O AVESSO DO NEGACIONISMO: ARMADILHAS IDEOLÓGICAS NA HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS

21 Apr 2020

 

Photo by Jonas Verstuyft on Unsplash

 

 

[Nota do autor: Há quase um mês recebi o convite para escrever um texto à Horizontes ao Sul, que seria um chamado à leitura do meu novo livro, Ciência, objeto da História, publicado no ano passado e cujo evento de lançamento deveria ocorrer no dia 17 março, mas foi adiado devido à Covid-19. A minha tentativa de refletir sobre o momento crítico que vivemos a partir dos argumentos que desenvolvi no livro foi ficando mais difícil à medida que a crise se adensava e que a quantidade de leituras relevantes crescia exponencialmente (o Syllabus do The Politics of Covid-19 já conta com mais de 5000 artigos[1]). A dificuldade principal, porém, foi atualizar a crítica ao modo de produção de conhecimento tecnocientífico e à sua ideologia ao mesmo tempo em que critico também o negacionismo e seus avatares hodiernos. No período em que o livro foi escrito, mais ou menos entre 2012 e 2015, o negacionismo não possuía representantes tão influentes. Desde então, a situação mudou, me obrigando a reconsiderar a sua força no cenário contemporâneo, o que tentei esboçar aqui. Agradeço à editora pelo espaço para expor essa reflexão e pela paciência com o texto].

 

 

 

 

A crise global precipitada pela pandemia de Covid-19 tem o potencial de colocar em xeque muitas práticas sociais naturalizadas. Ela escancara contradições da nossa sociedade e por um breve momento – o “momento do perigo” ao qual se referia Walter Benjamin nas Teses sobre o conceito de história – olhamos com horror para traços do passado recente que até então eram despercebidos. Não há como achar que está tudo normal e talvez algumas coisas jamais voltem ao normal[2]. Ao contrário de outros momentos críticos do sistema social capitalista, não é possível agora apelar para a evasão pela repetição mecânica da rotina. Apesar das tentativas de setores da direita global e seus representantes nacionais, não há como reciclar o velho slogan cínico: “não pense em crise, trabalhe!”. 


Pelo contrário, pensar em crise, pensar essa crise em suas muitas faces e seus possíveis desdobramentos será um trabalho fundamental para que consigamos imaginar saídas para além da tragédia que se anuncia no horizonte. De Bruno Latour a Judith Butler, de Achille Mbembe a Slavoj Zizek, já há um sem número de intelectuais, filósofos, cientistas sociais e historiadores esforçando-se em produzir reflexões sobre a crise (cf. o Syllabus mencionado na Nota acima). Pois bem, minha modesta proposta aqui é pensar um pouco sobre a atual situação ideológica das ciências a partir da sua história recente. O curto circuito causado pela ascensão política do negacionismo científico em simultâneo à conjunção de uma governança tecnocientífica global da crise, que poderíamos sintetizar na (mas não reduzir à) expressão "achatar a curva", expôs nuances históricas importantes que merecem ser exploradas. Talvez por reflexo profissional, meu olhar se volta para a brutal disjunção entre a inocente imagem que a ciência faz de si mesma (“como a imagem de uma cultura nacional obtida através de um folheto turístico”, ironizava Thomas Kuhn) e as recentes transformações no modo de produção e circulação do conhecimento científico. Assim, pergunto: a história das ciências pode nos ajudar a desarmar a armadilha ideológica “cientificismo ou negacionismo”? 


A ciência não é um sistema de enunciados pairando sobre a sociedade e a cultura. A história tem mostrado nas últimas décadas que o conhecimento científico sofre a corrosão da temporalidade, opera reagindo a estímulos do ambiente onde ele é produzido, incorpora traços da visão de mundo contra a qual se projeta – não como desvio ou erro, mas como elemento constitutivo legítimo. A imagem “mumificada” da ciência como um conjunto de conhecimentos objetivos, independentes do ambiente da sua produção foi desafiada pela atribuição de historicidade ao conhecimento científico. Vista através da sua história, a ciência emerge como um conjunto de práticas negociadas, locais, frutos de arranjos que por vezes são frágeis, dependentes de múltiplas variáveis e correlações de força nem sempre estáveis, geralmente envolvidas em disputas por credibilidade, legitimidade, recursos. 


A queda do muro de Berlim em 1989 e a “vitória” do capitalismo neoliberal marcaram a transformação no pacto entre ciência e tecnologia, Estado e mercado. A relação entre ciência, tecnologia e capitalismo (em sua forma neoliberal) passou por uma reconfiguração. Esse novo arranjo sócio-histórico recombina elementos já presentes nos modos hegemônicos de produção de conhecimento científico mais antigos, enquanto gradativamente se afasta do modelo forjado no pós-Guerra – a Big Science produzida no âmbito do complexo militar-industrial-científico que recebe investimento estatal maciço – e transita em direção à Tecnociência. 


Desde o final dos anos 1970, o termo tecnociência tem sido utilizado na história das ciências para indicar a diluição de fronteiras entre ciência básica e ciência aplicada, que se vê por exemplo na designação das novas disciplinas da pesquisa de ponta que surgem nesse período: engenharia genética, biotecnologia, nanotecnologia, tecnologia da informação etc. Faz parte da tecnociência também a reversão das hierarquias entre a tecnologia e a ciência. Nesse modo de produção de conhecimento, a dimensão tecnológica, ou seja, a aplicação utilitária, lucrativa e inovadora do conhecimento é mais importante do que a sua capacidade de produzir novas verdades ou de realizar descobertas fundamentais sobre a natureza. Por fim e o mais importante: a tecnociência é o nome dado ao fenômeno de fusão e emaranhamento entre ciência, tecnologia e capitalismo neoliberal. Assim, essa entidade tem sido descrita como resultante da captura da tecnologia e da ciência pelo mercado – o que acarreta mudanças nos próprios mecanismos do mercado. Podemos até ir mais longe e falar de uma relação de codependência e coprodução, não a simples dominação exercida pelo mercado impuro contra uma ciência pura. Sob o capitalismo, a tecnociência reproduz uma tendência altamente concentradora e alienante. 


Apesar do crescimento vertiginoso de profissões ligadas aos setores tecnológicos e da massa de profissionais com alto grau de treinamento, preparados para lidar com máquinas cada vez mais específicas e sofisticadas em uma escalada da demanda pela expertise, não há, necessariamente, uma consciência coerente dos conhecimentos científicos envolvidos nesses processos. Essa relação não é nova, sabemos que os insumos científicos e tecnológicos que alimentaram os motores da modernização e a incorporação da ciência e da tecnologia às cadeias produtivas tem sido um dos principais responsáveis pela manutenção da dinâmica acelerada do capitalismo ao longo dos dois últimos séculos, juntamente com a espoliação contínua e acelerada de populações e recursos cada vez maiores. A progressiva pulverização dos dispositivos tecnocientíficos ao longo de todo o corpo social, sua dispersão molecular em cada esfera da vida, a captura da racionalidade científica pela racionalidade econômica, transforma os resultados da ciência em mercadorias reguladas pela arena do “livre-mercado”. 


Nesse cenário, o negacionismo científico surge como uma espécie de perversão ideológica replicando de maneira retorcida elementos do nosso campo intelectual. Em suas diversas formas, o negacionismo é expressão da a) concentração da produção de conhecimento e da alienação dos “consumidores”; b) autonomização da tecnologia em relação à ciência e da utilidade em relação à verdade; e c) atomização da informação em relação a um sistema coerente, independência de uma “visão científica do mundo”. Essas são características da tecnociência contemporânea e também do negacionismo científico contemporâneo. O seu crescimento e a sua proliferação social são uma das expressões da crise da sociedade do conhecimento. 


Em um artigo publicado na revista Piauí de fevereiro deste ano, Tatiana Roque traçou um excelente panorama das fontes do negacionismo, desde a desconfiança nas ciências até o lobby das empresas de petróleo para causar “polêmica” onde há consenso científico[3]. É uma reflexão cuidadosa que reforça a necessidade de uma postura menos arrogante dos cientistas na sua comunicação e que não deposita muitas fichas na superioridade da ciência para angariar adeptos à sua causa. O negacionismo é um fenômeno que fermentou nos últimos anos, cultivado nas redes sociais e turbinado por estratégias de desinformação sistemática patrocinada desde os anos 1950 por setores econômicos, como as empresas de petróleo e fabricantes de cigarros, que investem quantias consideráveis em campanhas para confundir consumidores e cidadãos sobre os malefícios do tabagismo ou dos efeitos dos combustíveis fósseis no aquecimento global; ou por grupos de influência, como igrejas evangélicas que defendem o ensino do criacionismo nas escolas públicas e para isso argumentam pela simetria no tratamento entre “correntes opostas” (criacionismo e darwinismo disputando o mesmo campo epistêmico). O negacionismo gera situações paradoxais: terraplanistas usando GPS, sujeitos que alegam ter a cura para uma doença que alegam não existir ou robôs contrários ao acordo de Paris[4].


Isso porque o negacionismo não opera como um corpo coerente de conhecimento que se opõe à ciência, mas sim como uma sequência de recusas pontuais a aceitar conclusões científicas que desagradem a setores econômicos ou visões de mundo (ideológicas ou religiosas). Em geral, os negacionistas não esvaziam o valor da ciência e tentam sempre subvertê-la para o seu lado (mesmo que seja christian science [5]). Tanto é assim, que o problema do enfrentamento ao negacionismo não se dá no plano científico, do conteúdo. É fácil refutar com evidências aquilo que dizem os negacionistas, por exemplo[6], sobre o aquecimento global, entre os mais de 12 mil artigos científicos revisados por pares publicados entre 1991 e 2011 apenas 3% discordam da existência do fenômeno ou das suas causas antrópicas. Do ponto de vista científico, é um falso debate. Mas isso não impediu o movimento de se expandir e de alcançar posições de poder[7] na máquina do Estado (e não apenas no Brasil). 


Onde então reside o problema? Na ideologia. É nesse registro que o negacionismo opera, disputando o campo meta-científico, ou seja, buscando influenciar os critérios e os procedimentos do que conta como conhecimento legítimo.


É comum que negacionistas recorram a estratégias retóricas idênticas às que os cientistas utilizam em uma polêmica ou controvérsia séria. Assim, alegam estar “contribuindo para o debate”, “apresentando uma versão diferente” ou “outra abordagem para o tema” e acusam seus rivais de dogmatismo. É comum também que eles emulem argumentos “relativistas” afirmando que o monopólio da verdade não pode ser exclusivo a um grupo ou que as condições sociais e os limites culturais dos cientistas os impedem de ver outras fontes de conhecimento. É corriqueiro ainda, entre esses grupos, a cartada da caricatura ideológica: os cientistas são politicamente comprometidos, são militantes disfarçados, aparelharam as universidades etc. É a partir dessas entradas que o negacionismo vai minando a solução política que coloca a comunidade científica como fiadora do conhecimento que produz e como único juiz autorizado a definir os limites do campo da ciência e as regras do seu jogo.


Recentemente, Donald Trump se dirigiu aos grandes empresários do ramo farmacêutico nos EUA com um pedido a respeito do desenvolvimento de vacinas eficazes contra o SARS-CoV-2 (vírus causador da pandemia de Covid-19): “Do me a favor”(me faça um favor), teria dito Trump, “Speed it up, speed it up.” (acelere isso, acelere isso). Essa manifestação foi respondida pela revista Science em um editorial do último dia 13 de março[8]. A crítica contra a atitude negacionista e anticientífica de Trump e sua administração denuncia a incoerência de cobrar por respostas rápidas da ciência ao mesmo tempo em que sustenta afirmações negacionistas sobre mudanças climáticas e promove cortes no orçamento federal para ciência e tecnologia. Ao favor que Trump teria pedido à comunidade científica, o editor da Science replica com outro pedido: “But do us a favor, Mr. President. If you want something, start treating science and its principles with respect” (Mas nos faça um favor, Sr. Presidente, se você quer alguma coisa, comece tratando a ciência e os seus princípios com respeito). 


É um pedido singelo, mas que reativa um antigo argumento ligando ciência e moral, mais ou menos sob a seguinte forma: a ciência não apenas tem acesso privilegiado à verdade da natureza (superioridade epistemológica), como é, por isso, a única capaz de guiar a ação moralmente correta (superioridade moral). Esse argumento esteve na base da posição conhecida como cientificismo, a defesa de certa onipotência da ciência e da sua visão de mundo. Essa posição fazia mais sentido quando a ciência disputava espaço com outras ideologias e não era ainda a matriz hegemônica impulsionando os motores do desenvolvimento e da modernização, subsidiando as decisões do Estado e ocupando a educação pública. A verdade científica possuiu um valor emancipador nos séculos XVIII e XIX. Repetir essa postura no século XXI é útil para manter o mito da “ciência pura” e as consciências dos cientistas à salvo dos horrores sociais e políticos cometidos em seu nome. Mas não irá fazer avançar a luta contra os aspectos perniciosos do negacionismo. Pelo contrário, irá reforçar justamente a (super)estrutura ideológica na qual essa disputa ocorre, fortalecendo a tecnocracia, a arrogância e o dogmatismo.


Não acreditar na ciência é um direito legítimo a qualquer cidadão. Não é disso que se trata quando falamos de negacionismo. Não se trata apenas da necessária ampliação da educação científica (já que muitas vezes o negacionismo vem de indivíduos com treinamento e até diplomas em áreas científicas), nem de convencer mais pessoas de que a pesquisa científica é mais sólida do que mentiras elaboradas com fins políticos em gabinetes do ódio. Transformar cada cidadão em um cientista não parece ser uma solução adequada para aqueles preocupados em estabelecer uma sociedade democrática e diversa.


Para ser efetivamente superado, o negacionismo contemporâneo deve ser encarado como a contrapartida ideológica da concentração da capacidade de decisão na mão dos experts, não apenas como ressentimento[9] aproveitado pelo populismo de direita para fins políticos escusos, mas como uma estratégia deliberada de confundir a opinião pública sobre temas científicos orquestrada pelos mesmos grupos que concentram a apropriação dos bens produzidos pelo regime tecnocientífico. Ou seja, mais ciência não significa menos negacionismo. Bom, pelo menos não enquanto os produtos da ciência continuarem sendo apropriados de modo tão desigual. 


A ameaça posta pela pandemia de Covid-19 reacendeu o debate sobre a função social da ciência, a importância do seu financiamento e da manutenção da infraestrutura de pesquisa e dos seus recursos humanos. Ao redor do mundo, as agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica abriram linhas de financiamento específicas para o combate à doença. A ciência é chamada a agir, e agir rapidamente. Eis aí novamente o perigo do qual nos falava Benjamin, eis a encruzilhada histórica diante da qual nos encontramos. Se a ciência não superar o véu ideológico no qual se enredou, se não encarar a sua história de forma consciente e perceber o seu papel no estado de coisas em que nos encontramos, irá sucumbir ao perigo e entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento.

 

 

 

NOTAS


[1] THE SYLLABUS. “Serious Readings on the Global Repercussions of COVID-19”. Disponível em: https://the-politics-of-covid-19.com  


[2] LICHFIELD, Gideon. (2020), “We’re not going back to normal”. MIT Technology Review. Disponível em: https://www.technologyreview.com/2020/03/17/905264/coronavirus-pandemic-social-distancing-18-months/


[3] ROQUE, Tatiana. (2020), “O negacionismo no poder”. Piauí. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-negacionismo-no-poder/


[4] MESQUITA, João. (2020), “Fake news climáticas nas redes sociais por exércitos de robôs”. Estadão. Disponível em: https://marsemfim.com.br/fake-news-climaticas-nas-redes-sociais-por-robos/ 


[5] CHRISTIAN SCIENCE. Disponível em: https://www.christianscience.com 


[6] COOK, John. (2013), “Skeptical Science Study Finds 97% Consensus on Global Warming in the Peer-Reviewed Literarure”. Skeptical Science. Disponível em: https://skepticalscience.com/97-percent-consensus-cook-et-al-2013.html 
 

[7] ROCHA, Igor. (2020), “Covid-19: País agoniza sob falso debate entre ciência e obscurantismo”. UOL. Disponível em: https://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/10/covid-19-pais-agoniza-sob-falso-debate-entre-ciencia-e-obscurantismo/ 
 

[8] THORP, Holden. (2020), “Do us a favor”. Science. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/367/6483/1169.full 
 

[9] CALDEIRA, Rodrigo. (2020), “A pandemia do anti-intelectualismo”. Estadão. Disponível em: https://estadodaarte.estadao.com.br/a-pandemia-do-anti-intelectualismo/ 

 

 

 

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Para conhecer o livro Ciência, objeto da História, acesse: http://www.alamedaeditorial.com.br/historia/ciencia-objeto-da-historia-de-gabriel-da-costa-avila
 

 

 

Como citar esse texto: ÁVILA, Gabriel da Costa. (2020), "O avesso do negacionismo: armadilhas ideológicas na história das ciências". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/04/21/O-AVESSO-DO-NEGACIONISMO-ARMADILHAS-IDEOLOGICAS-NA-HISTORIA-DAS-CIENCIAS 

 

 

 

Gabriel da Costa Ávila é Professor de Teoria da História no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Autor de Epistemologia em Conflito: uma contribuição à história das Guerras da Ciência (Fino Traço, 2013) e Ciência, objeto da História (Alameda, 2019). Recebeu Menção Honrosa no “Prêmio SBHC Melhor Tese e Melhor Dissertação – 2016”.

Twitter: @gabrielavila_
Contato: gabriel.avila@ufrb.edu.br

 

 

Editora Responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

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