“NEUTROS SÃO OS SUÍÇOS”. CULTURA E POLÍTICA NO MERCADO EDITORIAL ARGENTINO [1]

 

Imagem retirada da publicação original da revista Spóiler

 

 

 

“Há quinze dias o país fala de um livro. O livro voltou a ter um protagonismo bastante inusitado e pouco frequente na vida argentina...”. Quem fala é Juan Ignacio Boido, diretor editorial da Penguin Random House, logo depois de repassar as eloquentes cifras de venda de Sinceramente, o livro que Cristina Fernández de Kirchner apresentou ontem na Feira do Livro[2]: 20 mil exemplares esgotados na primeira uma hora de venda depois de anunciada a sua publicação, 65 mil exemplares vendidos somente no primeiro dia, 300 mil exemplares distribuídos por todo o país em 15 dias. O vídeo que antecedeu a apresentação mostrava o processo de impressão, encadernação e distribuição do “fenômeno editorial mais exitoso da história argentina”, acompanhado por depoimentos de leitores: “dizem que se pode escutar a voz dela quando se lê”.


Algumas horas antes da apresentação, uma senhora com o livro recém comprado no stand da Penguin nos disse: “Comprei o livro de Cristina porque a amo, queria saber o que queria dizer a nós que a queremos escutar”. A uns metros um homem tira uma foto da sua namorada que acaba de comprar dois exemplares. Pelos pavilhões, militantes e simpatizantes percorrem os stands com suas camisetas de Evita, “abraça-me até que Cristina volte”, “não foi magia”, camisetas de organizações e até camisetas e lenços azuis com a capa do livro recém-lançado.


Na Feira os exemplares podem ser encontrados não só no stand da editora, mas também nos das cadeias de livrarias generalistas e até nos stands de “nicho”: um especializado em quadrinhos pôs à venda uma pilha de livros azuis para atenuar a baixa de 15% nas vendas que a maioria dos expositores admitem haver sofrido em comparação com o ano passado.

 


“Ninguém quer perder esse fenômeno que, ao mesmo tempo, enche de orgulho os editores (e acionistas) do maior grupo editorial da Argentina e do mundo, um dos poucos com a estrutura de impressão, logística e poder de fogo que este livro exigia, que dá um fôlego aos livreiros de todo o país e a uma quantidade enorme de pessoas que estavam esperando a palavra da ex-presidenta, mas sem imaginar que apareceria em forma de livro”.

 


No meio de tarde, o murmúrio dos tambores inundava timidamente os pavilhões da Feira. A multidão de militantes e simpatizantes se fez presente e, no stand do Grupo Outubro-Página/12, uma centena de pessoas começou a entoar cantos: “oh, vamos voltar, voltar”, “ei, gorila, ei, gorila, não te dizemos mais, se tocarem em Cristina, a confusão vai se armar”[3]. Os breves cânticos se replicavam em vários locais. A pequena multidão cresceu e, diante de um banner com uma fotografia de Eva Perón, entoaram as estrofes da marcha peronista mantendo para o alto um livro: Sinceramente.

 


“Em uma cultura política, a peronista, marcada pelo seu legado oral, por sua discursividade performática, teatral, que vincula multidões e líderes efetivando a proximidade corporal nesse vínculo; em uma cultura política caracterizada por sua oralidade musicalizada (cantos, hinos, marchas), irrompe a palavra escrita, que já não é um panfleto ou a transcrição de um discurso, é um livro”.

 


Mas Sinceramente não se apresenta nas periferias das unidades básicas peronistas ou no Instituto Patria, mas na sede da Sociedade Rural Argentina, no marco de um dos eventos culturais mais importantes do país: a 45ª edição da Feira do Livro. E ainda que alguns tentem manter a Feira à margem dos debates políticos – como templo fechado do conhecimento[4] -, esta cultiva públicos diversos, entre os quais não está ausente a população politizada, disposta ao debate tanto cultural quanto político.


Os modos como hoje se produzem e difundem livros na Argentina, articulados com o mundo midiático, as redes sociais e os mercados de massa, são fundamentais para entender a eficácia desses objetos em termos políticos e culturais. A editoras fornecem condições excepcionais para se “fazer política”, como potentes usinas de ideias, para além do retorno econômico que eles também recebem. A produção, circulação e difusão de Sinceramente por uma editora gigante promoveram a reaparição de Cristina no debate público, sua construção como autora que é capaz de centralizar as atenções da Feira e conduzir a apresentação mais disputada de suas edições. Quando seu livro chegou às prateleiras das livrarias do país, os jornalistas dos meios nacionais mais importantes se apressaram em resumir o livro, simplifica-lo, caracterizá-lo em três ou quatro ideias, apreendê-lo em formato jornalístico buscando suas implicações, seu êxito e sua derrota. Quiseram tratar o livro como se este fosse uma intervenção no Senado ou um discurso de campanha. Mas se depararam com um livro, um objeto indivisível e completo, bem recebido por um amplo setor da sociedade, que dele se apropriou de formas diversas e inesperadas.


Há décadas que os leitores argentinos posicionam os livros de política entre os mais vendidos. Cada conjuntura tem os livros que a discutem; o mercado editorial reage com produtos que buscam sensibilizar o leitor, ajuda-lo a viver e compreender uma época, a formar ou a reafirmar suas opiniões. Assim o identificava um perspicaz diretor editorial: “Eu estava seguro que com o kirchnerismo os livros de direta iam vender muito bem, coisa que ocorreu. Nos anos 90 os livros “antimenemistas” se vendiam muito bem (...), as pessoas gostam de se identificar com os livros que leem”. Os grandes grupos editoriais dominam essa produção; podem, além de identificar temas e autores, lançar grandes tiragens e promover campanhas de alto impacto. Sinceramente foi mais que um acerto: apresentado como o livro “mais inesperado do ano”, anunciado pela editora e pela ex-presidenta quase de forma simultânea, gerou uma enxurrada nas redes, nos meios de comunicação e, dias depois, à noite, na Feira.


Sinceramente foi publicado em um contexto específico, onde a palavra da ex-presidenta começava a se tornar escassa, sua voz se encheu de silêncios. Nestas circunstâncias, começava a se palpitar um interesse, uma necessidade de voltar a escutá-la, dando lugar a uma espera e uma especulação contínua. O livro, então, aparece em um momento de ausência da sua voz e, por isso, produz um efeito superlativo: 594 páginas que captam a palavra e a voz da líder peronista. Com efeito, o estilo da escrita de Sinceramente imita o registro da oralidade discursiva e faz parecer, como disse uma de suas leitoras, que se podia “escutar a voz dela quando se lê”.

 


“O recorde de vendas se explica, também, como efeito da preparação da espera: esse palpitar de ansiedades que Cristina consegue oscilando entre o silêncio e o uso da palavra. E é assim que “Cristina volta” quando se dirige a multidões e fala. Mas desta vez sua voz volta em forma de livro que, sem citar Flaubert, Cristina define como a palavra perfeita”.

 


Ao estudar a erosão de legitimidade do Antigo Regime na França, o historiador Robert Darnton considera o “efeito livro” frente a outras intervenções (inclusive impressas) mais efêmeras e fragmentadas. O livro tem sido um dos objetos mais privilegiados para a intervenção política, entre outras questões porque, além de se inserir em uma trama cultural e política mais ampla, pode perdurar no tempo, articular mensagens e discursos sob a ideia de uma totalidade, de “obra” que contém a mensagem de um autor. No debate público e político, os livros circulam e cobram legitimidade em um espaço heterogêneo de suportes e linguagens de forma distinta, não como simples acessório, mas como artefato cultural valorizado e apoiado em uma histórica crença coletiva. Assim, os livros, os autores e os selos editoriais funcionam como articuladores de sentimentos, sensibilidades e imaginários e são fundamentais para entender a formação da cultura política da nossa sociedade. O boom editorial e político de Sinceramente revela cruzamentos entre o mundo da cultura, política e o mercado: o livro é mercadoria e é também bem simbólico, é objeto de consumo e canalizador de sentimentos políticos.

 

 

NOTAS


[1] Nota do tradutor: A frase que dá título ao artigo foi proferida por Cristina Fernández de Kirchner na apresentação de lançamento do livro. Esse texto foi originalmente publicado pela Spóiler, plataforma mantida pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, a quem, junto aos autores, agradecemos a autorização para publicação. Acesso ao texto original em: http://espoiler.sociales.uba.ar/2019/05/12/para-neutrales-estan-los-suizos-cultura-y-politica-en-el-mercado-editorial-argentino/?fbclid=IwAR0nnjNVVQ1_RLsllvFAdShM3aDa2XzMKSspjOywmdguZzevpUv1LrgexZ0


[2] Nota do tradutor: O livro foi lançado no dia 9 de maio de 2019 na Feira do Livro de Buenos Aires.


[3] Nota do tradutor: “Gorila” é uma expressão utilizada no universo da política argentina para designar uma pessoa com posições antiperonistas, de direita, reacionária ou golpista.


[4] Ver: Pilar Rahola, la falsa doctora que odia el populismo. Em Página/12. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/192712-pilar-rahola-la-falsa-doctora-que-odia-el-populismo.
 

 

 

Ezequiel Saferstein é doutor em Ciências Sociais na Universidad de Buenos Aires (UBA). Docente e investigador assistente do CONICET, vinculado ao CeDInCI, da Universidad Nacional de General San Martin (UNSAM). 

 

Ana Trucco é formada em História. Bolsista de doutorado do CONICET, vinculada ao CeDInCI, da Universidad Nacional de General San Martin (UNSAM). 

 

 

 

 

Editor responsável e tradutor: Leonardo Nóbrega

 

 

 

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