GABRIELA MISTRAL E O ANTI-IMPERIALISMO LATINO-AMERICANO DE COMEÇOS DO SÉCULO XX

28 Jun 2018

 

 

 

Gabriela Mistral (Valle del Elqui, Chile, 1889 – Nueva York, USA, 1957) foi uma das escritoras mais destacadas da história literária chilena e latino-americana do século XX e a primeira do continente a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Reconhecida como maestra humilde, maestra de América e madre de todos los niños pelo seu trabalho em aulas e sua poesia infantil, foi, ademais, uma destacada intelectual. Ao longo da sua vida, Mistral participou de instituições culturais relevantes como o Instituto de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, lecionou cursos e conferências em universidades prestigiosas, publicou centenas de artigos nas revistas mais importantes de seu tempo e se fez presente com seu corpo ou sua voz em debates politicamente sensíveis do século XX. Em particular, a América foi um dos núcleos do seu pensamento e a tensão entre os Estados Unidos e a América Latina ocupou um espaço especial entre suas preocupações. O presente texto discute a relação de Mistral com o anti-imperialismo latino-americano das primeiras décadas do século XX. O intuito é ressaltar um dos compromissos políticos que guiaram a ação pública de Gabriela Mistral, uma mulher intelectual.

 

Desde a guerra hispano-cubana-norte-americana, o tópico da unidade latino-americana como defesa ante o perigo do expansionismo estadunidense sobre a região constituiu um dos eixos sobre os quais os intelectuais do continente pensaram o presente e o futuro da América Latina. No caso de Mistral, essa temática formou parte de seu universo de referências desde a juventude – através da leitura de escritores e revistas modernistas nas quais o discurso latino-americanista era parte constitutiva – e em 1922 ela fez no México seu primeiro texto latino-americanista conhecido. Pouco depois, Mistral viajou a esse país convidada pelo governo nacional para colaborar na reforma educativa e cultural que estavam desenvolvendo e, em sua estadia de dois anos, vivenciou, de modo mais intenso que no Chile – sua terra natal -, as complexidades da relação entre ambas Américas. Essa experiência provocou uma reviravolta em seu modo de pensar os males da América Latina e em seus escritos do período é notória uma mudança de sua compreensão dos perigos e dos alcances do expansionismo norte-americano sobre a região, algo que difere das explicações darwinistas que havia articulado em O Grito, sua primeira publicação sobre o tema. Essa mudança dialogava, ademais, com a transformação do discurso e da luta anti-imperialista que estava tendo lugar na América Latina; e, em especial, no México.

 

Naquela época, as denúncias anti-imperialistas começaram a ser realizadas de forma coletiva e com um claro conteúdo político ideológico, mas Mistral não se uniu a nenhuma das ligas e associações que foram fundadas nesse tempo. Além do desacordo ideológico, a separava delas uma diferença estratégica: ao seu entender, não só era necessário conscientizar a opinião pública através da imprensa, como também recorrer à escola com a finalidade de lograr uma mudança de atitude de parte dos Estados Unidos e alcançar a unidade dos países hispano-americanos. A imprensa e a escola eram, portanto, os pilares para combater o expansionismo norte-americano, no entanto, quando a situação exigia, a autora não hesitava em declarar o tempo das armas. Por exemplo, em 1928, Mistral lançou publicamente um apelo por ajuda a Augusto César Sandino - o líder da resistência nicaraguense - em que condenou os jovens anti-imperialistas por evitar "o verdadeiro sacrifício próximo ao 'bom líder'" e prestar-lhe apenas uma solidariedade moral (ARCE, 1989: 104). A situação da Nicarágua, México e Porto Rico foi, nesses anos de intervenção norte-americana, o centro de sua atenção.

 

Em consonância com sua convicção acerca do papel que a imprensa e a educação cumpriam na resolução dos conflitos entre as Américas, Mistral mobilizou múltiplos recursos e grande parte da sua energia em artigos de imprensa, cursos e conferências sobre tópicos latino-americanos, junto à promoção e difusão da literatura e da cultura da região. Segundo a intelectual, era necessário alcançar a “cooperação sem dominação”, objetivo que requeria estruturar as relações baseadas na noção de “dissimilitude sem inferioridade” – isto é, o reconhecimento e o respeito das diferenças entre as Américas. Para isso, considerava, poderia contribuir a conciliação que a religião – o cristianismo – oferecia enquanto elemento comum a ambas Américas mas, em qualquer caso, a conciliação pressupunha a não intervenção, a não violência e o respeito pelas diferenças de cada um dos países. Mistral se dedicou, por toda sua vida, a difundir os princípios da independência, do entendimento e da colaboração.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ARCE, Magda. Gabriela Mistral y Joaquín García Monge: una correspondencia inédita. Santiago de Chile: Ed. Andrés Bello, 1989.

 

 

 

Silvina Cormick é docente na Facultad de Filosofia y Letras da Universidad de Buenos Aires (UBA) e integrante do Centro de Historia Intelectual da Universidad Nacional de Quilmes (UNQ).

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload