REVOLTA CHILENA: POR LA RAZÓN O LA FUERZA

5 Nov 2019

Foto: Susana Hidalgo

 

 

Inúmeras análises tentam dar conta das causas que levaram mais de 1 milhão de pessoas às ruas de Santiago, no Chile, no dia 25 de outubro, com registros de atos massivos em todo o país e que já duram mais de duas semanas. O que começou como uma reação ao aumento de 30 pesos na tarifa do metrô, e se desenvolveu para pedidos de renúncia do presidente e por uma nova constituição, evidencia que – como já sabemos – não é só pelos 30 pesos. Aqui tentarei mostrar que o modelo econômico tido como exemplo até por nosso ministro Paulo Guedes, se sustenta graças à precariedade e repressão de sua população. Os índices financeiros positivos mascaram uma população em profundo mal-estar. Aqui, o mal-estar se refere a um termo genérico para descrever um estado subjetivo de sofrimento, independentemente de sua duração.

 

Implementação do modelo

 

Para compreender o que acontece no Chile de hoje, é fundamental entender como esse modelo foi implementado. O povo chileno elegeu Salvador Allende para começar uma transição pacífica ao socialismo, porém, após introduzir medidas socialistas, como a reforma agrária e a nacionalização do cobre, os interesses das classes dominante e de empresas internacionais se viram ameaçados. Isso levou a um conflito dentro do país que, com financiamento internacional por parte dos Estados Unidos, resultou no golpe de Estado militar que chegou a bombardear o palácio presidencial La Moneda, em 1973. O general Pinochet se auto proclama presidente e põe em marcha o plano de governo liderado pelos Chicago Boys, um grupo de jovens economistas chilenos que implementam o projeto piloto liberal de Milton Friedman.

 

Enquanto o governo militar estrangulava sindicatos, organizações populares e qualquer tipo de resistência, se vendeu o país quase que completamente a empresas privadas. É importante destacar que o plano neoliberal foi derrotado nas urnas e só pôde ser implementado através da força bruta, fazendo jus ao lema nacional chileno: Por la razón o la fuerza. A estimativa é que em 15 anos de ditadura houve ao menos 40 mil vítimas entre torturados, mortos, presos e desaparecidos. [1]

 

Cenário atual

 

Com as privatizações, empresas privadas triunfaram e o país prosperou economicamente sobre os cadáveres e o medo de seus opositores. Como resultado, comparado à sua região, o país possui os melhores índices de crescimento, o maior PIB per capta, tirando as ilhas Malvinas, [2] entre outros indicadores que se podem encontrar em qualquer análise econômica. No entanto, o que os índices não dão conta de explicar é o mal-estar experimentado pelas pessoas que sustentam esse modelo – não as empresas, as pessoas.

 

O Chile possui altas taxas de depressão, consumo de álcool, [3] ansiedade e suicídio, [4] com maior incidência na terceira idade. [5] Com tantos serviços básicos privatizados – saúde, remédios, aposentadoria, transporte - e com salários baixos [6], a pressão de viver sob um Estado mínimo empurra a uma constante sensação de pressão pois nada é garantido. As mulheres são mais vulneráveis, pois estão na informalidade em maior proporção, recebem salários menores, menor aposentadoria, tem seu direito ao aborto limitado [7], e difícil acesso à pílula do dia seguinte, que depende de receita médica para a compra - o que também mostra que o Chile é liberal na economia, mas conservador nos costumes. Até mesmo o consumo de álcool é proibido em vias públicas.

 

O plano econômico neoliberal fez com que em apenas 20 anos os chilenos perdessem a educação pública, a saúde pública, a aposentadoria, o cobre. Venderam parques nacionais, entregaram direito de pesca a empresas grandes em detrimento de pequenos pescadores. Contaminaram tudo, e até a água passou a ser roubada para abastecer empresas privadas, gerando secas horríveis. Glaciares históricos derretendo porque mineradoras geram detritos que contaminam o ar. Eles não tem direitos trabalhistas, não tem 13º salário. Lá não tem UPA, os remédios não tem quebra de patente. Lá os idosos estão se suicidando em casal porque não tem dinheiro para viver. Eu morei no Chile por quase 10 anos e era comum ver idosos nas ruas vendendo band-aid para conseguir moedas.

 

A presidenta Bachelet, de esquerda, chegou a realizar uma série de reformas respondendo a protestos massivos que já aconteciam durante seus governos, como a gratuidade na educação superior. Assim, sem perturbar demais o sistema - o que foi duramente criticado pela esquerda - proporcionou algumas garantias sociais. Porém, as mudanças não foram suficientes para dar conta do mal-estar chileno.

 

Democracia em destaque

 

Entre todos os fatores que já apontavam para uma explosão que estava prestes a acontecer, o baixo comparecimento às urnas nas últimas eleições chama a atenção, ao mesmo tempo que passou batido nas atuais análises da revolta. Piñera, atual presidente chileno, não foi eleito pela maioria. Considerando que somente 49,02% do país compareceu às urnas, Piñera recebeu apenas 26,5% dos votos no país. Além disso, gráficos da distribuição de votos na capital mostram que, enquanto os bairros mais pobres não compareceram às urnas, os bairros mais ricos se mobilizaram para votar em Piñera, um dos homens mais ricos do Chile que viria para defender os interesses da classe dominante após um governo de esquerda. Isso evidencia a falta de base política e de apoio popular da classe trabalhadora. A democracia pouco representa o povo, e a falta de poder político do cidadão chileno transformou o que foi apatia e desvinculação política em ódio e desprezo pela ordem social. Ordem social que os adoece e ignora. 

 

Em poucos dias de conflitos se registraram saqueios a lojas, incêndios de ônibus, no metrô e até na escadaria do prédio da ENEL. [8] Em vez de simplesmente escutar as demandas das pessoas que supostamente representa, o presidente declara estar em guerra, [9] e lança o exército às ruas com toque de recolher pela primeira vez em uma democracia. Esta atitude resultou em mortos, presos, com diversas denúncias de estupros e até crucificação.

 

Se o conflito é o sintoma de um mal-estar social, cabe perguntar se ele aparece após o adoecimento crônico. O Brasil está perdendo suas garantias, e as mazelas sociais já aumentam. Bolsonaro confia nos planos de Paulo Guedes, outro Chicago Boy e admirador declarado do modelo chileno. Porém, há de se lembrar que o modelo chileno foi implementado durante o golpe, e possivelmente somente graças ao golpe, já que a oposição, os movimentos sociais, os sindicatos, basicamente toda a rede que permite a autodefesa, foi completamente eliminada. Isso ocorre porque o modelo não é popular. E como são impopulares, uma vez que tais medidas passam, o povo reage pois não aceita ser estrangulado.

 

No Brasil, o corte de gastos já está condenando brasileiros à morte em nome de um modelo que se mostra excelente a nível macro, através dos tais índices, porém que gera miséria e mal-estar social para os trabalhadores. Dado que o modelo neoliberal só é implementado através de fraudes, golpes, repressão e manipulação, a tendência é de revolta popular. 

 

Situação revolucionária?

 

Talvez seja muito cedo para cantar vitória no Chile. Após o anúncio da visita da comissão de direitos humanos da ONU, Piñera mudou de estratégia, suspendendo o toque de recolher, retirando o exército das ruas, propondo mudanças em ministérios e subsídios para reduzir o preço de alguns dos serviços essenciais. Tais medidas visam acalmar a população ao gerar uma sensação de volta à normalidade e de que suas reclamações foram escutadas, sem que seja necessário realizar mudanças reais na estrutura que sustenta o modelo econômico vigente. Se sua nova estratégia triunfa, no entanto, pode haver uma polarização como no Brasil em 2013, onde diversas informações são manipuladas e os que pedem mudanças mais profundas são pintados como vândalos pela classe dominante, levando os setores mais conservadores da população a uma postura mais reacionária. Atualmente foi veiculada a notícia de que cubanos e venezuelanos teriam sido os culpados pelos incêndios às estações de metrô, dando gás às insinuações do presidente de que se estaria em guerra contra um inimigo poderoso, o que já foi desmentido pelo Ministério Público. [10]

 

 

 

Ainda que o movimento esteja sendo disputado por diversas forças políticas, a tendência é à esquerda. Assembleias populares estão sendo organizadas em diversos setores da população e dados como nível de pobreza e segregação são discutidos horizontalmente, levando a um novo nível de conscientização do problema que enfrentam e do caminho que tem pela frente.

 

A bandeira do povo Mapuche, indígenas do sul que nunca foram derrotados e inimigos de longa data da direita, está presente nos protestos de forma massiva e diversas críticas ao modelo existente no país são vistas nas marchas. Além disso, a população tem rejeitado todas as propostas apresentadas por Piñera após o início dos protestos, exigindo mudanças mais profundas. A tarefa da esquerda parece ser agora a de conseguir desfazer para eles, e para o mundo, a ideia de que há de se tolerar o sofrimento imposto pelo neoliberalismo e disseminar a ambição de que uma vida melhor é possível, por la razón o la fuerza.

 

 

NOTAS

 

[1] https://elpais.com/diario/2011/08/20/internacional/1313791208_850215.html

 

[2] https://www.indexmundi.com/map/?v=67&r=sa&l=pt

 

[3] http://www.senda.gob.cl/wpcontent/uploads/media/estudios/otrosSENDA/2016_Consumo_Alcohol_Chile.pdf

 

[4] https://www.biobiochile.cl/noticias/vida-

actual/cuerpo-y-mentesanos/2019/10/04/alarmantes-cifras-de-salud-mental-en-chile-un-millon-de-personas-sufre-ansiedad-y-850-mil-depresion.shtml

 

[5] https://radio.uchile.cl/2018/08/30/por-que-los-adultos-mayores-presentan-la-tasa-mas-alta-de-suicidios/

 

[6] Segundo a pesquisa da Casen (2017), a média de salário por lar chileno é de 776.999 pesos, o equivalente a 2,5 salários mínimos do país, 30% dos lares chilenos recebe pouco mais que um salário mínimo e 70% recebe menos que a média do país.

 

[7] O aborto só foi legalizado em 2017 por Bachelet em caso de estupro, e risco de vida da mãe ou do bebê, porém concedendo a objeção de consciência à equipe médica.

 

 

 

Michelle Bernardino é psicóloga, especialista em Filosofia e Educação pela Universidad de Chile e doutoranda em Psicologia na PUC-Chile

contato: michelle.bernardino@gmail.com> 

 

 

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

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