O LADO OCULTO DA LUA: TRABALHADORES RURAIS NO INTERIOR DO AGRONEGÓCIO

12 Dec 2019

Foto: Juan Manuel Villulla

 

 

 

Modernidade limpa. Potência econômica. Harmonia social. A imagem que o agronegócio oferece de si mesmo exclui deliberadamente sua outra face: os trabalhadores. Nos geométricos campos verdes de suas publicidades, por onde transitam máquinas, voam drones e algum cientista feliz controla algo com seu tablet, a grande burguesia agrária acredita e faz crer que, além de “alimentar o mundo”, torna realidade o velho sonho empresarial de uma produção sem operários. Não nos detenhamos no fato de que em nossos queridos campos latinoamericanos raramente há sinal para o tablet; que quase toda  essa tecnologia é produzida por indústrias estrangeiras; e que nem alimentam o mundo nem o fazem desinteressadamente. Entre todas as falsidades possíveis de serem detectadas no discurso que os agronegócios fazem de si mesmos, nos deteremos naquela que elimina da foto os grupos subalternos que existem em seu interior, e, com eles, as relações de exploração econômica e de disciplinamento social desse suposto “progresso” verde.

 

Em geral pensamos que a negação do agronegócio está fora do agronegócio: camponeses, indígenas, agricultores familiares, correntes agroecológicas ou movimentos sociais que lutam para produzir com outros fins e por outros meios. Se tratam, efetivamente, de contestações ao agronegócio, e são as mais ativas, levando em consideração suas experiências práticas de produção ou sua capacidade de mobilização política. Porém, entre o agronegócio e esses sujeitos, existe uma relação de exclusão mútua, que divide uns e outros sob a hegemonia de um ou outro tipo de paradigma, e não uma relação de interdependência contraditória, como a que caracteriza a relação capital-trabalho. Em outras palavras: os agronegócios podem - e de fato precisam - acumular capital deslocando camponeses, agricultores familiares ou tribos indígenas, mas não podem acumular capital sem empregar trabalhadores. É curioso, e ao mesmo tempo extremamente lógico, que seja justo em torno desse ponto chave que os agronegócios tenham conseguido construir uma base de sentido tão forte que chegou a permear a forma como concebemos o agronegócio desde o pensamento crítico.

 

Tem se desenvolvido entre nós uma concepção bastante mecânica sobre os agronegócios. Em primeiro lugar, se tornou comum pensar o mundo rural dividido em distintos tipos de territórios, concebidos como blocos, associados a diferentes sujeitos sociais e a determinadas produções. Assim, para cada grupo social haveria um território e uma produção específica. Por exemplo, representamos “o mato”[1] como um território camponês de produção de alimentos, e as planícies como um território empresarial onde só se cultiva soja. Mas essa ideia esquemática não ajuda nem a tornar  visíveis os elos de opressão que podem existir entre fazendeiros e camponeses nas montanhas, nem os grupos subalternos das planícies onde se cultiva a soja. Isto é, as tramas de relações sociais dinâmicas e contraditórias de cada território, e inclusive possíveis conexões entre ambos espaços sociais. Em segundo lugar, essa ideia rudimentar frequentemente concebe o valor como uma coisa que é “saqueada” ou “extraída” - em geral algum tipo de elemento natural, como nutrientes da terra, a água, metais preciosos etc. Como essa concepção associa um sujeito a um território, a exploração estaria dada por simples “ocupações” de espaços. Daí certa fascinação com conceitos como “acumulação por despossessão” ou “grilagem de terras”, ligados a essa ideia de que os empresários do agronegócio acumulariam capital simplesmente tirando coisas à força de outros sujeitos-territórios. Se fosse assim, o valor seria “saqueado” de uma só vez, sem acumulação nem produção do valor propriamente dito, tendo o capital como único obstáculo as comunidades indígenas ou camponesas pelo fato de residirem fisicamente “em cima” dos recursos naturais que se deseja “extrair”. Isso não significa dizer que não existam processos de despossessão ou grilagem de terras, mas de repensar seu verdadeiro significado no marco da acumulação de capital e quais são os tipos de relações sociais que estão sendo construídas onde predomina o agronegócio.  

 

Definitivamente, o valor que o capital acumula não é uma coisa, mas ele encontra nas coisas um suporte para produzir-se e destruir-se, uma e outra vez. As vezes em forma de ouro ou cobre, outras em forma de grãos ou carnes, e outras em forma de automóveis e serviços intangíveis. O fio vermelho que enlaça a todos esses bens e serviços é o fato de serem produtos do trabalho social que satisfazem algum tipo de necessidade, e seu valor - em qualquer forma que assuma - reside nisto, e não nas características das coisas como tais. Portanto, em vez de atender a uma suposta relação do capital com as “coisas” através do mero “saque” de uns sujeitos a outros e/ou de uns territórios a outros, para explicarmos a lógica dos agronegócios deveríamos prestar mais atenção ao tipo de relações sociais que explicam a regularidade da produção e acumulação de valor. Principalmente porque essas relações não se esgotam em aspectos puramente econômicos, mas envolvem relações de poder, dispositivos para disciplinar e produzir consenso e até a criação de meios culturais nos quais os vínculos de exploração econômica possam produzir e reproduzir-se com aparente naturalidade, e até com o respaldo de algum tipo de “tradição”.

 

Uma releitura dialética dos agronegócios indica que não se trata de um bloco composto apenas de empresários, homogêneo e coerente em termos sociais, cuja única contradição estaria colocada com o meio ambiente e/ou com os camponeses, indígenas, a agricultura familiar ou as populações que sofrem pulverizações forçadas, isto é, conflitos com elementos externos à sua dinâmica própria. Para além da existência desse choque de interesses - que são mais imediatamente visíveis por serem explicitados pelos movimentos sociais - o que dizemos aqui é que os agronegócios também carregam contradições sociais dentro de si mesmos, entre atores que - diferentemente dos acima mencionados - fazem parte de sua reprodução prática cotidianamente. Em outras palavras, é dizer que existem grupos subalternos fronteiras adentro dos agronegócios, uma vez que as escavadoras já arrasaram o mato, uma vez que já tenham sido desalojados os camponeses e os indígenas, ou que a terra de pequenos e médios produtores tenha sido alugada para a produção em grandes escalas.

 

Do nosso ponto de vista, a contraface inevitável com a qual lidam os grupos hegemônicos no interior do agronegócio são os trabalhadores assalariados. Eles constituem uma negação dos agronegócios no sentido dialético do termo. São como o lado oculto da lua: a contraface que transforma em relativo aquilo que seu oposto sustenta como verdade absoluta. Se tratam de polos antagônicos, que só existem em relação um ao outro, se excluindo e se implicando mutuamente: ao mesmo tempo em que se negam, são parte de um mesmo todo. Assim, quando os agronegócios suprimem artificialmente os trabalhadores de seus discursos, não apenas desconsideram seu polo oposto, mas também, no mesmo movimento, negam sua própria natureza. Falar dos trabalhadores é falar dos empresários. É, portanto, falar do caráter dos agronegócios como um todo atravessado por interesses contraditórios, excludentes e às vezes interdependentes, que nunca alcança um ponto de equilíbrio, apenas se desenvolve sobre as tensões internas entre as forças que puxam em sentidos opostos.

 

 

 

Que outra coisa senão o trabalho para valorizar as terras que os grandes capitais saqueiam violentamente, ou compram por trocados de comunidades camponesas e indígenas, para logo depois revender ou arrendar a preços maiores a novos investidores? Quem se encarrega de toda essa materialidade prática da produção do valor? Alguém conduz as escavadoras. Alguém empurra as tropas de gado. Alguém dirige por horas os tratores que semearão os primeiros grãos de soja. E alguém mais conduz as ceifeiras que os recolhem anos após ano. Alguém se enlamea e contamina a garganta com produtos químicos. Alguém corta a pele com fios, correntes e engrenagens. Alguém cheira mal ao chegar em casa. A alguém dói as costas. Falta alguém na foto. E não são os impecáveis empresários de gravata.

 

Aqueles que trabalham na agricultura são, cada vez mais, trabalhadores assalariados. Nem ao menos camponeses ou agricultores familiares, sujeitos subalternos também no marco do capitalismo agrário, ainda que não do tipo dos que, como os trabalhadores, têm uma relação de interdependência contraditória com os agronegócios. Assim, apesar do uso de tecnologias para economizar mão de obra reduzir em termos absolutos a ocupação na agricultura, o peso relativo dos trabalhadores assalariados entre aqueles que se ocupam no setor é cada vez maior. Em uma palavra, por sua própria lógica, longe de prescindir dos trabalhadores rurais, o capitalismo agrário descansa cada vez mais sobre suas costas. É assim que, na região dos pampas argentinos, em torno de 60.000 trabalhadores assalariados produzem cerca de 80% da produção comercializada e representam 70% dos trabalhadores manuais da agricultura. Ao mesmo tempo, seus salários não ultrapassam mais do que 1,5% do faturamento dos negócios, enquanto que os benefícios líquidos de 10% das empresas que comercializam 80% das colheitas de soja supera em 24 vezes a parte do valor que fica nas mãos operárias. Isso corresponde a um dos salários por hora mais baixos entre todos os trabalhadores argentinos, apesar de realizarem um trabalho qualificado e de alto risco físico, por se encontrarem mais expostos que qualquer um ao contato com agro-tóxicos cancerígenos.

 

Que condições econômicas e ideológicas os impelem e/ou os convencem a empregar-se em semelhantes tarefas em troca de uma porção mínima das riquezas que produzem? Por que essas contradições não aparecem claramente dentro dos agronegócios, sendo mais visíveis as lutas dos sujeitos sociais alheios à sua produção cotidiana? Os agronegócios não resolvem essas contradições, apenas as recriam permanentemente. Justamente por isso, seus grupos dominantes precisam elaborar, implementar e sustentar estratégias de estabilização hegemônica. A invisibilização do trabalho e seus conflitos é parte disso: ao erigir-se prescindindo dos trabalhadores, os agronegócios constroem uma autopercepção supervalorizada entre eles, lhes oferecendo o lugar de sujeitos dependentes unilateralmente, quando são os empresários os que, por sua vez, também dependem dos trabalhadores. Resulta daí também a construção subjetiva do “operário agradecido” com o lugar que lhe é oferecido por esse universo verde que poderia - se supõe - existir sem ele. Ao mesmo tempo, a imagem dos agronegócios como um bloco internamente harmônico, que articula interesses em comum em “redes” e “cadeias de valor”, apresenta o conflito como algo estranho à sua lógica, e àqueles que o externalizam como elementos estranhos que não compreendem os “códigos da comunidade” que governam o relacionamento de todos, dependendo do lugar que ocupam. Por último, enquanto os agronegócios ameaçam a existência de camponeses, comunidades indígenas ou agricultores familiares, garantem a existência dos trabalhadores despossuídos que emprega, ainda que seja, está claro, de modo subordinado e precário. Essas condições históricas de despossessão e trabalho em relação de dependência, naturalizadas como estão pelo conjunto da hegemonia burguesa, facilitam a posição de relativa “gratidão” que a ideologia dos agronegócios induz na subjetividade do trabalhador rural, sendo possível explicar a maior radicalidade das contestações camponesas-indígenas em relação ao aparente silêncio dos trabalhadores rurais imersos no coração mesmo do capitalismo agrário. 

 

Com efeito, os pampas argentinos não registram um único episódio ressonante de conflitos operários rurais desde, pelo menos, os anos 1970. A ausência de grandes conflitos trabalhistas na agricultura não expressa, no entanto, uma harmonização real dos interesses de empregados e patrões, mas a relativa eficácia dessas estratégias de disciplinamento. Por um lado, através de restrições externas à ação dos trabalhadores, como as “conquistas legais” dos empresários com nossa última ditadura, em 1980; por meio de formas mais capilares de exercício do poder patronal nos lugares de trabalho, através de relações laborais bilaterais e personalizadas; ou através da completa dispersão no tempo e no espaço que o regime de trabalho gera em si mesmo. Mas, por outro lado, também desempenha um papel importante a indução de uma subjetividade subordinada entre os próprios trabalhadores, interiorizada como natural, que elimina, antes mesmo de começar, a possibilidade de uma ação coletiva de tipo contestatária.

 

Nessas condições, o “milagre” é que, justamente com tantos elementos contrários e sem apoio estatal ou sindical, os assalariados agrícolas dos pampas argentinos igualmente exerçam formas de resistência. A maior parte delas são de cunho individual - julgamentos, quebra de ferramentas, furtos, renúncia ou fuga do posto de trabalho -, o que lhes confere um caráter limitado, desarticulado e pouco expressivo, ainda que também existam tentativas de criação de núcleos coletivos em suas localidades ou através das redes sociais, que são as modalidades mais potentes entre suas estratégias e, não por acaso, as mais temidas e combatidas por seus empregadores. Se tratam de expressões pouco convencionais, e seu valor reside mais no que expressam do que no que conseguem transformar, falando em voz baixa das fissuras objetivas e subjetivas do agronegócio em seu interior. Se a partir da militância popular e do pensamento crítico superássemos a concepção mecânica dos agronegócios como um “deserto verde”, poderíamos perceber e contribuir com o que está acontecendo, silenciosamente, no lado oculto da lua.

 

 

NOTAS

 

[1] No “Gran Chaco” argentino, esse mato é baixo e seco, muito diverso do tipo de mato úmido  das florestas e do cerrado brasileiro. Na Argentina, o processo do desmatamento que acontece nessas áreas têm efeitos perversos sobre camponeses e indígenas, assim como acontece em outras regiões da América Latina.

 

                                         _________________________

 

Título original: El lado oscuro de la luna: los trabajadores rurales al interior de los agronegocios.

 

Tradução: Luna Ribeiro Campos

 

                                         _________________________

 

 

*  Esse texto faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre o agronegócio na Argentina que acaba de ser lançada em livro pela editora da Universidade de Buenos Aires. Infelizmente, ainda não há uma edição em português. Confira abaixo a sinopse do livro:

 

 

Esse livro retrata o fracasso social de um sucesso produtivo. Ele propõe olhar para além dos recordes de colheitas e das tentativas cegas pelo aumento dos rendimentos, oferecendo aos leitores e leitoras um inventário das dívidas pendentes dos agronegócios com a sociedade argentina e, mais especificamente, com as maiorias agrárias do interior do país. Buscando se afastar do senso comum, o livro analisa qual foi o saldo econômico de dez anos de “desenvolvimento” agropecuário para os operários de máquinas agrícolas, para os peões e para os pequenos e médios produtores  familiares. O foco do livro é voltado para homens e mulheres comuns que trabalham diretamente no campo, seja com trator ou a cavalo. Los números rojos de la Argentina verde convida a repensar do que estamos falando quando tratamos do “campo argentino”, sugerindo de maneira enfática que é necessária uma mudança de rumo para que a expansão produtiva do setor se traduza verdadeiramente em melhoria social para as populações do campo e da cidade.

 

 

 

 

Para saber mais, acesse:

 

- Entrevista com Juan Manuel Villulla:

https://radiocut.fm/audiocut/numeros-rojos-argentina-verde/

 

https://www.facebook.com/lascosechassonajenas/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Juan Manuel Villulla é Licenciado em Sociologia pela Universidade Nacional de La Plata y Doutor em História pela Universidade de Buenos Aires. Pesquisador do CONICET no Centro Interdisciplinario de Estudios Agrarios na Facultade de Ciencias Económicas da Universidade de Buenos Aires e Professor Adjunto de “História Económica e Social Argentina” na mesma casa de estudos. Ele também trabalha como Professor de “Sociología Rural” na Facultade de Ciencias Agrárias e Forestales da Universidade Nacional de La Plata. É autor do livro As colheitas são alheias. História dos trabalhadores rurais por trás do agronegócio (Editorial Cienflores, 2015), e co-autor do livro Os números vermelhos da Argentina verde, onde aborda a situação e a história social dos operários da agricultura na região dos pampas argentinos. 

 

contato: jmvillulla@gmail.com
 
 

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload