UM MÊS PARA FLORDELIS E A CACILDA DE MARCO SEVERO

15 Oct 2020

 

Agosto é conhecido por ser amargo para presidentes da República. Em 1954, foi o mês em que Getúlio Vargas, com seu suicídio, encerrou a mais intensa campanha pública de perseguição a um líder político do século XX brasileiro, promovendo a ira popular contra seus opositores. Jânio Quadros, em 1961, acabou por marcar outro agosto com sua renúncia, cujo real propósito, inalcançado, era chamar o povo a lhe devolver ao poder. Em 1976, o oitavo mês do ano assistiu a Juscelino Kubitschek abandonar a frente ampla pela democracia por causa de um controverso acidente de trânsito, ainda suspeito de ter sido obra dos ditadores que combatia. Mais de meio século após o suicídio de Vargas, o agosto de 2016 viu o reformismo fraco petista sucumbir em um impeachment sem crime de responsabilidade que destituiu a presidenta Dilma Rousseff e abriu caminho para a reapresentação do neoliberalismo como agenda para o país. Mas agosto não é só isso. Para a Igreja Católica, por exemplo, esse mês é dedicado às vocações e seus fiéis são chamados a pensar sobre sua atuação no mundo, buscando entender se devem se dedicar à vida matrimonial ou à vida religiosa e, nessas duas, se se voltariam à ação pastoral, missionária, leiga, sacerdotal ou contemplativa. A rigor, os muitos cursos possíveis da vida caberiam nas opções listadas. Caberiam?

 

Para além da pandemia, o agosto brasileiro de 2020 pareceu comportar suas duas possibilidades já enunciadas. Por um lado, nos trouxe luz sobre o sombrio caso da pastora Flordelis, a mãe-esposa e mandante do assassinato de Anderson do Carmo, seu próprio filho-esposo e também pegureiro evangélico (apesar do sobrenome mariano). Por outro lado, o mesmo mês fez chegar às mãos de seus primeiros leitores a vida de Cacilda, personagem principal da novela inaugural de Marco Severo, Um dos Nomes Inventados para o AmorPara quem já leu os livros de contos e crônicas do autor, a obra não deixa de surpreender. Mas se pode dizer que o maravilhamento também encontrará certamente a quem vier a conhecer a literatura de Severo pelo contato com essa obra, marcada pela trama de uma mulher vocacionada a buscar, desesperadamente, o afeto que pensa lhe ter sido negado e não, necessariamente, encontrá-lo.

 

Os investigadores apontaram uma amargurada Flordelis diante do controle do marido sobre os ganhos obtidos com sua carreira musical, política e religiosa. Por causa disso, a líder neopentecostal teria arquitetado a morte do pastor-filho-esposo, com quem dividiu por mais de 25 anos a empreitada moral-pentecostal-empresarial de reunir mais de 55 filhos adotivos, afetivos e biológicos numa mesma casa, num mesmo projeto de igreja e numa mesma ação político-midiática. A trajetória de Flordelis se tornou mais curiosa pela revelação de um cotidiano marcado por cultos, viagens, casas de swing e perucas. Não menos intrigante é o enredo sobre o amor tão buscado por Cacilda e reconhecido pela própria como sendo também o seu problema porque não lhe bastava o gesto afetuoso. A personagem logo reconhece sua necessidade de “buscar outras formas de excitação” (p. 17), rompendo qualquer tentativa de encaixe da obra de Marco Severo em uma falange romântica. O gosto amargo permanece. 

 

A estrada, tão mortal para Kubitschek, foi salvífica para Cacilda escapar de um reformatório confessional e da exasperação de seus pais diante da sua libido irrepreensível, sendo humanamente abraçada por um casal de livreiros. Isso porque, por ironia narrativa, a personagem não recebeu amparo de quem lê as Sagradas Escrituras e nem de seus consanguíneos. Cacilda, em verdade, foi ajudada por quem gosta de livros. Seria essa uma projeção da sensibilidade do autor, uma reafirmação iluminista ou apenas um traço cáustico e provocativo de uma novela enraizada nos nossos tempos? A personagem, então, desfruta do prazer da leitura e tem, por raro momento na obra, a possibilidade do descanso. Enquanto acolhida pelas palavras, conheceu a si e ao mundo no devorar das obras que também ajudava a vender, mas isso não dura uma página. Assim como Flordelis podia virar a noite em aventuras sexuais e pregar efusivamente na manhã seguinte (ainda excitada!?), Cacilda não se aquieta em praticamente nenhuma cena e também dorme pouco. O sono dela é breve e encerrado pelos outros.

 

O repouso encontrado na companhia de amigos e livros contrasta com o lugar onde a personagem de Marco Severo nunca encontrou acalanto: a sua própria família. À célula mater da sociedade, defendida em pregações pela pastora-deputada-ré, Cacilda retorna após trágica destituição de seu tempo de paz sábia, reencontrando um cotidiano de perversão sexual típico daquele que, como sabemos agora, também se passava na casa de Flordelis, onde as filhas-obreiras eram oferecidas a evangélicos gringos e ao próprio pai-pastor-marido. Fugir do inferno familiar e cair num bingo-prostíbulo é o melhor que Cacilda consegue, mas o amor como coisa buscada não deixa de se apresentar e assume, mais uma vez na obra, a face de uma mulher. Sim, Cacilda é bissexual, Flordelis até agora não. Até quando?

 

As águas pelas quais navega Cacilda são agitadas como um rio de água doce cheio de piranhas famintas. O amor, então, se apresenta novamente, agora vestido de farda. Ela investe, mas não sem também se regozijar com uma parceria sexual lésbica. Afinal, o amor não se rende à monogamia. E o sexo também pode dar dinheiro além da satisfação de confirmar o amor ou nada disso. Mas nem sempre o sexo assegura o dinheiro necessário, e entram em cena o aliciamento de menores e o assalto forjado. Sim, a casa de Flordelis não é o único cenário no qual um roubo aparente encobre um objetivo escuso e mortífero. A pastora encontrou o cadáver que quis na madrugada; Cacilda, os que não quis ao amanhecer. Isso a levou, mais uma vez, a caminhar sem rumo com o desejo de salvar-se (sim, ela também o tinha, irmãos), desaguando em mais uma coabitação e novos trambiques com as velhas drogas e prostitutas. O homem e os negócios da vez se foram quando ela resolveu uma traição com navalhadas. 

 

Matar o seu homem une, em erráticos modos, Flordelis e Cacilda. Afinal, esta ensina: “ninguém escapa de ser aquilo que é” (p. 62). O neopentecostalismo charlatão também as aproxima, pois é justamente em uma comunidade evangélica de bairro pobre que a personagem de Marco Severo se refugia. Cacilda reconhece aquele lugar como perfeito para o escape da polícia e das milícias que perseguem de forma articulada quem, como ela, tenta se afastar do tráfico e da prostituição. O esconderijo maior é aquela gente “sem dente gritando o nome de Jesus com uma Bíblia levantada pro alto agitando braços magérrimos” (p. 55). Para eles, qualquer passado ruim narrado como a vida “antes do Senhor” é válido. A versão inventada por Cacilda também o foi. E é por lá que ela conhece um pastor com quem vai à cama e à grana mais uma vez. Como resistiria, se admite seu destino ao sentenciar “minha vida era o meu corpo” (p. 62)? Outra verdade em Um dos Nomes Inventados para o Amor está na apresentação da igreja pentecostal como o melhor negócio do Brasil. Isso pode até já ser sabido, mas é bom uma mulher vivida como Cacilda nos reafirmar.

 

Prestes a assinar com uma gravadora famosa para lançar um álbum gospel – aqui se fala da Cacilda, leitor, não confunda –, o passado retorna em perseguição e a personagem de Severo renuncia às igrejas, negócio fácil de abrir e fechar porque não assina a carteira de ninguém. Cacilda pode, então, acertar contas com o passado com a ajuda de outro amor, distanciando-se de Flordelis por levar à cova um parente pervertido enquanto a pastora os tem em seu círculo de alta confiança. Para revelar ainda mais a vida brasileira, Cacilda pula sete ondas de costas, por recomendação de uma mãe de santo baiana de quem ousou duvidar e que lhe deu o alerta de vida ou morte, caso não o fizesse. O sincretismo que leva a personagem aos pés da sacerdotisa de candomblé também está na pastora-ré que, segundo a polícia, costumava propor rituais de recolhimento por sete dias aos irmãos, bem ao estilo das religiões de matriz africana, separando um quarto para o período e o visitando quando lhe interessava transar com o recolhido. Essa visitação sexual é muito mais uma contribuição particular de Flordelis à história das excitações do que uma inspiração afro-brasileira. Bem realizada a indicação sincrética, se abre o melhor momento da vida de Cacilda em mais uma relação amorosa com direito a viagens e um encerramento típico do amargo mês do país em que nem tudo é ficção. Por fim, cabe perguntar: o que reserva para Flordelis o próximo agosto?

 

 

REFERÊNCIAS

 

SEVERO, Marco. Um dos Nomes Inventados para o Amor: Belo Horizonte: Moinhos, 2020. 

 

MOREIRA, Matheus. Ministério Público denuncia deputada Flordelis, suspeita de mandar matar marido. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 ago. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/08/ministerio-publico-denuncia-deputada-flordelis-por-suspeita-de-arquitetar-morte-do-marido.shtml

 

 

 

 

Marcos Paulo Campos é doutor em sociologia pelo IESP-UERJ, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú e líder do grupo de pesquisa NEDET.

 

Como citar esse texto: CAMPOS, Marcos Paulo. (2020), "Um mês para Flordelis e a Cacilda de Marco Severo". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/10/15/UM-MES-PARA-FLORDELIS-E-A-CACILDA-DE-MARCO-SEVERO

 

Editor Responsável: Rafael Rezende

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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