WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS: UMA VIDA INTELECTUAL DEDICADA À POLÍTICA BRASILEIRA

30 Oct 2019

 Fonte: Projeto de Memória, www.50anos.iesp.uerj.br 

 

Nesta última sexta-feira, dia 25 de outubro de 2019, a comunidade dos cientistas sociais foi surpreendida por uma triste notícia. Faleceu aos 84 anos de idade Wanderley Guilherme dos Santos. A tristeza e comoção gerada não é de se surpreender, afinal o cientista político foi um dos responsáveis pela consolidação institucional de sua disciplina no Brasil. O ex-professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e do atual Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) formou várias gerações de sociólogos e cientistas políticos que aprenderam com ele a paixão em entender a sociedade e a política.

 

Segundo narrado pelo próprio Wanderley em entrevista ao projeto de memória oral do Iesp-Uerj [1], ele decidiu cursa Filosofia por estar interessado, na verdade, em Psicologia. No entanto, os debates que ele esperava encontrar naquela disciplina seguiram outro rumo, sendo apreendidos no curso de sua própria experiência. Seu contato com a política começou mais com a prática do que com as discussões teóricas – que igualmente o apaixonavam. Participante ativo do movimento estudantil no bloco da esquerda nacionalista, o militante e intelectual entrou após formado nos quadros do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), entidade dedicada a dar insumo teórico para os debates sobre o desenvolvimento nacional.

 

Nos anos 1960, Wanderley Guilherme dos Santos se destacou na instituição como defensor das reformas de base de João Goulart e das pautas trabalhistas. Desta primeira fase de sua produção saíram textos ainda ricos para o entendimento da política brasileira, tais como Introdução aos Estudos das Contradições Sociais no Brasil, Reforma e Contrarreforma e o clássico Quem dará o golpe no Brasil?. Publicado em 1962, este livro ficou célebre por “adivinhar” que ocorreria uma ruptura democrática no país dentro de pouco tempo. No entanto, a riqueza da obra está mais em sua fina e cuidadosa análise da conjuntura nacional e mapeamento de seus atores do que em lançar uma hipótese que já circulava nos círculos de esquerda naquele período.

 

Infelizmente, nosso homenageado acertou em sua previsão e o processo democrático brasileiro foi interrompido em abril de 1964. Um dos primeiros atos do novo governo foi fechar o ISEB, instituição considerada subversiva. Passado algum tempo, os remanescentes do instituto decidiram refunda-lo, agora com o nome de Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Contudo, não caberia mais organizar o instituto nos moldes livres nos quais o ISEB funcionava. Em 1969, o IUPERJ inauguraria sua pós-graduação em Ciência Política, dando início a uma fase renovada de produção intelectual e científica no Brasil. A partir daí, estabeleceu-se um convenio com a Fundação Ford, que fez com que Wanderley Guilherme dos Santos viajasse para os Estados Unidos para doutorar-se em Ciência Política na Universidade de Stanford. Esta viagem serve como uma espécie de divisor de águas em sua trajetória acadêmica. Se, como o próprio admite em entrevistas e depoimentos, seus escritos anteriores eram um misto da vontade de intervir na política nacional com sua paixão pela compreensão e teorização sobre ela, agora é acrescida nesta equação (e aqui a escolha da palavra é proposital) o conhecimento sistemático dos métodos mais sofisticados e da teoria norte-americana. No retorno de Wanderley ao país, o IUPERJ é igualmente impactado pois, com o impulso conjunto a outros acadêmicos que tiveram contato com a organização universitária dos EUA, o acadêmico reforma a pós-graduação do instituto, insere novas discussões, cursos e bibliografia.

 

Somado este novo insumo teórico-metodológico aprendido na Califórnia, Wanderley Guilherme dos Santos publicou a obra que resultou de sua pesquisa de doutorado. Em 1964: Anatomia da Crise o cientista político constrói um aparato teórico-metodológico baseado em cruzamento de bibliografia e análises de votação nominal no congresso. Como resultado, o analista nos forneceu a tese de que a radicalização política foi uma variável fundamental para a ruptura institucional. Dada a incapacidade da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) formarem coalizões para obter maioria nas votações, criou-se um cenário de paralisia decisória. Ambos os partidos vetavam mutuamente as propostas do adversário e, sem a possibilidade de saídas institucionais, um dos blocos optou pelo golpe.

 

Para além da fina análise de seu objeto, a obra tem grande contribuição metodológica ao inserir no debate a importância das instituições e da política como algo a ser analisado por si mesmo. Esta inovação representava um discordância com as análises então correntes que viam esta esfera como mero reflexo de conflitos inseridos nas dinâmicas produtivas. Como o próprio autor afirma: “A política não é um balé metafórico do que ocorre na economia”[2]. Wanderley Guilherme dos Santos sempre acreditou na política como capacidade dos atores de intervir em sua realidade e modificar cenários que parecem dados. Segundo o intelectual, política era sobre ação e mudança.

 

Na trajetória de Wanderley, a preocupação de intervir no debate público, marcante desde os anos de estudo na Faculdade de Filosofia e no trabalho no ISEB, nunca se perdeu. O cientista político se dedicou aos mais diversos temas da política nacional, todos eles urgentes. Em Cidadania e Justiça Wanderley propôs-se a compreender como se dava a participação dos indivíduos na comunidade política dentro de nosso país. Como conclusão cunhou o conceito de “cidadania regulada”, segundo o qual a legitimação dos indivíduos enquanto cidadãos se daria historicamente no Brasil pelo lugar que eles ocupariam nas relações de trabalho.

 

Para além dos estudos institucionais, o pesquisador preocupou-se com uma vasta gama de objetos, nunca se prendendo por restrições de métodos ou de aportes teóricos. Prova disso é que Wanderley Guilherme dos Santos deu contribuição ímpar aos estudos de Pensamento Político Brasileiro. Os textos que datam entre 1965 e 1978 foram organizados por Christian Edward Cyril Lynch e publicados com o título A imaginação política brasileira em 2017. Wanderley Guilherme dos Santos foi um dos primeiros a conferir a nossa produção cultural autóctone dignidade intelectual e equipará-la ao que é feito em outro lugares do mundo. Para além disso, estes estudos permitiram lançar toda uma agenda de pesquisas sobre o estudo das ideologias, da produção de textos e de ideias e do imaginário político nacional.

 

Seguindo as orientações de Wanderley Guilherme dos Santos, podemos perceber quais são as tônicas de nosso pensamento que se mantiveram em uma longa duração histórica. Podemos também perceber quais são as características de nossos socialismos, liberalismos e conservadorismos que informam os atores que estão em todas as esferas de decisão. Conceito cada vez mais vivo que saiu das conclusões do cientista político é o “autoritarismo instrumental”. Característica que teria sido herdada do despotismo esclarecido português e passado por diversas formas históricas, esta tradição de nosso pensamento político se daria pela suposição de que a modernização em território nacional só poderia ser feita pela flexibilização – mesmo que provisória – das regras vigentes.

 

Em toda a sua vastíssima produção, o cientista político foi um pesquisador rigoroso e um angustiado em entender a política nacional em toda sua complexidade. Embora com diferentes objetos e metodologias, o conjunto destas pesquisas tem uma preocupação em comum que o marca em sua completude: a democracia. É isso que permite agrupar suas análises do golpe de 1964, do funcionamento dos partidos, das eleições, das políticas públicas e do pensamento político brasileiro. Wanderley Guilherme dos Santos encarou os mais diversos objetos sempre orientado por este mesmo problema que o movia: entender o que é a democracia, como ela funciona e como aperfeiçoá-la para não a perder. Sempre muito atualizado, seus últimos livros demonstram que a tônica permaneceu até o fim da vida: o autor publicou em 2017 A democracia impedida, que trata do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e estava com livro concluído sobre a eleição de Jair Bolsonaro.

 

Mais do que uma número grande de textos sofisticados, o que nos fica de Wanderley Guilherme dos Santos é seu exemplo como intelectual. Sem se pretender a metodologias dadas previamente e sempre atualizado com o que havia de mais novo, o cientista político se guiava por problemas de pesquisa aos quais ele corria atrás das ferramentas necessárias para criar uma resposta original. Em entrevista concedida ao projeto de Memória oral do Iesp-Uerj ele deixou um último alerta aos seus pares: “É isso que não me satisfaz na Ciência Política brasileira contemporânea, é... Falta de atrevimento. Porque não é que nos falte inteligência não, que nos falte gabarito intelectual. Falta atrevimento”[3].

 

 

NOTAS

 

[1] [3] Caminhos - Programa de Memória Oral da Pós-Graduação do IESP-UERJ. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RX9Co_xOcX8&t=2s

 

[2] SANTOS, Wanderley Guilherme dos. (1964). Anatomia da crise. São Paulo: Vértice, 1986, p.21.

 

 

 

Helio Cannone é Doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload