FEMINISMOS, POLÍTICA E MÍDIA NO BRASIL

19 Nov 2020

 Folha de São Paulo, 6 de março de 1983.

 

 

 

Tenho concentrado minhas discussões no encontro de três palavras: mídia, política e feminismos. Na Ciência Política brasileira, ainda que com lastro histórico inegável, os estudos de mídia não costumavam ser tidos como centrais. As pesquisas feministas, por sua vez, ainda padecem com a necessidade de se afirmarem como “científicas” em disciplinas, congressos e periódicos do campo. Nessa dupla marginalidade, encontrei o desafio de falar de estudos políticos feministas de mídia. Embora já haja vários trabalhos sobre o tema desde a década de 90, eles cresceram a olhos vistos nos eventos científicos das Ciências Sociais e da Comunicação nos últimos anos (Sarmento, 2020a). Falar de mobilizações feministas recentes sem mencionar o papel das redes sociais digitais é praticamente impossível. Assistir ao jornalismo ordinário sem notar avanços evidentes - mais mulheres ouvidas como “especialistas”, cobertura mais respeitosa da violência e da legislação pertinente, pautas sobre desconstrução de padrões de beleza etc - é negar a força das diferentes faces do movimento feminista brasileiro, cuja pressão é um dos fatores responsáveis pelo reposicionamento da “velha mídia” frente às discussões sobre desigualdade de gênero.

 

Minha pesquisa de doutorado, com alguns resultados disponíveis na última edição dos Cadernos Pagu (Sarmento, 2020b), preocupou-se em entender como o movimento feminista “apareceu” na mídia de massa, especificamente em um jornal de grande circulação (Folha de S. Paulo), ao longo de quase um século, e como as ativistas feministas dialogavam com seus “retratos”. O uso do verbo “aparecer” para simplificar meu problema de pesquisa é proposital: o aparecimento público de sujeitos políticos nos meios de comunicação não diz respeito apenas ao visível, mas aquilo que também é silenciado; à forma como quadros de sentido são construídos; às pessoas que são legitimamente interrogadas como fontes e os temas agendados como relevantes. De 1921 a 2016, entre as sufragistas da primeira onda, o início de um ativismo 2.0, passando pela eleição e golpe contra nossa primeira presidenta, há mudanças significativas na forma como o movimento e suas atrizes foram mencionados em notícias, reportagens e artigos de opinião. Mas há também angustiantes permanências. Em minha pesquisa, chamo o que perdura, independente da “onda” analisada, de o “enquadramento do desvio”, como ilustro nos exemplos a seguir.

 

 

 

Texto da primeira onda (transcrição exata):

"A' sta. Mietta Santiago desta Capital, foi concedido pelo juiz eleitoral, o titulo de eleitora. É a primeira moça que se alista em Bello Horizonte. (...) No avarandado de sua residencia, á Av. Parahybuna, ensombreada de enormes "ficus-benjamim", a futura advogada recebeu o "reporter' curioso:

- Sente-se satisfeita, sta., com o despacho favoravel que o juiz eleitoral deu ao seu 112 requerimento?

- Sem duvida! É uma aspiração antiga por que bato desde os bancos do curso de preparatorio. (...)

- Mas, sta. Mietta Santiago, as suas companheiras do "Centro dos Prepatorianos", não devem estar menos alegres, pois não? (...) Alguém que estava do lado e conhecia o caso explicou: - Por que não se alistam as outras?

 - Ora, como assim! As outras companheiras...já se casaram...

(O feminismo nas alterosas -Dos coqueiros de Natal ás montanhas de Bello Horizonte, Folha da Manhã, 24/09/1928, Caderno Único, p.4)

 

 

Texto da segunda onda:

No entanto, mestra da etiqueta, Christine Yufon confessa que é difícil ensinar alguém a ser feliz: "Acredito, diz, que a maior força que une um homem e uma mulher é a harmonia (...) E também muita renúncia. O que é mais difícil ainda, porque depois dos movimentos feministas, as mulheres passaram a se achar extremamente competentes. Não que eu seja contra esses movimentos. Nem contra a competência (...) É importante lembrar que o homem, desde que o mundo existe, nasceu com a responsabilidade de ser forte, ser o machão, de lutar pela vida e pela mulher. Isso não é machismo, é o próprio princípio da vida” (Lições orientais para a felicidade, 28/04/1985, FSP, Mulher, p.1)

 

 

Texto da terceira onda:

Como quase todos os movimentos sociais, no entanto, o feminismo criou novas injustiças, produtos de exageros ou distorções de seus princípios. Uma delas transforma em suas vítimas as crianças. (...) O que não faz sentido é se criar um contingente de crianças inseguras, frustradas e incompetentes apenas para se satisfazer às exigências de um tabu social de que a mulher só é mulher na sua plenitude se tiver emprego fora de casa. É preciso acabar com essa desgraça do feminismo (Desgraça do feminismo, 20/10/1992, FSP, Opinião, p. 2).

 

 

Nesses três momentos temporais e analíticos distintos, em textos noticiosos ou opinativos, as feministas são tidas como “vilãs”, responsáveis pela degradação de ideais de feminilidade e família, em um processo de demonização já diagnosticado em outros países (Rhode, 1995). Com essa perspectiva de acompanhamento longitudinal, procurei documentar como indiscutíveis melhorias na cobertura de reivindicações feministas convivem com estereótipos persistentes das ativistas, reforçados ao longo de décadas. A despeito dessas imagens que engessam e estigmatizam a multiplicidade dos feminismos, vale pontuar que quando um jogador condenado por estupro afirma publicamente que “infelizmente, o movimento feminista existe”, ele também reconhece que a mesma mídia que o escuta não pode - mesmo que ainda tente - ignorar a força das vozes feministas: amplificadas pelas redes sociais, cada vez mais jovens, expressas nas candidaturas de 2020 e nas disputas cotidianas por uma vida mais justa para as mulheres.

 

 

*

 

Para ler mais sobre a pesquisa da cobertura da mídia brasileira ao movimento feminista, consulte: SARMENTO, Rayza. (2020), “O feminismo no jornalismo". Cadernos Pagu, 58, p.1-36. https://doi.org/10.1590/18094449202000580002

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

RHODE, Debora. (1995), “Media images, feminist issues”. Signs. v.20, n.3, p. 685-710

 

SARMENTO, Rayza. (2020), “Mídia, gênero e política. Um balanço das pesquisas nacionais”. In MIGUEL, Luis Felipe; BALLESTRIN, Luciana. Teoria e política feminista: contribuições ao debate sobre gênero no Brasil, p.179-195.

 

 

 

Rayza Sarmento é Professora Adjunta da Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde coordena o GCODES - Grupo de Pesquisa em Gênero, Comunicação, Democracia e Sociedade. Doutora e mestra em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Jornalista pela Universidade da Amazônia (UNAMA).

https://sarmentorayza.wordpress.com/

 

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

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