A IMOBILIZAÇÃO DO GOVERNO E OS PROTESTOS SOCIAIS DE NOVEMBRO NA COLÔMBIA

Foto de Christian Fajardo

 

 

 

 

No último dia 21 de novembro se iniciou um ciclo de manifestações nas principais cidades da Colômbia que, resguardadas suas particularidades, aparece ao mesmo tempo que em vários países da América Latina. Em um primeiro momento, a greve foi convocada por sindicatos e o movimento estudantil, com demandas variadas: frear a reforma da previdência, que procura aumentar a idade de aposentadoria e eliminar a Colpensiones (instituição pública de aposentadoria); reformar o sistema de saúde, que na Colômbia está dominado por empresas privadas (Empresas Prestadoras de Salud - EPS); aumentar o orçamento das universidades públicas, que cobram mensalidades de seus estudantes e dependem, em grande parte, da venda de serviços para se manter; frear a reforma trabalhista, que procura uma maior flexibilização com menos direitos dentre os jovens; e deter o modelo extrativista depredador da natureza. 

 

As demandas são parecidas às de outras manifestações que existiram no passado. No entanto, os protestos se ampliaram a outros setores e grupos além dos tradicionais sindicatos e o movimento estudantil. A presença de jovens tem sido massiva: desempregados que nem conseguem ou nem querem trabalhos precarizados, profissionais ou estudantes endividados, defensores dos animais, feministas, grupos vítimas da violência - como as mães que perderam seus filhos nas execuções extrajudiciais de jovens pobres apontados como guerrilheiros, realizadas pelo exército entre os anos de 2002 e 2010 –, a cidadania mobilizada pelo assassinato sistemático e constante de líderes sociais logo após a assinatura dos acordos de paz com as FARC (2016), afro-colombianos e o movimento indígena e camponês.  

 

O governo de Ivan Duque (2018-2022) não consegue explicar como, em um país com crescimento econômico, não se diminui o desemprego. Além disso, conta com pouca governabilidade: os votos com os quais foi eleito não são próprios, mas do senador e ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2006 e 2006-2010). Esta situação faz com o atual governo esteja subordinado aos projetos do ex-presidente que, por sua vez, logo após os acordos de paz e o desarme da principal guerrilha colombiana no governo de Juan Manuel Santos (2010-2014 e 2014-2018), ficou sem capital político para levar à frente suas reformas.  

 

A resposta do governo tem sido adiar o diálogo e gerar medo sistemático para enfraquecer o movimento.  Desde o primeiro dia de manifestações apareceram grupos que provocavam a polícia para dispersar as manifestações. No dia 21 de novembro teve toque de recolher em Cali, devido a roubos e saques, e em Bogotá, no dia 22 de novembro, o prefeito decretou toque de recolher em resposta a violência.

 

A noite do dia 22 para o dia 23 de novembro esteve marcada pelo medo em Bogotá. Nos edifícios apareceram sistematicamente grupos de pessoas que ameaçavam saquear os apartamentos. Vizinhos saíram com paus e armas para defender suas propriedades, buscando bater em qualquer desconhecido que pudesse parecer um criminoso. Foram poucos os casos de prisões. Em uma cidade esvaziada pelo toque de recolher, não fazia muito sentido assaltar apartamentos e casas. 

 

O objetivo daquele medo era incentivar a briga com o vizinho e o diferente.  Quem estava interessado em gerar tal medo, dando abertura para o surgimento de pequenos grupos fascistas que repudiavam as manifestações e defendiam a propriedade privada? Quem procurava legitimar a intervenção militar e policial? Na manhã seguinte apareceram vários vídeos em redes sociais que flagravam membros da Polícia Nacional conversando com aqueles supostos ladrões que assustaram as pessoas e difundiram o pânico na cidade. 

 

O medo dirigido e a violência coordenada por forças do Estado geraram ainda mais indignação em grupos da população. As mobilizações continuaram logo após o 21N e apareceram os 22N, 23N, 24N e 25N. Bater panelas nos bairros virou símbolo dos protestos e da inconformidade contra o governo. A tática de segurança passou a ser a organização dos manifestantes em multidões nas ruas, de forma a apagar a violência e fazer frente aos grupos de autodefesa armados. 

 

A extrema direita tenta deslegitimar os protestos difundindo falsas informações como a suposta infiltração do “Foro de São Paulo” ou do castro-chavismo. A estratégia está em construir um inimigo externo para desviar as causas reais dos protestos. Assim, o governo está longe de criar as condições para um diálogo social e está sujeito aos grêmios e ao ex-presidente Uribe, que o elegeu.

 

A violência utilizada pelas forças da polícia causou, no dia 25 de novembro, o assassinato, pelo Escuadron Movil Antidisturbios (ESMAD), de um jovem que estava no último ano do ensino médio e aderiu às manifestações por se ver quase que obrigado a pedir um empréstimo para conseguir ingressar em uma universidade. Dilan Cruz (2001-2019) vira agora um símbolo tanto do excludente sistema de educação superior colombiano quanto da brutalidade policial. Assim aparece dentro da agenda de mobilizações uma demanda com ainda mais força: o desmonte do ESMAD. Os protestos continuam e o governo parece imobilizado. Negociar o status quo é perder os privilégios que os mantêm com seus negócios e seus lucros descontrolados, tanto no campo quanto nas cidades.

 

 

 

Camilo Andrés Salcedo Montero é Mestre em Antropologia e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

 

 

Editora responsável: Leonardo Nóbrega

 

 

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