A SOCIOLOGIA É O INVERSO DO FATALISMO

 

Research of the limit. Hyuro, 2018.

 

 

Nota dos tradutores

 

Quando os sociólogos Didier Fassin e Bernard Lahire publicaram esse texto, em 20 de fevereiro no jornal Le Monde, o corona vírus, apesar de já ser uma ameaça cada vez mais próxima, ainda não estava causando espanto nem no estado e nem na população francesa. Durante os dois primeiros meses do ano, a grande pauta que mobilizava inúmeros setores profissionais era a reforma da previdência. A luta contra a precarização das condições de vida e trabalho se estendeu por semanas, levando às ruas milhares de francesas e franceses de distintas gerações.  Um dos setores que tem sido atacado com novas reformas e cortes de orçamento é o da educação. Um projeto de lei anunciado no início de fevereiro (Lei de planejamento plurianual da pesquisa - LPPR) inquietou a comunidade acadêmica por ameaçar a verba destinada às pesquisas científicas e por aumentar a precarização da carreira de docentes e jovens pesquisadores(as). Assim como tem acontecido no Brasil, é possível notar uma tendência ao desmonte das universidades públicas e a tentativa de fortalecimento dos setores privatistas da educação. Nesse contexto globalizado, as ciências humanas, em especial as ciências sociais, têm sido alvo privilegiado de um movimento de deslegitimação de seus propósitos de pesquisa, que tem se traduzido na diminuição do orçamento dos programas de pós-graduação, no corte de bolsas e de concursos públicos na área.  

 

A emergência da pandemia do COVID-19 tem alterado profundamente a forma de organização social a nível mundial. Atualmente, temos nos defrontado com os efeitos práticos dos cortes de verbas na ciência e na saúde pública, além da persistente subvalorização do trabalho científico, a despeito dos defensores da inutilidade da ciência e da privatização das universidades públicas. No caso do Brasil, o caos instaurado escancara a enorme desigualdade social que assola o país e, apesar do contágio pelo vírus não fazer distinção de classe, a crise amplifica, com uma intensidade extraordinária, os efeitos do neoliberalismo. 

 

O problema não se restringe apenas a uma questão sanitária ou médica, mas carrega também significados políticos e sociais. Ele tensiona a ação coletiva em variados níveis e dimensões, incluindo o próprio sistema de proteção social, o acesso (desigual) à saúde pública e a circulação global de pessoas e mercadorias. Não levar as desigualdades para o centro do debate e para a elaboração das ações de enfrentamento da pandemia pode ser um “ponto cego” de custos incalculáveis. O contexto de crise acirra, portanto, a necessidade de compreender, explicar e agir contra as desigualdades. Nesse sentido, aliado às pesquisas médicas e epidemiológicas, o pensamento sociológico se configura como um instrumento de extrema importância. É preciso que deixem os sociólogos trabalharem.

 

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Le Monde, 20 de fevereiro de 2020

 

A sociologia é o inverso do fatalismo [1]

 

Dos sociólogos,

Didier Fassin

Bernard Lahire

 

 

Respondendo à constatação de Jean-Michel Blanquer sobre as “derivas” da sociologia, em um livro escrito com Edgar Morin, os sociólogos Didier Fassin e Bernard Lahire apontam que o estudo das desigualdades não deve ser confundido com a sua aceitação.

 

Se isto pode parecer algo óbvio, às vezes parece que não é. Seria necessário ainda reafirmá-lo: para agir hoje sobre as desigualdades sociais é preciso compreendê-las e explicá-las, mas também fazê-las repercutir e ensinar essas análises.

 

A persistência, e mesmo o aumento das desigualdades sociais, são fatos que uma multiplicidade de estudos de diferentes disciplinas científicas não deixam margem para dúvidas. Identificar os processos que conduzem a esta situação de crescente polarização das sociedades é, portanto, uma questão central, tanto no âmbito científico como político.

 

Economia, história, demografia, geografia, antropologia, ciências da educação e epidemiologia analisam, assim como a sociologia, os múltiplos processos constituintes das desigualdades que se manifestam na distribuição de renda e patrimônios, na escolarização, no mundo do trabalho, no urbanismo, na ecologia, na saúde... Como agir sobre as desigualdades salariais sem levar em conta as desigualdades territoriais, escolares e entre homens e mulheres? Como implementar políticas de saúde pública justas e eficazes sem compreender por que homens de origens mais modestas têm uma expectativa de vida treze anos menor que aqueles oriundos das classes mais abastadas?

 

Em Qual escola nós queremos? A paixão do saber, um livro de entrevistas com o filósofo Edgar Morin, o ministro da educação da França Jean Michel Blanquer declara conhecer bem a sociologia, tendo sido treinado "para lê-la e ensiná-la", questionando-a e chamando a atenção para as suas “derivas” (fechar-se em um "pessimismo de princípios" de denúncia às desigualdades que só as reforçariam). Isso opõe, de um lado, a sociologia das desigualdades e, de outro, o imaginário e os processos neurológicos, esquecendo-se de todos os trabalhos em Ciências Sociais que mostram a superficialidade de uma divisão estrita entre o biológico e o social.

 

Estes trabalhos atestam a incorporação das desigualdades sociais de saúde e a inscrição das condições materiais de existência nos corpos e nos cérebros – como evidenciado, por exemplo, pelas diferenças de recuperação que podem ser observadas em exames neurológicos – de acordo com a posição social e de gênero após um acidente vascular cerebral.

 

As desigualdades sociais, longe de serem mera obsessão de um pequeno grupo retrógrado de sociólogos franceses, são atualmente o coração da pesquisa mundial em múltiplas disciplinas já citadas. Basta mencionar aqui o dinamismo e a recepção internacional dos trabalhos franceses sobre as desigualdades difundidas pelas traduções das obras ou publicações em revistas científicas internacionais, os vários congressos de diferentes associações internacionais de sociologia consagradas a esta temática, assim como os centros de estudos de desigualdades nas universidades mais prestigiosas dos Estados Unidos ou Inglaterra (Harvard, Stanford, London School of Economics…).

 

A questão das desigualdades sociais, assim como os processos históricos e sociais que as constroem, são, mais do que nunca, o eixo e a razão de trabalho das Ciências Sociais. Ainda que exista um determinismo social potente, ele não é automático nem total. Uma frase de Pierre Bourdieu que muitos de nós lançamos mão em nossos cursos, diz: “o que a história fez, a história pode desfazer”. O determinismo social não é um fatalismo.

 

"É preciso que nos deixem trabalhar"

 

Ensinar sobre as desigualdades é, então, transmitir um campo bastante dinâmico da pesquisa mundial, e nem todas as disciplinas do ensino médio têm essa especificidade das ciências econômicas e sociais. [2] Mas é também, e talvez principalmente, permitir aos estudantes secundaristas e universitários questionarem seus preconceitos. Compartilhar com os estudantes as explicações científicas sobre a realidade social é oferecer a possibilidade, enquanto indivíduos e cidadãos, de tomarem distância com relação à sua própria situação para refletir sobre maneiras de melhorá-la, de um ponto de vista individual e coletivo. É, portanto, o inverso da resignação e o exato inverso do fatalismo.

 

Mas para que possamos dar continuidade aos trabalhos que nos permitirão melhorar ainda mais nossa resposta às questões postas pelo ministro nacional da educação, é preciso que confiem em nosso trabalho. É preciso que nos deixem trabalhar, que respeitem a fronteira entre ciência e política e não busquem nos deslegitimar através de uma desconfiança e uma falta de compreensão ultrapassadas. Só assim poderemos então continuar a pesquisa e o ensino mesmo diante da redução do financiamento e dos postos de trabalho, dos ataques à autonomia e da transformação forçada do mundo da educação e da pesquisa, que já estava bastante em risco na França.

 

 

NOTAS

 

[1] Para ler o texto original, acesse: 

https://www.lemonde.fr/idees/article/2020/02/19/la-sociologie-c-est-l-inverse-du-fatalisme_6030036_3232.html


[2] Na França, a sociologia não é uma disciplina obrigatória na educação básica. A que mais se aproxima dela é a disciplina conhecida por ciências econômicas e sociais (sciences économiques et sociales- SES), que é oferecida no lycée, o equivalente ao ensino médio no Brasil.

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Tradução

 

Luna Ribeiro Campos, professora de Sociologia do CEFET/RJ, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e editora da Horizontes ao Sul. E-mail: lunaribeirocampos@gmail.com

 

Tarcísio Perdigão Araújo Filho, mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Bolsista FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo); número do processo: 2017/02638-3.
E-mail: tarcisioperdigao@gmail.com

 

 

 

 

Como citar esse texto: FASSIN, Didier; LAHIRE, Bernard. (2020), "A sociologia é o inverso do fatalismo". Horizontes ao Sul. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/03/16/A-SOCIOLOGIA-E-O-INVERSO-DO-FATALISMO

 

 

 

Didier Fassin é sociólogo e antropólogo, docente da École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor do Institute for Advanced Study, da Princeton University.

 

Bernard Lahire é sociólogo e professor na École Normale Supérieure de Lyon.

 

 

Editora Responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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