MORTE E VIDA DE LUTADORAS LATINO-AMERICANAS: ASSASSINATOS POLÍTICOS E CANDIDATURAS - OS CASOS DE BERTA CÁCERES E MARICHUY

 

  

 

morte...

 

Em 3 de março de 2016 o mundo recebeu, em choque, a notícia do assassinato de Berta Cáceres Flores, 45 anos, ativista ambiental no Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas (COPHIN) e líder da comunidade indígena lenca, principal etnia indígena de Honduras. Em 2015, Berta tinha recebido o prestigioso prêmio ambiental Goldman de Meio Ambiente por sua contribuição à luta contra a construção de uma hidroelétrica que ameaçava remover centenas de indígenas em Honduras. A ativista indígena ganhou muita visibilidade no cenário internacional, e talvez essa seja uma das razões pelas quais seu feminicídio, em condições até hoje não esclarecidas, choque tanto. Há hipóteses que vinculam seu assassinato a empresários do setor de mineração, devido a sua atuação na defesa dos recursos naturais e das populações originárias. Se ideias são à prova de balas, corpos de ativistas mulheres parecem não o ser.

 

Além dela, outros ativistas em Honduras estão sofrendo com a criminalização de suas atividades: entre 2012 e 2014 é possível contar pelo menos 3.064 casos de perseguição e impedimento de suas ações, 11 assassinatos de pessoas relacionadas com a defesa dos recursos naturais, 162 campesinos processados por atividades de defesa e promoção dos direitos humanos e 80 presos provisórios entre 2009 e 2012. 

 

A aterrorizante conta nesse país é a seguinte: a cada três dias um ativista campesino é assassinado por lutar por seu território. Ademais, com a reeleição, no final de 2017, do candidato do Partido Nacional (PN), Juan Orlando Hernández, envolvido em diversos escândalos de violação de direitos humanos e implicado indiretamente no assassinato de Berta Cáceres, segue mais vivo do que nunca o modelo de extrativismo em Honduras.

 

O que isso significa para a vida das mulheres e homens que atuam em movimentos pela defesa de seus territórios?  Que a sua vida corre perigo constante. Todavia, essa constatação não configura uma exclusividade hondurenha. Basta checar os dados da América Latina para se espantar com a dura realidade da vida e morte das (os) lutadoras sociais, que lutam principalmente por causas relacionadas à terra, território e meio-ambiente. A pátria grande é responsável por cerca de 80% das mortes de ativistas no mundo, muitas das quais são mulheres.

 

vida...

 

Mais ao norte, mas ainda na América Latina, uma pré-candidatura à presidência do México, com eleições previstas para julho de 2018, também movimentou as lutas dos de abajo. Em outubro de 2016, o anúncio de María de Jesús Patricio, conhecida como Marichuy, pelo Congreso Nacional Indígena (CNI), junto ao Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em Chiapas, sacudiu o debate latino-americano. A indígena da etnia nahua de Jalisco, no centro do país, além de ter uma história de luta por sua comunidade e se dedicar à medicina tradicional, teve como bandeira a luta das mulheres em todo o mundo, o direito à terra, autonomia e outras propostas à esquerda do espectro político.

 

É certo que a candidatura não chegou a ser viabilizada por muitas das questões que Marichuy apontava como impedimentos desde o início, a saber, o racismo institucional no México, além do machismo que já se observava nos preconceitos aventados contra ela durante o período em que fez um giro pelo país, divulgando sua candidatura. Da perspectiva de seus opositores, não bastava fazer crer que indígenas e mulheres não seriam capazes de governar o país, mas também fundamentalmente era preciso negar-lhes qualquer traço de humanidade. A exposição de suas propostas foi recebida com um misto de descrédito e calúnias por parte de um sistema eleitoral que parecia não comportar – e, de fato, não conseguiu –  uma candidata tão disruptiva ao sistema político.

 

O sopro de ar fresco da candidatura de Marichuy era demonstrado também no grau de questionamento da representação política e suas práticas participativas, dado que o mandar obedecendo, preconizado pelos zapatistas desde seu surgimento na esfera pública em 1994, era anunciado como um princípio elementar de seu governo. Escutar a população, pensar novas formas de fazer política, rever uma política feita pela e para as transnacionais e capital financeiro em geral, criar formas de ação abaixo e à esquerda, sem que a busca por cargos no governo fosse o mote exclusivo de uma casta política majoritariamente branca, rica, heterossexual e, principalmente, intocada, eram alguns dos objetivos dessa pré-candidatura.     

 

Em meados de 2018 anunciou-se que a candidatura de Marichuy não poderia ir à frente, por conta do número insuficiente de assinaturas para sua viabilização, em um sistema eleitoral que permite candidaturas independentes, contanto que os candidatos possuam recursos financeiros. Uma hipótese plausível é que o objetivo da candidatura foi cumprido ao auxiliar na articulação de laços entre os de abajo, em um movimento de confluência entre aqueles que resistem. Além disso, permitiu certa visibilização das severas condições as quais muitos dos mexicanos estão submetidos, além de lançar luzes sobre as dores e mortes dos indígenas.

 

sobre a morte e vida das lutadoras e nossas ideias à prova de balas...

 

Dos dois eventos, à primeira vista não relacionados, podemos extrair alguns paralelos importantes para melhor entender a forma como a política institucional e a dos de abajo vem sendo realizada na América Latina, na maioridade eleitoral do século XXI. A primeira reflexão é que existem muitos riscos ao confrontar-se com as estruturas patriarcais de poder no continente latinoamericano, como evidenciado pelo assassinato da ativista Berta Cárceres e, recentemente, pela morte da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro.

 

Os inúmeros casos de assassinatos de ativistas homens e mulheres parecem, no entanto, apontar para o mesmo caminho: precisamos dar prosseguimento às suas lutas justamente porque suas causas incomodam. Mas como fazer isso quando observamos que nossas ideias parecem ser à prova de balas, mas nossos corpos não? A vigilância das práticas do poder político institucional, seu questionamento e busca por participações cada vez mais diretas, sem intermediações patriarcais, se faz cada vez mais necessária. Além disso, o apoio às iniciativas legislativas que protejam a vida das e dos lutadoras sociais e aumentem a representação e participação popular se fazem indispensáveis.

 

Nos Estados Unidos, uma proposta de emenda legislativa de 14 de junho de 2016, conhecida como Berta Cáceres Human Rights in Honduras Act, é ao mesmo tempo uma homenagem e um recado de que não esqueceremos as mortes de defensoras de direitos humanos. Ademais, a busca por uma presidência que não seja patriarcal, em um continente que testemunha a derrubada recente de presidentas e crimes de ódio contra mulheres, também parece um caminho importante. Importante é seguir caminhando. Importante é que quiseram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes...

 

 

Simone Gomes é socióloga e docente na Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

Contato: s.ribeirogomes@gmail.com

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload