ESTÃO DEIXANDO O MENGÃO CHEGAR

22 Nov 2019

 

 

No sábado, dia 23/11/2019, Flamengo e River Plate decidirão a Libertadores da
América em Lima, no Peru. É a primeira final em jogo único. É a terceira final do River nos últimos cinco anos.

É a primeira do Flamengo nos últimos trinta e oito.

 

 

O Flamengo é um fóssil vivo. É o remanescente melhor conservado de uma época longínqua em que o futebol fez-se o reduto da autoconfiança desassombrada, da fé em si, de uma empáfia orgulhosa em meio ao desamparo da vida. Por razões que a ciência desconhece, o torcedor rubro-negro vive envolto nessa certeza imprudente da vitória, capaz até de farejar seus cheiros. Mesmo em meio ao descalabro, duas vitórias consecutivas são suficientes para fazer ressurgir o infalível “estão deixando o Mengão chegar...”, tão zombeteiro quanto convicto. Durante a amarga penúria que foram os últimos dez anos, a torcida viveu do sebastianismo dos atacantes heroicos. Wagner Love, Ronaldinho, Adriano Imperador, Guerrero. Sua chegada viria a salvar. Bastava a sondagem dos nomes para recriar a iminência do triunfo.

 

Enquanto isso, o futebol foi invadido pela linguagem cinza da humildade retórica. Quando falam em público, jogadores, técnicos e cartolas declamam uma ladainha da mediocridade, o que fez do jornalismo esportivo a repetição do tédio. Há uma aceitação da derrota antecipada: respeitar o adversário, saber das dificuldades e fazer o melhor. Nada senão preparar o terreno para o fracasso, sem qualquer pulsão ou coragem. E os torcedores foram compreensivelmente tomados pela descrença abissal: esse time não vai pra frente. Esse lateral direito é uma avenida. Com esse retranqueiro a gente não passa das quartas. Time sem vergonha.

 

Se há um nome a quem devemos o combate aguerrido contra a humildade no futebol, ele é Nelson Rodrigues. Da humilhação de 1950 à exaltação de 1970, Nelson foi o cronista da reconciliação do povo consigo. Antes da final contra a Itália, ele diz: “observem agora o que o escrete fez por nós. Há pouco tempo o brasileiro tinha uma certa vergonha de ser brasileiro”. Afinal, era o futebol agora o terreno do ilimitado, era o esporte popular que permitia mandar às favas a comiseração estoica dos que nada tem. Após a vitória, ele cobra o tempo em que pregara no deserto: “Era mais fácil encontrar uma girafa em nossas redações do que um otimista”. Quis a astúcia da razão que fosse um aficcionado pelo Fluminense a criar no futebol brasileiro a húbris que viria-a-ser o Flamengo.

 

Cá entre nós, um flamenguista ganhando é insuportável. Até porque essa sanguínea fé em si mesmo encontra vazão no Rio de Janeiro, a capital suprema do blague. E a derrota? Ora, se para a linguagem cinza da humildade a derrota é só uma consequência, para quem vive de tempestade e ímpeto, vira tragédia. Foi o que nos acometeu em 1982 contra aquele time murrinha da Itália. Afinal, é só quando a confiança foi desembaraçada de toda a prudência que o desfecho pode ser tão dramático, insólito, devastador. E é no limite extremo do enredo, com todas as fichas sobre a mesa, que se encontra hoje a torcida do Flamengo, em plena final de Libertadores após quase quatro décadas de carestia.

 

Não há como, então, demandar modéstia ou precaução. No país onde grassa o desalento, o Flamengo hoje encarna a desmesura. Dez mil pessoas se acotovelaram ao redor do ônibus do time em direção ao aeroporto do Galeão nesta quarta-feira. Era, aos olhos de um desavisado, a comemoração do título que sequer aconteceu. A grande equipe de Jorge Jesus arregaçou às últimas consequências essa imprecavida convicção de si que a torcida do Flamengo nunca abandonou. Agora mais do que nunca estão deixando o Mengão chegar. No Brasil de Nelson Rodrigues, já é preciso humildade demais na vida para deixar que o futebol, onde somos príncipes, seja acinzentado pelo comedimento. Não há nenhum ouvido disposto a ouvir a pregação das dificuldades, os méritos do adversário, o evangelho do nada-ganho. Até porque, “Com uma humildade assim abjeta,” já disse o mestre, “ninguém consegue nem atravessar a rua, sob pena de ser atropelado por uma carrocinha de Chicabon”.

 

 

Pedro Borba é Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e professor na Universidade Estadual de Londrina, além de um amante inveterado do futebol. 

contato: pedro.santos.borba@gmail.com

 

 

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

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