ANTICORPOS PARA O COMBATE AO VÍRUS COLONIAL: ALGUMAS IDEIAS ATRAVÉS DA ARTE

4 May 2020

 

Imagem 1: Castiel Vitorino Brasileiro - Aglutinar e redistribuir, Fotografia Digital, 2018.

 

 

* Este texto se inicia com uma introdução que para alguns pode parecer excessivamente didática e desnecessária, porém, como educador, espero que estas palavras e ideias não circulem apenas entre especialistas.

 

Introdução: somos mesmo uma humanidade?

 

Acredito que, para começar esse breve texto, é possível dizer que os três pilares fundamentais do que chamamos de modernidade -  colonialismo ↔ capitalismo ↔ patriarcalismo - seguem estruturando e mediando as relações entre humanos e sub-humanos [1], bem como a relação de humanos com outros animais, com as plantas e com o próprio planeta Terra. Relembro aqui, então, a pergunta de Ailton Krenak (2019:12): “Somos mesmo uma humanidade?”, com a qual o autor busca demonstrar que nem todos(as/es) aqueles(as/xs) que compartilham a condição de homo sapiens são, efetivamente, considerados(as/xs) humanos, já que a dita humanidade é reservada (de modo narcísico [2], diga-se de passagem) àqueles que se assemelham aos homens brancos e europeus que vêm construindo um caminho onto-epistemológico que lhes coloca no centro do mundo em termos de poder – não à toa cientistas, sobretudo das áreas da geologia e da antropologia têm se debruçado sobre o que seria a era do Antropoceno [3].  

 

Nesse contexto, a criação da ideia fictícia de raça serviu para autorizar os tais homens brancos europeus, os que se auto-construíram como humanos, a sequestrarem, escravizarem, marginalizarem e estigmatizarem pessoas que não se assemelhavam a eles próprios. Como definiu Achille Mbembe (2014; 2018), a partir da criação de uma necropolítica pautada na ideia de raça, o branco se tornou o modelo universal de ser humano. Sendo assim, entendo a raça como uma tecnologia do conhecimento criada por brancos a fim de explorar os recursos naturais e os outros em seu benefício. Deste modo, vêm, basicamente, separando o que chamam de humanidade do restante da natureza, constituindo e reconstruindo um sistema de exploração que tem por base a criação de capital (num sentido legado por Karl Marx) para alguns(mas) em detrimento de outros(as/xs) e têm marginalizado e espoliado populações que não se assemelham a si próprios. Trata-se, assim, de um domínio de homens brancos com capital. Destarte, nesta cruzada secular pelo poder, aqueles tomados(as/xs) como outros(as/xs) pelos ditos humanos, constituem um grupo que  Krenak chama de sub-humanos:

 

Os únicos núcleos que ainda consideram se manter agarrados nessa Terra são aqueles que ficam meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. Esta é a sub-humanidade: caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes. Existe, então, uma humanidade que integra um clube seleto que não aceita novos sócios. E uma camada mais rústica e orgânica, uma sub-humanidade, que fica agarrada na Terra (KRENAK, 2020).

 

Assim como Ailton Krenak, muitos(as/xs) outros(as/xs) se sentem excluídos(as/xs) desse seleto clube, e aqui incluo favelados(as/xs) e refugiados(as/xs) de todos os morros, becos, vielas, zonas fronteiriças, prisões, manicômios e campos de concentração pelo mundo afora. Pessoas que há pelo menos cinco séculos vêm tendo seus saberes, religiosidades, belezas, artes e modos de existir negados em prol da dita humanidade, que se coloca acima de tudo e todos(as/xs) que com ela coabitam a Terra.

 

A modernidade criou, deste modo, um mundo que assassina pessoas e destrói a biodiversidade. No que diz respeito às pessoas outras (não-brancas), trata-se não apenas de um genocídio da população negra, mas também de indígenas, aborígenes, LGBTTQ+ e pessoas empobrecidas, vítimas desse próprio sistema moderno de existência.

 

Proponho, assim, compreendermos a colonialidade como um vírus, um vírus colonial. Na origem latina da palavra, vírus é um veneno. Persistente e contagioso, o vírus colonial enriqueceu seus criadores, contribuindo para o seu domínio sobre a Terra. Tal qual o diabo cristão, é nocivo e astuto, e há séculos vem tentando exterminar existências e recriar processos de expropriação. Todavia, como procuro destacar neste texto, através dos trabalhos de artistas e pensadores(as/xs) como Krenak e Mbembe, há anticorpos em luta para o extermínio do vírus colonial, não visando apenas a imunização, mas a cura absoluta para essa doença secular.

 

Batismo de Sangue

 

Neste momento, creio ser oportuno trazer à discussão o trabalho de Ventura Profana, pastora e multiartista que transita entre a escrita, as artes visuais e a música, que em seu corpo de trabalhos vem pautando a subversão das tecnologias coloniais, especialmente aquela centrada na religiosidade cristã. A imagem 2 é exemplo dos questionamentos produzidos por Profana em seus trabalhos na seara das artes visuais. A artista modifica a pintura A Primeira Missa, de Victor Meirelles (1860), que representa um dos maiores exemplos do romantismo brasileiro especialmente no que se refere a pinturas históricas. No quadro, Meirelles retrata a primeira cerimônia cristã no atual Brasil, reunindo de modo harmônico indígenas e portugueses, demonstrando uma passividade e aceitação dos povos originários em relação àquela que seria a religiosidade a ser seguida. Ocultam-se, assim, os traumas e violências do processo de imposição de padrões religiosos que ocorreram no período - e continuam até hoje. Profana, por sua vez, recorre ao trabalho de Meirelles e insere seu corpo na cruz, ela uma travesti negra, emulada na cruz. Seu corpo passa a representar, então, os corpos subalternizados, massacrados e dizimados pelo vírus colonial, em sua cruzada onto-epistemológica pelo domínio dos homens brancos que contou (e conta) com os princípios e narrativas religiosas cristãs a fim de estabelecer seu poderio.

 

 

Imagem 2: A Primeira Missa no Brasil. Ventura Profana,  Fotografia Digital, 2017.

 

 

Cabe dizer que a imagem do corpo de Ventura Profana não representa tais corpos assassinados e perseguidos apenas por estar no alto da cruz, mas, por ser ela travesti, negra e de origem indígena, nos lembra que estas são algumas das principais vítimas de mortes violentas no Brasil [4]. Neste sentido, creio ser possível dizer que o trabalho de Profana dialoga diretamente com o conceito de necropolítica, presente na formulação fazer morrer e deixar viver (MBEMBE, 2014; 2018). Máxima que segue em vigor através das tecnologias do Estado, que, resumidamente, governa através de políticas que visam a morte daqueles(as/xs) que define como seus inimigos(as/xs) – incidindo, desta forma, sobre vidas que não se enquadrem nos padrões heterossexuais, cisgêneros e raciais no país inventado pela colonização portuguesa.

 

Em 2018, como sabemos, o atual presidente do Brasil foi eleito com um discurso que reunia pautas cristãs, do agronegócio e da indústria armamentista. Não é preciso relembrar o conteúdo de suas comunicações, que para alguns constitui verdadeiro trauma. No entanto, atualmente, quando quem pode se coloca em isolamento em virtude da pandemia do Covid-19, chama a atenção um de seus recentes comentários. Em 27 de março de 2020, quando todxs assistiam atônitos à progressão da pandemia, o presidente afirma em um programa de televisão: “Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida” [5].

 

O choque com a fala acima me leva a outro trabalho de Profana. Em Um Estudo em Vermelho. Batismo #1 (imagem 3), de 2017, a artista provoca uma nova subversão, ao tomar a imagem do atual presidente, à época pré-candidato, em seu batismo nas águas desempenhado em uma igreja de matriz evangélica. Mas na versão de Ventura Profana, as águas não são límpidas, elas se vertem em sangue. O batismo que marca a aliança do presidente com os ditos valores morais cristãos, torna-se um batismo de sangue. E fica a pergunta: a vida de quem? O sangue de quem?

 

 

Imagem 3: Um Estudo em Vermelho. Batismo #1. Ventura Profana, Fotografia Digital, 2017.

 

 

Enquanto escrevo este texto, quase um mês após a fala do presidente, os dados sobre o número de mortes em decorrência do coronavírus no Brasil ultrapassaram 5.000 pessoas - nossos pais, mães, avós, filhas, filhos, sobrinhas, sobrinhos, amigos. Enfim, pessoas. Fato é que a fala do atual presidente foi recebida com escândalo por diversas pessoas que, especialmente nas redes sociais, demonstraram indignação com o que seria uma banalização da vida por parte do chefe do Poder Executivo Federal. Entretanto, se a alguns(mas/mxs) choca, a outros corpos a fala em si era apenas a reprodução de um projeto em curso desde 1500. Afinal, os dados sobre o Covid-19 já têm comprovado quem tem morrido em maior número pela doença. No caso brasileiro, são as pessoas negras e de bairros periféricos.

 

Fortaleza, capital do Ceará, é a cidade que vem ocupando os primeiros lugares em casos confirmados da doença no país. Enquanto que alguns dos bairros mais abastados (como Meireles, Aldeota e Cocó) reúnem o maior número de infectados, são os bairros mais humildes (como Grande Vicente Pinzon, Barra do Ceará e Grande Pirambú) que têm concentrado maior números de óbitos [6]. Bairros periféricos, leia-se aqui, bairros com maior número de pessoas negras, de descendentes de indígenas que tiveram suas sociedades dizimadas e com vulnerabilidades sociais. O Covid-19, de fato, pode matar a qualquer um(mas/mx), no entanto, a possibilidade de isolamento em cômodos separados, com acesso a água etc. não são iguais para todos(as/xs). Em lugares periféricos, a proliferação de um vírus - como o coronavírus - pode significar (mais) um genocídio.

 

Cura através de uma virada de pensamento

 

Em busca de novas rotas para o extermínio do vírus colonial, é necessária uma completa virada de pensamento em relação aos valores impostos pelo tripé da modernidade. É fundamental, neste ponto, me referir ao trabalho de Denise Ferreira da Silva, posto que a autora debate com/contra os valores ontológicos e epistemológicos do projeto colonial, patriarcal e capitalista. Em A Dívida Impagável (2019), Ferreira da Silva, trata da importância de uma transformação completa de pensamento a partir de uma perspectiva poética negra feminista que seria capaz de pôr abaixo os pilares da modernidade, a fim de constituir um mundo distinto em termos éticos e jurídicos.

 

Na perspectiva proposta por Denise Ferreira da Silva, é necessário pensar o mundo de uma forma que se compreenda que as pessoas e as demais coisas e seres estão implicados, que a ação de uns(mas/mx) incidem sobre os(as/xs) demais. Ou seja, resumidamente, o mundo da modernidade seria um mundo ordenado, onde pessoas estariam separadas entre si e do restante do que compõe o mundo. Deste modo, a virada proposta pela autora tem base na noção de plenum, que caracteriza um mundo implicado em oposição ao mundo ordenado, projetado e levado a cabo no processo colonial, capitalista e patriarcal. Um processo que pode ser delineado do seguinte modo:

 

Ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, desde a apresentação da versão clássica do materialismo histórico, a produção capitalista (como delineada por Marx e seus seguidores) não interrompeu a expropriação colonial. Na verdade, o contrário ocorreu. Os últimos duzentos anos testemunharam episódios repetidos da expropriação colonial de terras, trabalho e recursos, garantida por arquiteturas jurídico-econômicas que operam dentro e fora do Estado-nação, ou seja, da figuração mais recente do corpo político liberal. Indubitavelmente encontramos, hoje, a forma jurídica colonial possibilitando o capital global. Considere, por exemplo, os diversos lugares no mundo que se encontram num estado de violência contínua – várias partes no Oriente Médio, continente africano, bairros economicamente despossuídos e áreas rurais na América Latina e no Caribe, ou bairros negros e latinos dos Estados Unidos. Violência que, além de facilitar a expropriação de terras, recursos e mão-de-obra, também transforma esses espaços em mercados para a venda de armas e inúmeros serviços e bens fornecidos pela indústria da seguridade (FERREIRA DA SILVA, 2019: 180-181).

 

A dívida impagável a que se refere a autora diz respeito, então, ao processo de contínua expropriação a que alguns corpos têm sido submetidos ao longo da história a partir da colonialidade. A noção de plenum aparece como uma possibilidade de forjar outras chaves de pensamento que extrapolem o âmbito da modernidade, responsáveis pelo que chamo de vírus colonial. O plenum, por conseguinte, é possibilidade de vida, de outra vida, em outras perspectivas onto-epistemológicas, que compreendam a implicação das pessoas e das coisas umas nas outras. A coletividade ao invés da individualidade é aqui uma senha importante, que demarca a diferenciação entre uma perspectiva, como a apresentada por Ferreira da Silva, e aquela do mundo ordenado da modernidade, que classifica, hierarquiza e separa. Dessa forma, o plenum é um mundo implicado em que “a socialidade não é mais nem causa nem efeito das relações envolvendo existentes separados, mas a condição incerta sob a qual tudo que existe é uma expressão singular de cada um e de todos os outros existentes atuais-virtuais do universo, ou seja, como Corpus Infinitum” (FERREIRA DA SILVA, 2019: 46).

 

A necessidade de pôr abaixo o mundo ordenado e a eliminação do vírus colonial, como aqui proponho, aparece também no trabalho de Jota Mombaça. Em Veio o tempo em que por todos os lados as luzes desta época foram acendidas (2018), a artista se propõe um exercício de pensar memórias do futuro intercaladas com memórias de um passado não tão distante, refletindo sobre o contexto político contemporâneo ao argumentar acerca da continuidade dos processos sócio-históricos do genocídio colonial empreendido contra a população negra. Ao mesmo tempo, pensa sobre caminhos de fuga desse vírus colonial, caminhos para a seu extermínio e a abertura de novas possibilidades de existir e pensar. Diz Mombaça [7]:

 

DESEJAMOS PROFUNDAMENTE QUE O MUNDO COMO NOS FOI DADO ACABE. E esse é um desejo indestrutível. Fomos submetidas a todas as formas de violência, fecundadas no escuro impossível de todas as formas sociais, condenadas a nascer já mortas, e a viver contra toda formação, no cerne oposto de toda formação. Desejamos profundamente que o mundo como nos foi dado acabe. E que ele acabe discretamente, no nível das partículas, na intimidade catastrófica deste mundo destituído de mundo, este mundo que até a própria terra rejeita. Essas palavras circularam telepaticamente por todas as que estávamos ali, não tanto como um pensamento, mas como algo vibrando fora do corpo, na carne do túnel, da nossa velha, da gente: desejamos profundamente que o mundo como nos foi dado acabe (MOMBAÇA, 2018).

 

Para além do desejo de destruição do mundo ordenado em sua faceta moderna, Jota Mombaça conjura a vida. Uma vida em outro mundo, um mundo implicado, como aquele proposto por Denise Ferreira da Silva.

 

Alguns trovões desse mundo implicado têm incidido sobre a Terra por meio de artistas como as aqui mencionadas. Assim, gostaria de encaminhar o fechamento desse texto com o trabalho de Castiel Vitorino Brasileiro, que junto a Mombaça e Profana roga novos mundos, caminhos e possibilidades que buscam se distanciar do projeto colonial. A artista visual, escritora, psicóloga e macumbeira tem travado discussões que reúnem arte e cura (mental e espiritual) tratando do trauma colonial [8]. Em consonância com argumentos e perspectivas como as de Mombaça, Mbembe, Krenak, Ferreira da Silva e Profana, diz a artista em seu livro Quando Encontro Vocês – Macumbas de Travesti, Feitiços de Bixa:

 

Tem gente falando de fim do mundo, que fim do mundo é esse? Que porra de mundo que tá acabando? Estou vivendo o fim do meu mundo, né, o mundo que fui criada, que é o mundo ocidental. E como sobreviver a ele sendo que a minha morte de eu, um corpo negro testiculado e feminino, é programada? Está dentro da agendo. Para esse mundo continuar acontecendo, é preciso que eu morra. Pessoas bixas precisam morrer, pessoas travestis precisam morrer, pessoas indígenas precisam morrer, pessoas negras precisam morrer pra que esse mundo sobreviva. E eu não quero que esse mundo sobreviva. E eu não quero que esse mundo ocidental sobreviva, eu quero que ele chegue ao fim. E veja: o corpo todo sente o fim do mundo (BRASILEIRO, 2019: 16).

 

 

Imagem 4: Corpo-flor.  Castiel Vitorino Brasileiro,  Fotografia Digital, 2016-2019.

 

 

Ao fazer do projeto colonial seu alvo, as vozes aqui reunidas indicam a urgência do extermínio das lógicas patológicas coloniais, desta virose secular. Assim como as artistas já mencionadas, Vitorino Brasileiro pensa fugas. Neste caso, entre outros trabalhos de sua autoria, destaco aqui a série Corpo-flor (2016-2019) - imagens 4 e 5 - em que a implicação ser-planta-espírito é o foco da ação da artista. Indicando outros caminhos societários. Acendendo alertas. Confrontando e derrubando as ontologias e epistemologias coloniais, patriarcais e capitalistas.

 

 

Imagem 5: Corpo-flor. Castiel Vitorino Brasileiro, Fotografia Digital , 2016-2019.

 

 

Este texto não busca conclusões, mas apresentar perspectivas em ação. As vozes aqui reunidas parecem conclamar: eliminem o vírus colonial! Em tempos de Covid-19, muito se tem falado sobre formas de estar junto, sobre novas possibilidades de vida para o pós-pandemia, entretanto ainda pertencentes à lógica colonial. Enquanto isso, aqueles que vivem nos escombros do mundo moderno-ocidental seguem trilhando outros caminhos, deixando sinais evidentes de que o que já foi não pode continuar sendo. Ao corpo de trabalhos de Ailton Krenak, Ventura Profana, Achille Mbembe, Jota Mombaça, Denise Ferreira da Silva e Castiel Vitorino Brasileiro, somam-se muitos outros, todos agindo como anticorpos em combate ao vírus colonial, indicando a necessidade do desmonte efetivo das epistemologias e ontologias moderno-ocidentais. Então, fica a pergunta: você ficará ao lado dos que conservam o mundo moderno ou se somará àqueles(as/xs) que buscam outros caminhos?

 

 

NOTAS

 

[1] Entendo por “humanos” aqueles que são brancos, europeus, cisgêneros, heterossexuais e seus descendentes; por “sub-humanos” todos aqueles que não se assemelham ao tipo europeu, historicamente categorizados como Outros.

 

[2] Propondo uma leitura descolonizada do mito grego de Narciso e Eco, Grada Kilomba, traz a metáfora do jovem que se torna objeto de amor e idolatria por si próprio com a finalidade de tratar da sociedade branca e patriarcal. Deste modo, Kilomba argumenta sobre como a inteligência, a beleza e os conhecimentos tomados como válidos em sociedades coloniais refletem, em geral, única e exclusivamente aqueles criados, idolatrados e reproduzidos por pessoas brancas (leia-se, homens brancos). Para mais detalhes, ver a obra de Ilusões Vol. I, Narciso e Eco, bem como seu livro Memórias da Plantação – Episódios de Racismo Cotidiano (2019a).

 

[3] O Antropoceno se trata, resumidamente, de uma nova era geológica em que se encontraria o planeta, em que os humanos tomaram o papel principal como força ambiental dominante na Terra.

 

[4] No Brasil, as travestis têm uma expectativa de vida em torno de 35 anos de idade, enquanto a expectativa de vida para brasileiros(as/xs) em geral é em média de 76 anos e três meses. No que se refere à população negra, esta tem 2,7 mais chances de morrer por causas violentas, relativamente à população branca.

Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26103-expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumenta-para-76-3-anos-em-2018>.

<https://exame.abril.com.br/brasil/ibge-populacao-negra-e-principal-vitima-de-homicidio-no-brasil/>. Acesso em 25 de abril de 2020.

 

[5] Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/governo/bolsonaro-sobre-coronavirus-alguns-vao-morrer-lamento-essa-e-a-vida/>. Acesso em 25 de abril de 2020. 
Alguns dias depois, ao ser questionado sobre o aumento do número de casos fatais, o presidente, contrário às medidas de isolamento horizontal, continua: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml>. Acesso em 28 de abril de 2020.

 

[6] Boletim Epidemiológico semanal datado de 22 de abril de 2020. Disponível em: <https://coronavirus.fortaleza.ce.gov.br/boletim-epidemiologico.html >. Acesso em 25 de abril de 2020.

 

[7] Disponível em: <https://jotamombaca.com/texts-textos/veio-o-tempo/>. Acesso em 23 de abril de 2020.

 

[8] Aliás, o título de sua primeira exposição individual é O Trauma é Brasileiro, ocorrida entre 11 de junho e 24 de agosto de 2019, na Galeria Homero Massena, em Vitória, cidade natal da artista.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BRASILEIRO, Castiel Vitorino. Quando Encontro Vocês – Macumbas de Travesti, Feitiços de Bixa. Vitória: Editora da Autora, 2019.

 

FERREIRA DA SILVA, Denise. A Dívida Impagável. São Paulo: Casa do Povo, 2019.

 

KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

 

KRENAK, Ailton. O Amanhã não está a Venda. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

 

KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação – Episódios de Racismo Cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019a.

 

KILOMBA, Grada. Desobediências Poéticas. São Paulo: Pinacoteca de São Paulo, 2019b.

 

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. Portugal: Antígona, 2014.

 

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

 

MOMBAÇA, Jota. Veio o tempo em que por todos os lados as luzes desta época foram acendidas. Disponível em: <https://jotamombaca.com/texts-textos/veio-o-tempo/>. Acesso em 23 de abril de 2020.

 

 

 

Como citar esse texto: MARCONDES, Guilherme. (2020), "Anticorpos para o combate ao vírus colonial: algumas ideias a partir da arte". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/04/29/ANTICORPOS-PARA-O-COMBATE-AO-VIRUS-COLONIAL-ALGUMAS-IDEIAS-ATRAVES-DA-ARTE 

 

 

Guilherme Marcondes é Pós-doutorando (com bolsa PNPD/CAPES) no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (PPGS/UECE). Doutor e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ). Foi Coordenador de Pesquisa e Memória do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (mBrac) e assistente de pesquisa no projeto Difusão e Educação Patrimonial do Acervo Histórico do CPDOC/FGV. Atualmente, é pesquisador associado ao Núcleo de Sociologia da Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUSC/UFRJ) e do GRUA - Grupo de Reconhecimento de Universos Artísticos/Audiovisuais (CNPq), além de ser um dos editores associados da Horizontes ao Sul.

 

 

 

Editora Responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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