RACISMO, REVOLTAS E PANDEMIA NO LÍBANO

6 Jul 2020

 

Fotografia: Tamires Alves, 2018.

 

 

A mais recente onda de revoltas e protestos populares que atravessa o Oriente Médio data de 2010, com resultados variados. Alguns países viram autocratas, que permaneciam há décadas no poder, serem derrubados, como no caso da Tunísia. Em outros, a saída de um ditador foi logo seguida à ascensão de outro, como no Egito. Por fim, Líbia e Síria são exemplos de nações que se viram dentro de guerras civis que não parecem ter data para terminar.

 

Chama atenção, nesse sentido, que analistas internacionais, permeados por lentes orientalistas, tentem apontar que o assassinato de George Floyd seja a razão principal para a retomada de manifestações em países da região, ignorando que a chamada “Primavera Árabe” ainda não se encerrou - e que a população não saiu das ruas nesses últimos dez anos.

Apesar das análises que busquem equiparar totalmente comunidades tão distintas quanto as de Baltimore e Beirute serem pouco sofisticadas, é inegável que o brutal assassinato de Floyd serviu de incentivo para que protestos tenham ganhado força na região. Os manifestantes se aproximam também por estarem se expressando em um contexto de pandemia, com as óbvias complicações para se ocupar as ruas.  

 

Esta reflexão não tem como objetivo estabelecer uma listagem de semelhanças e diferenças nos protestos dos EUA e de países do Oriente Médio. Aqui, busco empregar o contexto global atual, a pandemia e a explosão de discussões públicas sobre racismo, para analisar a crise vigente no Líbano. Busco destacar que, explicitando a resiliência da população, as manifestações populares se reinventaram nos últimos meses e seus desdobramentos podem inclusive alterar os contornos geopolíticos da região.

 

***

 

Apesar de não ter passado por revoltas populares nas mesmas proporções que países como o Egito ou a Tunísia em 2011, o Líbano se arrasta em crises econômicas e de representação na última década. O país se equilibra em um arranjo político que reserva vagas no Parlamento e no Executivo para distintos grupos religiosos do país - em um frágil balanço desde o final da última guerra civil na década de 1990. Contudo, a combinação de casos de corrupção, caos humanitário na vizinha Síria e desemprego fizeram com que a população aumentasse exponencialmente sua presença nas ruas em 2019. A multidão, sem grandes lideranças organizadas, se manteve em protesto desde então, com o tamanho das manifestações variando. Nos últimos meses, grupos armados ligados a lideranças religiosas tentaram, de forma violenta, retirá-los das ruas, sem grande sucesso.

 

É nesse contexto em que a pandemia do novo coronavírus atingiu o país, em meados de março de 2020. Apesar de ter esvaziado as manifestações, em um primeiro momento, a deterioração da economia fez com que os libaneses, agora com máscaras e tentando respeitar certo distanciamento social, voltassem aos protestos.

 

A crise financeira é o principal motor das revoltas, sendo a mais grave em décadas. Mesmo durante guerras civis, o Líbano conseguiu manter ativa a economia: hotéis e bares permaneceram abertos mesmo durante os conflitos, apesar da eletricidade intermitente, como nos conta Kamal Salibi no clássico "A House of Many Mansions" Mesmo com crises recorrentes, a classe média conseguia manter uma rotina minimamente estável, que incluía a contratação de empregados domésticos e viagens a lazer para o exterior. Essa estrutura estava baseada principalmente na decisão do governo de atrelar a moeda local ao dólar por décadas, mesmo que artificialmente e com aumento da dívida externa, a terceira maior, proporcionalmente, do mundo.

 

Esse processo desmoronou nos primeiros meses de 2020, piorado pela decisão do governo de impor medidas de distanciamento social, interrompendo quase todo o comércio em diversas cidades. Importante mencionar que, assim como no Brasil, a possibilidade de adotar as medidas recomendadas está atrelada a questões de classe. Os mais ricos foram rápidos em sair do país, enquanto a classe média, em grande medida, ficou em casa. A população mais pobre continuou nas ruas, seja realizando trabalhos informais ou atividades de entrega por aplicativo.  Importante frisar que os problemas econômicos do Líbano vêm se desenvolvendo há anos, com o país bastante vulnerável aos conflitos em países vizinhos, como a Síria e a Palestina. O governo depende cada vez mais de remessas internacionais, além de não ter sido capaz de realizar reformas econômicas nos últimos anos.

 

A materialização da crise, principalmente na classe média, se deu pela desvalorização da libra libanesa em relação ao dólar. A política de manter a paridade com a moeda norte-americana fez com que a economia do país operasse cotidianamente com as duas moedas sem grandes problemas. É possível pagar um cafezinho em Beirute com dólar, sem causar estranhamentos. Como o país praticamente importa todos seus alimentos, era habitual também alguns supermercados apenas aceitarem o dólar norte-americano. Com a libra libanesa perdendo um terço do seu valor em três semanas, aposentadorias derreteram e os bancos começaram a limitar o saque da moeda, com a fuga de investidores estrangeiros.

 

Não é de se impressionar que, assim como no Brasil, os bancos viraram os alvos preferenciais dos manifestantes. Agências foram incendiadas na capital Beirute quase que semanalmente desde março. Com forças policiais mobilizadas para a proteção dos prédios, os protestos têm se transformado em centro de disputas violentas pelas ruas.

 

As manifestações em meio a pandemia são espaços importantes para a juventude libanesa ressignificar seu espaço na política do país. A taxa de desemprego entre 18 e 30 anos ultrapassou 40% nos últimos três anos, com muitos dependendo de bicos e empregos informais para sobreviver. Os protestos têm se concentrado também nos casos recorrentes de corrupção do governo. Em semelhança com o Brasil, causa certo temor os pedidos da juventude libanesa por “governos técnicos” e por maior ativismo do judiciário. A pandemia escancarou essas questões, principalmente após revelações sobre roubos de material hospitalar por parte de funcionários do executivo, além de corrupção nos hospitais públicos.

 

A economia, contudo, não é a única pauta das manifestações. A maior parte dos jovens também pede uma reformulação das estruturas políticas do país. A divisão religiosa, advinda do período da dominação Otomana no século XVIII e a subsequente colonização francesa, é estrutural para a forma como as relações de poder são estabelecidas. Isso pode levar a interpretação de que o país é unicamente norteado por dimensões de poder que combinam o islamismo, o cristianismo e suas vertentes. Análises mais sofisticadas, como as estabelecidas por Murilo Meihy em Os Libaneses (2016), contudo, apontam que a própria ideia de religião se transformou em práticas de sociabilidade, em que a ideia de ser “xiita” ou “cristão maronita” vai além de condutas e moralidades, servindo também para conexões políticas e do campo do trabalho. As manifestações têm pedido por uma reformatação não só da Constituição, que consolida essas divisões sectárias na política - mas também pela criação de ferramentas que permitam a integração secular da população.

 

Refugiados, trabalhadoras domésticas e racismo

 

Contudo, são os mais pobres do país que tem sentido o maior impacto da crise. Em novembro de 2019, o jornal New York Times, citando o Banco Mundial, alertou que a parcela da população do Líbano que vive na pobreza pode aumentar e chegar a 50% até o fim do ano - antes mesmo de cálculos sobre a pandemia. Em junho de 2020, um relatório da Anistia Internacional indicou que milhões de refugiados no Líbano, principalmente os mais de um milhão de sírios e palestinos, corriam o risco de passar fome durante a pandemia.

 

Outro grupo importante são os de pessoas que vêm ao país trabalhar. O Líbano abriga atualmente cerca de 250 mil migrantes, principalmente mulheres negras vindas de países da África e do Leste Asiático, a maioria absoluta empregadas domésticas. Essas trabalhadoras - são contratadas pelo sistema kafala (garantia, em árabe) que faz com que não tenham direitos trabalhistas e, em alguns casos, dependam de autorização dos patrões até mesmo para saírem às ruas. O sistema é criticado em diversas instâncias internacionais e nacionais: até mesmo a Ministra do Trabalho libanesa, Camille Abousleiman, afirmou se tratarem de atividades análogas à escravidão. Sua situação de vulnerabilidade as expõem a agressões físicas e sexuais nesses lugares que habitam e trabalham. Muitas são refugiadas sírias, tornando sua situação ainda mais frágil. Por se encontrarem no país como migrantes forçadas, elas acabam se sujeitando a trabalhos ainda mais opressores, além de não contar com redes de solidariedade. São recorrentes os casos de mulheres nessa situação, presas por meses nas casas com comida e água escassas. Segundo a Human Rights Watch, morre uma trabalhadora doméstica por semana no Líbano. Dificilmente os casos são investigados - com o governo atribuindo as mortes a suicídios.

 

Apesar destas migrantes não terem direito, pelas normas libanesas, à organização ou formação de sindicatos, um grupo da Etiópia vem tentando chamar atenção para os casos de violência nos últimos anos. Através da movimentação de ONGs Internacionais, o grupo teve relativo sucesso em pelo menos levar os casos de violência para a justiça local. É peculiar, entretanto, que não tenham conseguido, até o ano passado, aliados em campos progressistas. Os jovens libaneses, na maioria de classe média, que estavam nas ruas pedindo por maior liberdade política não articulavam, naquele momento, a situação dessas mulheres aos problemas estruturais que enfrentavam.

 

A sociedade libanesa tem traços indiscutíveis de racismo e xenofobia, principalmente com refugiados. Nesses casos, o preconceito contra estrangeiros mais pobres se confunde com as dimensões raciais, baseados em uma interpretação difusa sobre a identidade libanesa. Os alvos históricos eram palestinos, que começaram a fugir para o país em 1948, após a criação de Israel. Com o tempo, se registrou também elevado aumento de migrantes vindos da África e da Ásia, que passaram a ocupar empregos informais e na área de serviços em geral. Com o aumento do desemprego, acusações de que estariam prejudicando nacionais também aumentaram.

 

A situação ganhou um novo tom com a morte de George Floyd nos Estados Unidos em maio. Os manifestantes, já nas ruas, adotaram o mote “Eu não posso respirar”, também acusando a polícia e o exército libanês pelo excesso de violência. As trabalhadoras domésticas aproveitaram a centralidade da questão da violência contra a população negra para galvanizar apoio, principalmente entre os que já estavam nas ruas. Apesar de ainda ocuparem uma posição marginal nos protestos, os pedidos de reformulação do kafala foram incluídos nas demandas populares de reforma do Estado. É importante reforçar como novas lideranças, formadas por mulheres negras etíopes e sírias, acabaram se formando nesse contexto. Não se trata, portanto, de replicação das manifestações norte-americanas, mas de manifestações recorrentes, em que o recorte de raça foi reforçado devido a circulação do debate sobre o tema.

 

Apesar da timidez inicial, este cenário pode significar uma mudança importante em como a população libanesa lida com seu racismo histórico e estrutural, em especial, a partir do reforço entre os laços de tal opressão com a violência estatal. A Primavera Árabe, que demorou a chegar no Líbano, pode ter finalmente encontrado sua razão de ser no pequeno país do Levante.  

 

 

 

 Fernando Brancoli é professor adjunto de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

 

 

eComo citar esse texto: BRANCOLI, Fernando. (2020), "Racismo, revoltas e pandemia no Líbano". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/07/03/RACISMO-REVOLTAS-E-PANDEMIA-NO-LIBANO 

 

 

 

Editor Responsável: Guilherme Marcondes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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