A REPRESENTATIVIDADE DAS MULHERES NAS PÁGINAS DE ROMANCES FEMININOS

 

Jovem Mulher Lendo, de Gustave Courbet

 

 

 

Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. (...) Eis por que tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se (WOOLF, 1991, p. 45).

 

 

Em minha pesquisa de mestrado, mergulhei nas páginas de romances voltados para o público leitor feminino, comparando analiticamente obras que vão desde os folhetins até os chamados romances chick-lit, passando pela literatura sentimental vendida em bancas de jornal e representada pelas açucaradas coleções Sabrina, Bianca e Júlia. Essas obras, em sua maioria escritas por mulheres e para mulheres, trazem uma série de construções de gênero que enfrentaram inúmeras transformações e deslocamentos ao longo do século XX, oscilando, por exemplo, entre os sofrimentos amorosos de jovens mocinhas órfãs até os dilemas e desafios das chamadas “mulheres modernas”. O nicho da “literatura de mulherzinha”, a despeito dos rótulos de “literatura de segunda classe” e de menor importância, voltada para o entretenimento, joga luzes sobre os avanços e recuos de temáticas comumente associadas ao “feminino” na sociedade ocidental, tais como relacionamentos amorosos, casamento, maternidade, sexualidade e idealização do corpo. Mais ainda, nos permite uma reflexão sobre a produção literária e a representatividade feminina na literatura.

 

A discussão sobre mulheres e literatura não é novidade: em Um Teto Todo Seu, ensaio publicado ainda no começo do século XX a partir de duas conferências realizadas em faculdades inglesas exclusivamente femininas, a escritora Virgínia Woolf discorre precocemente sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que se aventuram no mundo das letras, tal como a desqualificação de suas habilidades artísticas e intelectuais, a falta de autonomia e a profunda dependência financeira e material. No centro desta arena está a questão da representatividade feminina na literatura, já que muito foi escrito sobre as mulheres na história ocidental, mas a proporção de autoras perdura menor que a de autores, mesmo naqueles gêneros literários que se consagraram como “femininos” por seu caráter confessional, tais como diários, biografias ou poesias.

 

Tanto no caso dos folhetins como nos romances sentimentais da coleção Biblioteca das Moças, publicados pela Companhia Editora Nacional de 1935 até 1960, com uma breve tentativa de retorno em 1983, chamavam atenção obras que giravam em torno de temáticas “femininas”, direcionadas às mulheres, mas assinadas por homens. As narrativas, centradas na sentimentalidade, na emoção e no recolhimento da figura feminina ao espaço doméstico, indicavam valores edificantes e comportamentos que deveriam ser seguidos - ou ao menos almejados - por suas leitoras, compondo uma espécie de “cartilha” de modelagem das subjetividades femininas.

 

Acompanhando uma série de transformações sociais e políticas, os “romances de banca” passaram a ser publicados na década de 1970 pela editora paulista Abril Cultural. Com encadernações baratas, feitas de papel jornal, e um happy ending garantido após muitos desafios enfrentados pelo casal protagonista, esses romances trouxeram pelo menos duas grandes mudanças para o cenário da literatura feminina brasileira: as descrições de relações sexuais mais ou menos explícitas, de acordo com a coleção em que o romance era publicado, e a assinatura majoritariamente feminina dessas obras. Não à toa, tais obras logo se tornaram objeto de desdém daqueles que prezavam pela “moral e os bons costumes” e pela difusão da alta cultura, passando a ser ignoradas por estudiosos e desqualificadas pela crítica literária apesar de seus impressionantes números de vendas - em um país onde o consumo de livros não religiosos sempre atingiu números baixos em comparação a outros lugares, era assombroso um registro de tiragem que chegava a quase seiscentos mil exemplares por mês (RUSSO, 2012).

 

O caso dos romances femininos exemplifica muito bem a forma como inúmeras produções culturais são socialmente compreendidas e valorizadas, sendo hierarquicamente ordenadas segundo uma lógica "generificada" que desqualifica e restringe o alcance de tudo que é compreendido como “feminino”. Segundo a pesquisadora Regina Dalcastagnè, “enquanto os homens escrevem simplesmente ‘literatura’, em geral se considera que as escritoras estão produzindo ‘literatura feminina’ – e o adjetivo marca uma posição subalterna, menos legítima”[1].

 

Para além dos rótulos, que durante muito tempo dificultaram o acesso e marginalizaram o trabalho artístico feminino, a falta de reconhecimento e a baixa visibilidade permanecem como desafios a serem enfrentados por escritoras. Ainda que a leitura seja um hábito majoritariamente feminino, segundo pesquisas como o mapeamento Caminhos da Leitura no Brasil (2011), tornar-se um escritor reconhecido permanece sendo algo muito difícil - especialmente se você é uma mulher. Diante deste cenário, campanhas como a #LeiaMulheres e protestos contra a limitada participação de escritoras em eventos e feiras literárias, a exemplo dos ocorridos contra à Festa Literária de Paraty (Flip) em anos passados, são estratégias necessárias e de fôlego.

 

A rejeição recente dos jurados da Academia Brasileira de Letras (ABL) à campanha de eleição de Conceição Evaristo – extensamente difundida nas redes sociais - como uma de suas membras expõe justamente o conflito em voga no presente: por um lado, ficam explicitas as dificuldades femininas de acesso a espaços legítimos de prestígio e reconhecimento literário, por outro, confluem a expansão de mobilizações feministas para a promoção do trabalho intelectual de mulheres e a inegável força e relevância da produção do grupo na literatura, dessa vez não apenas figurando como musas, mas enquanto donas de suas próprias histórias, senhoras de suas narrativas.

 

 

Vale saber: a dissertação “Literatura de Mulherzinha”: gênero e individualismo em romances chick-lit ganhou o Concurso Brasileiro de Obras Científicas e Teses Universitárias em Ciências Sociais em 2017. O livro baseado nesta pesquisa será lançado pela Editora 7 Letras no dia 22 de outubro de 2018, durante o 42º encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

 

 

NOTAS


[1] Fonte: Jornal da USP, ano XIX, nº 730, 2004. Disponível aqui. Acesso em 30 de Agosto de 2018.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Instituto Pró-Livro. Pesquisa Caminhos da Leitura no Brasil, 2011.

 

SANTOS, Jaqueline Sant’ana M. dos. “Literatura de Mulherzinha”: gênero e individualismo em romances chick-lit. Editora 7 Letras, 2018. [no prelo].

 

RUSSO, Aline. “Romeu e Julieta nas Bancas de Revista”. Memória, vol. 18, nº. 2, 2012.

 

WOOLF, Virginia. Um Teto Todo Seu. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

 

 

 

Jaqueline Sant’ana Martins dos Santos é doutoranda em Ciências Humanas com concentração em Sociologia no Programa de Pós-Graduação de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É especialista em Gênero e Sexualidade pelo Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

  

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

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