado original cometido por tua mãe Eva”. Em seguida o legislador lhe diz: – “Mulher, por ti própria tu não és nada como membro ativo da humanidade, não podes esperar encontrar lugar no banquete social. – É preciso, se quiseres viver, que sirvas de anexo a teu senhor e mestre, o homem. Portanto, moça obedecerás a teu pai; – casada, obedecerás a teu marido; viúva e anciã, ninguém mais fará caso de ti”. Em seguida, o filósofo erudito lhe diz: “– Mulher, foi constatado pela ciência que por tua organização, tu és inferior ao homem”. Ou seja, não tens inteligência, não tens compreensão suficiente para as questões elevadas, não dás continuidade às ideias, nenhuma capacidade para as ciências exatas, sem aptidão para os trabalhos sérios; enfim és um ser fraco de corpo e de espírito, pusilânime, supersticioso; em uma palavra, não és nada mais que uma criança caprichosa, voluntariosa, frívola; durante 10 ou 15 anos da vida és uma gentil bonequinha, mas cheia de defeitos e vícios. – E por isto mulher, é preciso que o homem seja teu mestre e tenha toda autoridade sobre ti. Vejam, há seis mil anos desde que o mundo existe, como os sábios dos sábios julgaram a raça mulher.

 

Tal terrível condenação, repetida por seis mil anos, naturalmente sensibiliza as massas, porque a sanção do tempo tem muita autoridade sobre as massas. – Entretanto, o que nos dá esperança para que possamos questionar este julgamento, é que também durante seis mil anos os sábios dos sábios emitiram um juízo não menos terrível sobre outra raça da humanidade: os PROLETÁRIOS. – Antes de 1789, o que era o proletário na sociedade francesa? Um vilão, um aldeão considerado uma besta de carga que podia ser controlado e posto a trabalhar. – Depois, vem a revolução de 1789 e de uma hora para outra os sábios dos sábios proclamam que a plebe agora se chama povo, que os vilões e aldeões se chamam cidadãos. – Por fim, proclamam em plena assembleia nacional os direitos do homem.

 

O proletário, este pobre operário visto até então como um bruto, ficou bem surpreso ao descobrir que foi o esquecimento e o desprezo de seus direitos que causaram as misérias do mundo. – Oh! Ele ficou bastante surpreso em saber que ele iria gozar de direitos civis, políticos e sociais, e que por fim tornava-se igual a seu antigo senhor e mestre. – Sua surpresa aumentou quando soube que possuía um cérebro com absolutamente a mesma qualidade que o do príncipe herdeiro real. – Que mudança! – [...] Assim, hoje, todo mundo está de acordo que os homens nascem indistintamente com faculdades praticamente iguais, e que a única coisa com que deveríamos nos preocupar seria buscar desenvolver todas as faculdades do indivíduo com vistas ao bem-estar geral.

 

O que aconteceu com os proletários, é preciso convir, é de bom augúrio para as mulheres quando seu 89 houver soado. – Considerando um cálculo bem simples, é evidente que a riqueza crescerá indefinidamente no dia em que chamarmos as mulheres (a metade do gênero humano) a aportar para a atividade social sua contribuição em inteligência, força e capacidade. – Isto é tão fácil de compreender quanto que dois é o dobro de um. Mas que triste! Nós ainda não estamos lá e enquanto esperamos este feliz 89, constatemos o que se passa em 1843.

 

A Igreja dizia que a mulher era o pecado; o legislador, que por ela mesma ela não era nada, que não devia gozar nenhum direito; o filósofo erudito que por sua organização ela não tinha inteligência, concluímos que ela era um pobre ser deserdado de Deus e assim os homens e a sociedade a tratavam. [...]

 

Acreditando que à mulher, por sua organização, faltava força, inteligência e capacidade e que era imprópria para trabalhos sérios e úteis, se conclui logicamente que seria perda de tempo lhe proporcionar uma educação racional, sólida, severa, capaz de fazer dela um membro útil para a sociedade. Então ela é educada para ser uma bonequinha boazinha e uma escrava destinada a distrair seu mestre e o servir. [...] Que suplício pavoroso este de sentir em si a força e a potência de agir e se ver condenada à inação!

 

Este raciocínio é uma verdade irrefutável. Todos repetem: É verdade, as mulheres sofreriam muito se desenvolvêssemos nelas as belas faculdades dotadas por Deus se, desde sua infância, fossem criadas de modo a que elas compreendam bem sua dignidade como ser e que tenham consciência de seu valor como membros da sociedade; jamais elas poderiam suportar a condição humilhante que a Igreja, a lei, e os preconceitos lhes colocam. “É melhor tratá-las como crianças e deixá-las na ignorância sobre elas mesmas, sofreriam menos”.

 

Não quero distanciar-me de meu tema, se bem que aqui havia uma boa ocasião para falar do ponto de vista geral, volto ao meu tema, à classe operária.

Na vida dos operários a mulher é tudo. – Ela é a única providência. – Se ela lhe falta, lhe falta tudo. Assim dizem: “É a mulher que faz ou desfaz uma casa” e isto é a mais pura verdade: por isto é que existe este provérbio. – No entanto, que educação, que instrução, que direção, que desenvolvimento moral ou físico recebe a mulher do povo? Nenhum. [...] Em vez de ser enviada à escola, será mantida em casa ao contrário de seus irmãos, porque se aproveita mais dela no trabalho da casa: fazer os menores dormirem, levar recados, tomar conta da sopa etc. – Com 12 anos, é levada trabalhar como aprendiz: lá continua a ser explorada e geralmente tão maltratada pela patroa quanto era na casa de seus pais.

 

Nada como um sofrimento contínuo, fruto de um tratamento injusto e brutal vivido por uma criança para amargurar o caráter, endurecer o coração e tornar o espírito embrutecido. Primeiro, a injustiça nos machuca, nos aflige, nos desespera; depois, quando ela se prolonga, nos irrita, nos exaspera, e passamos a sonhar unicamente com a vingança, acabamos nos tornando duros, injustos, maldosos. – Este é o estado que se espera de uma pobre garota aos vinte anos. – Então ela se casará, sem amor, unicamente porque é preciso se casar se quiser fugir da tirania dos pais. Que acontecerá com ela? [...]

 

Mulheres da classe operária observem bem, peço a vocês que ao tratar aqui de como é tocante sua ignorância e sua incapacidade de educar suas crianças, não tenho nenhuma intenção de fazer acusações contra vocês ou à sua natureza. Não, eu acuso a sociedade por mantê-las tão incultas, vocês mulheres[...].

 

Pobres operárias! Elas têm tantos motivos para se irritar! Primeiro o marido. (Convenhamos, há bem poucos lares de operários que sejam felizes). – O marido tendo recebido mais instrução, é o chefe por lei e também graças ao dinheiro que traz para casa, ele se acha (e ele de fato é) superior à mulher, pois ela só aporta o pequeno salário de sua jornada e na casa não passa de uma humilde serva.

 

Assim, o marido trata sua mulher com muito desprezo. – A pobre mulher que se sente humilhada a cada palavra, a cada olhar que o marido lhe dirige, se revolta aberta ou secretamente, segundo seu caráter; daí decorrem cenas violentas, dolorosas, que terminam por criar entre o mestre e a serva (podemos mesmo dizer escrava, pois a mulher é por assim dizer propriedade do marido) um estado de constante irritação.

 

 [...] – Acrescente a isto, essa irritação incessante causada por quatro ou cinco crianças barulhentas, turbulentas, irritantes que correm em volta da mãe em um pequeno quarto de operário onde não há lugar para se mexer. Oh! É preciso ser um anjo que desceu à terra para não se irritar, não se tornar bruta e rude em tal situação.”

 

***

 

A Cadernos de Estudos Sociais e Políticos (CESP), revista dos alunos de pós-graduação do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), publicou este ano um dossiê sobre autoras clássicas que tem dois artigos sobre Flora Tristan.

 

Para saber mais sobre a trajetória da autora e suas relações com a literatura de viagens e o socialismo, acesse:

CAMPOS, Luna. Algumas notas de pesquisa sobre Flora Tristan: feminismo, socialismo e viagens.

Disponível em:

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/CESP/article/view/32865

 

Para ler uma resenha do livro União Operária, acesse:

SANTOS, Felipe. Resenha do livro União Operária, de Flora Tristán. Proletariado, socialismo e feminismo na Fraça do século XIX.

Disponível em:

http://www.epublicacoes.uerj.br/index.php/CESP/article/view/32873/23400  

 

Para baixar a edição completa da Perseu Abramo, acesse:

https://fpabramo.org.br/publicacoes/wp-content/uploads/sites/5/2017/05/Uniao-Oper%C3%A1ria-web.pdf

 

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