E SE AS ESTÁTUAS FALASSEM?

23 Jul 2020

 

Foto: Tim Bradbury

 

 

Donald Trump quis usar seu discurso na véspera do aniversário da independência dos EUA (4 de julho) para declarar guerra à guerra às estátuas. Enquanto ele falava, a estátua de Colombo na cidade de Baltimore vinha abaixo. Já em Richmond, arrancaram-na e jogaram-na no rio, como já ocorrera antes em Bristol, na Inglaterra, com a homenagem a um traficante de escravos que a cidade tinha como benfeitor. A cabeça da estátua de Colombo foi decepada no centro de Boston, em um singular exercício de recriação artística que não agradou as autoridades locais, que então a removeram. No estado da Flórida, a imagem de Colombo amanheceu pichada com o acrônimo BLM (Black Lives Matter), e até, quem diria, uma foice e um martelo apareceram sobre a altiva postura em bronze do navegador espanhol Ponce de León, que desembarcou no século XVI nas terras que hoje são a Flórida para ser devidamente trucidado pelos que lá viviam.

 

No 4 de julho, Trump disse com seu tom caracteristicamente histriônico que “turbas raivosas estão tentando derrubar estátuas dos nossos Fundadores, tirar o rosto de nossos mais sagrados memoriais e desencadear uma onda de crimes violentos em nossas cidades”. O local em que falava era o Monte Rushmore, outrora um território sagrado para os Sioux que foi profanado quando ali se descobriu ouro, e no século XX deu lugar à gigantesca escultura de quatro presidentes dos Estados Unidos entalhados na montanha. O público era praticamente todo branco, balançando efusivamente bandeiras nacionais. O discurso se organizava sobre a divisão entre nós e eles. “Nós nunca deixaremos que eles arranquem os heróis da América (sic) de nossos monumentos ou de nossos corações”. De uma hora para outra tudo era sobre estátuas, mas não tinha nada a ver com as estátuas.

 

Foto: Saul Loeb

 

O que mais atraiu atenção foi, seguramente, o tom conspiratório digno de uma pregação de Olavo de Carvalho: “em nossas escolas, em nossas redações, e até em nossas direções corporativas, há um novo fascismo de extrema esquerda que exige obediência absoluta. Se você não fala sua linguagem, performa seus rituais, recita seus mantras e segue seus comandos, então você será censurado, banido, posto em uma lista negra (sic), perseguido e punido”. E após uma pausa dramática para invocar as palmas, ele completa: “isso não vai acontecer conosco”. Por trás da beligerância há uma retórica sutil: eles estão em nossas escolas. Nós estamos acuados em nosso próprio país. Eles apagam nossa história. “Não se enganem”, disse Trump”, “essa revolução cultural de esquerda é projetada para derrubar a Revolução Americana”. Por um momento, parece que, se as estátuas atrás de Trump falassem, e é exatamente o que ele queria, elas usariam aquelas mesmas palavras. “O povo americano (sic) é forte e orgulhoso e não deixará que nosso país e todos seus valores, sua história e sua cultura lhes sejam tirados”.

 

Na era da internet, já o sabemos, nada vem sem alívio cômico: alguns dias depois, a campanha pela reeleição de Trump circulou entre seus simpatizantes uma foto da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro acompanhada da frase “Nós vamos proteger isso”. Bom, se você não entendeu direito essa parte, não está sozinho.   

 

 

*

 

O diplomata Ernesto Araújo provavelmente não estaria no churrasco comemorativo ao 4 de julho, com a cúpula do governo brasileiro, se não tivesse se encontrado, algum tempo antes, com o discurso que Trump fez na Polônia em 6 de julho de 2017. Graças a ele, Araújo escreveu o artigo “Trump e o Ocidente”, que lhe franquearia a simpatia da atual família presidencial. Naquele dia, o recém-eleito presidente dos Estados Unidos se colocara diante do monumento ao Levante do Gueto de Varsóvia, resistência épica dos poloneses à ocupação nazista no fim da Segunda Guerra. As palavras que encantaram o diplomata Araújo versavam sobre nação, soberania, família, espírito, indivíduo, Deus, liberdade. No centro de tudo, uma expressão nuclear: civilização ocidental, que o futuro chanceler brasileiro envolveu em um rosário de sentimentalismo no “território do espírito”. Para o presidente dos Estados Unidos, posto em frente aos mártires do Gueto e falando em seu nome, “a questão fundamental do nosso tempo é se o Ocidente tem a vontade para sobreviver. Nós temos a confiança em nossos valores para defendê-los a qualquer custo?”.

 

Em Varsóvia, sob um governo de extrema-direita de forte inspiração católica, teceu-se em poucos minutos uma imagem irresistível de uma civilização audaz, corajosa, criativa e livre. Assediada por vários lados, “de dentro ou de fora, do sul e do leste”, é urgente defendê-la. E para tal, dizia Trump em 2017, era imperativo financiar e equipar a OTAN, aliança militar entre os Estados Unidos e a Europa. Enquanto o Ocidente era fabulado em mitologia histórica do nós, a circunstância quis que a estátua dos partisans polacos falasse a voz militante do neoconservadorismo ocidental. E um obscuro diplomata brasileiro achasse por bem mimetizá-la.

 

*

 

O mesmo presidente que enunciou em 2017 o triunfalismo usual da cultura ocidental, como uma cornucópia de conquistas da humanidade, foi ao palanque em 2020 para concatenar frases histéricas contra o “fascismo de extrema-esquerda” e a “cultura do cancelamento”, declarando combate “a marxistas, anarquistas, agitadores, saqueadores e pessoas que em muitos casos não tem a menor ideia do que estão fazendo”. Essas eram as pessoas que ocuparam por dias as ruas em protesto após o assassinato de George Floyd pela polícia, que passaram a ser inimigos da civilização ocidental. Passaram para o lado de lá do nós. Trump não deixou dúvidas de que “eles destruiriam a própria civilização que resgatou bilhões da pobreza, doença, violência e da fome, e ergueu a humanidade a um novo patamar de realizações, descobertas e progresso”. O que é curioso não é que Donald Trump, ao atacar seus adversários confunda a si mesmo com a cultura ocidental, já que se fez líder mundial do orgulho branco, mas sim que alguns de seus críticos reproduzam o mesmo teor de argumento.

 

Por ocasião dos protestos do Black Lives Matter, a revista britânica The Economist denunciou uma "nova ideologia racial” que “não é só errada e perigosa, mas desnecessária”, já que “o liberalismo oferece um caminho mais justo e promissor de reforma”. Segundo o artigo, publicado em 9 de julho, “nos 250 anos em que [o liberalismo] foi influente, a humanidade atingiu ganhos materiais, científicos e políticos sem precedentes, bem como uma vasta extensão de direitos sociais e políticos”. Ao mesmo tempo, um manifesto de renomados intelectuais do mundo anglosaxônico, incluindo Steven Pinker e J.K. Rowling, descreve o risco de uma “sociedade intolerante” em que “editores são demitidos por publicar artigos controversos; livros são retirados por suposta inautencidade; professores são investigados por citar obras literárias em classe”, e assim sucessivamente: vigilância, cerceamento, censura e perseguição. Não há como negar mérito ao chamado a um debate livre e racional, à “discordância de boa fé”. Justamente por isso sempre é importante não deixar de prestar atenção a quem faz o apelo, quando e diante de quem.

 

*

 

A verdade é que, embora diga ver no espelho o debate livre e racional, a civilização ocidental é bastante avessa às críticas. E isso é compreensível, afinal, ao longo da história, ela foi sempre uma espécie de monólogo. Sua característica mais longeva talvez não tenha sido “resgatar bilhões da pobreza”, mas colocar-se como sujeito das frases. Ao fazê-lo, delimitou uma longa história de si mesmo que inspira e presenteia o progresso da humanidade inteira. O Ocidente de Ernesto Araújo tem três mil anos, da tragédia grega ao discurso de Trump.

 

O que estamos vendo nos últimos, a duras penas, é que há vozes demais na sala para que se continue escutando apenas um monólogo, uma história intramuros. E alguns fatos inesperados são fatalmente trazidos à tona: a escravidão, o roubo de terras, o saqueio e a perseguição cultural, a segregação, o estupro, o genocídio. Que talvez o inventor da ginecologia, que recebera estátua de bronze em Nova York, possa ser também um torturador de mulheres negras a quem não se deve homenagem. Quando mais dissonância, mais dissidência.   

 

Para quem aspira a um debate racional, hoje não seria possível falar sobre uma “civilização ocidental”, com seus herois e conquistas, sem todas essas contrapartidas bárbaras. As Ciências Humanas têm galgado avanços impressionantes em decifrar esse paradoxo, e é inevitável que tais avanços cheguem ao debate público [1]. Conforme conhecemos a história por perspectivas novas e críticas, somos compelidos a reconhecer que o Ocidente não seja único, melhor e universal, talvez nem sequer algo coeso entre si. E, pasmem, não ser única, melhor e universal é a maior ameaça à civilização ocidental, porque ela se funda sobre essa premissa. Essa ferida aberta (que alguns eruditos diriam narcísica) é o tema que atravessa nosso tempo. É uma hemorragia narcísica.

 

Diante dela, há três reações recorrentes: o escapismo é a primeira - como o de Ernesto Araújo, que prefere manter intactos os mitos que lhe são caros, revestindo-os de afetos e nostalgia; a segunda é o blefe, segundo o qual vilipendiar a cultura ocidental nos deixaria sem Sófocles, luz elétrica ou liberdade; e a terceira, triunfando acima das demais, é a guerra — a guerra em defesa da primazia imaculada. E Donald Trump foi escolhido para fazer essa guerra, em todas as suas frentes. A guerra à guerra contra as estátuas.

 

*

 

Mas as estátuas, como as rosas, não falam. Falam aqueles que as constroem e as destroem. Mais frequentemente, falam aqueles que se postam diante delas e colocam suas próprias palavras a sair do mármore ou do bronze. E ali, por um instante, é como se as estátuas falassem. A tal guerra das estátuas está colocando vozes e contravozes onde imperava o silêncio de um cemitério. Fomos assaltados pelo fato de que nossas cidades são jardins de estátuas honrando colonizadores, generais, escravistas, proselitistas cristãos e higienistas sociais. O que era um cenário silencioso se tornou política. A depredação das estátuas de Colombo não vai nos levar a tirar Colombo dos livros de história, esquecê-lo, apagar a história. Pelo contrário, o que antes era mármore se torna história, com narrativas e contranarrativas, argumentos, divergência. Por trás do que Trump chamou de “turbas raivosas” há pelo menos três décadas de profundo debate sobre o 12 de outubro, o “dia de Colombo”.

 

A iconoclastia gera o incômodo da destruição. Ser a favor da destruição parece o lugar em que ninguém quer estar, e nisso apostam os arautos do Ocidente ameaçado. É nessa hora que um movimento aparentemente banal parece revelar o que era impensável. Voltemos à cidade de Bristol, onde no exato lugar onde uma estátua foi arrancada foi instalada, por apenas um dia, uma estátua de Jen Reid, ativista do Black Lives Matter, com seu punho cerrado para o alto. Por apenas um dia, o gesto mostrou que, afinal, a questão não é destruir. A hipótese de vê-la como estátua era tão insólita quanto natural, porque parecia impossível até o momento mesmo em que ocorreu. Como na canção de Caetano Veloso, era algo novo “não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio”.

 

Não podemos realmente compreender quem fala pelas nossas estátuas se não sabemos quem está representado nelas. E essa pergunta por quem são nossas estátuas é a pergunta por quem somos, óbvia e oculta.

 

Foto: Rex/Shutterstock.

 

 

NOTAS

 

[1] Para quem se interessa pelo assunto, há alguns livros que considero reveladores e de leitura acessível, já traduzidos ao português. Vale dar uma olhada em “O roubo da história” do antrópologo Jack Goody, que desafia o cerne do que é o Ocidente e sua história. Outro livro notável é o “Silenciando o passado” de Michel-Rolph Trouillot, que tem inclusive um capítulo sobre a figura de Cristóvão Colombo como memória social. Sobre esse tema em particular, um belo acompanhamento é o livro de Tzvetan Todorov sobre o primeiro encontro em 1492 e a alteridade radical que ele inaugura (“A conquista da América”). Por fim, uma obra clássica sobre o lugar da escravidão atlântica na formação histórica do capitalismo é “Escravidão e capitalismo”, de Eric Williams. Para quem tem maior familiaridade com Ciências Sociais e lê em língua inglesa, recomendo ler “Rethinking modernity: postcolonialism and sociological imagination” da socióloga britânica Gurminder Bhambra e “The colonizer’s model of the world” de James Blaut.

 

 

 

Pedro Borba é professor da Universidade Estadual de Londrina(UEL). É doutor e mestre em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ).

 

 

 

Como citar esse texto: BORBA, Pedro. (2020), "E se as estátuas falassem?". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/07/22/E-SE-AS-ESTATUAS-FALASSEM

 

 

 

Editora Responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

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