“ÁVIDA POR COISAS E SERES” – SIMONE DE BEAUVOIR E A EXPERIÊNCIA DE UMA INTELECTUAL ASPIRANTE NA PARIS DOS ANOS 1920

9 Jul 2020

 

 

 

 

Em uma fotografia de 1929 que ilustra a edição de 2020 de parte de seus escritos íntimos em inglês, Simone de Beauvoir (1908-1986) e Jean-Paul Sartre (1905-1980) aparecem em uma quermesse de 14 de Julho em Porte d'Orléans, Paris, participando de uma atração em um parque de diversões: o tir photographique. A brincadeira, que se popularizou na Europa dos anos 1920, consistia em apontar uma arma de fogo para um alvo que, ao ser acertado pelo projétil, acionava uma câmera fotográfica posicionada de modo a enquadrar quem atirava (CHÉROUX, 2010). Tal “tiro” registrou aquela que é provavelmente a primeira imagem em que o Beauvoir e Sartre aparecem juntos (BONAL e RIBOWSKA, 2001). E eles se conheciam há pouco mais de uma semana.

 

Para Simone de Beauvoir, entretanto, a imagem não foi o único registro do encontro. Em seu diário, publicado em 2008 sob o título Cahiers de Jeunesse, entre relatos sobre seus estudos, atividades, interações sociais, reflexões e sentimentos do dia, ela registrou brevemente: “entramos em uma quermesse (...) Sartre mediu sua força; eu atirei com um fuzil automático” (BEAUVOIR, 2008, p. 727). Reunião de seis dos sete diários que Simone de Beauvoir manteve entre 6 de agosto de 1926 e 31 de outubro de 1930, período em que ela tinha de 18 a 22 anos, os Cahiers de Jeunesse trazem em detalhes a documentação das leituras que a então estudante de filosofia fazia, os planos de estudos, disciplinas, desempenho acadêmico, rotina e conflitos familiares, amizades, reflexões, desejos, projetos literários, ambições intelectuais e, principalmente, as meditações filosóficas que se tornariam a base de seu pensamento, sendo usadas como fonte para análises sobre as origens, as interlocuções e a originalidade de sua filosofia.

 

Margaret Simons (1999) já analisou como os diários revelam a postura crítica de Beauvoir em relação aos sistemas filosóficos, além das primeiras formulações das discussões sobre o “Outro” e o corpo, que estão na base de seus principais trabalhos e que, não só existem em sua obra desde antes do encontro com Sartre como, em certos aspectos, acabaram por influenciar a obra dele. Annabelle Martin Golay (2012) revelou como os diários foram fundamentais para a formação de Simone de Beauvoir como leitora, em sua íntima relação com a literatura, e na gênese de sua obra memorialística.

 

Mais recentemente, Kate Kirkpatrick (2020) mostrou como os diários nos permitem não apenas esclarecer lacunas e silêncios de Beauvoir sobre sua própria vida, como também contrapor alguns elementos da narrativa construída por ela em suas autobiografias, em especial o primeiro volume, Memórias de uma moça bem-comportada, de 1958. Kirkpatrick mostra ainda como uma questão que permeia toda a obra de Beauvoir, a relação entre “viver uma vida de devoção aos outros ou viver uma vida para si mesma”, é central nos diários e reverbera tanto no existencialismo como no feminismo da autora (KIRKPATRICK, 2020, p. 50).

 

Mas os Cahiers de Jeunesse são também um importante testemunho sobre as experiências de uma jovem burguesa aspirante a um lugar nos campos intelectual e literário europeu do início do século XX. Ler os relatos de Beauvoir nos permite compreender algumas estratégias, negociações, escolhas e resistências que não só ela, mas também as demais jovens de sua época desenvolveram e compartilharam para enfrentar as condicionantes de gênero que dificultavam e até impediam o desfrute de reconhecimento como escritoras e intelectuais. Nesta época, a participação das mulheres na literatura e nas artes ainda era limitada aos domínios da sensibilidade, do amor, da poesia, da ficção, das “artes relacionadas com sua pessoa” (PONTES, 2010, p. 121).

 

A jovem Simone de Beauvoir era consciente dessa situação e a discussão sobre as assimetrias nos papéis de gênero aparece em vários momentos dos seus diários. Educada em um colégio que formava jovens burguesas para o casamento, o catolicismo e a maternidade, Beauvoir cresceu reconhecendo nesse projeto de vida o “destino” das mulheres de seu entorno, colegas, amigas e familiares. Mas, Beauvoir fora criada para ter uma profissão com a qual pudesse se manter financeiramente porque, segundo seu pai, a família, empobrecida durante a Primeira Guerra Mundial, não tinha os recursos financeiros para o dote e ela não tinha a beleza que atrairia um marido disposto a sustentá-la.

 

A contradição entre esses dois destinos é registrada por Beauvoir em 17 de novembro de 1926, por exemplo, quando a srta. Mercier, professora do instituto católico em que ela cursava sua licenciatura em matemática, a aconselhara a se casar porque mulher alguma “poderia ter uma vida normal fora do casamento” (BEAUVOIR, 2008, p. 195). Em dezembro de 1928, Beauvoir registrou a discussão entre sua mãe e a mãe de sua amiga Zaza, sra. Lacoin. Na conversa pouco amigável, a sra. Lacoin queria que a mãe de Beauvoir estivesse ciente de que desejava impedir a amizade entre as duas jovens devido às inclinações intelectuais da jovem Simone, que exerceria má influência sobre Zaza usando a literatura e a filosofia para atraí-la para a convivência de intelectuais e se interessar por livros “idiotas” que “corrompem a alma” (BEAUVOIR, 2008, p. 563).

 

Esses episódios mostram que o comportamento e as aspirações de Beauvoir não se encaixavam nos padrões esperados em seu círculo social. Grande parte dos Cahiers de Jeunesse mostram que, para Beauvoir, a solução encontrada foi romper com a lógica da classe burguesa, uma ruptura que Bourdieu (1996, p. 75) destaca como um passo essencial para jovens que aspirassem a uma carreira na literatura.

 

Para resistir aos “bárbaros”, como Beauvoir se refere, em 1926, ao pai, à mãe e ao círculo de amizades e da família, ela adotou a estratégia do silêncio. A identidade que ela construíra para si desde a adolescência, tornar-se escritora e não seguir valores religiosos, e seu projeto intelectual na juventude, tornar-se professora de filosofia e romancista, eram silenciados nas interações sociais e familiares. Sua vida intelectual era secreta, protegida. Indicativo disso é que ela utiliza a primeira página de um dos diários para um aviso: “Nada mais desprezível do que violar um segredo quando ninguém está presente para protegê-lo. Sempre sofri terrivelmente todos os tipos de indiscrições. Mas se alguém, quem quer que seja, ler essas páginas, não o perdoarei nunca” (BEAUVOIR, 2008, p. 43).

 

O recado era direcionado especialmente à sua mãe, que tinha o costume de ler a correspondência e os cadernos das duas filhas (Simone e Hélène) para controlar amizades, eventuais romances, leituras e ideias. Mas o que havia de tão secreto naqueles diários? Páginas inteiras em que Beauvoir copiava trechos de suas leituras favoritas e proibidas pela mãe (Jacques Rivière, André Gide, Jean Cocteau, Oscar Wilde, Henri Bergson), estabelecendo entre eles uma intertextualidade a partir da qual ela refletia sobre filosofia, literatura e o ofício de escrever. Listas de obras de arte das exposições que frequentava, bem como as emoções que lhe provocavam. Pensamentos e sentimentos acompanhados de descrições sobre os pontos da cidade de Paris em que lhe ocorreram e por quê.

 

Nesse processo de registrar todas as suas experiências em silêncio, Beauvoir se apropriava dos debates literários predominantes de sua época e exercitava as técnicas de observação e escrita em textos nos quais Paris e sua vida cultural pouco se diferenciavam. A luz que entrava por uma janela, a chuva sob a qual caminhava, o som de passos que atravessavam o salão, quebrando o silêncio da biblioteca, os bulevares cheios de gente, os quadros, as personagens dos livros, os poemas, os ensaios literários... Em 12 de abril de 1927, ela dizia, projetando-se em uma cena da vida urbana: “Os Champs-Élysées resplandecem ao sol: jovens personificações de Gilberte e Marcel Proust dançam à minha volta enquanto a luz faz meus olhos piscarem e minha juventude faz minha alma cintilar. Nesses dias, fujo de mim mesma, para ir a lugar algum” (BEAUVOIR, 2008, p. 297).

 

Esse jogo de espelhos solitário é parte de sua interação com a cidade, em um de seus registros, Beauvoir diz ter caminhado pelas ruas “ávida por coisas e seres” (BEAUVOIR, 2008, p. 104). Grande parcela dessa avidez era saciada na agitação da vida universitária parisiense (após a Primeira Guerra, cerca de 50% da população universitária da França estavam na capital), em que seu círculo de amizades se ampliou. À Zaza e outras jovens do ensino médio se juntaram colegas da Sorbonne, como Maurice Merleau-Ponty, e da École Normale Supérieure (ENS), como Sartre e René Maheu. O ponto de encontro era a Bibliothéque Nationale de France. As longas horas de estudo e conversas na biblioteca eram seguidas de mais conversas nos cafés Rotonde, Stryx, Deux Magots e Flore, suas flanagens pela cidade, antes solitárias, passaram a ser feitas em “bandos” e os assuntos eram, com frequência, filosóficos, literários e culturais: exposições, concertos, conferências, peças de teatro, aulas e filmes tornavam-se experiências compartilhadas.

 

Beauvoir adotava, assim, o estilo de vida boêmio, desligando-se do espaço opressivo da família e do círculo social burguês para explorar o espaço público. Com as amizades, as aulas de filosofia, a preparação de trabalhos e as leituras independentes, a autora passa a integrar a rede de sociabilidade que unia estudantes de filosofia da Sorbonne e da ENS, da qual Sartre fazia parte, rompendo com as condicionantes de gênero e de classe que exigiam que as jovens burguesas se preparassem para a vida doméstica. É aí que reencontramos a imagem do tiro fotográfico. É interessante observar que quem dispara a arma, executando a ação decisiva do instante, fechando os olhos e recuando levemente ao som e ao impacto da arma que se torna uma extensão de seu corpo, é Simone de Beauvoir, e não Sartre. Ainda que em um contexto de espetáculo “atenuado, ambíguo (...) ou irônico” (CHARLE, 2012, p. 231), a jovem estudante assume o domínio da situação e um papel atribuído aos homens, em um jogo de liberação simbólica que permitia a ela questionar a dominação masculina.

 

 

REFERÊNCIAS
 

BEAUVOIR, Simone de. (2008), Cahiers de Jeunesse. Paris: Gallimard.

 

BEAUVOIR, Simone de. (2020), Diary of a Philosophy Student, volume 2, 1928-29. Urbana and Chicago: University of Illinois Press.

 

BONAL, Gérard e RIBOWSKA, Malka. (2001), Simone de Beauvoir. Paris : Jazz Editions.

 

BOURDIEU, Pierre (1996). As Regras da Arte. São Paulo: Companhia das Letras.

 

CHARLE, Christophe. (2012), A gênese da sociedade do espetáculo – Teatro em Paris, Berlim, Londres e Viena. São Paulo: Companhia das Letras.

 

CHÉROUX, Clément. (2010), Catalogue “Shoot! Existencial Photography”. Paris: Les Rencontres Arles Photographie.

 

EINFALT, Michael. (2001), Nation, Gott und Modernität. Grenzen literarischer Autonomie in Frankreich 1919-1929. Tübingen: Niemeyer.

 

KIRKPATRICK, Kate. (2020), Simone de Beauvoir: uma vida. São Paulo: Planeta do Brasil.  

KLAW, Barbara. (2006), “The Literary and Historical Context of Beauvoir's Early Writings: 1926-1927”, in BEAUVOIR, Simone de. Diary of a Philosophy Student, volume 1, 1926-27. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, pp. 7-28.

 

MARTIN GOLAY, Annabelle. (2012), “Les Cahiers de jeunesse : une conversion à la littérature”,  in LECARME-TABONE, Éliane; JEANELLE, Jean-Louis (eds.). Simone de Beauvoir. Paris: Éditions de L´Herne, 2012.

 

PONTES, Heloisa. (2010), “Campo intelectual, crítica de cultura e gênero”, in PONTES, H. Intérpretes da metrópole: história social e relações de gênero no teatro e no campo intelectual, 1940-1968. São Paulo, Edusp, 2010. pp. 87-127.

 

SIMONS, Margaret A. (1999), Beauvoir and the Second Sex: Feminism, Race, and the Origins of Existentialism. New York: Rowman & Littlefield, 1999.

 

SIMONS, Margaret A. (2006), “Introduction”, in BEAUVOIR, Simone de. Diary of a Philosophy Student, volume 1, 1926-27. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, pp. 1-5.

 

 

 

 

Heci Regina Candiani é Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisa a obra e a trajetória intelectual de Simone de Beauvoir. É também tradutora dos idiomas inglês e francês, tendo traduzido autoras como Angela Davis, Silvia Federici, Ursula K. Le Guin e Octavia E. Butler, entre outras.

 

 

 

 

Como citar esse texto: CANDIANI, Heci Regina. (2020), "“Ávida por coisas e seres” – Simone de Beauvoir e a experiência de uma intelectual aspirante na Paris dos anos 1920". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/07/09/AVIDA-POR-COISAS-E-SERES-SIMONE-DE-BEAUVOIR

 

 

 

Editora Responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

 

 

 

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