MULHERES EM PESQUISAS DE CAMPO: UM RELATO SOBRE ENTREVISTAS SEMI-ESTRUTURADAS NA ÁFRICA DO SUL E EM MOÇAMBIQUE

Foto: Renata Ribeiro

 

 

 

 

Atravessei o mar
Um sol
Da América do Sul
Me guia

Um Corpo no Mundo - Luedji Luna

 

 

Nos últimos anos, houve uma ampliação nos estudos sobre as relações do Brasil com países africanos, nas áreas da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, da Cooperação Sul-Sul, dos Estudos Agrários e das Ciências Sociais como um todo. Os países falantes da língua portuguesa foram o foco dos trabalhos que, obviamente, refletiam a guinada para África da política externa dos anos Lula da Silva (2003-2010). No entanto, poucas pesquisas incitaram uma reflexão sobre a posição de mulheres e, menos ainda, sobre o papel de investigadoras negras em trabalho de campo nestes países.

 

Embora a pesquisa de campo exija um forte preparo dos pesquisadores no geral, existem algumas questões que surgem ao analisar como as sociedades reagem a mulheres na posição de pesquisadoras. Este relato/manual nasce da inquietação em perceber, ao conversar com meus colegas pesquisadores, sobretudo homens, o quanto a interseccionalidade aparece como um elemento fundamental para realização ou não de uma pesquisa de campo. Mais do que meramente uma abordagem sobre questões identitárias, é necessário considerar este debate como um debate de relações de poder.

 

O pesquisador em campo exerce uma posição de poder. A ciência é historicamente conduzida por homens, responsáveis pela produção, circulação e também validação do saber e do próprio método científico[1]. Isto sem mencionar a própria fundação das Ciências Sociais como um campo do conhecimento, no estabelecimento da Antropologia e do trabalho de campo como método científico, na relação entre aquele que estuda e aquele que é estudado. Relação esta que, não à toa, remete às próprias assimetrias do sistema internacional.

 

Ser uma mulher negra nesta posição traz desafios específicos, pois implica ocupar um lugar onde a diferença e a desigualdade se fazem presentes cotidianamente. Por isso, trago estas informações, na expectativa de ouvir outras mulheres e suas experiências e, sobretudo, para trazer este debate tão rico e já bastante conhecido na Sociologia e na Antropologia, para a área da Ciência Política e das Relações Internacionais.

 

A partir da minha experiência, penso que podemos discutir mulheres em trabalho de campo baseadas em três eixos: planejamento, cultura e segurança. Essas dimensões podem variar conforme uma série de fatores que estão postos no decorrer do texto.

 

 

I. PLANEJAMENTO

 

Planejamento é uma categoria que se divide em, no mínimo, três[2]: uma lista de contatos; como fazer os contatos (e conseguir as entrevistas!) e questões logísticas. Como eventual primeiro passo, sugiro elaborar uma lista de pessoas que você gostaria de entrevistar[3]. Criei uma planilha no Excel com nome/cargo/empresa/contato/endereço/status[4]. Deixava em verde as entrevistas realizadas, amarelo as pendentes e vermelho as recusadas, ao fim da planilha. A partir dessa organização, há duas opções: ir para o campo com as entrevistas já agendadas ou não. Essas etapas dependem do desenho da sua pesquisa. Na pesquisa que realizei, o ideal era enviar as solicitações antes de ir a campo e chegar com as entrevistas já agendadas, mas mantendo sempre aberta novas possibilidades e contatos[5].

 

Nesta etapa, há outro tópico importante: como solicitar as entrevistas e consegui-las. Eu dividi a lista de entrevistados em categorias: governo, universidade, setor privado, movimentos sociais, ONGs e Organizações da Sociedade Civil. Você deve elaborar dois documentos formais neste estágio: as “credenciais” e os “termos de consentimento”. Uma credencial é uma carta formal da sua instituição solicitando a entrevista. Ela deve ser redigida no idioma do país que você está. Essas credenciais são fundamentais para entrevistar órgãos estatais ou grandes empresas porque conferem credibilidade/legitimidade maior ao seu trabalho[6]. A credencial coloca o peso da sua Instituição no seu pedido. Se a carta tiver um carimbo, melhor ainda. Na maioria dos casos, alguém de alta burocracia vai simplesmente ignorar um e-mail que diz “Oi, eu sou estudante”.

 

O Termo de Consentimento, por sua vez, é um documento onde o entrevistado autoriza o uso de sua fala/informações para fins científicos. Nele, o entrevistado deve responder se deseja ser identificado ou se prefere manter sigilo quanto a sua identidade. Ele deve ser assinado pelo entrevistado ao final da conversa. É importante ressaltar que dificilmente este tipo de ação é avisada nos cursos de método do doutorado, ainda muito carentes no ensino de técnicas qualitativas.

 

Embora os documentos fossem importantes, o fator mais determinante para conseguir as entrevistas, no meu caso, foi ter contato próximo com alguém local. Existe uma figura fundamental no trabalho de campo que irá abrir as portas e possibilitar que as entrevistas aconteçam, meio que em um esquema bola de neve. Eu sugiro encontrar essa pessoa chave o quanto antes, ela certamente facilitará muito o seu contato com os demais.

 

Você pode ter uma abordagem diferenciada para cada grupo, mas o ideal é manter um certo grau de formalidade para que fique visível que se trata de uma pesquisa e não de uma conversa fiada. Enviei um e-mail sugerindo um bate papo com uma professora. Escrevi bate papo porque realmente gostaria de ter uma conversa e não necessariamente extrair alguma informação dela. Logo em seguida, me dei conta que ela poderia, sim, fornecer informações relevantes para a pesquisa e cheguei ao local combinado com uma folha de papel com 10 perguntas. Ela ficou visivelmente incomodada, provavelmente desconfiou que agi de má fé. Em 15 minutos, ela informou que precisaria ir embora. Acontece. Por isso, seja transparente nas intenções com o entrevistado. Além de obviamente ser uma questão ética, você pode perder uma entrevista por causa disso.

 

 

II. CULTURA

 

Neste ponto o planejamento se conecta com o eixo dois do tripé: a cultura, pois não há planejamento que supere a cultura. A cultura é a estrutura que molda todas as relações humanas. É preciso entender como a cultura daquele lugar pode influenciar no fato de você conseguir ou não as entrevistas.  Me lembra a história contada por uma colega. Estudante de artes, resolvera fazer uma intervenção artística em um bairro gentrificado da África do Sul e convidou grafiteiros para a ação. Eles não aceitaram porque ela não tinha uma autorização da prefeitura para pintar os muros.  

 

Além disso, é preciso entender a cultura política do campo. Em uma ocasião, me queixava com um professor sul africano sobre o fato de uma série de departamentos estatais não responderem meus e mails e ele disse que, em alguns ministérios, as pessoas ocupam cargos por indicação, como acontece aqui no Brasil também. Por exemplo, o chefe do departamento de meio ambiente do ministério de relações exteriores da África do Sul não é, necessariamente, um especialista em meio ambiente ou alguém com conhecimento aprofundado sobre aquele tema. Ele disse “as pessoas não te respondem porque elas não sabem”.

 

Quer dizer, é importante não só entender a cultura, mas a cultura política, os fenômenos de formação social e histórica, os processos políticos e a própria constituição daquele Estado. Para minha colega, faltou compreender que os grafiteiros partiam de uma exigência dada pelo governo. No meu caso, por outro lado, fui percebendo que África do Sul e Moçambique, em virtude de diferenças contextuais, requeriam duas dinâmicas de obtenção das entrevistas bastante diferenciadas[7].

 

Enviei os e-mails ao chegar na África do Sul e cometi o seguinte erro: falava que ficaria no país pelo período de um ano. Consequência: as pessoas me responderam um ano depois, literalmente. Passei a escrever “estou na África do Sul fazendo uma pesquisa, podemos marcar na próxima semana?” ou apresentava um prazo como “Gostaria de uma entrevista até o final do mês”. Houve uma melhora considerável nas respostas e consegui algumas entrevistas[8].

 

No caso moçambicano, enviei inúmeros e-mails para os contatos que desejava entrevistar. Em Maputo, enfrentei um problema temporal e um institucional: muitos dos contatos que consegui não respondiam mais. E eu só descobri isso quando comecei a mandar os e-mails, duas semanas antes de viajar (penso que o prazo ideal é, no mínimo, um mês), e eles começaram a voltar. O motivo era o seguinte: contato inexistente. No caso do meu tema, precisava interagir com pessoas envolvidas em projetos de biocombustíveis, mas eles foram se esgotando em Moçambique. Além disso, o país enfrenta constante reordenamento institucional e alguns ministérios/agências haviam acabado ou se fundido com outros. O que só reforça a importância de conhecer o país institucionalmente.

 

Ao chegar em Maputo, me vi obrigada a dar um passo atrás na pesquisa e reescrever a minha lista de possíveis entrevistados, redefinindo prioridades, considerando que havia apenas um mês para concluir as entrevistas. Logicamente, busquei os novos contatos dessas pessoas. Não desanime se os planos mudarem e renove suas alternativas. A ausência de determinadas pessoas no campo é um dado. Para mim, levou a questionar o que isso demonstrava sobre a presença brasileira naquele país.

 

Após enviar e-mails para os endereços eletrônicos corretos e com as credenciais anexas, recebia respostas como: ok, vamos marcar, avise-me quando chegar a Maputo. Surgia, então, mais uma restrição pois desejava chegar a campo com as entrevistas agendadas. Entrei num looping eterno. Não comprava a passagem porque não sabia quando teria a minha primeira entrevista e não conseguia entrevistas porque as pessoas me perguntavam quando chegaria. Ao final, comprei a passagem e passei a enviar os e-mails dizendo “chego em Maputo dia tal”. Recebia as mesmas respostas: marcamos quando você chegar aqui.

 

Eu não sabia como quebrar este ciclo, até que conversei com a antropóloga Vanessa Perin, que logo se tornou minha amiga pessoal e me avisou que em Moçambique os contatos acontecem pelo telefone. Vale frisar o quanto a solidariedade de outras mulheres foi e é importante na chegada a campo. De fato, nos e-mails, as pessoas me respondiam com: “me ligue quando chegar aqui”. E foi o que eu fiz. Estranhava ligar para um Embaixador, mas aprendi que esse era o proceder do lugar. Uma vez marcadas pelo telefone, as entrevistas aconteceram, obrigada.

 

 

III. SEGURANÇA

 

Neste ponto, entramos no terceiro eixo do tripé: a segurança. Esse elemento surge ao pensar na locomoção até os possíveis entrevistados[9]. Não existe uma rede de transporte público consolidada na África do Sul, nem em Moçambique. Em Pretória e Joanesburgo, o transporte urbano é feito pelas minivans chamadas “Taxis”[10]. Ouvi histórias de situações de insegurança relacionadas aos cabs e aos taxis. Pessoalmente não recomendo pegar nenhum dos dois sozinha, mas cada um tem a sua experiência. Não andei de taxi sozinha, apenas acompanhada de outras pessoas negras, as quais não me consideravam negra. Nas poucas vezes que peguei os taxis, via um olhar de “o que você tá fazendo aqui?”.

 

Nos taxis, existe uma forma de pagamento que pode ser um pouco estranha para nós. A pessoa que senta ao lado do motorista fica automaticamente responsável por fazer o trabalho de cobrador, as pessoas das pontas de cada fileira recolhem o dinheiro e o dinheiro vai passando pra frente até essa pessoa ao lado do motorista. Na volta, o troco passa de mão em mão até o seu dono. Ninguém explica isso e as pessoas fazem tudo no modo automático. Costuma ser muito rápido. Vi confusão acontecer por conta disso, talvez porque eu estava presente. Resumo: não sente na frente.

 

De qualquer forma, sugiro que a pessoa que pretende fazer trabalho de campo nas grandes cidades da África do Sul: (a) saiba dirigir e alugue um carro; (b) converse com outros brasileiros que moram na cidade que pretende visitar. A maioria das pessoas será solidária.

 

Em Pretória e Joanesburgo também existe o Rea Vaya, um BRT que corta todo a região central chamada CBD, o trem urbano e o Gautrain, que liga as duas áreas. Na Cidade do Cabo, há uma rede de transportes no centro e na área turística, e é mais seguro do que as outras duas cidades. Além do trem, há o My City, o BRT da Cidade do Cabo. Nessas três grandes cidades, o uber funciona perfeitamente[11].

 

Em Maputo, a locomoção pode acontecer pelas chopelas, minivans chamadas “chapas” ou na caçamba de um caminhão, transporte que atende pelo nome de “my love”. Há taxis amarelos e se chamam taxis mesmo. São mais seguros do que os cabs da África do Sul. A verdade é que capital moçambicana é pequena e relativamente segura (quando comparada ao Rio de Janeiro, por exemplo), o que permitiu que eu fosse a maioria dos locais a pé.

 

Com mulheres, no entanto, o eixo segurança adquire outras dimensões. Em Moçambique, o fato dos contatos acontecerem via telefone se tornou um problema devido episódios de assédio que vinha sofrendo ao longo de minha curta estadia. Nos países que visitei, era comum um homem pedir seu telefone pois essa é a abordagem masculina nas ruas. E eles realmente ligam. Então, quando soube que eu precisaria ligar para o chefe de um departamento, enxerguei como uma dificuldade não só porque “ligar” para alguém ou deixar uma mensagem na caixa postal era visto como um ato de muita intimidade dentro dos meus padrões culturais, mas porque me preocupava com o fato de que essa pessoa também teria o meu telefone. Fui colocada diante de um impedimento ou um incômodo que ocorreu a mim apenas pelo fato de eu ser mulher. Nem digo que essa situação é algo exclusivo de Moçambique, muito pelo contrário. Ser mulher é estar constantemente em risco não só em um país africano. Penso em mulheres estrangeiras que vêm ao Brasil para pesquisa de campo e certamente enfrentam desafios da mesma forma. A questão é estar num lugar na posição de estrangeira, onde você não conhece os códigos de perigo. Cada lugar tem os seus e você pode ser uma estrangeira dentro do seu próprio país.

 

Um dos meus receios era que após a entrevista, automaticamente se estabelecesse uma relação de qui pro quo: “te dei uma entrevista agora quero algo em troca”. Mesmo que isso não tenha acontecido em nenhum dos dois países, apenas o fato de ser necessário pensar nessa possibilidade demonstra uma desigualdade, pois um homem não precisa lidar com exatamente essas preocupações em suas entrevistas e visitas a campo.

 

Também é importante dizer que além de gênero, a segurança, entendida aqui como segurança individual, ou seja, ir e voltar da entrevista em plenas condições mentais e físicas, varia em funções de raça e classe. Neste ponto, recorro a um acontecimento enquanto estava em Moçambique. A minha pesquisa de campo durou um mês na capital do país. Durante esse período, recebi um convite para visitar uma fazenda numa província no Norte. O dono concedeu algumas informações pelo telefone e me convidou para conhecer a machamba[12], “vem aqui ver a produção que você vai entender porque não fazemos mais biocombustíveis”. Pedi o endereço da fazenda. Não havia. Ele disse: “chegando na província, no lugar tal, você vira a esquerda e é logo depois da ponte”. Também não existiam informações no Google Maps, exceto pela referência que essa província ficava a muitos Km da capital[13].

 

A primeira questão problemática que me surgiu, portanto, foi: como ir até lá? A opção avião tinha passagens caríssimas. Por terra, o trajeto ocorreria em estradas de difícil locomoção, feito pelas chapas já bastante degradadas, de maneira alternativa. Por isso, uma viagem que tinha a previsão de 12 horas poderia se transformar facilmente em 20 horas, segundo relatos de outras pesquisadoras[14]. A solução sugerida pela maioria das pessoas era: alugue um carro e siga dirigindo até o norte. Como eu não dirijo, seria necessário encontrar uma pessoa que me servisse de motorista. Essas mesmas pessoas me aconselharam que, para minha segurança, era ideal que esse motorista fosse um homem. Durante essa viagem, ademais, era necessário dormir em algum dos poucos hotéis disponíveis na estrada.

 

As restrições não pararam por ai. Todas as indicações que buscavam simplificar minha vida ou reduzir os perigos da pesquisa de campo envolviam um dispêndio de verba que eu não detinha. Esta informação não é irrelevante, nem fruto de um aspecto individual. Mulheres negras chegam a receber metade da renda de homens brancos no Brasil (PNAD, 2019) e é preciso analisar a produção científica a luz dessas desigualdades estruturais que cortam o nosso país. Rosana Pinheiro (2019) afirma, por exemplo, que “Apenas 10,4% das mulheres negras com idade entre 25 a 44 anos concluem o ensino superior. O percentual de mulheres pretas e pardas doutoras professoras de programa de pós graduação é inferior a 3%. Só 7% das bolsas de produtividade são destinadas a mulheres negras.” E estes dados se tornam ainda mais preocupantes quando pensamos na divisão do trabalho intelectual em escala global, com comunidades científicas de alguns lugares possuindo muito mais financiamento do que outras regiões.

 

Além disso, eu não conhecia nenhum homem suficientemente a ponto de me sentir segura para realizar uma viagem de 20 horas. Acabei não fazendo a viagem e minha tese ficou sem essas informações, algo que me lembrou o relato de uma pesquisadora que foi a um país com fortes estruturas desiguais nas questões de gênero e levou o namorado para conseguir explorar o campo com menos constrangimentos.

 

As questões raciais também surgem quando corre a afirmação de que se você for branco em um país majoritariamente negro, e está em uma zona de perigo, é aconselhável que você “apareça”. “A presença de uma pessoa branca reduz o risco de violência por conta de repercussão internacional”, me disseram. No entanto, os países que visitei tem padrões raciais distintos e constantemente era lida como não branca na África do Sul (coloured) e não negra em Moçambique, um não lugar comum a pessoas negras de pele clara. No primeiro, me perguntavam se eu era branca ou negra e no segundo fui inserida no lugar de “brasileira”, entendida como “gringa”, uma categoria bastante geral que colocava negras periféricas no mesmo lugar que brancas e loiras da zona sul do Rio de Janeiro. Não os julgo. Mais uma vez, é necessário entender os processos que fazem com que brasileiros sejam generalizados desta forma[15].

 

Aliás, era comum que brasileiros que se identificam e são lidos como negros no Brasil, não fossem considerados negros em Maputo, o que pode gerar alguma frustração ao chegar lá, mas isso é assunto para outro texto.

 

Enfim, essas são algumas impressões ou informações que gostaria de ter lido antes de chegar na África do Sul e em Moçambique. As trajetórias de entrevistas são raramente exploradas na Ciência Política e nas Relações Internacionais. O trabalho de campo, narrado em primeira pessoa, pode servir como conhecimento aqueles que pretendem explorar outras realidades que não a nossa.

 

É dever do pesquisador se preparar intelectualmente e emocionalmente para o campo. Pensar nos três eixos: planejamento, cultura e segurança pode auxiliar na elaboração de sua pesquisa nestes e em outros países. No entanto, uma vez lá, existem inúmeros desafios, alguns compartilhados neste texto. Saiba que o campo existe para surpreender você. Está aí uma das riquezas das ciências sociais.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ASSIS, Carolina de. GRÁFICO: Gênero e raça na ciência brasileira. Gênero e Número, 20/0/2018. Disponível em: http://www.generonumero.media/grafico-genero-e-raca-na-ciencia-brasileira/ Acesso em: 10/10/2019.

 

EUCLIDES, Maria. Simone. Mulheres negras doutoras e professoras universitárias: trajetórias de rupturas, desafios e conquistas. 2017. 254f. – Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira, Fortaleza (CE), 2017. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/26901 Acesso em: 10/10/2019.

 

FEIJÓ, João (coord). Metodologias de Investigação em Ciências Sociais: experiências de pesquisa em contextos moçambicanos. Maputo, Moçambique, Escolar Editora, 2017.

 

FERREIRA, Lola. Menos de 3% entre docentes da pós-graduação, doutoras negras desafiam racismo na academia. Gênero e Número. Disponível em: http://www.generonumero.media/menos-de-3-entre-docentes-doutoras-negras-desafiam-racismo-na-academia/ Acesso em: 10/10/2019.

 

FOLHA DE SÃO PAULO, Homens dominam a produção de Conhecimento, Folha de São Paulo, Especial Maioria Invisível, 09/10/2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/homem-branco-domina-geracao-do-conhecimento.shtml Acesso em: 10/10/2019.

 

FOLHA DE SÃO PAULO, Trajetória acadêmica de negras é marcada pela superação de preconceitos, Especial Maioria Invisível, 09/10/2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/trajetoria-academica-e-marcada-pela-superacao-de-preconceitos.shtml Acesso em: 10/10/2019.

 

LACERDA, Renata. Antropologia, viagens para fronteiras e Bacurau. Deviante, Disponível em: https://www.deviante.com.br/noticias/antropologia-viagens-para-fronteiras-e-bacurau/?fbclid=IwAR0C6j2C00QVL1sBOqO_w8PSI1FVCDteQh6NRKpiODLEjFEeKeJ3fYwaoqE Acesso em: 10/10/2019.

 

FLOSI, Sandra. Mas o que é mulungo afinal? Mosanblog, O Blog da Sanflosi em Moçambique, 27/11/2010. Disponível em: https://mosanblog.wordpress.com/2010/11/27/mas-o-que-e-mulungo-afinal/ Acesso em: 10/10/2019.

 

PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. As Mulheres Negras E A Ciência No Brasil: “E Eu, Não Sou Uma Cientista?” Disponível em: http://www.comciencia.br/as-mulheres-negras-e-ciencia-no-brasil-e-eu-nao-sou-uma-cientista/ Acesso em: 09/10/2019.

 

PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2019.

 

SILVA, Joselina da. Doutoras professoras negras: o que nos dizem os indicadores oficiais. Perspectivas, Florianópolis, v. 28, n. 1, p. 19-36, 2010. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/view/2175-795X.2010v28n1p19 Acesso em: 10/10/2019.

 

TANSCHEIT, Talita. Como fazer entrevistas nas ciências sociais? Horizontes ao Sul, 17/06/2018. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2018/06/07/como-fazer-entrevistas-nas-ciencias-sociais Acesso em: 10/10/2019.

 

 

 

[1] Para mais informações ver obras de Patricia Hill Colins, Pensamento Feminista Negro (2019).

 

[2] Para entrevistas semi-estruturadas, elaborar um questionário-base seria a etapa zero.

 

[3] As aulas da Escola de Inverno de Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais do IESP-UERJ de 2016, com as professoras Elize Massard e Carolina de Paula, muito me auxiliaram na elaboração desta lista.

 

[4] Hoje em dia, existem aplicativos e sites para este tipo de organização, como o Monday.

 

[5] Ainda na etapa planejamento, conseguir vistos pode ser uma dificuldade a depender do país de sua pesquisa.

 

[6] Em ambos os países, recebi mais respostas quando enviei credenciais.

 

[7] Apesar disso, em ambos, a burocracia, velha conhecida nossa, aparece como uma barreira que, por muitas vezes, acaba com a sua paciência. Para não cair numa armadilha de exotização, pensem em uma estrangeira no Rio de Janeiro que precisa resolver um problema no Detran ou na Receita Federal. Me solidarizo.

 

[8] Por via das dúvidas, carregava versões impressas de alguns documentos como as credenciais e os termos de consentimento.

 

[9] Além dos documentos comprobatórios da sua visita com fins profissionais, sugiro ter sempre uma cópia autenticada do seu passaporte (autenticada num cartório do país que você está).

 

[10] O que nós, brasileiros, chamamos de táxi (os carros amarelos), lá são brancos e se chamam cabs.

 

[11] Em 2017, os cabs brigavam com o uber na África do Sul. Então pegar um uber em qualquer lugar não era nem um pouco seguro, sobretudo nas áreas de entrada/saída do Gautrain. Aparentemente, hoje convivem em paz.

 

[12] Machamba é nome dado para uma área agrícola, semelhante aquilo que chamamos de “roça” no português brasileiro.

 

[13] Em 2017, o Google Maps não funcionava 100% em Moçambique, África do Sul e Suazilândia. Isso não é uma exclusividade da África, pois no subúrbio do Rio de Janeiro, por exemplo, o Google Maps também não funciona plenamente. Recebi a indicação de outro aplicativo chamado MAPS.ME para circular na capital moçambicana. Mesmo assim, não se deve confiar nessas tecnologias em se tratando de áreas rurais, em Moçambique ou em qualquer lugar do mundo. Para pesquisa de campo, é fundamental ter em mãos um bom e velho mapa impresso.

 

[14] Saúdo as mulheres pesquisadoras que viajaram sozinhas para o norte. Em sua grande maioria, envolvidas nos estudos do projeto Pro Savana. Este projeto foi amplamente estudado ao longo dos anos 2010. Portanto, havia um caminho trilhado em torno daquela região. Um caminho intelectual, físico e geográfico.

 

[15] Em Maputo, ouvia a palavra “mulungo” do changana, uma das línguas faladas no país. Segundo um amigo moçambicano, significava patrão. Com o passar dos anos, mulungo passou a significar branco, afinal os patrões eram brancos. E depois “estrangeiro”. Mas essa palavra também pode significar Deus. Entender os processos, eu digo. Ao notar a minha frustração, meu amigo me avisou que “mulungo” também pode significar “gringo” de um jeito carinhoso, como às vezes utilizamos no português brasileiro.

 

 

Renata Albuquerque Ribeiro é Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de janeiro (IESP-UERJ), Professora Substituta no Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID-UFRJ) e Pesquisadora no Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo). 

 

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

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