SOCIOLOGIA E POLÍTICA NA ARGENTINA

4 Feb 2020

 

 

 

Desde a criação dos primeiros cursos de sociologia na Argentina em meados do século passado (e com particular força até meados dos anos oitenta, quando a democracia é restaurada de modo duradouro), o cenário da disciplina esteve fortemente marcado pelas vicissitudes da situação política do país, instável e em permanente mudança. Diferente do que aconteceu em outras latitudes, onde o trabalho dos sociólogos tendia a gozar de uma autonomia maior, o vínculo com a situação política foi mais direto, não sendo poucas as vezes em que uma mudança no elenco governante levava a uma reacomodação, mais ou menos imediata, das principais instituições da disciplina: a abertura ou fechamento de cursos universitários, o deslocamento e a renovação de seus quadros docentes, a geração de instituições alternativas às oficiais etc. Esse vínculo tendeu a conferir à sociologia e suas distintas correntes, querendo ou não, uma conotação política cujo signo dependia de suas vinculações com a flutuante conjuntura nacional. Os critérios “próprios” da disciplina - como as credenciais acadêmicas, as afinidades intelectuais ou teóricas etc. - pesavam, embora raramente de maneira independente ou alheia às preferências político-ideológicas.

 

Tomemos como exemplo a criação do curso de Sociologia da Universidade de Buenos Aires (UBA), a principal instituição de ensino do país, que concentrou o maior número de estudantes e o maior corpo docente ao longo do tempo. Aqueles que projetaram o curso, liderados pelo sociólogo ítalo-argentino Gino Germani, excluíram sem muita consideração àqueles que vinham impulsionando o desenvolvimento e o ensino de sociologia. Tal decisão estava ligada com as disputas que se colocavam entre a chamada “sociologia científica” e os “sociólogos de cátedra” e suas diversas preferências intelectuais (uns mais focados em investigações empíricas e referências estadunidenses; outros mais “livrescos” e orientados para a Europa, em particular a Alemanha). Mas também era inseparável do clima geral que se vivia após a queda do peronismo em 1955 e da “depuração ideológica” das instituições estatais que foi colocada em andamento. Mesmo quando Gino Germani e seus colaboradores evitavam um tom explicitamente político e favoreciam uma ideia de sociologia vinculada à “neutralidade valorativa”, em prol da elaboração de um conhecimento “científico” e “objetivo”, o que acontecia ali não poderia deixar de ser visto como parte do clima “desperonizador”: seus docentes e pesquisadores, tanto os mais antigos quanto os mais jovens, haviam sido firmes opositores do regime que acabava de ser deposto.

 

O vínculo com a situação política, no entanto, não deve ser pensado como efeito de uma mera intrusão de uma instância “externa” (a política) na lógica própria ou específica de um “campo” em formação (a sociologia). Longe disso, e em consonância com o que ocorria em outras esferas do mundo intelectual e cultural argentino, foram os próprios sociólogos que, em mais de uma oportunidade e sem abandonar suas posições acadêmicas ou universitárias, impulsionaram uma maior conexão da disciplina com as lutas políticas do momento, contribuindo para reforçar o peso que as filiações ideológicas tinham nessas disputas. De acordo com essa visão, que foi ganhando espaço e adeptos nos anos sessenta, a sociologia não era (nem deveria ser) uma “ciência” preservada dos dilemas ou conflitos que agitavam a sociedade. A crítica ao ideal da neutralidade valorativa se impôs ao mesmo tempo em que emergia a figura do “intelectual comprometido”.

 

Para alguns, o impulso da politização era uma forma de questionar a importância que as credenciais “propriamente” disciplinares tinham na hora de pleitear uma vaga docente, de acessar uma bolsa ou subsídio de pesquisa ou, em termos mais gerais, de elevar a voz nas disputas pela definição do que a disciplina era e devia ser. Nesses casos, a sobrevalorização ou primazia da política podia compensar os déficits do curriculum vitae com outro tipo de credenciais oriundas dos espaços de militância próprios da agitada vida da universidade ou estranhos a ela. Frente a isso, os defensores da “sociologia científica” sustentavam a autonomia da ciência e se escandalizavam perante aqueles que concebiam suas opções políticas como uma base sobre a qual construir uma sociologia comprometida com a transformação revolucionária da sociedade, como acontecia com o membros das “cátedras nacionais”, um conjunto de docentes que reivindicava  sua identidade peronista e um claro “anti-academicismo”. O peronismo, segundo esse grupo, oferecia-se como um pensamento “emancipatório” capaz de servir como base de uma sociologia verdadeiramente “crítica” e “revolucionária”.

 

A politização do cenário sociológico local foi, sem dúvidas, uma das chaves que explicam a crescente visibilidade que a disciplina alcançou nos meios universitários e intelectuais nos anos 1960, marcada por uma vertiginosa ampliação do número de jovens que se inscrevia anualmente na UBA e nas universidade privadas[1]. A busca por uma conexão mais direta com a prática política - visível de modo contundente  em alguns programas das matérias de teoria sociológica que convidavam à leitura de textos de Frantz Fanon ou Louis Althusser, mas também de Mao Zedong ou Juan Domingo Perón - aproximou aqueles que, na hora de escolher uma carreira universitária, se sentiam mais atraídos em colocar em jogo sua vocação pela participação política do que em aprender os elementos básicos de uma disciplina científica ou de uma profissão a ser exercida no mundo do trabalho.

 

Semelhante visibilidade e interesse não se davam, no entanto, sem um custo: a politização da sociologia ameaçava diluí-la na política e confundi-la com a pura disputa ideológica. O compromisso militante, ao mesmo tempo em que conferia à disciplina uma razão de ser e a integrava em um projeto social mais amplo, ameaçava sufocar a abertura e a disposição crítica necessária para a elaboração de um conhecimento sistemático.  Sem um mínimo de distanciamento, típico de quem permanece alheio ao entusiasmo que geralmente caracteriza os impulsos políticos, ressentiam-se as possibilidades de construir um olhar capaz de ir além da visão dos próprios atores. O que aconteceu na Carreira da UBA a partir de 1973, quando o peronismo volta ao poder depois de dezoito anos de proscrição, com a incorporação de um bom número de docentes sem outros antecedentes que sua militância nas fileiras do movimento liderado por Perón, era uma mostra dos riscos que o incentivo à politização implicava. Para boa parte daqueles que se reuniram nessa instituição, já não se tratava de formar sociólogos capazes de contribuir com uma bagagem específica baseada em enfoques, estratégias e metodologias próprias da disciplina, mas militantes ou quadros políticos comprometidos com o processo de transformação revolucionária que a chegada do novo governo parecia colocar em marcha.

 

A identificação de boa parte dos sociólogos com posições contestatárias fizeram da disciplina um dos alvos favoritos daqueles que, primeiramente com o governo de Isabel Perón e depois na ditadura iniciada em 1976, buscavam disciplinar de modo violento os meios universitários e intelectuais. Enquanto um bom número de sociólogos teve que exilar-se, as instituições próprias da sociologia sofreram um duro revés. O curso da UBA foi fechado e depois reaberto em condições irreconhecíveis, com um conjunto de docentes sem prestígio acadêmico, um corpo discente dizimado e num contexto de profunda marginalidade. Sua separação da Faculdade de Filosofia e Letras, instituição onde havia sido fundada, e sua realocação para o porão (!) da Faculdade de Direito, onde as aulas contavam com a vigilância de policiais ou membros das forças armadas, não ocultava o desprezo que as novas autoridades tinham por um carreira que poderia ter sido encerrada. Houve, com tudo, quem se iludisse com o papel que a sociologia poderia exercer como uma auxiliar técnica da ação estatal nos momentos em que o Governo militar decidiu a criação de um fugaz e falido Ministério do Planejamento. Não obstante, essas não eram mais do que expressões do desejo: o escasso interesse das autoridades nacionais foi uma constante no período (algo que a trajetória cotidiana pelos porões escuros da Faculdade de Direito deixava claro). Semelhante situação contrastava com o experimentado pela sociologia em outros contextos autoritários onde o poder político buscou transformar os espaços de pesquisa e formação da disciplina em pólos de irradiação da doutrina oficial como, por exemplo, ocorreu na URSS durante o stalinismo ou na Alemanha durante o regime nazista. Mas também contrastava com a situação vivida pelas ciências sociais naqueles regimes que, como os países do leste europeu durante o pós-guerra, financiavam suas atividades para estimular a produção de estudos aplicados (com a finalidade de assessorar a tomada de decisões) sem deixar, no entanto, nenhuma margem para a definição de uma agenda autônoma de investigação. No caso argentino, a “depuração ideológica” não veio acompanhada por pedidos que poderiam estimular a produção de novos conhecimentos.

 

Frente ao que acontecia na UBA (e em outros cursos do país que foram fechados), os centros privados de pesquisa, surgidos nos anos anteriores para se preservar do clima agitado vivido nas universidades, puderam continuar seu trabalho, e inclusive revitalizá-lo, graças ao apoio de fundações filantrópicas internacionais. Mas só puderam fazê-lo ao preço de manterem-se extremamente reservados politicamente, deixando de lado boa parte da vocação que no passado havia animado seus integrantes a intervir na sociedade. Em um contexto repressivo e ameaçador, que vedava o acesso a públicos mais amplos e à difusão livre dos resultados das pesquisas, esses centros deveram funcionar mais como “enclaves” das economias coloniais, espaços “modernizados” em estreita conexão com o exterior (e com as tendências mais recentes  em matéria de investigação social), mas sem relação equivalente com o contexto social onde se inseriam. Assim, a sociologia ganhou em autonomia e sofisticação, mas perdeu em termos de relevância social. Diferente do que aconteceu em períodos anteriores (ou inclusive o que paralelamente acontecia no Brasil, onde centros como o CEBRAP puderam desenvolver uma agenda de pesquisa fortemente conectada com os temas mais candentes da conjuntura social e política), o trabalho da sociologia teve que se assumir, majoritariamente, como um trabalho destinado aos pares e avaliadores estrangeiros.

 

 

O sacrifício não era menor. Inicialmente, nos anos 1950, a sociologia se apresentava como um insumo capaz de fazer mais “racionais” as iniciativas de diversas instituições, em particular do Estado. Segundo os promotores da “sociologia científica”, cabia à disciplina um papel central na produção dos conhecimentos necessários para a construção de uma sociedade desenvolvida, integrada e democrática. Posteriormente, já nos anos 1960, à medida em que a politização avançava, a sociologia foi assumida por uma parte crescente de sociólogos (e estudantes) como um tipo de saber capaz de contribuir com o desenvolvimento de uma consciência revolucionária nos meios universitários, mas também, de uma forma mais geral, nos setores populares. Em contraste, durante a ditadura já sem o apoio oferecido pelas expectativas em torno da modernização da sociedade ou das convicções sobre sua redenção revolucionária, o trabalho dos sociólogos dificilmente poderia encarnar alguma “promessa” (no sentido da célebre expressão de Mills) ou papel social mais amplo, capaz de dotá-la de um sentido mais ambicioso.

 

O entusiasmo e a efervescência social que marcou o retorno da democracia em meados dos anos 1980 criou as bases para a recuperação da vocação em conectar a sociologia com os grandes desafios e dilemas da sociedade argentina. Enquanto alguns sociólogos participavam ativamente nos espaços mais importantes do campo intelectual, outros se incorporavam em altos cargos públicos, alguns inclusive como assessores doo presidente recentemente eleito. No curso de sociologia, os estudantes, que recuperavam seu volume[2] e, sobre tudo, influência sobre o ensino e a orientação geral do curso, demandavam uma maior aproximação com a política e a militância, inspirados em boa parte pelas experiências de politização prévias à ditadura militar. A reflexão sobre a chamada “transição democrática” oferecia à disciplina, assim como a boa parte de seus praticantes, um horizonte relevante de preocupações onde inscrever seu trabalho, reforçando para muitos a implicação entre sociologia e política, tão afetada no período anterior.

 

No entanto, o clima político predominante a partir dos anos 1990, com a legitimação do giro neoliberal e a crise das linguagens emancipatórias que se seguiram à decomposição da União Soviética, levou a um forte desencantamento. Os debates em torno do declínio do “intelectual público”, figura que havia servido de modelo para grande parte dos sociólogos, e a paralela ascensão do “especialista” ou “analista simbólico” eram parte de um clima de crescente desorientação em torno do papel da sociologia na sociedade, e, em termos mais gerais, do próprio “pensamento crítico”. Somado a isso, a implantação de uma vida acadêmica cada vez mais “profissionalizada” levou a uma maior auto-referência entre muitos dos que trabalhavam como professores e pesquisadores universitários. A ideia do conhecimento como um fim em si mesmo, que não necessita de outra justificativa que seu próprio cultivo ou produção, impensável em momentos anteriores, passava a oferecer uma explicação para a pertinência de alguns trabalhos que já não contavam com o sentido que, no passado, era atribuído pela política e pelo entusiasmo da militância.

 

Frente a esse panorama, houve importantes figuras que celebraram o maior distanciamento e diferenciação de papéis entre o “científico” e o “político”, imbuídas da memória que os efeitos perniciosos da politização ou “ideologização extrema” havia tido no desenvolvimento da disciplina. Houve também, no entanto, aqueles que alertavam sobre os perigos que acarretava o “ensimesmamento” da disciplina, que, atrelada a uma “excessiva profissionalização”e “carreirismo”, fazia dos sociólogos verdadeiros “operários do curriculum”. Essas vozes não apenas estimulavam a recuperação das convicções em torno da capacidade da sociologia para interpretar o mundo, mas também de sua vocação para sugerir possíveis caminhos de transformação. A tarefa não era simples se pensarmos que a crença no papel mais amplo da disciplina dependeu sempre do suporte dado pelo clima político e pelo contexto mais amplo. Sem esse suporte, a pergunta sobre a função ou a utilidade da disciplina, sobre a “promessa da sociologia”, não era tão fácil de ser respondida, e o caminho em direção ao “privatismo profissional” se tornava mais provável.

 

De toda forma, durante a primeira década do século XXI a sociologia pôde expandir-se grandemente nos meios acadêmicos graças à ampliação dos investimentos em ciência e tecnologia promovidos pelo poder político, alcançando um grau de institucionalização sem precedentes - como fica visível na multiplicação de grupos e temas de pesquisa, no aumento do número de bolsistas, de teses, publicações etc. Tal desenvolvimento, no entanto, foi colocado em questão com a mudança na orientação do governo produzida em 2015. Os cortes orçamentários de órgãos científicos e nas universidades (ao que se tem adicionado incisivas campanhas publicitárias que visam a deslegitimar as ciências sociais e as humanidades como um todo) reinstauraram um clima de incerteza para a prática acadêmica da disciplina. Hebe Vessuri, uma importante pesquisadora argentina, apelou, em mais de uma oportunidade, à imagem de Sísifo para entender a história das ciências sociais na Argentina, sempre tendo que recomeçar após sucessivas intervenções governamentais que desarticulavam o que já havia sido feito até ali. Pois bem, mais uma vez, pende sobre a sociologia argentina a ameaça de ser envolvida em um novo processo de retraimento que, se não adota os mesmos moldes agressivos que enfrentou no passado, não deixa de questionar seu papel e sua influência na sociedade.

 

 

NOTAS

 

[1] Só na UBA, havia em torno de 500 novos estudantes por ano durante os anos 1960, cifra que se duplicou a partir de 1970.

 

[2] Enquanto que em 1980, durante a ditadura militar, havia apenas 500 estudantes, em 1988 esse número se elevou quase a 2.000.

 

 

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Título original: Sociología y política en la Argentina. Los sociólogos y la vocación por intervenir en la sociedad a lo largo de medio siglo.

 

Tradução: Luna Ribeiro Campos

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* Este texto é uma adaptação de um trecho do livro Medio siglo de sociología en la Argentina. Ciencia, profesión y política (1957-2007), publicado pela Editora EUDEBA em 2018.

 

 

 

 

 

 

 

 

Juan Pedro Blois é Bacharel em Sociologia (UBA) e Doutor em Ciências Sociais (UBA). É pesquisador do CONICET e professor da Universidad Nacional de General Sarmiento. Durante vários anos foi docente de Teoria Sociológica na UBA. Foi pesquisador visitante na Facultad de Ciencias Políticas y Sociales de la UNAM (México), no Instituto de Estudos Sociais e Políticos de la UERJ (ex IUPERJ), na University of Sur de Florida e na Columbia University (Estados Unidos). Foi bolsista da Fulbright, CNPq, CLACSO, CONICET e da Red de Macrouniversidades de América Latina y el Caribe. Suas áreas de interesse são a sociologia do conhecimento, a sociologia das profissões e a história da sociologia.

 

contato: pedro.blois@gmail.com
 
 

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

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