“VÃO TODOS TOMAR NO...”: A POLÍTICA DO CHOQUE E A ESFERA PÚBLICA

Foto: Alan Santos/PR

 

 

 

 

Nos últimos anos termos como “globalismo” e “hegemonia cultural esquerdista” passaram a ser usados rotineiramente no debate público nacional. Conferindo atualidade a um ideário anticomunista que caíra em desuso na década de 1980, tais ideias ganharam tração na metade dos anos 2000, em meio à denúncia do escândalo do “mensalão” e à criação do Orkut, rede social que antecedeu o uso massivo do Facebook no Brasil. O Orkut rapidamente se tornou muito popular entre usuários de internet existentes na época, e, ao facilitar a criação de espaços de debate alternativos, desempenhou um papel importante na disseminação de ideias que praticamente não circulavam na mídia tradicional ou na academia, como as propagadas pelo escritor Olavo de Carvalho (Rocha, 2019). Dez anos depois, o combate à “hegemonia esquerdista” passou a ganhar corpo na sociedade civil à medida que os livros de Carvalho se tornavam best-sellers e as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff avançavam, processo que atingiria seu auge com a eleição de Jair Bolsonaro.

 

Para compreender como determinadas ideias que antes circulavam apenas em círculos restritos e alternativos se tornaram rotineiras no debate público nacional é fundamental levar em consideração as dinâmicas contemporâneas que perpassam a esfera pública, em especial a proliferação do que se denomina aqui de contrapúblicos. Originalmente o conceito de contrapúblico foi desenvolvido com o intuito de apontar supostas insuficiências nas reflexões do filósofo alemão Jürgen Habermas (2014) em relação aos potenciais democratizantes da esfera pública (Fraser, 1997). Utilizado inicialmente para compreender a atuação de grupos sociais subalternos na esfera pública, o conceito passou também a ser empregado para compreender a ascensão de grupos e lideranças localizados à direita no espectro político (Downey e Fenton, 2003; Thimsen, 2017).

 

Para analisar as dinâmicas contemporâneas da esfera pública, é preciso ter em vista um conceito complexo que dê conta de suas características múltiplas e relacionais. Não existe algo como uma esfera pública unificada, mas sim uma multiplicidade de públicos. Os públicos aos quais fazemos referência aqui são formados a partir da existência de textos[1] e de sua circulação reflexiva, e podem ser mais ou menos locais, mais ou menos integrados, mais ou menos oficiais e institucionalizados, e mais ou menos digitalizados (Celikates, 2015). Deste modo, existem públicos que são dominantes - em geral são aqueles que são mais próximos do Estado, do Capital e da Ciência - e públicos que ocupam uma posição subordinada em relação aos primeiros.

 

O que todos os públicos possuem em comum é o fato de que são espaços auto-organizados, voluntários, e orientados para uma sociabilidade entre estranhos, ou seja, a formação de vínculos entre pessoas que não se conhecem a priori. Assim, participar de tais públicos requer um mínimo de participação e atenção, além de um entendimento compartilhado de que seus argumentos devem ser baseados em um modo de reflexão crítico-racional, entendimento este que atua como uma espécie de ideologia predominante em públicos dominantes. Isso ocorreria porque, ainda que modos discursivos e de endereçamento de caráter performativo estejam presentes em algum grau em qualquer público, a argumentação de tipo crítico-racional possuiria uma legitimidade maior na medida em que possibilitaria uma interlocução mais eficaz com o Estado.

 

Tendo isso em vista, os públicos que circulam textos de oposição a um horizonte cultural percebido como dominante, e cujo caráter performativo (e, do ponto de vista dos públicos dominantes, indecoroso) se sobressai em detrimento do uso de uma argumentação de tipo crítico-racional, causando reações de choque e de perturbação na ordem social, são denominados como contrapúblicos (Warner, 2002). Nesse sentido, é decisiva a percepção compartilhada por parte dos membros dos contrapúblicos de que fazem frente a um horizonte cultural dominante, de modo que, para os fins da análise realizada aqui, pouco importa se, por exemplo, o globalismo corresponde a uma realidade objetiva ou não, o que importa é que, de acordo com a percepção compartilhada pelos membros dos contrapúblicos antiglobalismo, os globalistas seriam hegemônicos em públicos dominantes. De forma análoga, para os contrapúblicos queer, por sua vez, a heteronormatividade seria hegemônica em públicos dominantes.

 

O combate à hegemonia de determinadas visões de mundo nos públicos dominantes realizado pelos contrapúblicos se dá a partir de uma forma de endereçamento que é necessariamente disruptiva, indecorosa e chocante, denominada aqui de contrapublicidade. E é justamente o recurso à contrapublicidade que diferencia os contrapúblicos dos públicos subordinados.

 

No entanto, ainda que tal característica seja comum a todos os contrapúblicos, existe uma distinção importante no que diz respeito à subalternidade de seus membros. A qualificação de subalterno e não-subalterno diz respeito à posição social dominada ou dominante no interior de sistemas de opressão - como classe, raça, gênero e sexualidade (Hill Collins, 2009) - daqueles que participam desses espaços, considerando que a subalternidade possui, necessariamente, tanto um aspecto estrutural e objetivo, como um aspecto simbólico e subjetivo[2].

 

Leitoras de Olavo de Carvalho poderiam constituir um contrapúblico, embora não um contrapúblico subalterno apenas pelo fato de serem mulheres, na medida em que tais leitoras provavelmente não se percebem como dominadas em uma estrutura social que privilegia os homens, ou não o fazem de forma central, mas sim se enxergam como subordinadas culturalmente por públicos dominantes percebidos como hegemonizados pelo globalismo. De forma análoga, gays de direita também poderiam pertencer a um contrapúblico não-subalterno, pois estes não se compreendem como pessoas dominadas por uma estrutura social heteronormativa, ainda que tal estrutura de fato exista objetivamente e inspire assassinatos por motivos tão banais quanto o pânico diante de um menino com um jeito de andar lido como afeminado (Butler, 2006).

 

Seria possível, por outro lado, compreender as ativistas feministas que atuam em associações de bairros de periferias e fazem uso apenas de argumento de tipo crítico-racional para demandar por mais creches ou mais equipamentos públicos para o atendimento de vítimas de violência doméstica como membros de públicos subalternos (Medeiros, 2017). Já as ativistas que realizam performances disruptivas e recepcionadas como chocantes para chamar a atenção para causas feministas, como as participantes das Marchas das Vadias que expõem os seios em público, seriam membros de contrapúblicos subalternos (Medeiros e Fanti, 2017).

 

Tendo todos estes elementos em vista, seria possível então propor uma tipologia de públicos e contrapúblicos. Assim, para além dos públicos dominantes, existiriam públicos subordinados subalternos - como as ativistas feministas de uma associação de bairro - e públicos subordinados não-subalternos -, como o público formado pelos leitores de Ludwig Von Mises que realizam uma defesa radical do livre-mercado, que se autodenominam “libertários”, ou o público formado por entusiastas da Monarquia. No caso dos contrapúblicos, existiriam também contrapúblicos subalternos - como as ativistas das Marchas da Vadias - e contrapúblicos não-subalternos - como os leitores de Olavo de Carvalho.

 

Considerando especificamente a atuação dos contrapúblicos, é possível dizer que, subalternos ou não, todos fazem recurso à contrapublicidade, isto é, o choque intencional e o recurso à performatividade disruptiva, a qual pode ser conscientemente utilizada politicamente como uma estratégia contra-hegemônica radical. Bastante ilustrativo nesse sentido é um texto escrito por Olavo de Carvalho no qual se defende conscientemente o uso do palavrão com o objetivo de chocar ao romper com o decoro dos públicos dominantes, compreendido pelo autor como uma “camisa-de-força”:

 

 

O USO DO PALAVRÃO

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Eu uso esses palavrões porque são NECESSÁRIOS.

São necessários no contexto brasileiro para demolir essa linguagem polida que é uma camisa-de-força que prende as pessoas, obrigando-as a respeitar o que não merece respeito.

Então, às vezes, quando você discorda de um sujeito, mas discorda respeitosamente, você está dando mais força pra ele do que se concordasse. Porque você está indo contra a ideia dele, mas você está reforçando a autoridade dele. A autoridade é a respeitabilidade.

O problema dessas pessoas, desses bandidos de que eu estou falando, não são as ideias. É justamente o fato de que são canalhas.

São canalhas, são bandidos, são ladrões.

V-Ã-O T-O-D-O-S T-O-M-A-R N-O C-U!

(Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara, setembro de 2013)

 

 

A política do choque costuma ser utilizada de forma consciente como uma estratégia contra-hegemônica radical quando existe uma percepção por parte dos membros de determinados públicos de que suas ideias não circulam em públicos dominantes, e de que a própria manifestação das visões de mundo e modos de vida que defendem estão sob ameaça iminente. Tal motivação é explicitada por Flávio Bolsonaro durante uma live[3] com Olavo de Carvalho em 2012 em que foi realizada a entrega da Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Assembleia do Estado do Rio de Janeiro ao escritor:

 

 

Eu que penso de uma forma contrária, não tenho espaço nenhum, espaço nenhum na imprensa, é aí fica a explicação do que, muitas pessoas nos criticam, e certamente o criticam também Olavo, pela forma como coloca algumas discussões. Porque é preciso criar o fato, chamar a atenção, chocar, sobre determinados assuntos para que isso tenha espaço na imprensa e a população como um todo tenha acesso a essa discussão. A maior prova disso é o famoso kit gay. Se não fosse uma atuação mais ostensiva do deputado Jair Bolsonaro, jamais estaríamos sabendo que crianças, por enquanto das escolas públicas, a gente não sabe qual será o próximo passo, pode atingir as escolas particulares, porque tenho certeza que as classes médias e as classes altas se engajam também nessa discussão, nós jamais saberíamos que havia esse incentivo à sexualidade, seja para o lado homossexual ou pro lado heterossexual, Olavo, para crianças de seis anos de idade. (Olavo em resposta): Eles querem fazer clientela para os pedófilos, quem é que não percebe isso aí?

 

 

De fato, em um intervalo de apenas quatro anos, entre 2011 e 2014, a sociedade brasileira passou pelo que foi sentido pelos segmentos mais conservadores como um verdadeiro choque de progressismo. Em 2011 foi criada a Comissão Nacional da Verdade (CNV) para investigar os crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar, e, no mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável homoafetiva. No ano seguinte, o mesmo tribunal reconheceu também o direito ao aborto em casos de anencefalia fetal e confirmou a validade do sistema de cotas raciais nas universidades públicas. Em 2013 foi promulgada a PEC das Domésticas, que ampliou os direitos trabalhistas das trabalhadoras domésticas, e em 2014 a “Lei da Palmada”, que proibiu o uso de castigos físicos e tratamentos cruéis e degradantes a crianças e adolescentes.

 

Diante de tal cenário, como bem aponta Flávio Bolsonaro, seu pai, na época deputado federal, não hesitou em tomar a dianteira na reação aos avanços progressistas. Ao lado de outros parlamentares conservadores, conseguiu barrar a impressão de material escolar relativo ao projeto “Escola sem homofobia”, oriundo do programa “Brasil sem homofobia”, formulado ainda em 2004, apelidado pejorativamente de “Kit Gay”. Porém, não obteve o mesmo sucesso em relação à instalação da CNV, e nem no que tange à aprovação da união civil homoafetiva, a qual foi regulamentada pelo Conselho Nacional de Justiça em maio de 2013.

 

Durante o mesmo período, para além das movimentações na arena institucional, as manifestações de determinados contrapúblicos, à esquerda e à direita, começaram a se disseminar em uma velocidade cada vez maior. Isso ocorreu sobretudo em virtude de uma conjunção entre o crescimento da polarização política e da popularização crescente da internet no país[4], o que aumentou exponencialmente o alcance potencial de indivíduos e grupos dos mais alternativos, como foi o caso das Marchas das Vadias. Inspiradas na Slut Walk canadense, as marchas pipocaram em todo o território nacional entre 2011 e 2013, e as imagens de manifestantes com seios desnudos, assim como as performances disruptivas encenadas por coletivos culturais, que apareciam quebrando santas e introduzindo crucifixos no ânus, inundaram a mídia tradicional e as redes sociais provocando reações de choque.

 

Às imagens oriundas das Marchas das Vadias se somaram outras capturadas em Paradas LGBT, como a de um homem vestido de Jesus Cristo beijando outro homem e a de uma transsexual presa a uma cruz. Assim, para além do choque sentido com os avanços progressistas na arena institucional, os conservadores também se sentiram atacados no âmbito da sociedade civil, como atesta a conversa entre Flávio Bolsonaro e Olavo de Carvalho na mesma live de 2012:

 

 

Flávio Bolsonaro: essas manifestações hoje em dia são a decadência do ser humano. A televisão mostrou na sua intimidade como é a parada gay de São Paulo, é assustador, é sexo explícito a céu aberto.

 

Olavo de Carvalho: Por que eles fazem isso? Eles poderiam ter defendido a causa deles de uma maneira discreta, tranquila, mostrando os gays como pessoas bem comportadas, por que eles não fizeram isso? Por que eles escolheram o contrário? Escolheram o escândalo? A esculhambação? O liberou-geral, o carnavalesco? Porque eles sabem que isso vai chocar o pessoal religioso e evangélico e esses caras vão ter uma reação emocional, vão investir contra o homossexualismo. Daí o que eles fazem? “Tá vendo, homofobia!” Eles usam isso como prova de homofobia, e os evangélicos e católicos caem no engodo. Ficam numa cruzada contra o homossexualismo. E eu digo: isso é besteira meu filho, o homossexualismo existe desde a queda de Adão, e vocês não vão acabar, o que nós temos que lutar é contra que essa legislação exista e não botar em questão o homossexualismo em si. Isso é bobagem. Inclusive porque tem um site maravilhoso que chama “gays de direita”, eles denunciam toda essa coisa de que existe perseguição homofóbica, então essas pessoas estão do nosso lado, e acredito que a maior parte dos gays estaria do nosso lado a hora que eles entendessem a mentira constitutiva desse movimento e as ambições psicóticas dessa gente.

 

 

Assim, para além das disputas existentes entre contrapúblicos e públicos dominantes, os conflitos entre diferentes contrapúblicos ganharam mais relevância no debate público e a estratégia da contrapublicidade começou a ser utilizada com ênfase crescente, inclusive em espaços costumeiramente ligados a públicos dominantes, como as Universidades. Em 2014, em meio a uma festa de confraternização de um seminário acadêmico promovido pela Universidade Federal Fluminense (UFF), foi realizada uma performance artística pelo Coletivo Coiote. Durante a performance, intitulada “Xereca Satânik”, uma das integrantes do coletivo insere em sua vagina uma bandeira do Brasil, costura a própria vulva com a ajuda de colegas e queima a flâmula em uma fogueira. A reação à “Xereca Satânik” foi de tal monta que a integrante do Coletivo Coiote, após receber ameaças de morte, decidiu regressar a sua cidade natal, motivando o corpo docente do curso de Produção Cultural da universidade a emitir a seguinte nota:

 

Causa-nos espanto o grau de estranheza e criminalização com a qual tanto a performance da artista Raíssa, quanto a própria universidade foram tratadas nos últimos dias. Por se tratar de um espaço de experimentação de linguagens e reflexão - com seus evidentes riscos de choque à moral e ao senso comum -, é justamente na universidade onde devem ser expostos os descontentamentos, estimulados os debates, e negados quaisquer vícios de censura.

 

 

Corroborando o conteúdo da nota, um professor afirmou em sua rede social na época que “o evento foi uma “performance para chocar” e declarou “apoio total aos organizadores”. Se a “Xereca Satânik” teve suporte nos meios acadêmicos, a contrapublicidade conservadora também somou apoiadores nos meios políticos e empresariais quando a candidatura à presidência de Jair Bolsonaro começou a tomar corpo. Em meio aos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, os manifestantes adotaram Bolsonaro como a principal opção para ocupar o cargo. Conhecido por seus discursos polêmicos e disruptivos, o capitão reformado logo recebeu o apelido de “bolsomito”, em referência às suas “mitagens”, as quais incluíam declarações públicas efusivas de apoio ao Coronel Carlos Brilhante Ustra, conhecido torturador que atuou durante a ditadura militar no país.

 

A “mitagem” e a “lacração” são gírias que se popularizaram na internet justamente em meio às dinâmicas ensejadas entre públicos e contrapúblicos, e que fazem referência à capacidade de encerrar uma discussão de forma exemplar deixando o interlocutor sem reação. Ainda que os membros dos contrapúblicos possuam argumentos de tipo crítico-racional para sustentar suas posições, no debate público fazem a opção pela recusa ao debate, estigmatizando outras pessoas que compartilham de suas visões de mundo e que procuram debater suas ideias com seus adversários políticos, como anuncia a dupla “Brasileirinhos” no minidocumentário Catarsy veiculado no YouTube no ano de 2019:

 

 

Os gravatinhas de direita querem um mundo anódino, de ideias, um estado democrático de direito com pluralidade de ideias, enquanto que o sonho da esquerda é destruir tudo o que você ama, o que você respeita. É isso que você acha que merece sua defesa apaixonada? Se você está tendo que debater suas ideias, você já perdeu, você só não sabe disso ainda. Por exemplo, aborto não se discute, você cospe na cara do abortista e acabou, se você admite que isso é uma questão para debate você já perdeu. Tá chegando o dia que a resposta mais racional e coerente que vai ser possível dar a uma dessas opiniões é você enfiar dois dedos na goela e vomitar no sapato do seu interlocutor.

 

 

Considerando tudo o que foi exposto até aqui, entendemos que os contrapúblicos têm duas dimensões centrais: um caráter ambivalente e um caráter paradoxal. No que tange à ambivalência é possível dizer que os contrapúblicos fomentam um potencial de democratização da esfera pública dominante ao apontarem para ausências de pluralidade no debate público e chamarem atenção para sofrimentos sociais que são pouco ou nada tematizados em públicos dominantes (Hoschchild, 2016), mas que, ao mesmo tempo, também estimulam a fragmentação sociocultural e a polarização sociopolítica. A polarização política, em especial, é alimentada pois os contrapúblicos operam segundo uma lógica de que existiriam apenas inimigos políticos a serem destruídos, e não adversários políticos que poderiam ser cooptados ou derrotados. Para os membros dos contrapúblicos a impossibilidade do debate repousa na percepção de que seus inimigos agem sempre de forma má-intencionada, cruel e psicopata, são pervertidos, “fascistas”, não possuem humanidade e nem racionalidade, ou então foram vítimas de alguma “lavagem cerebral” que os doutrinou para defenderem ideias malignas, o que torna impossível qualquer debate racional de ideias.

 

Já o caráter paradoxal dos contrapúblicos está em sua relação com a conflitualidade. Os contrapúblicos não apenas instauram o conflito entre o horizonte cultural dominante e um horizonte alternativo, como também permitem nomear o conflito e esboçar a sua própria utopia de reorganização da vida pública. De modo geral, os públicos dominantes trabalham com a naturalização de seu próprio horizonte cultural e, assim, perpetuam a dominação de seus códigos, performances, ideias e estruturas uma vez que se apresentam como consensuais, ou seja: livres de conflitos. A contrapublicidade desnaturaliza estes falsos consensos; mas sua dimensão paradoxal está na dificuldade em sair da conflitualidade pura e fabricar novos consensos, mais inclusivos e mais reflexivos.

 

A atuação de Jair Bolsonaro e seus filhos no governo seria um exemplo paradigmático da conflitividade pura: trai e abandona aliados, sabota acordos, impede novos consensos (pois isto seria justamente trair seu próprio princípio de contrapublicidade) e não inspira a construção de uma solidariedade social ainda mais urgente em tempos de pandemia. Seu único objetivo é demolir as bases dos públicos dominantes. Para tanto, busca naturalizar o próprio extremismo, ao mover o horizonte cultural cada vez mais à direita (Nunes, 2020) e ao sinalizar a instauração futura de um regime político autoritário em meio a manifestações de grupos radicalizados.

 

 

 

NOTAS


[1] Partimos aqui da reflexão de Warner (2002), mas entendemos a importância de descentrar a análise da esfera pública do século XXI para além da cultura escrita, a fim de incluir também múltiplas linguagens, como fotos, vídeos, áudios, performances etc.

 

[2] Hill Collins chama o primeiro aspecto de "domínio estrutural de poder" (a organização da opressão, ou seja da distribuição desigual e injusta dos recursos socialmente valorizados) e o segundo de "domínio hegemônico de poder" (representações que legitimam e justificam a opressão ou então que a questionam de modo contra-hegemônico).

 

[3] Transmissão online ao vivo.

 

[4] Sobre a correlação entre a popularização da internet e o crescimento de contrapúblicos ver Downey e Fenton (2003).

 

  

 

REFERÊNCIAS

 

BUTLER, Judith. (2006), Philosophical Encounters of the Third Kind. Documentário, YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dDQ_-Gvyj18

 

CELIKATES, Robin. (2015), "Digital Publics, Digital Contestation: a New Structural Transformation of the Public Sphere?" In: CELIKATES, Robin; KREIDE, Regina; WESCHE, Tilo (Ed.). Transformations of Democracy. Londres: Rowman & Littlefield.

 

DOWNEY, John; FENTON, Natalie. (2003), "New Media, Counter Publicity and the Public Sphere". New Media & Society, v.5, n.2, p.185-202.

 

FRASER, Nancy. (1997), "Rethinking the Public Sphere: A Contribution to the Critique of Actually Existing Democracy". In: FRASER, Nancy. Justice Interruptus: Critical Reflections on the “Postsocialist” Condition. New York/London: Routledge.

 

HABERMAS, Jürgen. (2014), Mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa. São Paulo: Unesp.

 

HILL COLLINS, Patricia. (2009), Black Feminist Thought. New York: Routedge.

 

HOCHSCHILD, Arlie Russell. (2016), Strangers in Their Own Land. New York: The New Press.

 

MEDEIROS, Jonas. (2017), Movimentos de mulheres periféricas na Zona Leste de São Paulo: ciclos políticos, redes discursivas e contrapúblicos. Tese de Doutorado em Educação, Unicamp, Campinas.

 

MEDEIROS, Jonas; FANTI, Fabiola. (2019), "Recent Changes in the Brazilian Feminist Movement: The Emergence of New Collective Actors". In: FERRERO, Juan Pablo; Ana Natalucci; Luciana Tatagiba. (Org.) Socio-Political Dynamics within the Crisis of the Left: Argentina and Brazil. 1ed.Londres: Rowman & Littlefield, p. 221-242.

 

NATALUCCI, Ana; TATAGIBA, Luciana (Ed.). Socio-Political Dynamics within the Crisis of the Left: Argentina and Brazil. Londres: Rowman & Littlefield.

 

NUNES, Rodrigo. (2020), "Alvim errou a mão na trollagem nazi inspirada na direita dos EUA". Folha de S. Paulo, 21 jan. 2020.

 

ROCHA, Camila. (2019), “Menos Marx, mais Mises”: uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018). Tese de Doutorado em Ciência Política, USP, São Paulo.

 

THIMSEN, Freya. (2017), "Did the Trumpian Counterpublic Dissent against the Dominant Model of Campaign Finance?". Javnost - The Public, v.24, n.3, p.267-283.

 

WARNER, Michael. (2002), Publics and Counterpublics. New York: Zone Books.

 

 

 

Como citar esse texto: ROCHA, Camila; MEDEIROS, Jonas. (2020), "'Vão todos tomar no...': a política de choque e a esfera pública". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/04/27/VAO-TODOS-TOMAR-NO-A-POLITICA-DO-CHOQUE-E-A-ESFERA-PUBLICA

 

 

Camila Rocha é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutoranda no Programa Internacional de Pós-Doutorado do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (IPP/Cebrap) e co-organizadora de As direitas nas redes e nas ruas (Expressão Popular, 2019).

 

 

Jonas Medeiros é doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), co-autor de Escolas de Luta (Veneta, 2016) e co-organizador de Ocupar e Resistir (Editora 34, 2019).

 

 

 

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

 

 

 

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