COLAGEM COM PERGUNTAS SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO


Identidade Ignorada, de Carlos Zilio. 1974. Reprodução fotográfica: Fabio Praça/Itaú Cultural.

Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra33738/identidade-ignorada>.




A composição


Dividi 3 fragmentos de texto de tamanhos não muito desiguais entre si em 49 partes numeradas, gerei uma sequência aleatória de números de 1 a 49 com 49 números inteiros únicos, e reordenei as partes dos textos originais de acordo com essa sequência, fazendo pequenos ajustes de pontuação para evitar apenas aquelas incongruências sintáticas mais aberrantes [1].


O procedimento não é original e é basicamente o mesmo descrito por Tristan Tzara em “Receita para fazer um poema dadaísta”.


Os textos sobre os quais intervi foram: a) alguns versos escolhidos da canção “Podres poderes”, lançada por Caetano Veloso no álbum “Velô” de 1984; b) o parágrafo final da tese de livre docência “Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico”, defendida por Fernando Henrique Cardoso às vésperas do golpe de 1964; c) um trecho entre parênteses do texto de apresentação que o crítico de arte Frederico Morais escreveu para a série de 10 pinturas e 100 litografias “Cenas da vida brasileira”, do pintor João Câmera Filho.


O tom interrogativo e a tematização de algumas fantasmagorias tão brasileiras de autoritarismo político e subdesenvolvimento socioeconômico são os elementos comuns a esses três textos e que me encorajaram a seguir com esse experimento de colagem.



*



O poema


Plínio, Gregório, Filinto Muller, Oswaldo Aranha, José Américo ou Carlos Lacerda, isto é por abdicar de uma vez por todas de tentar a hegemonia plena da sociedade, satisfeita já com a condição de sócio menor do capitalismo ocidental e de guarda avançada da agricultura que muito lentamente se capitaliza.

Ou que seguram o rosto decepado ou que seguram, ou então cada paisano e cada capataz.

Vemos outras mãos autoritárias: será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica.

– “1937” –

As decisões fundamentais não dependerão apenas da burguesia industrial que, parece, optou pela "ordem", trêmulas ou firmes, como nos deuses orientais, na forma de um sigma, o revólver assassino ou suicida, que se destacam do corpo tanto quanto às camisas e demais peças do figurino estado-novista.

Será, será que será que será que será enfim, as mãos do próprio artista, capazes de fazer do titereiro-mor um maneta e mãos que manobram com habilidade, e qual será a capacidade de organização e decisão de que serão capazes, discursantes, inquisitivas, limpas.

Terá que soar, terá que se ouvir.

Estreita-se a cada dia a faixa de compromissos possíveis como se fossem bonecos, contra o rosto frágil e assustado do líder comunista, será que apenas os hermetismos pascoais na retórica de gestos desta série, que se multiplicam pelo corpo, os atores secundários da cena política, e quantas vezes mais nos salvam, nos salvarão dessas trevas por mais zil anos?

As possibilidades de manutenção deste malabarismo não são contudo ilimitadas ou que se apresentam enormes.

Ameaçadora como a que se estende, que sempre precisará de ridículos tiranos?

Vejam, são mãos limpas, será que essa minha estúpida retórica e nada mais?

Com sua burrice fará jorrar sangue demais os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais pedindo um basta, no limite a pergunta será então, subcapitalismo ou socialismo?

E nos Gerais?

Resta verificar qual será a reação das massas urbanas e dos grupos populares – sujas, nos pantanais, nas cidades, caatingas como que dizendo.




NOTAS


[1] Gerador de números aleatórios disponível em: <https://www.4devs.com.br/gerador_de_numeros_aleatorios>.



REFERÊNCIAS


CARDOSO, Fernando Henrique. (1964), Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Difusão Europeia do Livro.


MORAIS, Frederico. (1980), Texto de apresentação a Cenas da Vida Brasileira. 10 pinturas e 100 litografias de João Câmara Filho. Recife, Prefeitura da Cidade do Recife.


VELOSO, Caetano. Podres poderes. Letra disponível em: <https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44764/>.




Pedro Henrique Santos Queiroz é Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Tem graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor substituto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Contato: queirozsantoshenriquepedro@gmail.com

Como citar esse texto: Santos Queiroz, Pedro Henrique. (2020), “Colagem com perguntas sobre o autoritarismo brasileiro”. Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/11/03/COLAGEM-COM-PERGUNTAS-SOBRE-O-AUTORITARISMO-BRASILEIRO

Editora responsável: Vitória Gonzalez









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