SUGESTÕES DE LEITURA: SOR JUANA INÉS DE LA CRUZ OU AS ARMADILHAS DA FÉ, DE OCTAVIO PAZ. UBU EDITORA - PARTE II

24 Sep 2018

Sugestões de Leitura por Horizontes ao Sul

 

experiência de aquisição de publicações em livrarias permite o gesto singelo de folhear as páginas de grandes obras e criar um contato preliminar com os objetos de desejo de leitura. Nos meios virtuais, entretanto, esse processo é distinto. Afastado da materialidade do livro, o público leitor precisa idealizar o que se esconde por trás das capas recorrendo a outros tipos de mecanismos, como as resenhas, os blogs de literatura e as notícias sobre escritoras(es). A Horizontes ao Sul, por sua vez, pretende intermediar esse contato entre os livros e as leitoras(es) de uma maneira particular: através da divulgação de breves trechos das melhores publicações em circulação no Brasil. Para tal, nos unimos a algumas editoras e criamos a série "Sugestões de Leitura", que em diversas segundas-feiras do mês apresentará seleções especiais de textos.

 

O nosso exemplar de estréia é a belíssima edição Sor Juana Inés de la Cruz ou As Armadilhas da Fé, de Octavio Paz, produzida pela Ubu Editora com o apoio da Embaixada do México e a parceria do grupo editorial Fondo de Cultura Económica. Na semana passada, divulgamos o prefácio completo do livro, que você pode conferir clicando aqui. Nesta segunda, apresentamos ao público um trecho inédito do Capítulo 2, chamado "A profissão". 

 

Juana de Asbaje é o nome laico daquela que é considerada a primeira escritora de língua espanhola da América. Pelas mãos do trabalho da Ubu, editora comandada exclusivamente por mulheres, temos uma oportunidade impecável de conhecer a trajetória e o contexto que cercava uma das mais importantes figuras do século XVII. Esperamos que o acesso a pequenos fragmentos desses escritos funcione como um incentivo à (re)descoberta desse clássico.

 

Boa leitura!    

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO  2.

JUANA RAMÍREZ (1648-68)

 

A profissão

 

____________________________________________

 

 

Todos que se aproximaram da figura de Sor Juana se fizeram a mesma pergunta: por que, quando nada em sua vida revelava indício de uma vocação religiosa e ela estava rodeada da admiração geral, abandona a corte e se tranca num convento? As respostas são tão variadas quanto os intérpretes. Uma delas, a mais popular, consiste em atribuir a decisão de Juana Inés a um amor infeliz. A hipótese do desengano amoroso compreende uma gama muito rica de interpretações: o amado morreu; o amado era inacessível, fosse pela pobreza de Juana Inés, por sua origem bastarda, fosse por outra razão semelhante; o amado era um ser indigno, vulgar; o amado a abandonou. Todas essas suposições e outras da mesma natureza são variantes do velho tema romântico do Obstáculo. É um dos ingredientes – ou melhor, é o ingrediente – da imagem tradicional do amor. À ideia do amor como Transgressão corresponde necessariamente, como seu complemento, a do amor como Obstáculo. Essa interpretação da decisão de Sor Juana foi um equívoco sentimental que logo se transformou num erro crítico: ler com olhos românticos um texto barroco.

 

Nenhum de seus contemporâneos leu seus poemas como um documento. Essa interpretação aparece pela primeira vez nas páginas entusiásticas que Marcelino Menéndez Pelayo dedicou a sua obra. Depois das incompreensões dos séculos xviii e xix, o juízo do crítico espanhol foi uma brilhante revalorização; ao tocar o tema dos poemas amorosos, ele opinou que era “difícil que deixasse de amar e ser amada”. Chávez inventou uma Juana Inés apaixonada, com um amor puro e espiritual por um homem indigno; ao ver que o amado a queria com um afeto mais terreno, renunciou e fez os votos de freira. A Juana Inés de Ezequiel A. Chávez, com notório esquecimento do desenfado realista de alguns sonetos e romances, mais que uma mulher, é uma casta enteléquia, habitada pelo gênio tutelar da Faculdade de Altos Estudos ao começar o século. Alberto G. Salceda acredita que é possível extrair um tratado de amor de seus escritos – coisa perfeitamente certa –, e que esse tratado reflete sua experiência vital: neste caso, trata-se mais de uma suposição. Segundo Salceda, a leitura dos poemas de tema erótico, dispostos conforme uma ordem inventada por ele, nos daria a chave de sua vida amorosa durante o período em que viveu na corte. E por que não depois, no convento? Amores de freiras não eram desconhecidos... A história que Salceda imagina é convencional: o primeiro amor foi Silvio, sujeito indigno e do qual ela se afasta; aparece então Fabio, o grande amor. Mas ele morre, e daí as endechas e liras em que Juana canta a seu esposo morto.[48] A hipótese é gratuita e ingênua. Não corresponde às ideias de Sor Juana sobre o amor, mas às de Salceda.

 

É impossível, alegam muitos críticos, que Juana Inés tenha vivido na agitação da corte por cinco anos – os mais impressionáveis da vida de uma mulher, quando seu ser inteiro se abre aos sentidos e os sentidos se abrem ao mundo exterior – e tenha saído ilesa. Eu já disse que seria absurdo descartar a possibilidade de escândalos e amoricos. É provável que ela tenha se apaixonado ou que tenha acreditado, como acontece nessa idade, estar apaixonada. Mas é impossível que esses amores, infelizes ou não, profundos ou frívolos, tenham sido a causa de sua profissão de fé. Os casamentos eram arranjados entre as famílias, e nos enlaces eram determinantes não a vontade dos desposados, e sim as considerações sociais e materiais. Apaixonada ou não, Juana Inés não tinha dote nem mesmo família. Quem era e onde estava seu pai?

 

E os galanteios de palácio? Esses jogos, como já vimos, não só não tinham por finalidade o casamento como, a rigor, o excluíam. A índole desses jogos, verdadeiras cerimônias de iniciação erótica, no sentido de “ritos de transição”, tampouco era muito propícia ao que chamamos hoje de amor romântico. O testemunho de uma das passagens autobiográficas de Los empeños de una casa talvez me poupe de uma longa demonstração. Por meio de dona Leonor, Juana Inés descreve indiretamente sua situação na corte:

 

Entre estos aplausos yo,

con la atención zozobrando

entre tanta muchedumbre,

sin hallar seguro blanco,

no acertaba a amar a alguno,

viéndome amada de tantos.

Sin temor en los concursos

defendía mi recato

con peligros del peligro

y con el daño del daño.

Con una afable modestia
igualando el agasajo,

quitaba lo general,

lo sospechoso al agrado.[49]

 

A descrição de Juana Inés não pode ser mais franca e confirma o que eu disse sobre os moeurs do palácio do vice-reino. Em nenhum momento ela fala de casamento ou evoca essa possibilidade; seu jogo se reduz a “defender seu recato”. Um jogo perigoso porque consiste não em recusar inteiramente, mas recusar atiçando o fogo. A natureza dos galanteios de palácio torna duvidosa a existência de um grande amor infeliz. Também a natureza psicológica de Juana Inés vai contra essa hipótese. Não se deve esquecer, além de seu extremo intelectualismo – adverso à vida conjugal –, sua atitude diante de homens e mulheres. Os primeiros, em seus poemas, são fantasmas, sombras sem corpo; as segundas, presenças reais. Escrevi, em meu pequeno ensaio de 1950, que, se “fosse excessivo falar de homossexualidade, não o seria advertir que ela própria não ocultava a ambiguidade de seus sentimentos”. Sobre isso é dificílimo ter uma ideia clara. Deve-se ter em conta a condição da mulher em seu século e em seu meio. Não se tolerava que uma jovem solteira, sobretudo nas condições peculiares de Juana Inés, exibisse em público seu amor por um homem sem perder imediatamente seu crédito e nome; ao contrário, sim, parece lícita a amizade amorosa entre pessoas do sexo feminino, desde que fossem de categoria elevada, e seus sentimentos, ideais.

 

O argumento fundado nas tendências profundas de seu caráter pode parecer gratuito e até fantástico. Esclareço apenas que a existência de tendências reprimidas e sublimadas, ignoradas ou não por ela, não exclui a possibilidade de amor e amoricos com um homem ou muitos. Repito: percebo em Sor Juana uma ambiguidade em sua relação com algumas amigas, mas essas inclinações, tal como foram expressas em seus poemas, não são sinônimos de lesbianismo, mas de sentimentos mais complexos. Gide dizia: “Só uma maneira simples de considerar os sentimentos faz acreditar que existam sentimentos simples”. A inegável atração que ela sentiu por algumas mulheres pode ter sido a sublimação de uma paixão impossível por um homem, que sua condição de freira lhe proibia. Mas em seu período de dama da vice-rainha, não poderia ter tido uma paixão por alguns dos senhores que frequentavam a corte e suas festas? Já afirmei que, embora me pareça duvidosa a existência dessa paixão, não a descarto. Não é impossível que Juana Inés tenha se apaixonado enquanto viveu no palácio, porém esse amor, feliz ou infeliz, não pode ter sido a causa de sua profissão de fé. Ela estava incapacitada para o casamento pela falta de dote, pai e nome. Por que não aceitar o que ela nos diz, ou seja, que não sentia inclinação pelo estado matrimonial? Devem-se distinguir com cuidado, como se fazia em sua época, amor e casamento. Tendemos a confundi-los, ao passo que para Juana Inés e seu século eles representavam coisas diferentes. Um amor, em sua situação, não a levava ao casamento. Além da falta de dote e pai, havia outro impedimento: sua vocação nula para o casamento. Temos que aceitar sua confidência. Sor Juana pertencia a uma classe de mulheres que, se podem, fogem do estado matrimonial. A Antiguidade nos deixou dois arquétipos femininos, Vênus e Diana. É claro que a personalidade de Juana Inés estava mais próxima da segunda que da primeira – Diana não é a deusa do casamento, mas da vida casta e solitária dos caçadores. Tudo isso confirma o que já indiquei antes, ou seja, que a existência real ou suposta de um amor ou vários não pode ter sido a causa determinante de sua decisão.

 

Há outro argumento, não menos decisivo: que documentos temos? Não existe nenhuma carta nem outro indício que pudesse ser uma prova válida desse grande amor. Nenhum de seus contemporâneos sequer insinuou a existência de um amor incógnito. A esse respeito, como é natural, o silêncio da poeta é absoluto. E também o de Calleja. É verdade que há os poemas amorosos. São inúmeros e alguns muito profundos. Todos revelam um perfeito conhecimento do que poderíamos chamar de dialética do amor: ciúmes, rompimentos, ausências, esquecimentos, cartas. Duas razões me impedem de aceitar o testemunho dos poemas. A primeira: desconhecemos as datas desses romances, endechas e sonetos. A segunda: a poesia dessa época não é confessional. A sinceridade era um valor para os românticos e, depois, para os modernos; não era para os poetas do século XVII. A poesia barroca apresenta ao leitor esquemas arquetípicos do amor e das paixões, mas o leitor não deve nem pode inferir que esses textos tenham valor confessional.

 

O conhecimento erótico que os poemas e as comédias de Sor Juana revelam é, tanto ou mais que o resultado de uma experiência, um saber codificado pela tradição: uma retórica, uma casuística e até uma lógica. Justamente por isso se pode fazer um tratado do amor com os poemas de Juana Inés – são conceitos e arquétipos, não confissões. É verdade que em vários há certas inflexões que parecem beirar a confissão. Em geral, são poemas não de amor, mas de solidão, e nos quais predomina o tema do desengano – entre estoico e cristão. O tom sensual, apaixonado, direto, não está nos poemas de amor, mas, quase sempre, nos de amizade amorosa dedicados a Lysi e outras amigas, como essa encantadora Belilla de umas endechas inesquecíveis. Coincidência ou velada homenagem – Belilla é o nome de sua protegida, sua sobrinha, a noviça Isabel María de San José, filha natural como ela, a quem recolheu ainda menina e para quem deixa, depois de morta, a quantia de dois mil pesos em ouro que tinha depositado no convento.

 

Entre os poemas de amor a lo divino – Méndez Plancarte os chama, impropriamente, de místicos – existe um romance que contém versos que muitos críticos consideram uma verdadeira confissão:

 

Yo me acuerdo, ¡oh nunca fuera!,

que he querido en otro tiempo

lo que pasó de locura

y lo que excedió de extremo;

Mas como era amor bastardo,

y de contrarios compuesto,

fue fácil desvanecerse

de achaque de su ser mesmo.[50]

 

Em seguida, ela compara esse amor feito de contrários ao amor divino. Esses versos são impressionantes e eu me inclinaria a vê-los como autêntica confissão, mas tenho uma dúvida: não seria uma variante de um dos arquétipos da poesia religiosa da época? O tema é tradicional e a maneira de tratá-lo também. Por isso, como testemunho de um amor, seu valor é duvidoso. Pfandl serviu-se dele para provar que, embora Juana Inés, obscuramente, tivesse consciência de seu conflito psicológico, não pôde transcender “sua situação-Édipo”. Aquilo que quis “em outro tempo o que passou de loucura”, aquilo que “era amor bastardo, e de contrários composto”, não é, segundo o crítico alemão, mais que uma maneira de aludir à imagem paterna – ela “se considera no lugar da mãe”.

 

Dario Puccini pensa que esse poema “tem o caráter de uma profissão de fé e apenas percorre o itinerário de outros célebres caminhos de perfeição, nos quais da representação do máximo amor humano se passa à representação do máximo amor divino”. Com efeito, o amor humano muitas vezes é, na poesia mística, o passo obrigatório na direção do amor divino, com a ressalva decisiva de que em Sor Juana não existe transe místico. Contudo, Puccini, como eu, duvida: ele parece perceber uma espécie de ambiguidade entre a profissão do amor a Deus, tema do poema, e o surgimento súbito de uma lembrança. Oscilação entre a ficção que o gênero exige e a confissão de algo vivido. Percebo que essa interpretação na verdade é frágil: não se baseia em nenhum dado real, só numa impressão. Não é suficiente? O romance inteiro me desconcerta – há fragmentos acentuadamente teológicos, outros que se ajustam ao padrão dos versos de amor a lo divino, e outros, ainda, em que a inflexão e as expressões parecem de um poema de amor profano. É estranho: Vossler51 considerou esse romance “quase prosaico e irônico”. Não entendo isso, pois não vejo nada irônico nem prosaico nesse poema, mas uma mistura inquietante de erotismo profano, amor sagrado e escolástica.

 

Mais adiante Puccini lê literalmente a expressão “amor bastardo” do quarteto seguinte e pensa que a poeta alude a sua origem ilegítima. O Obstáculo reaparece numa de suas manifestações prediletas: a bastardia. A interpretação de Méndez Plancarte é mais fiel ao sentido do poema e à linguagem da época e da própria Sor Juana: “Amor bastardo não por ser ilícito ou desordenado, mas porque perante o Divino todo amor parece baixo...”. Além disso, por que e para que ela aludiria aqui a sua bastardia, já que nunca a menciona? Em suma, nem sequer nesse poema podemos afirmar que estamos diante de uma história pessoal vivida. Seus poemas eróticos são ilustrações de uma metafísica, uma estética e uma retórica que vêm da poesia provençal e de Dante, são recolhidas por Petrarca e inspiram os poetas do Renascimento e da Idade Barroca.

 

A maioria dos críticos católicos pensa que Juana Inés escolheu a vida religiosa por vocação autêntica, quer dizer, porque ouviu o chamado de Deus. É evidente que ela era uma católica sincera. Sua ortodoxia não está em jogo. Mas esquecer que nessa época a vida religiosa era uma ocupação como outras seria esquecer muito. Os conventos estavam repletos de mulheres que haviam vestido o hábito não por responder a um chamado divino, mas por considerações e necessidades mundanas; seu caso não era distinto das jovens que hoje procuram uma carreira que lhes dê sustento econômico e respeitabilidade social. A vida religiosa, no século xvii, era uma profissão. Isso não implicava descrença nem falta de religião – a maioria dos clérigos e freiras eram católicos sinceros e modestos funcionários da Igreja. As mulheres vestiam o hábito porque, fosse por arranjos familiares, falta de fortuna ou qualquer outra razão, não podiam se casar; faziam o mesmo as que estavam sozinhas no mundo e sem apoio masculino.

 

O convento era uma conveniência. Mas nem todas podiam professar: para abraçar a vida monástica, era preciso ter um dote e pertencer a uma família conhecida. A cerimônia dos votos era solene – havia os padrinhos, os convidados, a música, as flores. As mulheres pobres – viúvas, órfãs, abandonadas – refugiavam-se nas Casas de Recolhimento fundadas nas principais cidades pela Igreja, por alguns ricos caridosos. O bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, fundou duas casas para “muitas mulheres pobres que desejavam guardar intacta a flor de sua pureza [...], mas temiam, tímidas, perdê-la, ou por serem muito pobres ou por serem belas...”.[52] Na biografia de outro benfeitor podemos ler o seguinte elogio: “Não se podem negar o heroísmo e a grandeza da obra de enclausurar mulheres que, [...] não podendo entrar nos mosteiros, choravam na vida secular em perigos evidentes [...]”.[53] Vestir o hábito era uma solução corrente naquela época. O caso de Sor Juana não foi excepcional: em sua família, além de sua sobrinha Isabel María de San José, duas das filhas de sua meia-irmã Inés professaram no San Jerónimo.

 

Nada em sua vida anterior revela predisposição religiosa particular. Durante o período em que foi dama da vice-rainha, ela se distinguiu não pela devoção, mas pela beleza, pelo engenho e pelo saber. Tampouco, diga-se, mostrou excessiva devoção durante os vinte e seis anos que passou no San Jerónimo. Nesse sentido, a reconvenção de Fernández de Santa Cruz e as reprimendas, muito mais severas, de Núñez de Miranda eram justificadas. Ao próprio Calleja só cabe reconhecer, mesmo contra a vontade, a tibieza de Sor Juana: “Vinte e seis anos viveu na Religião sem osretiros a que obriga o estrepitoso e bom nome de extática, mas com o cumprimento substancial a que obriga o estado de religiosa...”. O padre Oviedo vai mais longe e relata que seu confessor, Núñez de Miranda, sempre a aconselhava a dedicar menos tempo “à publicidade e continuadas correspondências de palavras e por escrito com os de fora...”. A Respuesta a Sor Filotea de la Cruz corrobora o que dizem Calleja e Oviedo.

 

Não obstante tudo o que acabo de expor, por razões mais fáceis de entender do que de justificar, a maioria dos críticos católicos considera a decisão de Juana Inés de tomar os votos como a expressão de um conflito psíquico de índole espiritual que se resolveu numa autêntica renúncia ao mundo. A questão é central porque está intimamente ligada a outro enigma de sua vida: a crise de seus anos finais. Robert Ricard é o crítico que com maior rigor e coerência sustentou a hipótese da vocação religiosa. Para o historiador francês, o caso dela é semelhante ao de Pascal: do mesmo modo que, em sua primeira conversão, Pascal abandona uma carreira mundana para ascender “à ordem do espírito”, Sor Juana deixa a corte do vice-reino por um afã de conhecimento; em sua segunda conversão, Pascal renuncia à ciência para ingressar “na ordem da caridade”, e ela renuncia ao conhecimento por amor a Deus. Ricard incorre nesse erro de raciocínio que se chama petição de princípio – para provar que houve uma primeira conversão, dá por consumada a existência de uma segunda. Na verdade, a renúncia ao saber, ao fim de sua vida, não foi um ato voluntário; foi, a bem da verdade, como se verá, uma humilhação imposta pelas autoridades eclesiásticas depois de um combate de mais de dois anos. Quanto à “primeira conversão”, Juana Inés, ao contrário de Pascal, não podia renunciar a uma carreira mundana que não tinha. Era uma jovem sozinha e desvalida.

 

É impossível conhecer seu estado de ânimo durante os anos imediatamente anteriores à profissão de fé. Mas não é impossível reconstruir esse momento e entrever as razões que precipitaram sua decisão. A obra Los empeños de una casa pode nos dar, de novo, alguma luz. A situação de dona Leonor, tal como aparece na primeira jornada,[54] é uma transposição da situação da poeta na corte: linda, discreta, culta e transformada no “admirável alvo de todas as atenções”. Juana Inés e Leonor são pobres e as duas meio órfãs. Aqui se rompe a simetria – a Leonor lhe falta a mãe, enquanto Juana Inés não tem pai. Essa diferença marca a direção oposta que suas vidas tomarão. Uma vive sem a proteção de um homem; outra é amparada pelo pai e, quando sua honra está em perigo, ele não vacila em exigir reparação pelo casamento ou com sangue. Fiéis a seus destinos simetricamente opostos, uma se casa e outra vai para um convento. A ausência do pai teria sido assim tão determinante, ou a comédia de Sor Juana, mais que uma transposição de sua vida, é uma projeção de seus desejos e obsessões?

 

Na situação de Juana Inés durante aqueles anos, vejo três circunstâncias básicas e permanentes ao lado de outras que, embora transitórias, no fim das contas não foram menos decisivas. As circunstâncias básicas são a bastardia, a pobreza e a ausência do pai. Nenhuma delas pode ter sido a causa da profissão de fé, mas todas contribuíram poderosamente para essa resolução. Há, além disso, certa hierarquia nas causas. A menos importante foi, talvez, a bastardia, que não impediu que nenhuma de suas irmãs se casasse. Embora a pobreza fosse um obstáculo maior, nem por isso era insuperável, como mostra, outra vez, o exemplo de suas irmãs. Contudo, existe um contraste claro entre a sorte das filhas de Diego Ruiz Lozano, homem de posses, e as do fantasmagórico Pedro Manuel de Asbaje: Inés Ruiz Lozano casa-se com um doutor da Universidade e sua irmã Antonia, com um fazendeiro; María e Josefa de Asbaje, abandonadas por seus maridos, vivem vidas irregulares e têm filhos de diferentes homens. Pedro Manuel de Asbaje era um nome; Diego Ruiz Lozano, uma presença real. Seu testamento revela um patriarca amante dos filhos e zeloso com sua fazenda. Quando suas filhas se aproximam da puberdade, ele as afasta da mãe e as interna no convento de San Jerónimo, sob os cuidados da meia-irmã Juana Inés. Mais tarde, ele casa as filhas com homens de bom nível. A diferença entre a condição das filhas de Ruiz Lozano e a das de Asbaje deve ter impressionado a poeta. É compreensível que os exemplos de sua mãe e suas duas irmãs a tenham atemorizado – então era isso que esperava uma mulher sozinha no mundo? Com mais realismo que seus biógrafos modernos, o padre Calleja expõe sucintamente sua opinião: “O bom rosto de uma mulher pobre é uma parede branca na qual não existe néscio que não queira deixar uma mancha”.

 

No testamento de Sor Juana,[55] há uma passagem comovente. Nesses documentos as noviças renunciavam a seus bens, e ela diz: “Declaro ter em poder de dona Isabel Ramírez, minha mãe, duzentos e quarenta pesos de ouro comum em reais, cuja quantidade me deu e me doou o capitão dom Juan Sentís de Chavarría: declaro isso como meus bens”.

 

Era essa toda a sua fortuna. E quem era aquele capitão que lhe deu de presente esses pesos e que relação tinha ele com Juana Inés ou com outras mulheres de sua família? Nenhuma. Assim como Velázquez de la Cadena, ele era um homem rico e caridoso. Na obra que o historiador Rubio Mañé dedicou à fundação de colégios e instituições de ensino durante o período do vice-reino, aparece a figura do capitão Chavarría, cavalheiro da Ordem de Santiago, como o generoso benfeitor do Colégio de San Gregorio, estabelecido pelos jesuítas para a educação da nobreza indígena.56 Rubio Mañé cita o relato de Berganzo: “Comovido com as vozes harmoniosas e inocentes dos pequeninos indiozinhos que entoavam cânticos de louvor na igreja de Nuestra Señora de Loreto”, que servia de capela ao Colégio, o capitão Chavarría decidiu entregar trinta e quatro mil pesos a seu confessor, o padre Antonio Núñez de Miranda, para “remediar a penúria em que vivia San Gregorio”.[57] Chavarría fez outras doações, tanto para obras pias como educativas, todas por meio de seu diretor espiritual, o jesuíta Núñez de Miranda; entre elas, a de sua fazenda de San José de Oculman, para “sustento dos padres-línguas”, como então se dizia, do próprio colégio. A menção de Chavarría no testamento da poeta confirma o que foi dito pelo padre Oviedo sobre a intervenção decisiva de Núñez de Miranda. O jesuíta não só liquidou os escrúpulos morais de Sor Juana, como obteve os donativos materiais que um ato como a profissão de fé exigia.

 

Enquanto viveu no palácio, Juana Inés deve, muitas vezes, ter feito esta reflexão: não tenho fortuna, nem nome, nem pai. Era dama da vice-rainha, mas os vice-reis duravam poucos anos em seus cargos e iam embora para não mais voltar. Depois dos marqueses de Mancera, o que aconteceria e quem viria? Voltar com os Mata e viver às custas dessa rica família? Será que a aceitariam de novo? Além disso, como esquecer que Juan Mata justamente a inserira no palácio, se não para se livrar dela, pelo menos com o propósito de que, dona de seus próprios recursos, ela fizesse seu caminho no mundo? Quando, depois de passar três meses sob a austera regra das carmelitas, ela muda de opinião e abandona o convento, não volta a sua casa nem à dos Mata, mas ao palácio, ao lado da marquesa de Mancera. Isso indica que sua única casa era o palácio. Casa provisória e a qual teria, um dia, que deixar, quando os Mancera fossem embora.

 

Uma vez mais suas reflexões devem tê-la conduzido ao mesmo lugar: às portas do mosteiro. Sua protetora, Leonor Carreto, com certeza a animou a tomar essa decisão. O fato de que ela e o marido tenham assistido à celebração da cerimônia de vestir o hábito é indício de que favoreciam o projeto e de que, provavelmente, o facilitaram. À influência dos Mancera se deve acrescentar a de outras pessoas que a rodeavam: quem, nesse meio, poderia achar ilógico ou cruel que uma jovem de vinte anos, bonita e desvalida, se fechasse num convento? Não sei se haveria pensado em outra circunstância – não era fácil entrar para um convento e, se ela não tivesse passado esse período no palácio, talvez não tivesse encontrado um padrinho que lhe bancasse o dote. Pode-se até afirmar, sem exagero, que o palácio foi o degrau rumo ao convento. Talvez seus familiares a houvessem deixado com a vice-rainha tendo em mente que, com sua proteção e suas relações, Juana encontraria um padrinho e um benfeitor.

 

A pessoa que com maior empenho, sagacidade e autoridade a impulsionou, dissipando seus temores e suas dúvidas, foi o padre Antonio Núñez de Miranda. Homem de cultura teológica, professor de filosofia e membro do tribunal da Inquisição, o jesuíta era o confessor dos vice-reis e, assim, diz Oviedo, “entrando com frequência no palácio [...] se ofereceu a ajudá-la no que pudesse”. Núñez de Miranda fora reitor do famoso Colégio de San Pedro y San Pablo e tinha reputação de ser grande pregador. Esses merecimentos e seu cargo no Santo Ofício lhe haviam dado notoriedade. Sua especialidade eram as religiosas. Costumava visitar os conventos, era diretor espiritual de muitas freiras e para elas escrevera uma cartilha. Deve-se com certeza à sua influência o pagamento do dote de Juana Inés pelo abastado Pedro Velázquez de la Cadena (três mil pesos, soma considerável e superior às que suas meias-irmãs levaram aos maridos à época do casamento). O padre Oviedo alude com entusiasmo a essa habilidade de Núñez de Miranda:

 

Foram inúmeros os dotes que negociou e os que se ajustaram com seu talento e diligência para assegurar, com eles, a muitas donzelas pobres, consagrando-as como Esposas de Cristo no sagrado retiro dos claustros.[58]

 

O próprio Oviedo diz que, a partir do momento em que conheceu Juana Inés, o padre Núñez mostou interesse por seu caso. Esse zelo foi tão extremo, e as relações entre a freira jerônima e o jesuíta tão prolongadas e complexas, que Oviedo dedica um capítulo inteiro de sua biografia de Núñez para descrevê-las. Nessas páginas procura eximi-lo das culpas que muitos lhe atribuíram, entre elas, o excessivo rigor com que tratou Juana e que o levou até a lhe proibir o exercício da poesia e o cultivo das letras. Por outro lado, Oviedo a acusa de ingrata, presunçosa e rebelde. O tom polêmico dessas passagens é significativo e mostra que já então se falava das perseguições que entristeceram os últimos anos de Sor Juana. O tema das infelizes relações da freira jerônima com a hierarquia eclesiástica não é invenção do “anticlericalismo” moderno, como disseram Méndez Plancarte e outros: é um tema que vem da época. A ruptura entre a freira e seu diretor de consciência foi cruel, e ainda mais cruel foi a reconciliação, que ela só conseguiu com a submissão. Mas na fase em que Juana Inés, antes dos votos, vacilava e se perguntava se eram compatíveis suas paixões intelectuais com os deveres religiosos, Núñez eliminou seus escrúpulos e a animou; não foi rigoroso, mas paternal, condescendente e nada inflexível. Os pescadores de almas são temíveis porque também são sedutores. Oviedo conta que, quando ela por fim decidiu professar, a alegria de Núñez foi tal que ele pagou a festa, convidou “o mais alto e ilustre das hierarquias eclesiástica e secular, as sagradas religiões e a nobreza do México, e, ele mesmo, às vésperas dos votos, se pôs a compor com as próprias mãos as luminárias”.[59]

 

Os trechos da Respuesta a Sor Filotea de la Cruz relativos à profissão de fé são memoráveis por seu caráter elusivo e reticente. Ela diz sem dizer, com um gesto apaga o que disse e, ao apagar, volta a dizê-lo. Vale a pena reproduzir este longo e sinuoso parágrafo, apesar de já ter sido citado tantas vezes:

 

Fiz-me religiosa porque, embora soubesse que essa condição tinha muitas coisas (falo das acessórias, não das formais) repugnantes ao meu temperamento, contudo, dada a total negação que possuía ao casamento, era o menos desarrazoado e o mais decente que podia escolher em matéria da segurança que desejava para minha salvação; a cujo primeiro respeito (como ao fim mais importante) cederam e se submeteram ao jugo todas as pequenas impertinências do meu caráter: querer viver sozinha; não querer ter ocupação obrigatória que atrapalhasse a liberdade do meu estudo, nem rumor da comunidade que impedisse o sossegado silêncio de meus livros.

 

Para uma compreensão total dessa declaração, devem-se ter em mente duas circunstâncias: quem escreve é uma freira, e ela escreve a um bispo, seu superior, para se defender de certos ataques e justificar sua paixão pelas letras profanas. É preciso inserir o trecho transcrito no contexto geral da Respuesta: sua paixão congênita pelo saber. Sua declaração tem duas partes: na primeira, ela se refere à razão principal que a levou a professar; na segunda, alude às incompatibilidades entre sua vocação intelectual e a vida numa comunidade religiosa. Em outra parte deste livro eu vou me ocupar desse último aspecto. Quanto ao primeiro, Sor Juana afirma que, no que diz respeito ao fim mais importante, ou seja, sua salvação, o estado religioso “era o menos desarrazoado e o mais decente que podia escolher”. Proclama assim a primazia, perfeitamente ortodoxa, dos fins espirituais sobre os temporais: estamos neste mundo para nos salvar e ganhar a glória. Mas sua decisão de escolher o convento está subordinada a uma cláusula que rege todo o parágrafo: “Dada a total negação que possuía ao casamento”. Essa declaração é o eixo da Respuesta. E não só desse escrito como de sua vida inteira. Ela não ignora que existem outras vias de salvação, entre as quais, para as mulheres, a mais comum e normal é a do casamento. Não para ela. Assim, a decisão de professar está subordinada a outra decisão anterior, da qual é consequência: a negação do estado matrimonial. Não há a menor alusão ao chamado de Deus nem à vocação espiritual; com extraordinária franqueza, ela expõe uma decisão racional: já que não quer casar, o convento é a opção menos desarrazoada e a mais decente para garantir sua salvação. O razoável teria sido o casamento; o indecente, o estado de solteira no mundo, que a teria exposto, como diz Calleja, a ser parede branca manchada pelos homens. Sua escolha não resultou de uma crise espiritual nem de um desgosto sentimental. Foi uma decisão sensata, coerente com a moral da época e com os usos e as convicções de sua classe. O convento não era escada em direção a Deus, mas refúgio de uma mulher que estava sozinha no mundo.

 

Até agora, examinei as razões negativas, por assim dizer, que talvez tenham levado Juana Inés a vestir o hábito. Foram considerações, como se viu, estritamente mundanas, inspiradas em preocupações de ordem tanto material como social e moral. A palavra que define essas preocupações não é santidade, mas decência. Porém, é impossível reduzir sua decisão a essas razões. Sabemos que oscilou muito e que até mesmo, uma vez decidida, ficou assustada com a dureza das regras carmelitas e abandonou o convento. Os argumentos e conselhos de Núñez, aliados à brandura das regras das jerônimas, acabaram por persuadi-la. Mas essa série de motivos razoáveis se apoiava em algo mais profundo: sua negação ao casamento. Esse é o fundamento vital de sua atitude. Foi sincera quando escreveu essa frase? Ou com isso só queria ocultar que as perspectivas de um bom casamento, para uma jovem em sua situação, eram na verdade duvidosas, e assim era melhor o claustro do que seguir a sorte de suas duas irmãs? Ela nem sempre falou a verdade – vez por outra, por exemplo, afirmou que era filha legítima –, contudo nesse caso não temos por que duvidar de sua sinceridade. Seus interesses e paixões eram coincidentes. Tudo o que sabemos dela e tudo o que nos diz sua obra corroboram seu escasso interesse pelo casamento. É fácil imaginá-la na corte e no claustro, dançando numa sala ou cantando no coro, conversando num jardim ou num locutório; sabemos que conheceu, aproveitou e padeceu as paixões da glória literária, da amizade amorosa e, talvez, as do amor... Podemos imaginá-la em uma casa com marido e filhos?

 

Por que essa negação do casamento? Pensar que ela sentia clara aversão aos homens e uma também clara afeição pelas mulheres é descabido. Por um lado, mesmo que essa suposição fosse correta, naqueles anos de plena juventude não é certo que ela tivesse consciência de suas verdadeiras inclinações; por outro, salvo se lhe atribuíssemos uma libertinagem mental mais condizente a uma heroína de Diderot que de uma jovem novo-hispânica de sua idade e sua categoria social, ela poderia friamente escolher como refúgio um estabelecimento habitado exclusivamente por pessoas do sexo que, supostamente, a atraía. Não: a frase indica, como já afirmei outras vezes, pouca ou nenhuma aptidão para a vida doméstica. Em nosso século, mais e mais mulheres, sem renunciar à vida amorosa, preferem não se casar. No século XVII isso era inimaginável; fora do casamento só havia dois caminhos: a vida das irmãs de Juana Inés (no melhor dos casos) ou o mosteiro. Destaco, uma vez mais, que a palavra casamento, no século XVII, a não ser nas comédias, não significava amor, mas a vida das casadas, tal como a descrevia em termos ideais frei Luis de León,[60] ou, satiricamente, Quevedo.[61] Além dessa repugnância à vida doméstica – seria por causa do que viu quando menina e adolescente? –, é inócuo tentar descobrir quais eram seus verdadeiros sentimentos sexuais. Ela tampouco sabia.

 

A negação do casamento está ligada a outra causa, que me parece decisiva. Desde o princípio, quando lia às escondidas os livros do avô, agiram sobre ela a transposição e a transmutação de suas inclinações: o amor ao saber é a outra face, a face positiva, de sua negação do casamento. Não quer casar porque quer saber. Ama o saber. Sobre os motivos de sua repugnância ao estado matrimonial, é evasiva; ao contrário, expande-se com uma efusão não isenta de coqueteria quando fala de sua sede de conhecer. O processo de masculinização se confunde com o de aprendizagem: para saber é preciso ser homem, ou parecer sê-lo. A ideia de se disfarçar de homem, cortar o cabelo, enfim, neutralizar sua sexualidade sob o hábito de freira, são sublimações, ou melhor, traduções de seu desejo – quer se apoderar dos valores masculinos porque quer ser como um homem. Esse como é a ponte e, simultaneamente, o signo da distância insalvável. Por isso, num segundo momento do processo, destrói a ponte, volta-se contra os homens, defende as mulheres e antecipa o feminismo moderno.

 

Sob o ponto de vista psicossomático, a “masculinidade” de Sor Juana me parece fantasia de alguns críticos modernos. Mas não do ponto de vista psicológico, social e histórico. Os valores de seu mundo eram masculinos. Menina, quis se disfarçar de homem para deles se apoderar; mulher, extremou a divisão platônica entre alma e corpo para afirmar que a primeira é neutra. O estado religioso foi a neutralização de sua sexualidade corporal e a liberação e transmutação de sua libido. Em sua hierarquia de valores, o conhecimento vinha antes do sexo porque apenas pelo conhecimento ela neutralizaria ou transcenderia seu sexo. Quaisquer que tenham sido as causas psicológicas de sua atitude, sua vida toda esteve movida pela vontade de penetrar no mundo do saber: um mundo masculino.

 

Negação do casamento, amor ao saber, masculinização, neutralização – tudo isso se resolve numa palavra não menos poderosa: solidão. Imposta pelo mundo, a solidão foi transformada por ela em destino aceito e também escolhido. Primeiro, menina sozinha perdida entre os adultos; depois, jovem solitária na confusão do século. Fechou-se num convento não para rezar e cantar com suas irmãs, mas para viver sozinha com ela mesma. Errou: trocou o bulício do mundo pelo do claustro. Mas em 1669 o convento lhe parecia a solução de seu dilema; se seu destino eram as letras, não poderia ser nem letrada casada nem letrada solteira. Poderia, sim, ser freira letrada. A contradição entre sua vocação intelectual e a vida no seio de uma comunidade religiosa, embora por ela prevista – segundo lembra com uma ponta de amargura na Respuesta –, surgiu mais tarde. Devo acrescentar que, se quis estar sozinha, não quis viver isolada. Sempre amou a comunicação intelectual, e esse fator – viver em contínua correspondência com o exterior – foi o que Núñez de Miranda mais lhe censurou. Sozinha mas não solitária, ela viveu em seu mundo e com seu mundo. O mesmo ocorre com o que chamei, não de forma muito exata, de sua “masculinidade” – ela convive com a mais intensa feminilidade. Se existe um temperamento feminino, no sentido mais arrebatador da palavra, esse é o de Sor Juana. Sua figura nos fascina porque nela, sem jamais se fundir por completo, se cruzam as oposições mais extremas. Talvez nisso resida o segredo de sua estranha vivacidade – poucos seres estão tão vivos como viva está Sor Juana depois de séculos sob a terra.

 

Em 1667 ela entrou como noviça nas Carmelitas Descalças e em poucos meses abandonou o convento, arrependida. Voltou a se arrepender de sua segunda e definitiva escolha? É impossível saber. Alguns de seus poemas revelam aspereza, angústia, falta de ânimo, mas será que não encontramos a mesma coisa em obras de outros poetas que viveram no mundo? Ela se queixou das chateações de suas companheiras de convento, porém não teria estado exposta às mais intoleráveis intromissões caso tivesse ficado na corte? A decisão de se tornar freira foi, em suas circunstâncias, a melhor e, quem sabe, a única que podia tomar. Contudo, deve ter tido momentos de dúvida e desfalecimento. Mais de uma vez deve ter lamentado estar atada a uma resolução irrevogável. Nós, os modernos, acostumados a mudar de atividade e situação, não podemos entender de forma cabal o que significa uma decisão que nos obriga para toda a vida. Esse é o assunto de um soneto revelador. O título descreve muito bem o caráter terrível, por sua condição inapelável, de decisões como a que ela tomou: Encarece de animosidad la elección de estado durable hasta la muerte. [62] O tema da glória na derrota – simbolizado como em Primero sueño pela figura de Faetonte, seu herói tutelar – funde-se com o da irrefreável nostalgia pelo que sua vida poderia ter sido e não foi. Com lucidez e melancolia, a poeta exalta o ânimo que a fez escolher uma condição que só termina com a chegada da morte. Mas lhe parece que teria sido mais elevado e heroico, mesmo correndo o risco de ser fulminada, pegar as rédeas do carro do Sol e viver sob a intempérie:

 

Si los riesgos del mar considerara,

ninguno se embarcara; si antes viera

bien su peligro, nadie se atreviera

ni al bravo toro osado provocara.

 

Si del fogoso bruto ponderara

la furia desbocada en la carrera

el jinete prudente, nunca hubiera

quien con discreta mano lo enfrenara.

 

Pero si hubiera alguno tan osado

que, no obstante el peligro, al mismo Apolo

quisiese gobernar con atrevida

 

mano el rápido carro en luz bañado,

todo lo hiciera, y no tomara sólo

estado que ha de ser toda la vida.[63]

 

 

 

NOTAS

 

[48] Esposo na acepção de noivo

 

[49] “Entre estes aplausos, eu,/ com a atenção soçobrando/ entre tanta multidão,/ sem achar seguro alvo,/ não acertava a amar alguém/ vendo-me amada de tantos./ Sem temor nos concursos/ defendia meu recato/ com perigos do perigo/ e com o dano do dano./ Com uma afável modéstia/ igualando a homenagem,/ tirava do geral/ o lado suspeito do agrado.”

 

[50] “Eu me lembro, oh nunca tivera!,/ que quis em outro tempo/ o que passou de loucura/ e o que excedeu de extremo;// Mas como era amor bastardo,/ e de contrários composto,/ foi fácil desvanecer-se/ do achaque do seu ser mesmo.”

 

[51] Seguidor de Benedetto Croce, o filólogo alemão Karl Vossler (1872-1949) foi um dos fundadores da moderna estilística românica. [n.e.]

 

[52] Miguel de Torres, Dechado de príncipes eclesiásticos. Puebla: 1716.

 

[53] Citado por D. Schons, “Some Obscure Points in the Life of Sor Juana Inés de la Cruz”, op. cit.

 

[54] No teatro espanhol do Século de Ouro, também se empregava a palavra jornada para designar os atos que compunham as obras. [n.e.]

 

[55] Datado de 23 de fevereiro de 1669.

 

[56] I. Rubio Mañé, Introducción al estudio de los virreyes de Nueva España (v. iv): Obras públicas y educación universitaria. Cidade do México: Universidad Nacional Autónoma de México, 1963.

 

[57] A fonte de Rubio Mañé é o capítulo de Manuel Berganzo no Diccionario universal de historia e geografia (Cidade do México, 1853) consagrado aos colégios de San Pedro y San Pablo, de San Gregorio e de San Ildefonso.

 

[58] Juan de Oviedo, Vida ejemplar, heroicas virtudes y apostólico ministerio del venerable padre Antonio Núñez de Miranda, de la Compañía de Jesus... Cidade do México: Imprenta Rodríguez Lupercio, 1702.

 

[59] Id., ibid.

 

[60] Luis de León (c. 1527-91), frei da ordem dos agostinianos, escreveu La perfecta casada (1584), um manual com os deveres de uma esposa quanto à família, às tarefas domésticas e ao amor a Deus. [n.e.].

 

[61] Francisco de Quevedo (1580-1645) escreveu, em prosa e verso, textos burlescos contra o casamento, como os sonetos “Hastío de un casado al tercero día” e “Casamiento ridículo”, e a sátira Capitulaciones matrimoniales. [n.e.]

 

[62] “Exalta o esforço de escolher um estado que perdure até a morte.”

 

[63] “Se os riscos do mar considerasse/ ninguém embarcaria; se antes visse/ bem seu perigo, ninguém se atreveria/ nem ao bravo touro ousado provocaria.// Se do fogoso bruto ponderasse/ a fúria desbocada na corrida/ o jinete prudente, nunca haveria/ quem com discreta mão o freasse.// Mas se houvesse alguém tão ousado/ que, apesar do perigo, ao próprio Apolo/ quisesse governar com atrevida// mão o rápido carro em luz banhado,/ tudo faria, e não tomaria só/ estado que será para toda a vida.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Detalhes da edição: 

TRADUÇÃO Wladir Dupont

QUARTA CAPA Beatriz Paredes

ILUSTRAÇÃO Alejandro Magallanes

APOIO Embaixada do México no Brasil

COEDIÇÃO Fondo de Cultura Económica

 

EDITORA Ubu

Capa dura com fitilho

608 pp., R$ 109,00

 

 

 

Fique de olho nas próximas edições da série "Sugestões de Leitura":

 

BRASIL: UMA BIOGRAFIA

De Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, por Companhia das Letras 

PARTE I

 

BRASIL: UMA BIOGRAFIA

De Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, por Companhia das Letras 

PARTE II

 

 

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

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