BACURAU: UMA LUZ SOBRE A COLONIALIDADE

 

 

 

[Observação: este ensaio é direcionado às pessoas que assistiram ao filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles]

 

 

A colonialidade é o lado obscuro da modernidade. Uma é a contraface da outra. O pressuposto, explicado por Walter Mignolo e seguido pelos teóricos do pensamento decolonial[1], evidencia que a promessa de uma humanidade emancipada, firmada nos contratos sociais, coexistiu com a sujeição de indígenas, negros, negras e demais habitantes do “Novo Mundo”.

 

O paradigma da emancipação/regulação pelas leis que levariam os indivíduos à liberdade civil não se colocava em contradição com o da violência empregada nas colônias. É que, se nas metrópoles a sociedade civil fora criada, na América Latina tudo era “estado de natureza”. Desde a “aurora das descobertas”, atuou o que Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal: um sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo estas estabelecidas por linhas radicais que recortam a realidade social em dois universos distintos, produzindo um dos lados como inexistente.

 

Sem existir como qualquer modo de ser relevante, Bacurau está, então, do lado de cá da linha abissal. Funciona como um texto de sociologia ao iluminar a colonialidade insaciável em seu desejo de sujeição e produção de “selvagens”. Era para ser apenas mais um lugar destinado a sumir do mapa, em um futuro prenhe de passado, pois, se o colonialismo há muito acabou, a colonialidade segue a estender-se com a cumplicidade daqueles que julgam aproximar-se, de alguma forma, do lado de lá da linha. Permanece a legitimidade da violência, o preconceito racial, a sede de destruição.

 

Mas Bacurau dificulta a aliança dos locais com os forasteiros. Colabora para criar um espaço-tempo em que outras existências são possíveis e que a história da colonialidade pode ser recontada, algo que o próprio prefeito da cidade e o casal quase branco/quase gente não desejavam. Um detalhe interessante sobre o motoqueiro: o rapaz, vindo do Sul, fazia parte do poder judiciário. Ainda assim, respondia a interesses alheios à soberania nacional, transformando a lei na sua própria vontade e no que julgava correto... Uma analogia à chamada “República de Curitiba”?

 

Ao perceber que está sendo atacada, Bacurau se recusa a aceitar seu lugar fora da humanidade: quem nasce por ali é gente. E que ninguém tente diminuir: é pássaro, não é passarinho. Talvez os outros até sejam muitos, mas não sabem voar.

 

A narrativa, desenvolvida sob o céu de uma cidade no interior, com os sotaques e os ambientes do Nordeste (metonímia da resistência no Brasil), tem a história e a memória do seu povo como contraponto ao futuro carregado de entulho. A salvação vem justamente do museu, com suas armas reais e metafóricas. A resistência passa pelo afeto, recusa estereótipos de gênero e também se faz pela inteligência.

 

Se a resistência política deve ter como postulado a resistência epistemológica, Bacurau caminha nessa direção, podendo ser lido como uma linha abissal sublevada; a promessa de uma subalternidade emancipada. É assim que se apresenta como contribuição a uma “Sociologia das Ausências”: evidencia que o inexistente é efetivamente produzido como tal e que a possibilidade de subversão está presente sempre que o reconhecimento de si levar à recusa de cidadanias de segunda categoria. Uma potencialidade latente e urgente de ser recordada, tendo em vista que a colonialidade se estende pelas esferas do poder, do saber e do ser.

 

 

NOTAS

 

[1] As teorias decoloniais buscam radicalizar o pós-colonial, tomando a América Latina como ponto de partida e mostrando que, a partir dela, um lado obscuro da modernidade foi gerado (onde a violência era permitida e novas cidadanias de segunda categoria foram criadas).

 

 

Joyce Miranda Leão Martins foi Bolsista de Pós-doutorado FAPESP em Ciência Política na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP), da PUC/SP, e do Núcleo de Investigação em Práticas e Competências Midiáticas (NIP-COM), da Universidade Autônoma de Lisboa (UAL). 

 

 

Editores responsáveis: Leonardo Nóbrega e Marcia Rangel Candido

 

 

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