CAMOCIM

23 Oct 2018

 

Trecho de Camocim, 2017

 

 

Recentemente, em um encontro entre amigos e amigas, todxs carregando no corpo cansaço, tristeza e uma nítida esperança (um dia antes, 29/9, estávamos nas ruas pelo #elenao), surgiu na conversa aquelas que são as grandes esfinges sociais do Brasil contemporâneo: como se deu, nas periferias, a mescla entre aumento da escolaridade e de evangelização, poder de consumo e acesso às redes sociais? Como traduzir o resultado da soma entre Cristo, desilusão política e a motocicleta dividida em 18 vezes no cartão? Como ler a presença, cada vez mais requerida dado o tamanho de sua ausência, das mulheres no espaço político brasileiro?

 

Camocim, filme do diretor francês radicado no Brasil Quentin Delaroche, consegue localizar parte dessas questões ao se debruçar sobre a cidade localizada a 113 quilômetros de Recife cujo nome – Camocim de São Félix – significa vaso ou urna funerária do santo católico. Com o filme, o realizador consegue fazer o sempre interessante exercício de falar do micro para tratar do macro: concentra-se em relatar, a partir da figura da carismática Mayara Gomes, as eleições municipais de 2016. Ela, que tinha 23 anos quando o filme foi rodado, é a chefe da campanha minúscula e descapitalizada de César Lucena, candidato a vereador. Usando alguns celulares para registrar imagens, caminhando pelos bairros da cidade para falar diretamente com as pessoas e negando o uso perverso e antigo da compra de votos, a dupla e alguns apoiadores vai tentando conseguir espaço em um maquinário viciado que se repete em todo território nacional.

 

Outra questão que reverbera na cidade e no país é uma polarização que, sabemos, vem provocando ouvidos moucos ao debate – muito embora, é necessário sublinhar, haja atualmente um lado dessa polarização que preze muito mais pelo silenciamento do outro (é a prática histórica que absorveram). Essa polarização ganha seus matizes dentro das casas dos moradores e das moradoras locais, das igrejas evangélicas, nos bares, nas rodas de amigos. Ao ouvi-los, ouvimos milhões de pessoas que, no Brasil atual, sentem-se sequestradas enquanto moram em seu próprio lar, uma sensação de suspensão provocada pela fissura enorme nas instituições, no sistema político e mesmo nas relações sociais. Mayara é, sem dúvida, a pessoa que melhor concentra esse “ethos coletivo”. Vive com a mãe evangélica em uma casa de classe média baixa, conseguida através de duro esforço no trabalho na prefeitura local. A igreja, que a câmera de Delaroche visita algumas vezes, é tanto espaço de socialização e celebração quanto um ambiente da política local. Mayara, uma garota negra e lésbica, circula sem constrangimentos não só neste espaço: sua assertividade e sua inteligência, sempre à vontade para falar o que pensa, são escudos contra um preconceito que não a afetam – ao menos no filme.

 

Há uma cena bonita na qual ela está com a namorada no sofá de casa enquanto a mãe fala ao telefone. A conversa é com o irmão de Mayara, preso naquele momento. É um instante poderoso, que coloca no mesmo espaço as lutas identitárias e um olhar mais fresco sobre os neopentecostais, vendidos a todo momento como intolerantes. Uma cena que resume com mais complexidade as periferias brasileiras, seja nas capitais, seja no interior. Periferias nas quais travestis, por exemplo, sempre estiveram presentes (sofrendo, sim, diferentes graus de preconceito). Nos espaços de classe média, essa não era (e não é) uma realidade. A chefe da campanha de César Lucena, que era candidato pelo PMDB, também sonha em se tornar uma vereadora, deputada ou governadora um dia. Em várias cenas, a vemos argumentando com enorme paixão contra o esvaziamento do pensamento político, tarefa difícil quando é o próprio meio institucional a fomentar essa fuga. Alguns diálogos entre adolescentes que convivem com Mayara são preciosos nesse sentido. Em um deles, um rapaz diz que possui um grupo no WhatsApp com mais de cem pessoas que já combinaram de votar nulo ou em branco. É um sentimento comum entre muitos, inclusive pessoas que trabalham nas campanhas, vestindo-se de azul ou vermelho e enfrentando, nas ruas, um clima de enorme animosidade. Nas cenas de embates públicos entre simpatizantes (ou pessoas vestidas de simpatizantes), a trilha pontua o aspecto sombrio de um momento no qual o argumento foi morto em nome do grito e da ameaça. Há um clima forte de violência no ar enquanto passam carros de som e aparelhagens nas quais vemos as “novinhas” dançando, os comícios espetaculosos com dançarinos e dançarinas de pernas musculosas e palavras como “mudança”, “novo” e “futuro” sendo repetidas continuamente pelos candidatos em ambos os palanques.

 

Mayara já mapeou todos esses elementos, assim como o cansaço de parte do eleitorado, e é neles que ela tenta se concentrar, conversando em diversos lugares. Em um restaurante/boteco popular, acontece um dos diálogos mais emocionantes, onde pinçamos parte da construção de sua força e de sua visão política. Frente a um tio meio bêbado e descrente, típico representante do “contra tudo o que está aí”, ela defende seu candidato e suas propostas, defende o próprio fazer político. Assim, as histórias de vida entram em jogo: ela passa a dizer que sempre será grata a ele por ter ajudado sua mãe em um momento difícil. “Não passamos fome por sua causa. E eu acredito na política porque eu quero mudar as coisas, quero ajudar a minha mãe, ajudar as pessoas”. Ele beija a cabeça de Mayara e de sua namorada. Não está convencido, mas ali expressa seu carinho pela jovem e sua companheira. Parece pouco: mas em um momento no qual um candidato à presidência já falou em extermínio de minorias, há pura política ali.

 

A ideologia de Mayara, ao mesmo tempo, é flutuante como as coisas de agora: sua ideologia, demonstra, não está baseada em números ou cores, e sim no que ela acredita como certo (algo embebido ainda de uma certa meritocracia): “eu já votei no vermelho, agora voto no azul, se eu não gostar, mudo pro verde, pro preto, o que for”. É claro que o tempo e a noção do que é “certo” vão se reconfigurando ao longo dos anos, eleições após eleições. Mas Mayara ainda está em seu primeiro namoro com o tal “sistema” - e já pretende de certa maneira implodi-lo.

 

Usando o recurso clássico da observação direta, sem interferir diretamente nas personagens, Delaroche consegue fazer um filme potente e delicado. Alguma interação com Mayara, entretanto, teria sido importante, rica, além de fazer falta momentos mais interessantes da campanha do vereador – já que a dos prefeitos domina o filme. Talvez a própria personalidade do candidato, que obtém um número de votos abaixo das expectativas, justifique isso. Um senão é quando ele conversa com a moradora em uma das andanças, explicando para ela que quer fazer conselhos nos bairros para que as urgências de cada um sejam ouvidas e recebam atenção da prefeitura. Ela, desesperançosa, ouve com cuidado a proposta de sua participação nas decisões do município, mas no fim dá de ombros. É outro reiterado gesto de como o cansaço invadiu nossa epiderme, algo perigoso demais para toda e qualquer democracia. Silenciosos, resignados, votamos em quem grita mais alto, nos especializamos no kkkkkkkk e aumentamos o som.

 

 

 

CAMOCIM

Direção: Quentin Delaroche

Documentário, 76 min, 2017, Camocim de São Félix, livre

Elenco: Mayara Gomes e César Lucena

 

 

 

 

Fabiana Moraes é jornalista, escritora e professora do Núcleo de Design e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).  Colabora periodicamente com a Revista Piauí (https://piaui.folha.uol.com.br/colaborador/fabiana-moraes/) e é autora de cinco livros, dentre eles O Nascimento de Joicy (2015), Nabuco em Pretos e Brancos (2012) e Os Sertões:  um livro-reportagem (2010).

 

 

 

Editor responsável: Leonardo Nóbrega

 

 

 

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