DISSINTONIA PROGRAMADA

5 Oct 2020

 

Colagem: Conectar Frequências, Luísa Acauan Lorentz 

 

 

Mergulho nesses teus olhos

de companhia, olhos

De mirada canina e sinto

Lampejo de compreensão 

na retina e vejo

Gente. Foi humano um dia?

 

De pronto me arrependo dessa

Tendência antropocêntrica

De achar que só quem sente

É gente.

 

Filha de uma suposta modernidade,

Rechaço. Essa ideia, que é projeto,

De que nós somos separados, distintos,

Daquilo que funda nossa própria

Existência

 

Não sei o que acontece com quem acredita

Que não há limite

Que bicho-homem existe

Independente, desconectado

Teus pés flutuam? O que te alimenta?

Onde vive?

 

Ando, com meus pés fincados

Em Terra.

 

Reduzimos às subjetividades,

o próprio conceito de vida. Restrito,

ao nosso branco umbigo.

 

Olho nesses olhos de cão,

Penso em tantos outros olhos,

Que olham de volta,

E sentem

 

Dizimados. Tanto sangue,

Tanta dor. Se a gente se mata entre nós,

Imagina o que fazemos com quem -

De sujeitos, repare bem

não tem voz?

 

Urge sintonizar com outras frequências.

 

Nossos rios,

São de sangue.

Também de gente (mas não,

nunca como a gente!).

 

Massacre de populações

é moeda corrente nesse sistema

Mas são sub-humanas, não-humanas...

Como se um prefixo na palavra

fosse capaz de justificar

cisão artificial

 

Quantos mundos perdidos,

A cada último grito

de um espécime extinto?

 

O planeta inteiro gritando.

 

Escuta?

Ou o barulho dos carros, o brilho da tela,

Já não te deixam

Sentir?

 

Reduzimos nossa noção de vida

Ao ponto que não a encontramos

Nem em nós mesmos. Buscamos

 

No consumo, nas redes abstratas

Algum tipo de conexão,

sempre mais rápida e

Barata.

 

Componentes eletrônicos que

Nos mantêm na ilusão

de que somos um domínio

Autônomo

 

Mas não se engane

até a internet depende do chão.

Natureza contida, transfigurada

Ao segurar o celular na mão, enxerga

os minérios da entranha da Terra?

 

Como falar em cura coletiva

Diante de olhares inférteis

Diante de ouvidos ocos

Aos gritos de tantos outros?

 

Urge sintonizar com outras frequências.

 


 

 

Luísa Acauan Lorentz é formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Estudou Direitos Humanos, Ajuda Humanitária e Desenvolvimento na Universidad Autónoma de Madrid. Atualmente, é graduanda em Gestão Ambiental, interessada sobre as relações sociedade-natureza e a construção de alternativas regenerativas. Pesquisa e atua como ativista em temas relacionados à justiça socioambiental. Acredita no potencial da arte como instrumento para outras narrativas.

Para mais poemas e artes, ver @ecofalancias

 

 

 

Como citar esse texto: ACAUAN LORENTZ, Luísa. (2020), “Dissintonia programada”. Horizontes ao Sul. Disponível em: www.horizontesaosul.com/single-post/2020/10/05/DISSINTONIA-PROGRAMADA

 

 

 

Editora Responsável:  Vitória Gonzalez

 

 

 

 

 

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