DICAS DE LEITURAS DA EQUIPE HAOS, n.1

28 Jun 2020

 

 Conhecimento é liberdade. Arte: telurica.x [1]

Fotografia: Paul Strand. Estudante ganesa, 1964.

 

 

Como parte da comemoração de dois anos da Horizontes ao Sul (HaoS), inauguramos uma contribuição coletiva de nossa equipe editorial. Nossa coluna de indicação de leituras pretende reunir, mensalmente, um conjunto de sugestões de livros de literatura ou ciências sociais, seguidas de um breve comentário sobre as obras. 

 

Confira abaixo as dicas de cada editor da equipe HaoS.

 

 

* Por Luna Ribeiro Campos * 

 

Água funda

Ruth Guimarães

 

Água funda, primeiro romance publicado pela escritora paulistana Ruth Guimarães (1920-2014) em 1946, nos leva por um passeio, em carro de boi, pelos interiores de um Brasil caipira pós-abolição. Retratando o cotidiano das famílias de trabalhadores rurais de pequenos vilarejos no vale do paraíba, Ruth Guimarães elabora, delicadamente, uma abordagem da cultura popular numa tradição modernista, onde se percebe a influência dos estudos de Mário de Andrade sobre o folclore e a riqueza das expressões populares que compõem esses muitos brasis. A narrativa, construída através de fragmentos, pragas e feitiços, vai se desenrolando através de uma linguagem familiar e despretensiosa, por meio da qual a autora consegue gerar na leitora a sensação de estar sentada no umbral da porta de alguma casa de taipa, tomando um cafezinho enquanto escuta dois dedos de prosa... Longe de ser uma literatura fantástica, como querem alguns intérpretes de sua obra, a escrita de Ruth versa, a meu ver, sobre a cultura popular em suas múltiplas dimensões, mostrando como as histórias dos antepassados e as crenças populares funcionam como fios que costuram a própria vida e se comunicam pela boca do povo. A vida ensina, e é preciso humildade para poder enxergar seus sinais. 

 

Água funda, escrito quando a autora tinha 26 anos, é o primeiro livro publicado no Brasil por uma mulher negra no século XX. Após o romance, Ruth Guimarães publicou mais de 50 obras, entre contos, crônicas, livros infantis, poemas e traduções. Água funda, no entanto, só ganhou uma reedição em 2018. Em 2020, ano do centenário de nascimento de Ruth Guimarães, convido tod_s a (re)descobrir esse clássico da literatura brasileira. 

 

Ruth Guimarães é a nossa mãe de ouro da literatura nacional. 

 

 

* Por Marcia Rangel Candido * 

 

As Boas Mulheres da China

Xinran

 

“En mi país, estás muerto si publicas” (Em meu país, se você publica está morto). A frase que a antropóloga guatemalteca Myrna Mack disse a uma acadêmica estadunidense ao escutá-la reclamar das exigências de produtividade na academia, citada por Eduardo Galeano em Mulheres, é um ponto de partida para pensarmos no valor de As Boas Mulheres da China, livro escrito por Xinran no final dos anos 1990 e publicado pela primeira vez em tradução do mandarim para o inglês em 2002. Para dar vida ao texto de não-ficção, a jornalista Xinran teve que deixar a China e se mudar para a Inglaterra, assim evitava a censura e as consequências de desafiar o governo com ideias avessas ao regime político em voga. A obra, que foi editada no Brasil pela Companhia das Letras, reúne uma série de histórias de mulheres, de diferentes classes e trajetórias, atravessadas, em grande medida, pelo horror. A partir de entrevistas realizadas em viagens a distintas regiões chinesas, a autora relata inúmeros casos de violência de gênero, permeados por tortura, estupro, maternidade compulsória, convenções sociais e repressões políticas. Essas perspectivas são baseadas em experiências que transcorreram durante a Revolução Cultural Chinesa e a eclosão de catástrofes naturais, como um grande terremoto que matou milhares de pessoas no país. Embora parte das entrevistas fossem divulgadas no programa que Xinran conduzia em uma rádio chinesa, o controle sobre o conteúdo exposto era constante. A possibilidade da escrita em detalhes, portanto, só foi facultada com um movimento de desterro. O livro que nos chega às mãos, traduzido hoje a tantos idiomas como o português, venceu certos desafios para contar histórias que têm seu valor e precisam ser conhecidas. Os capítulos, cada um a seu modo, nos aproximam de um contexto de brutalidade particular às mulheres marcadas por eventos históricos. Contudo, chamo atenção para que a recepção da obra não redunde em uma espécie de orientalismo. Não nos esqueçamos que mais do que uma condição negativa chinesa, as opressões de gênero estão por toda parte do globo. Há quem não goste de produções que mobilizam prioritariamente a dor feminina e isso me parece uma outra ponderação válida. Nós, mulheres, tal como a China, somos mais que isso. Xinran também pode incomodar por imprimir certos juízos de valor em relação ao que narra. Ainda assim, provavelmente alguns trechos provocam emoções contundentes até mesmo nos leitores mais frios. Acima de tudo, em tempos tão difíceis no Brasil e no mundo, é sempre bom ler mulheres que desafiam as interdições para comunicar coisas que realmente importam.

 

 

* Por Simone Ribeiro Gomes * 

 

A história dos meus dentes

Valeria Luiselli

 

A história dos meus dentes (La historia de mis dientes, em espanhol), da jovem escritora mexicana Valeria Luiselli, publicado originalmente em 2014 e traduzido para o português pela Companhia das Letras, em 2016, é uma viagem dentro da boca de Gustavo Sánchez Sánchez, conhecido como Estrada (Carretera), em Ecatepec, EdoMex, México. A acidentada estrada a qual Valeria nos guia, em seu terceiro romance, também pode ser lida como um metaromance contemporâneo, narrando a vida do personagem principal, segundo ele próprio, um sujeito que dosa sorte e carisma, nascido com a rara ocorrência de quatro dentes pré-natais. A inusitada vida de Estrada, que trabalhou como segurança de um museu de arte em uma fábrica de sucos durante duas décadas, até sua promoção para gestor de crises pessoais, acalmando seus colegas à beira de um ataque de nervos, é repleta de referências contemporâneas do país. À sua esposa só se refere como "Flaca", "Magra" na versão em português, uma ligeira perda da tradução em um adjetivo utilizado indiscriminadamente no país. Outras referências são as consequências do terremoto que atingiu a Cidade do México, em 19 de setembro de 1985, data que marca o nascimento do seu único filho, Sidarta. As 166 páginas e VII livros da obra de Luiselli oferecem um recorrido pela vida política do país desde meados da década de 1950, culminando em uma cronologia do século XX em que acontecimentos aparentemente desconexos como nascimentos e mortes de grandes autores da literatura mundial convivem com a História oficial, com letra maiúscula. Um livro leve - e denso - por tratar também do recrudescimento da violência ligada às dinâmicas criminosas no país, A história dos meus dentes é um belo passeio pela literatura em suas ardilosas estradas.

 

 

* Por Leonardo Nóbrega * 

 

Cascas

Georges Didi-Huberman

 

Três pedaços de casca de árvore dispostas sobre uma folha de papel são o ponto de partida do ensaio de Georges Didi-Huberman escrito em 2011 e publicado no Brasil pela Editora 34 em 2017. Não são quaisquer cascas de árvore, mas cascas retiradas de bétulas, espécie vegetal que compõe a paisagem onde funcionava o campo de concentração de Auschwitz, palco do extermínio de populações judaicas da Europa. Aquele cenário museificado, que nos possibilita uma espécie de distanciamento estéril ao dispor o terror como algo que tivesse ficado no passado, deve, entretanto, ser olhado com atenção. As bétulas são testemunhas do terror, poderosas interlocutoras com as quais podemos nos indagar sobre as marcas que carregamos conosco no tempo presente, oráculos que podem nos revelar a miríade de futuros possíveis. Mas o que nos falam essas árvores? Quando criança, visitei em Portugal os destroços de uma construção que datava de cerca de dois mil anos.  Peguei dois pedaços de pedra naquelas ruínas e guardei no bolso. Lembro-me bem da minha sensação de cúmplice da história. Ao tocar aquelas pedras, compartilhava com desconhecidos de outros tempos um mesmo universo. O que Didi-Huberman quer é que façamos esse exercício, que analisemos o mundo sob o ponto de vista arqueológico. A arqueologia não como uma técnica para explorar o passado, mas como uma lente analítica para compreender o presente. É assim que a leitura de Cascas ganha hoje mais uma camada de significados. À luz do crescente autoritarismo e da violência que nos assombra, serve-nos de condutor para um percurso que exige coragem. Compartilhar nossas inquietações com os mortos é um passo doloroso, porém necessário, capaz de nos trazer à vida.

 

 

* Por Guilherme Marcondes * 

 

Outros fins que não a morte

Paulete LindaCelva (Org.)

 

Outros fins que não a morte, publicação organizada pela curadora Paulete LindaCelva, traz a contribuição de 23 intelectuais e multiartistas que tomam a contemporaneidade como mote, versam sobre o passado, mas têm no futuro o seu foco. A publicação contribui para o desmantelamento dos pressupostos racistas, machistas, heteronormativos, cisgêneronormativos e burgueses sobre os quais está constituída a presente sociedade. Trata-se, portanto, de um projeto editorial que se propõe a pensar o fim do mundo tal qual o conhecemos desde o século XVI. Se no projeto colonial as ficções de raça, hierarquia de gêneros, heterossexualidade e cisgeneridade compulsórias, bem como os ideais burgueses, fundamentaram um mundo profundamente desigual em que a morte de algumas pessoas está prevista/prescrita, esta publicação reúne justamente pessoas cujas existências se dão em luta contra este sistema de opressões e genocídio, pois suas vidas estão em risco.

 

Se o mundo hoje vive a pandemia de Covid-19 e em muito se fala sobre as dificuldades de se viver em isolamento ou ainda sobre o que esperar do mundo a seguir, esta publicação agrupa vozes potentes que vêm derrubando o edifício colonial e projetando novas possibilidades de vida. Vida entendida também de outros modos que não aqueles legados pelo ocidente e seu projeto de humanidade que, ao fim e na realidade, segue protegendo alguns e deixando (fazendo com) que outr_s morram. Vida nesta publicação é vida em abundância, é vida sem separações, trata-se de vida sem hierarquizações e processos de dominação. Em tempos de coronavírus, LindaCelva aglomerou nesta publicação os trabalhos de Ana Flor Fernandes, Ariana Nuala, Bia Leite, Biarritzzz, Castiel Vitorino Brasileiro, Cintia Guedes, Daniel Lie, Dhazati, Iagor Peres, Ige Martins, Luna Isaac, Jota Mombaça, Laura Fraiz, Linn da Quebrada, Madama Broona, Micaela Cyrino, Pêdra Costa, Rafaelly de La Conga Rosa, Renan Soares, Ventura Profana, Vulcanica Pokaropa, Walla Capelobo e Bruna Kury, pensador_s que em bando têm aberto portais para outros modos de vida que não este de desigualdade, morte e doenças que desde 1500 tem assolado o que hoje se entende como Brasil.

 

A publicação pode ser acessada gratuitamente online e para que se mantenha o projeto que deu corpo ao trabalho é possível doar, acesse: https://outrosfins.cerealmelodia.com/.

 

 

* Por Rafael Rezende * 

 

O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60

Tariq Ali


De quando em vez, a história se realiza em eventos que marcam definitivamente a humanidade. Os duros dias que vivemos se anunciam como um exemplo desse tipo de experiência temporal. A última vez que isso aconteceu foi no ano de 1968, quando todo tipo de luta antissistêmica eclodiu ao redor do mundo, produzindo consequências políticas e sociais variadas com as quais lidamos até hoje. Tariq Ali apresenta suas memórias políticas no livro O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60, publicado pela Boitempo Editorial. Palpites nas composições de John Lennon, viagem ao Vietnã durante a guerra e um quase encontro com Che Guevara nas florestas boliviana: tudo isso é apenas uma pequena parte da agitada vida intelectual e militante de alguém que viveu intensamente um período de proliferação de lutas e utopias. Enfim, trata-se de um livro que, sem tropeçar nas armadilhas da melancolia nostálgica, nos faz pensar o hoje a partir de um passado que de distintas maneiras ainda se faz presente.

 

 

* Por Vitória Gonzalez * 

 

Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo 


Romance de Conceição Evaristo publicado em 2003 pela Editora Mazza, em edição financiada integralmente por Evaristo, e em 2017 pela Pallas, Ponciá Vicêncio narra a história-travessia de Ponciá, nos deslocando entre seu presente, na cidade grande, e seu passado, nas adjacências de uma fazenda cujos proprietários eram donos de terras e outrora também de gentes. A reminiscência colonial está presente na terra, nas trajetórias, nos corpos, mas também no sobrenome da protagonista. O dia a dia de sua infância rural fora marcado, por um lado, pelas perdas do Vô Vicêncio – figura emblemática que ria e chorava em igual e estranha medida, com quem Ponciá guardava muita parecença – e do pai, cuja presença era roubada do convívio familiar pela lida na roça dos brancos donos da fazenda. Por outro lado, também pela presença constante da mãe, Maria, com quem dividia a vida, cantava e trabalhava o barro, e por trocas esporádicas com o irmão, Luandi, que acompanhava o pai na labuta. No dia a dia na cidade, marcado pela ausência dos seus, Ponciá nem mesmo lembra de contemplar o céu, exercício diário na meninez. A cidade, que antes parecia um caminho para novas possibilidades de futuro, acabou por roubar muito da sua capacidade de enxergar, sonhar e projetar. O cotidiano no precário espaço urbano de seu barraco lhe tira, diariamente, qualquer vestígio de vivacidade e mesmo de vida. Esse cotidiano, em que cada vez mais frequentemente fica absorta em seu olhar ausente na janela e em suas recordações, é pautado por solidão e saudade. Embora perceba a vida como uma junção dos diferentes tempos e pessoas que a constituem, Ponciá é constantemente preenchida por um vazio. 

 

O cruzamento das personagens do núcleo familiar de Ponciá Vicêncio e de outras que se somam ao enredo, em diferentes espaços e tempos, costura o romance, cujas partes enfocando em diferentes personagens desvelam novos fios da trama. O livro é repleto de ausências-presentes, presenças-ausentes, encontros, desencontros e reencontros. Entre as idas e vindas das personagens, vemos que a história de Ponciá e de suas pessoas próximas é particular, mas é também a história do Brasil – de diferentes territorialidades e vivências atravessadas pelo racismo, por desigualdades sociais e pela falta de direito não só à terra, moradia digna e educação, mas aos sonhos, descobertas de suas potencialidades e  possibilidades concretas de outros destinos. Conceição Evaristo conta que às vezes lhe abordam por Ponciá Evaristo. Nessa fusão, Conceição destaca que, embora a história de Ponciá não seja a sua, também o é. Nesse sentido, a autora fala e escreve sobre o engasgo que foi dar vida a esta personagem, cujas lágrimas se confundem com o seu próprio choro. As escrevivências que lemos em Ponciá Vicêncio trazem profundas questões emocionais e sociais que juntam as histórias de Conceições, Ponciás, Marias, pais, mães e avós Brasil afora. Histórias de uma gente, do rural ao urbano, que sobrevive a diversas ausências, violências e mortes – reais e simbólicas – no curso da vida. 

 

 

NOTAS

 

[1] Agradecemos à Telúric4 (Instagram @telurica.x), que gentilmente nos cedeu essa arte.

 

 

 

Equipe Editorial HaoS

 

 

 

 

 

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