O CORONAVÍRUS NA HISTÓRIA DAS EPIDEMIAS E DAS MUDANÇAS SOCIAIS

12 Aug 2020

 

Diego Rivera, Llegada de Hernan Cortés a Veracruz, 1951.

 

 

A classificação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) dos surtos de COVID-19 como pandemia em março de 2020 e a crise econômica associada à expansão da doença produziram um senso de ruptura [1]. Nesse novo horizonte, a doença é agora um fenômeno mundial, propulsor de transformações globais. Este texto apresenta algumas das lições da sociologia histórica e das teorias do sistema-mundo, a fim de situar a pandemia de COVID-19 na longa relação entre sociedades, seus espaços e epidemias [2]. Ao colocar a questão em uma perspectiva histórica e sociológica abrangente, essas literaturas moderam a percepção de ineditismo e nos recordam da perpétua repercussão das doenças no desenvolvimento das sociedades. Epidemias manifestam a extensão das relações humanas e algumas de suas principais dinâmicas, impulsionando transformações de larga escala na antiguidade, precipitando o surgimento da modernidade e, como sugere a crise do coronavírus, suscitando novas indeterminações e possíveis mudanças no mundo contemporâneo.

 

Sistemas sociais são grandes reservatórios epidemiológicos. A despeito da lentidão dos transportes pré-modernos, uma doença infecciosa originada em um ponto de determinado sistema acaba se espalhando por toda sua extensão. Em um mundo onde não havia vacinas, as doenças matavam as pessoas suscetíveis, deixavam sequelas nos sobreviventes e, finalmente, poderiam não encontrar mais condições para a erupção de um surto. Com o efeito da imunidade e de condições favoráveis (aos humanos), as doenças ficam então latentes no sistema social afetado, raramente sendo erradicadas — como ilustra a reemergência recente do sarampo em vários países. 

 

Surtos epidêmicos são tão antigos quanto a relação regular entre animais e grupos numerosos de humanos. Semelhantemente ao caso do coronavírus, outras epidemias ao longo da história humana derivam de zoonoses. Vírus ou bactérias se adaptam e são menos agressivos em determinados animais, coexistindo em equilíbrio com seu hospedeiro. Transmitidos a humanos, eles podem mutar, se reproduzir e causar doenças. Tal é o caso de doenças como varíola, sarampo, gripe, peste bubônica, entre outras. A domesticação de animais no contexto de formações sociais sedentárias foi a principal fonte de doenças infecciosas ao longo da história. As condições para o compartilhamento de eventuais patógenos realizam-se na proximidade com gado, porcos, aves, cães, gatos e cavalos, em habitações que pouco os separam de humanos. O vírus que causa o sarampo, por exemplo, tem origem em bois e vacas.

 

O limite geográfico das epidemias equivale ao limite das relações humanas. Como evolui então a geografia das relações sociais ao longo do tempo? Por milênios, grupos sociais locais e regionais permaneceram relativamente isolados, com rivalidades militares e conexões culturais e econômicas pontuais. Suas relações expandiram-se até que, no século VI AEC [3], emergem três grandes sistemas sociais: o americano, o leste asiático e o central. O sistema social americano permanece pouco conectado com os restantes até as invasões europeias a partir do final do século XV. O leste asiático engloba regiões que vão da Índia à Manchúria, enquanto o sistema chamado de central refere-se às regiões que englobam a Europa, o norte da África e se estendem até o atual Irã. Esses dois sistemas mantêm laços culturais e de comércio relevantes. Sua intensificação produzirá um sistema afroeuroasiático unificado [4]. A partir do século XVI, a região europeia desse sistema — até então uma semi-periferia — inicia uma expansão que culmina na formação de um sistema social planetário e capitalista. É nesse sistema que vivemos hoje [5].

 

Na trajetória de expansão das relações entre humanos, doenças e epidemias foram marcantes na dinâmica social da antiguidade (McNeill, 1976, cap. 3). O vale do rio Yangtzé só foi consistentemente ocupado pelas forças da dinastia Han, constituindo as bases territoriais da civilização chinesa, após cinco séculos de esforço contra as doenças das regiões mais quentes ao sul. A maior fragmentação territorial e volatilidade política da Índia antiga pode ser lida como resultado das constantes vicissitudes sociais desencadeadas pela malária e pela dengue. No primeiro século da Era Comum, esses desenvolvimentos entre humanos e patógenos desembocaram em quatro reservatórios epidemiológicos: no Crescente Fértil [6], no leste asiático, no subcontinente indiano e no mediterrâneo. A partir desse momento, o maior contato entre essas áreas — principalmente comercial, com a rota da seda — faz esses reservatórios transbordarem. Inicia-se um longo período de crises epidêmicas e de adaptação epidemiológica das populações que não somente equivale ao processo de articulação de um sistema social afroeuroasiático, mas também se relaciona com o declínio das civilizações da antiguidade. No império romano do ocidente, surtos nos primeiros séculos da Era Comum, como a peste antonina, podem ser considerados como um dos vetores relevantes de seu colapso.

 

As epidemias assumiram igualmente um papel central no surgimento da modernidade. A formação da sociedade planetária capitalista atual conta com pelo menos dois episódios, nos quais as doenças são fatores importantes: a Peste Negra na Europa do século XIV e o genocídio das populações americanas no contexto da invasão europeia do século XVI.

 

A Peste Negra, cujo patógeno é uma bactéria (Yersinia pestis) transmitida por pulgas, é um dos fenômenos históricos associados à emergência do capitalismo na Europa. A principal hipótese é que a doença teve origem no leste asiático e chegou à Europa por navios comerciais que traziam, além de suas cargas, ratos com a pulga transmissora. As estimativas são espetaculares e apontam a morte de 1/3 à metade da população europeia durante o século XIV [7]. A economia de redistribuição e reciprocidade num quadro político de chefaturas fragmentadas territorialmente — o que a historiografia europeia convencionou como feudalismo — é gravemente afetada pela epidemia. Acelera-se então a transição a uma economia de mercado. A drástica redução do número de camponeses teria, por um lado, aumentado seu poder de barganha junto aos senhores locais. Pressionados a entregar mais trabalho e tributos, eles se revoltavam ou fugiam para cidades — para ganhar a vida de modo assalariado. Por outro lado, nesse contexto de crise das rendas de seus domínios, os senhores expandiram a comercialização da produção agrária, a fim de compensar as perdas dos rendimentos servis. A epidemia não foi fator único ou determinante na ampliação do papel do mercado na Europa e no surgimento do capitalismo planetário. No entanto, ela é seguramente um dos elementos relevantes no conjunto de suas causas (Chase-Dunn e Lerro, 2013, p. 214; Anievas e Nişancıoğlu, 2015, cap. 3).

 

A invasão europeia das Américas é motivada justamente pelo impulso comercial da Europa e representa um momento chave na expansão do capitalismo e na constituição de um sistema social planetário. Iniciam-se relações culturais, econômicas e coercitivas que — apesar de muito assimétricas — eliminam a divisão entre o mundo afroeuroasiático e o americano, além de eliminar as barreiras entre as duas reservas epidemiológicas. A rápida ocupação e exploração econômica das Américas por europeus deve-se parcialmente a uma vantagem tecnológica de seus transportes e armamentos. Afinal, África e Ásia — regiões muito mais promissoras economicamente do que as Américas nesse contexto — são invadidas apenas no século XIX. Largamente excedidos em número, os europeus tiveram nas doenças a principal vantagem contra os habitantes das Américas. Varíola, sarampo, gripe e tifo eliminaram 95% dos cerca de 20 milhões de habitantes da região do Império Asteca em pouco mais de um século (Diamond, 1997, cap. 3). Na região onde hoje encontra-se o Brasil, ¾ da população originária desapareceu até o início do século XVII. A drástica redução dos povos nativos pelas doenças do sistema central permitiu que as forças europeias se impusessem militar e economicamente. A integração das Américas ao sistema afroeuroasiático funda então o sistema social planetário capitalista.

 

 

 Azteca vítima de sarampo, Codex Florentino, século XVI.

 

 

Dois aspectos do avanço técnico e econômico de nosso momento histórico estão relacionados a novos riscos epidemiológicos: a intensificação do extrativismo animal e a revolução da produção animal. Na China, por exemplo, a expansão capitalista, a maior densidade mercantil e o aumento do poder de compra de sua população estimulam a maior amplitude do extrativismo animal, criando as condições para a emergência de novas variantes de infecção respiratória humana. Origem da COVID-19, o contato mais amplo e regular entre pangolins e humanos sucede nesse moderno quadro de extrativismo animal em maior escala e de riscos ascendentes no contato com animais silvestres [8]. Quanto às espécies domesticadas, o risco de novos patógenos vem dos métodos e escalas industriais de criação animal. A reunião de um grande número de animais, sua alteração e homogeneização genética e o manejo confinado em ambientes estressantes configuraram condições para o surgimento de focos da gripe aviária. Esse modelo de produção de alimentos em larga escala tem o potencial de fazer aparecer ainda muitas novas doenças similares (Wallace, 2016; Davis, 2020).

 

A pandemia de coronavírus pode ser um ponto significativo em um curso mais amplo de transformações sociais. Como sugerem os casos da Peste Negra e da invasão europeia das Américas, as epidemias precipitam mudanças sociais não instantâneas, mas de larga escala, tectônicas e profundas. O que pode então mudar no mundo social da primeira metade do século XXI? Se as ciências sociais estiverem corretas em diagnosticar o presente com base na noção de capitalismo global-neoliberal-financeirizado [9], a COVID-19 agrega-se como mais um fator de tensão para esse modelo, somando-se a outros vetores de sua lenta metamorfose. Foi esse o caso da transição entre diferentes fases do capitalismo global dos últimos duzentos anos. Longos acúmulos de desagravos moleculares articulam-se a sequências de grande crises e momentos de indeterminação. Possivelmente essa não é a última crise da forma atual do capitalismo. Porém, a crise da pandemia de COVID-19, na esteira das crises econômicas e humanitárias das últimas duas décadas, sugere um horizonte de metamorfoses. 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ANIEVAS, Alexander; NIŞANCIOĞLU, Kerem. (2015), How the West came to rule. London, Pluto Press.

 

ARENTI, W.; FILOMENO, F. (2007), "Economia política do moderno sistema mundial: as contribuições de Wallerstein, Braudel e Arrighi". Ensaios FEE. v. 28, n. 1, pp.99-126.

 

DIAMOND, Jared. (1997), Guns, germs and steel: a short history of everybody for the last 13,000 years. New York, W. W. Norton.

 

DAVIS, Mike. (2020), The Monster Enters: COVID-19, Avian Flu and the Plagues of Capitalism. New York, OR Books, 2020.

 

EPSTEIN, Gerald A. (ed.). (2005), Financialization and the world economy. Cheltenham: Edward Elgar Publishing.

 

FRANK, Andre Gunder; GILLS, Barry (eds.). (1993), The World System: The world system: 500 years or 5,000? London: Routledge.

 

GRININ, L.; KOROTAYEV, A. (2012), "The Afroeurasian World-System: Genesis, Transformations, Characteristics". In: BABONES, S.; CHASE-DUNN, C.(eds.). Routledge Handbook of World-Systems Analysis. London-New York: Routledge, p. 30-41.

 

LOPES, Reinaldo José. (2020), "Perigo são patógenos originados dos animais silvestres, diz Jared Diamond". Folha de São Paulo, Cotidiano, 13 de junho de 2020. Disponível (on-line) em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/06/perigo-sao-patogenos-originados-dos-animais-silvestres-diz-jared-diamond.shtml

 

MCNEILL, William. (1976), Plagues and peoples. Anchor: Garden City, NY.

 

SKOCPOL, Theda; MISKOLCI, Richard. (2004), "A imaginação histórica da sociologia". Estudos de Sociologia, v. 9, n. 16.

 

VIEIRA, P. A.; VIEIRA, R. L.; FILOMENO, F. A. (orgs). (2012), O Brasil e o capitalismo histórico: passado e presente na análise dos sistemas-mundo. São Paulo: Cultura Acadêmica Editora.

 

WALLACE, Rob. (2016), Big farms make big flu: dispatches on influenza, agribusiness, and the nature of science. New York: NYU Press.

  

 

 

NOTAS

 

[1] Este texto baseia-se nas reflexões apresentadas pelo autor no Programa UFPel Talks “Sociologia: a pandemia e o mundo pós-pandemia”, com Elaine Leite, Simone Gomes e Diogo Corrêa em 25 de junho de 2020. Programa disponível em: https://www.facebook.com/ufpel/videos/703305930450239/. O autor agradece a leitura atenta e as sugestões de Simone Gomes, Pedro Borba e Caroline Fujihara, que aperfeiçoaram significativamente o texto, e a revisão de Bianca Bergmann do Núcleo de Revisão de Textos UFPel.

 

[2] Para uma introdução aos princípios dessas correntes, ver Skocpol e Miskolci (2004), Arenti e Filomeno (2007) e Vieira, Vieira e Filomeno (2012).

 

[3] Seguindo historiadores que trabalham com longas temporalidades, substituímos o uso de AC/DC (antes de Cristo / depois de Cristo) por antes da Era Comum (AEC) e Era Comum (EC). As datas continuam as mesmas, mas dispensam a referência à cristandade, expressão de uma experiência cultural apenas parcial e particular.

 

[4] Para um resumo das formulações no âmbito da teoria do sistema-mundo sobre a formação do sistema afroeuroasiático, ver Grinin e Korotayev (2012).

 

[5] Sobre essa longa dinâmica de expansão e unificação dos sistemas sociais, ver o debate em Frank e Gills (1993).

 

[6] Região da Afroeurásia que abrange do vale do Rio Nilo, passando pela Palestina, até a Mesopotâmia.

 

[7] Embora o episódio mais famoso da Peste Bubônica na Europa tenha acontecido no século XIV, seus surtos continuaram até o começo do século XIX, de acordo com Snowden (2019).

 

[8] Ver a entrevista de Lopes (2020) com o biogeógrafo Jared Diamond.

 

[9] Embora longo e deselegante, esse sobrenome do capitalismo contemporâneo tem a virtude de condensar suas principais características, como propõe, por exemplo, Epstein (2005).

 

 

 

Rodrigo Cantu é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

E-mail: rodrigo.cantu@ufpel.edu.br

 

Como citar esse texto: Cantu, Rodrigo. (2020), "O coronavírus na história das epidemias e das mudanças sociais". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/08/06/O-CORONAVIRUS-NA-HISTORIA-DAS-EPIDEMIAS-E-DAS-MUDANCAS-SOCIAIS

 

 

 

Editores Responsáveis: Simone Gomes  e Pedro Borba

 

 

 

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