CARTA AOS CIENTISTAS SOCIAIS

16 Oct 2018

 

[Comentário do editor: Há mais de 40 anos, Cesar Guimarães ensina ciência política na mesma sala, em uma pequena casa escondida no bairro de Botafogo, onde está instalado o Instituto de Estudos Sociais e Político da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Em suas aulas, gerações de cientistas políticos brasileiros foram introduzidos, por meio de uma mirada sofisticada e substanciosa, ao pensamento dos mais importantes teóricos políticos da modernidade e da antiguidade. De personalidade sensível e espírito rebelde, Cesar nunca calou-se frente ao autoritarismo, que agora, uma vez mais, ameaça o Brasil. Com a autorização do autor, compartilhamos uma carta por ele enviada a alguns colegas cientistas sociais].

 

 

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Amigas e amigos:

 

Falta-nos pouco para o 28 de outubro, segundo turno das eleições de 2018. Estamos, cidadãs e cidadãos, e, em nosso caso, cientistas sociais, diante de uma escolha decisiva para a vida de nosso país: ou a volta às trevas da noite ditatorial por que passamos de 1964 a 1985, desta vez com as marcas evidentes do fascismo; ou as luzes de uma democracia civilizada, que não mais deverá ser prejudicada por graves erros de governo ao sempre e possível ataque do extremismo direitista. Não há mais a tergiversar. Escolher Haddad é preferir a democracia ao fascismo de Bolsonaro e seus sequazes, suas tropas de choque, seus cúmplices bem instalados em todos os Poderes da República.

 

Simples professor de Ciência Política, tenho, a essa altura, a memória do golpismo de antanho, avivada pelo golpe de 2016, este que abriu o caminho para um golpe maior – pela via eleitoral. Cartada fascista a derrotar. Mas tenho também a memória dos que lutaram contra todos os golpismos, que não desistiram da resistência, com as armas do possível; que morreram na tortura, no exílio, na violência continuada de golpistas eventuais ou ditadores de longo curso – os generais de 64, de 68 e tudo mais até 85, não sem sombrias evocações em nossos dias.

 

Hoje, sem a guerra fria e seus guerreiros – os que nos vinham de fora e os que aqui residem, gente colonizada -, nossa resistência pode se ampliar, mas a violência fascista não cede sempre que as forças sociais que a endossam, divulgam e financiam – o Mercado, as Grandes Empresas de Comunicação, setores ponderáveis da Classe Política, e Magistrados politizados – sentem-se ameaçados por nova e ativa presença das massas de trabalhadores, mulheres e homens que se aperceberam de sua cidadania. Estariam, os privilegiados de sempre, expostos ao comunismo, fantasma que retornou de um muro em ruínas para servir de explicação paranóide ou pretexto banal - ou ambos – para o endosso do fascismo por uma coalizão de elites.

 

Sabemos, amigos e amigas, ser esta parte da história dos fascismos de ontem (Itália, Áustria, Alemanha nazista) e hoje (Hungria, novamente a Itália), não menos que do ressurgimento da extrema-direita por toda a parte, desta vez umbilicalmente ligado a uma “economia da austeridade” e da produção de miséria. Bolsonaro, aliás, já indicou o Vizir de seu sultanato de todas as violências.

 

A resistência popular não faltará ao país. De nossa parte, universitários atentos, as vozes de lideranças expressivas mais alto se ouvem em nossas associações, universidades, centros de pesquisas. Não são apenas manifestações de preocupação com o desmonte do ensino e da pesquisa – parte do programa desastroso de governo que o golpe de 2016 instalou em Brasília -, mas, já agora, demonstrações individuais e coletivas de revolta e repugnância, inclusive com a neutralidade acovardada dos que ainda insistem em ter muito o que discutir ou já preferiram uma neutralidade desprezível.

 

A resistência popular está esperando, colegas, que ergamos mais alto nossas vozes, unindo-nos aos movimentos populares, aos sindicatos de trabalhadores, às notáveis manifestações convocadas pelas organizações femininas, pelo movimento negro e por todas as forças que desejam a vitória da luz.

 

Mas nos cabe também interpelar tantas lideranças e organizações e ordens religiosas que não mais podem ficar em silêncio. E bem assim de grandes intelectuais que ainda não juntaram suas vozes influentes às dos tantos que não faltaram à democracia. A hora é esta.

 

Universitários, acadêmicos, estamos sempre a risco de imputar à multidão uma irracionalidade que não as caracteriza, a confundir os fascistas com seus eventuais seguidores ou eleitores. Terrível ilusão. Vamos à luta contra-hegemônica – é disso que se trata.

 

O tempo é pouco, mas Haddad vencerá. Com a luz democrática que as massas populares farão brilhar.

 

 

 

Cesar Guimarães

 

 

Editor responsável: Rafael Rezende

 

 

 

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