A POESIA PERSA DE HAFIZ

11 May 2020

 

Woman with a Spray of Flowers, 1575

 

 

 

Introdução

 

Shams-ud-Din Muhammad Hāfez-e Širāzi (c.1315-1390), Hafiz de Xiraz, foi um poeta persa do século XIV que viveu na cidade de Xiraz, no sudoeste do atual Irã. Sua obra, que é absolutamente central no cânone literário persa, consiste principalmente em gazéis, uma forma lírica que possui como temática central o amor, a separação e o vinho. Em seus poemas, Hafiz desenvolve uma poética caracterizada pela ambiguidade e polissemia, misturando significados profanos e místicos de uma maneira inédita até então. É, infelizmente, pouco conhecido no Brasil, mas seus versos já foram elogiados por Manuel Bandeira em Gazal em louvor de Hafiz, poema que adota estrutura formal semelhante à do gazel.

 

Apresento em seguida a tradução do Gazel 22. É interessante notar que tais poemas não possuem um título per se, mas sim uma numeração que não é universal. Na tradição literária da época, os gazéis eram antologizados em divãs, um volume onde os poemas são expostos numerados, muitas vezes em ordem alfabética – mas não no caso de Hafiz, cujos poemas seguem uma ordem arbitrária. Devido à inexistência de um texto recebido do divã de Hafiz, há várias discrepâncias entre os manuscritos existentes, de modo que os mesmos poemas podem ter números diferentes, dependendo da edição consultada – isso sem mencionar discrepâncias de ordenamento nos versos, estrofes a mais ou a menos e poemas a mais ou a menos. O fato é que, em sua época, o meio principal de transmissão desses poemas era oral, geralmente ocorrendo em saraus, na corte ou em círculos literários chamados de majles. De fato, parte da razão para a menção do pseudônimo do autor no final do poema era para deixar claro à audiência quem era seu criador. Tal dispositivo poético, denominado taxallos, também serve como um “fecho”, por vezes reintroduzindo a temática central do poema.

 

 

Gazel 22

Hafiz de Xiraz

 

Suada e com cachos desfeitos, risonha e embriagada,

Cantava com a bilha na mão, com as roupas rasgadas.

 

Narcisa com olhos de rixa, o escárnio nos lábios,

Veio sentar-se em minha cama, meia-noite passada.

 

Ela sussurrou-me no ouvido, com voz suave e tenra:

Será que dormes agora, meu amante de longa data?[1]

 

O místico que, no esvair da noite, recusa vinho,

Será infiel ao amor, por não beber de tal taça.

 

Vai e não zombes, asceta[2], de quem bebe até a borra!

Porque no dia do alast[3], só foi essa a nossa graça.

 

Nós bebemos, do nosso cálice, tudo que ele verteu,

Seja o mosto do paraíso, ou o vinho que embriaga.

 

O riso de uma taça, os nós dos cachos do ser amado –

Por sua causa quantas juras – como as de Hafiz – quebradas!

 

 

Notas do tradutor

 

[1] A ausência de travessão ou aspas para delimitar a fala é intencional, espelhando os manuscritos originais, que também carecem de tais marcações. Isso gera certa ambiguidade, pois cabe ao leitor interpretar quando termina a fala da amada do poema e se o eu lírico chega a respondê-la.

 

[2] O asceta, que aqui se opõe ao místico do dístico anterior, é uma figura constantemente criticada por Hafiz; ele se recusa a participar dos prazeres da vida e valoriza a formalidade religiosa acima da verdadeira espiritualidade.

 

[3] O dia do alast, que também pode ser traduzido como “dia do pacto primordial”, foi o momento na pré-história em que Deus teria perguntado às almas, ainda não nascidas, se o reconheciam como o seu senhor. Tem esse nome em referência à essa pergunta em árabe – “alastu bi-rabbikum”. O dia do alast é frequentemente mencionado na literatura e poesia sufista como o momento ao qual o místico deseja retornar, quando só se existia em Deus.

 

 

 

 

 

Nicolas Voss é Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da PUC-Rio, onde estuda e traduz a poesia persa clássica de Hafiz de Xiraz e Jahan-Malek Khatun, com ênfase na produção de traduções com alto grau de correspondência formal.

 

 

 

Como citar esse texto: VOSS, Nicolas. (2020), "A poesia persa de Hafiz". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/05/11/A-POESIA-PERSA-DE-HAFIZ

 

 

 

Editora Responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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