HAOS CONVIDA UNILAB - DOSSIÊ ESPECIAL: AS HUMANIDADES E OS EFEITOS DA COVID-19

 

Mark Bradford, 1961 - EUA.

 

 

 

Dossiê especial 

As humanidades e os efeitos da Covid-19:

reflexões a partir da Unilab

 

 

A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) foi criada em 2010, com a missão de contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP, especialmente os países africanos. Surgiu em um momento político específico, marcado pelas políticas de expansão do ensino superior público brasileiro e também por ações que visavam descolonizar os currículos escolares e combater a exclusão da população negra das universidades públicas e privadas.

 

São diversas as inovações propostas pela Unilab, entre elas, a interdisciplinaridade como eixo fundamental; a internacionalização baseada na cooperação Sul-Sul e na reconstrução da histórica relação com o continente africano; a interiorização, a partir da região nordeste, especialmente em territórios simbólicos para a história de resistência da população negra à escravidão, no recôncavo baiano e no Maciço do Baturité cearense. Na prática, esses princípios se expressam a partir de uma formação inicial em dois ciclos (bacharelados interdisciplinares e “terminalidades”), com reservas de metade das vagas para alunos provenientes dos países da lusofonia, especialmente africanos e do Timor-Leste. Além disso, os currículos refletem essas inovações, por exemplo, no âmbito das humanidades, em que há centralidade dos estudos africanos e diaspóricos, interseccionalidades e epistemologias do Sul.  

 

A Unilab, ainda que conviva com fortes desafios para sua consolidação como uma univesidade pública em cidades do interior do Ceará e da Bahia, representa um espaço inovador para reflexões epistemológicas e construção de conhecimentos e práticas pedagógicas no campo das humanidades. É possível pensar a existência, dentro da universidade, de certo laboratório decolonial. Como reflete Catherine Walsh (2013), um espaço de práticas que não chega a um ponto zero da colonialidade, inexistente de acordo com a autora, mas como um espaço que busca incidir, transgredir, resistir à colonialidade. Nesse sentido, como afirma Walsh, “lo decolonial denota, entonces, un camino de lucha continua en el cual se puede identificar, visibilizar y alentar “lugares” de exterioridad y construcciones alter-(n)ativas” (Walsh, 2013, p.25).

 

Por meio da parceria editorial com a revista Horizontes ao Sul, cujo engajamento e dedicação a este projeto fez toda a diferença, reunimos textos que refletem criticamente sobre as múltiplas dimensões da grande emergência sanitária dos nossos tempos, marcadas pela proliferação global do novo coronavírus (SARS-CoV-2), fator que contribui para agravar o processo de crise civilizatória, que compreende aspectos econômicos, políticos, ambientais, sociais. Os ensaios, produzidos por professoras/es da Unilab e convidados/as da Bahia e Ceará, evidenciam aspectos particularmente sensíveis para a comunidade acadêmica da universidade, mas, muitas vezes, pouco evidenciados pelos meios de comunicação e pelos debates acadêmicos mais gerais.

 

Marcadas pela mobilização de saberes interdisciplinares, as análises combinam diferentes espaços e territórios - do quilombo ao urbano, da casa ao roçado, do global ao local - com sujeitos marcados por múltiplas identidades e lugares políticos - imigrantes, prostitutas, população LGBTQI+, quilombolas, mulheres periféricas, mães, etc.

 

Esta diversidade temática abre nosso campo de visão para compreender a realidade social, política e cultural no atual contexto da pandemia provocada pela Covid-19. Reflexões que vão desde a análise de políticas linguísticas nos países africanos de língua portuguesa e no Brasil, passando pela situação complexa dos imigrantes e refugiados que precisam enfrentar um conjunto de dificuldades em meio a crise sanitária que se abateu sobre todos e todas. Conforme apontam diferentes indicadores nacionais e internacionais, a quarentena e o isolamento social impostos pela pandemia têm causado impactos significativos nas mulheres e, particularmente, naquelas que são mães. Se antes da pandemia a divisão sexual do trabalho penalizava mais diretamente as mulheres, de acordo com um dos textos da coletânea o quadro piorou bastante. De modo geral, as mulheres tem sido obrigadas a se encarregar do trabalho doméstico do dia a dia e do cuidado com as crianças e de pessoas doentes na família, prejudicando-as em seus trabalhos profissionais e autocuidado. Para agravar ainda mais a situação, índices de violência doméstica e sexual aumentaram substantivamente durante o isolamento social, atingindo todas as classes sociais, especialmente as mulheres da classe trabalhadora.

 

Em meio a tudo isso, tem-se observado contradições graves na condução da crise de saúde pública por parte do governo federal e dos governos estaduais e municipais, afetando de forma desproporcional grupos que já eram socialmente vulneráveis pelo racismo, sexismo e lgbtfobia. Do mesmo modo, tem surgido por todo o país um sem número de ações e articulações oriundas da sociedade civil e dos movimentos sociais de apoio e solidariedade para os segmentos que mais demandam auxílio neste momento tão difícil e desafiador.

 

Enfim, a presente coletânea de textos apresenta um leque de leituras e perspectivas sobre a realidade social atual face à pandemia da Covid-19. Esperamos oferecer a vocês momentos de leitura crítica e de abertura de horizontes políticos alicerçados na esperança de um mundo melhor e mais justo.

 

 

 

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SUMÁRIO

 

Pandemia, “agro”, e “sofrência”

Luciana Schleder Almeida 

 

Maternidades em tempos de isolamento social

Michely Peres de Andrade e Maria Alda de Sousa Alves 

 

As metamorfoses do mal: iconografia e imaginário em épocas de pandemia

Patrício Carneiro Araújo

 

Políticas linguísticas para a pandemia: Angola, Brasil, Moçambique e Timor-Leste em foco

Alexandre Cohn da Silveira

 

O governo Jair Bolsonaro e a política externa brasileira de enfrentamento à Covid-19

Magno Klein 

 

Para além da pandemia e das desigualdades, o axé como utopia urbana em pequenas cidades

Eduardo Gomes Machado, Regina Balbino da Silva e Maria Valdelia Freitas 

 

Nós por nós: redes de enfrentamento à Covid-19

Vera Rodrigues

 

Casa oprime, a Rua autoriza

Fabiano Saft 

 

Imigrantes, direitos e a pandemia da Covid-19

Carla Craice da Silva e Luís Felipe Aires Magalhães

 

Entre a Necropolítica Mundial, Estigmas e os Saberes Africanos: o legado da África no combate à Covid-19

Paulo Gomes Vaz 

 

Sociabilidade à mesa em tempos de pandemia

Fabiana Paixão Viana

 

Quem lava? Quem cuida? O trabalho (in)visível e a pandemia

Coletivo MUPPS 

 

 

 

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Para baixar o dossiê, clique na imagem:

 

 

 

 

 

 

Marcio André dos Santos é professor adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), Campus dos Malês/BA e atua nos cursos de graduação de Humanidades e Ciências Sociais. Possui doutorado em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp-Uerj). Tem se dedicado a pesquisa sobre movimentos sociais, movimentos negros comparados, políticas de ação afirmativa, relações raciais e teoria do reconhecimento.

 

 

Clarisse Paradis é cientista política e professora adjunta da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), Campus dos Malês/BA. Atualmente tem se debruçado sobre o tema da prostituição, especialmente a partir das regulações institucionais e de suas conexões com a teoria política e teoria feminista. 

 

 

 

 

Como citar esse texto: SANTOS, Márcio André dos; PARADIS, Clarisse. (2020), "Apresentação", In: Dossiê especial - As humanidades e os efeitos da Covid-19: reflexões a partir da Unilab. Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/09/10/HAOS-CONVIDA-UNILAB-DOSSIE-ESPECIAL-AS-HUMANIDADES-E-OS-EFEITOS-DA-COVID-19 

 

 

 

 

Editoras Responsáveis: Luna Ribeiro Campos, Marcia Rangel Candido e Vitória Gonzalez

 

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