NA ERA DAS FAKE NEWS, O QUE DETERMINA O ENTENDIMENTO SOBRE O QUE É VERDADE?

25 Jun 2020

 

 

 

 

A segunda década deste século viu florescer o termo “pós-verdade”, e, em paralelo, tem visto uma série de impactos da aplicação do que significaria esse termo na prática — na política, nas relações sociais, na economia. Embora a expressão tenha sido usada pela primeira vez, segundo a Universidade de Oxford, em 1992, pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, ela só passou a ser empregada com certa constância em meados da década de 2000 e conseguiu alcançar capilaridade no vocabulário mundial em 2016 (Flood, 2016). Naquele ano, ainda de acordo com a universidade britânica, houve um crescimento global de 2.000% no uso do termo na internet. De acordo com o Dicionário Oxford, elaborado pela mesma instituição, a palavra pós-verdade significa “aquilo que se relaciona ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”.

 

Mas, antes de se falar em pós-verdade, é preciso discutir o significado de ”verdade” e as noções que ela carrega. Consultando novamente o Dicionário Oxford, é possível encontrar três abordagens, complementares entre si, para definir a palavra: “qualidade ou estado de ser verdadeiro; aquilo que é verdadeiro de acordo com um fato ou realidade; e um fato ou crença que é aceito como verdadeiro”. Logo, a definição formal nos traz a ideia de que a verdade está ligada a fatos, mas também de que ela é fruto de um consenso, isto é, de que ela é “aceita”. Poderíamos livremente extrapolar essa noção para afirmar que a verdade pode ser, então, encarada como algo que é aceito por um grupo seguindo os critérios de determinação de verdade que esse mesmo grupo cria.

 

Uma gama expressiva de autores, como Theodor Adorno e Michel Foucault, abordam em determinados momentos de suas obras a ideia de que o entendimento sobre a verdade é mutável, de acordo com o período histórico e o lugar em que o indivíduo se encontra. Diferentemente de uma categorização absoluta do que pode ou não ser considerado verdade — como às vezes nos parece —, o que existe, segundo esses autores, é uma enorme diversidade de critérios para se determinar algo como “verdade”. A forma que tende a ser vista como principal é aquela que se baseia em dados, estatísticas, documentos, observação empírica. No entanto, nem sempre esta é a forma que predomina ou que é considerada legítima e aceita por parte significativa de determinada população.

 

O enfoque de Michel Foucault é que, em vez de tentar eliminar as mentiras para descobrir a “verdade” — o que os cientistas aprenderam a fazer tão bem e o que os jornalistas também são supostamente obrigados a fazer para conseguir exercer a profissão —, os intelectuais fariam melhor se se propusessem a documentar a coexistência, inclusive no mesmo espaço e tempo, de uma grande variedade de “regimes de verdade” — e uma correspondente pluralidade de modos de poder.

 

Foucault se baseia em Nietzsche ao utilizar a expressão “dizer verdade”, traduzida do alemão. Percebe-se que ele não emprega o artigo nesse caso: não se trata de dizer “a” verdade, mas de “dizer verdade”, uma verdade pessoal, como ele chama. Usando essa ideia de Foucault como referência, a pesquisadora Mariana Valverde toma como exemplo, em seu artigo Confissão e autenticidade no discurso populista de hoje (2019), o que é chamado de “testemunho de caráter” em um tribunal, muito usado por diversos países, mas bem menos objetivo de que um testemunho ocular. O de caráter está associado a uma tentativa de prova de autenticidade ou de moralidade do réu.

 

Segundo Valverde, o discurso político atual parece estar caracterizado, cada vez mais, pelas chamadas “verdades pessoais” (p. 150), baseadas não em fatos empíricos, mas em noções como honestidade/desonestidade, coragem/covardia e honra/desonra. Aspectos, portanto, difíceis de atestar. E muitos especialistas em política destacam que as “verdades pessoais” são as verdades que mais importam para a maioria das pessoas.

Na visão de Theodor Adorno, a origem dessa forma de pensar teria florescido no existencialismo filosófico da Alemanha do pós-guerra, quando, por trás da valorização das “interações autênticas”, havia o foco em evitar discussões sobre a responsabilidade alemã nas consequências da guerra. Essa filosofia tentava validar a ideia de que existe uma verdade especial que vem da experiência pessoal.

 

A ascensão de muitos políticos atuais dependeu, destaca Valverde, da capacidade de gerar uma imagem de autenticidade — fiada nesses novos valores do “dizer verdade”. Um exemplo citado pela autora é o de um político da cidade de Toronto, no Canadá, chamado Rob Ford, que ganhou popularidade depois de admitir ter fumado crack. Ele também carregava “signos de autenticidade”, como o excesso de peso — em meio a uma sociedade endinheirada que come boa comida, faz exercícios e pratica ioga. Ele era um homem branco, de direita, sem lealdade a qualquer partido específico, que se recusava a consultar especialistas para resolver qualquer assunto e que era representante de uma masculinidade tóxica. Enquanto outros políticos faziam discursos para incentivar a população a usar bicicletas, por exemplo, Ford dizia que, se viesse a ser eleito prefeito, poria fim à “guerra contra os automóveis”. Por fim, ocupou o cargo de prefeito.

 

É interessante notar, a partir dessa história, recorrente hoje em tantas partes do mundo, que para líderes conservadores e populistas, é possível chegar ao poder demonstrando vícios de uma masculinidade extrema porque independentemente de fazerem ou não coisas erradas, isso é visto como uma prova de  espontaneidade e de não mediação de profissionais de relações públicas ou outros. Trata-se de “dizer verdade em nível pessoal” (Valverde, 2019: p. 163).

 

Alguns autores relatam que o fortalecimento dessa noção de pós-verdade está intimamente conectado a aspectos como o enfraquecimento da concepção da imprensa como mediadora “oficial” da democracia e o desencanto geral em relação ao poder público. No artigo Dissimulacro-ressimulação: ensejos da cultura do ódio na era do Brasil pós-verdade (2018), Paulo Quadros diagnostica uma espécie de “perda da consciência crítica em relação à informação jornalística”, combinada à perda da ideia de que o conhecimento sistematizado — que englobaria a informação jornalística — é um processo confiável de “construção simbólica da realidade do mundo” (p. 207).

 

Ele ressalta que essa ação de sistematizar o conhecimento, por meio de técnicas como a historiografia e o jornalismo, jamais possuiu nível qualquer de neutralidade. Não se trata, portanto, de afirmar que esse tipo de ação detinha a verdade e a mostrava de forma puramente objetiva — até porque tal objetividade pura e simples não existe. No entanto, as bases para a produção desse conhecimento costumavam ser associadas a fatos observáveis, tinham ligação com aspectos um tanto objetivos da realidade tradicionalmente considerados “verdadeiros”, empíricos — documentos, “provas”, fotografias, registros, dados científicos.

 

No contexto social brasileiro a partir dos anos 2000, as redes sociais têm tomado, de forma crescente, o papel de sistemas peritos produtores de veracidade. E é a partir dessas plataformas que parte considerável dos conteúdos de pós-verdade ganha capilaridade. Entre muitas de suas características, as redes sociais reforçam a tendência dos indivíduos de tratar como verdade aquilo que corrobora o que eles já pensam ou acreditam, uma vez que as interações são, em grande medida, restritas a uma “bolha”. Por uma dinâmica muito própria das redes sociais, o usuário é alimentado prioritariamente com postagens cujo conteúdo carrega análises, opiniões e interpretações de mundo extremamente parecidas com as dele próprio. Isso faz com que, nas mentes desses usuários, essa informação adquira um status de verdade — uma verdade aceita e compartilhada por aquela rede de amigos.

 

Na origem da autoria desses conteúdos de pós-verdade — dos quais fazem parte as fake news, mas não se limitam a elas —, está um “contrapúblico ultraconservador”. Trata-se de um grupo de indivíduos que se percebem pouco representados no cenário político, cultural ou econômico dominante, segundo a definição da cientista política Camila Rocha. “Seus membros, a despeito de serem subalternos ou não, partilhariam identidades, interesses e discursos tão conflitivos com o horizonte cultural dominante que correriam o risco de enfrentarem reações hostis caso fossem expressos sem reservas em públicos dominantes (cujos discursos e modos de vida são tidos irrefletidamente como corretos, normais e universais). Dessa forma, poderiam ser considerados como contrapúblicos fundamentalistas cristãos e apoiadores de Donald Trump nos Estados Unidos, bem como ultraliberais brasileiros” (Rocha, 2019: p. 6).

 

Segundo a pesquisa global Quartz Media LLC, que avalia  a percepção das pessoas sobre a internet, 55% dos brasileiros concordavam com a afirmação “O Facebook é a internet” (CALDAS e CALDAS, 2019). Se comparado com os Estados Unidos, por exemplo, apenas 5% dos entrevistados de lá declararam a mesma coisa — ainda que se considere que a rede social tenha tido papel importante em decisões políticas recentes do país, como a eleição de Donald Trump. O índice de resposta afirmativa à pergunta só foi maior do que no Brasil em países como Índia (58%), Indonésia (61%) e Nigéria (65%).

 

A produção de conteúdo em geral, especialmente com intermédio de redes sociais como Facebook e WhatsApp, fica cada vez maior e mais ágil. Como consequência, conteúdos on-line viram “mercadoria barata”. Se a mercadoria pode ser produzida com pouco esforço e de forma extremamente rápida, ela frequentemente terá pouco valor. Isso se aplica não só a conteúdos de pós-verdade, como as  fake news, mas para todo tipo de conteúdo noticioso. Os consumidores passam, então, a ter possibilidade de acesso a uma gama muito grande  de informações.  A distinção clara, na hora do consumo, entre conteúdos confiáveis e não-confiáveis, verossimilhantes ou não, fica mais difícil. Isso permite que discursos de contrapúblicos possam disputar espaço, em pé de igualdade, com discursos provenientes da cultura, da política e da economia até então dominantes.

 

Em consequência desse contexto, é possível dizer que neste novo século temos visto florescer um conceito mais atrelado à “verdade pessoal” — calcada em características individuais, como honra e autenticidade, e muito mobilizada por políticos da “nova direita” — do que à “verdade tecnicamente chancelada”, balizada por sistemas peritos como o jornalismo profissional e  a ciência.

 

Conforme destaca o sociólogo britânico Anthony Giddens (1991: p. 9), “a perspectiva pós-moderna vê uma pluralidade de reivindicações heterogêneas de conhecimento, na qual a ciência não tem um lugar privilegiado”. E isso acontece porque, as “certezas” de um mundo que ainda não havia chegado à pós-modernidade se desvaneceram, levando juntamente consigo a firme confiança na ciência, algo que havia marcado tão expressivamente o início da era moderna.

 

A discussão a respeito da pós-verdade começou a chamar a atenção do mundo somente após se verificar que decisões globais importantes — como as eleições dos Estados Unidos em 2016 ou a decisão do Reino Unido pela saída da União Europeia — foram influenciadas por informações difusas que não condiziam com o que se habituou a chamar de verdade. Ao fim e ao cabo, mais do que determinante em decisões políticas definidoras de nossa era, verifica-se que a tal pós-verdade tende a implicar uma nova sociabilidade, isto é, novos parâmetros — distantes da verdade chancelada por sistemas peritos— usados pelos indivíduos para estabelecerem relações entre si e com o mundo.

 

 

REFERÊNCIAS

 

CALDAS, Camilo Onoda Luiz; CALDAS, Pedro Neris Luiz. (2019), “Estado, democracia e tecnologia: conflitos políticos no contexto do big-data, das fake news e das shitstorms”. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 24, n.2, p.196-220.

 

FLOOD, Alison. (2016), “'Post-truth' named word of the year by Oxford Dictionaries”. The Guardian. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2016/nov/15/post-truth-named-word-of-the-year-by-oxford-dictionaries. Acesso em: 21 set. 2019.

 

GIDDENS, Anthony. (1991), As consequências da modernidade. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: Editora Unesp.

 

QUADROS, Paulo. (2018), “Dissimulacro-ressimulação: ensejos da cultura do ódio na era do Brasil pós-verdade”. Media & Jornalismo. Imprensa da Universidade de Coimbra. V.18, n.32, Coimbra.

 

ROCHA, Camila. (2019), “Imposto é roubo! A formação de um contrapúblico ultraliberal e os protestos pró-impeachment de Dilma Rousseff”. DADOS,  v. 62, n.3.

 

VALVERDE, Mariana. (2019), “Confesión y autenticidad en el discurso populista de hoy”. Revista CS, n.27, p.146-165.

 

 

 

Este artigo é uma versão condensada de monografia apresentada como conclusão da Especialização em Política e Sociedade do Iesp/Uerj em 2019.

 

 

 

Clarissa Pains é jornalista e mestranda de Sociologia no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj).

 

 

 

 

Como citar esse texto: PAINS, Clarissa. (2020), "Na era das fake news, o que determina o entendimento sobre o que é verdade?". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/06/08/NA-ERA-DAS-FAKE-NEWS-O-QUE-DETERMINA-O-ENTENDIMENTO-SOBRE-O-QUE-E-VERDADE

 

 

 

Editora Responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload