PIONEIROS DA SOCIOLOGIA: CARLOS HASENBALG, RIGOR CIENTÍFICO E RELEVÂNCIA POLÍTICA

24 Sep 2019

 

 

 

Há décadas, a Sociologia brasileira é atravessada por um debate sobre as relações entre a pesquisa acadêmica e o engajamento militante, entre a ciência e a política. De um lado, se colocam aqueles que defendem uma nítida separação das duas esferas, reservando à ciência a busca de conhecimento de modo distante das questões políticas fundamentais de uma dada conjuntura. Do outro, aqueles que advogam uma postura crítica, na qual compromisso político e pesquisa acadêmica são partes indissociáveis de uma mesma prática. Tal oposição, contudo, está longe de traduzir a contento a complexa associação dessas dimensões da vida social, o que fica particularmente evidente na obra de Carlos Hasenbalg, um dos sociólogos mais cientificamente rigorosos e politicamente relevantes do país.

 

Nascido na Argentina, Carlos Hasenbalg (1942-2014) se formou em Ciências Sociais na Universidad de Buenos Aires em 1965. Exilado político primeiramente no Chile, ele fez parte de uma das primeiras gerações a cursar pós-graduação na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO), então dirigida por seu futuro colega de trabalho, o sociólogo brasileiro Glaucio Ary Dillon Soares. Em 1968, Hasenbalg foi convidado a compor no Brasil o quadro de professores que viria a fundar a Pós-graduação em Sociologia do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), atual Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Entre 1970 e 1978, ele dividiu suas tarefas de pesquisa e docência no Iuperj com seu doutorado na Universidade da California, em Berkeley. Sob a orientação de Robert Blauner, Hasenbalg redigiu e defendeu uma de suas obras mais relevantes, Race Relations in Post-Abolition Brazil: The Smooth Preservation of Racial Inequalities, publicada em português no ano seguinte sob o título Discriminação e desigualdades raciais no Brasil (1979, Graal, reeditada em 2005 pela EdUFMG/Iuperj).

 

Em seus mais de quarenta anos no Iuperj, Hasenbalg publicou alguns livros e dezenas de artigos científicos sobre os mecanismos de reprodução das desigualdades raciais no Brasil, a maioria deles em coautoria com seu amigo e colega de departamento, Nelson do Valle Silva. Ambos foram impulsionadores do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, núcleo de referência para pesquisadoras e pesquisadores da questão racial no Brasil e no mundo, que formou toda uma geração de especialistas no tema. Dirigido por Hasenbalg entre 1986-1996, o Afro, como era conhecido, editou a revista Estudos Afro-Asiáticos, periódico acadêmico de referência nacional e internacional durante o período de sua existência. Dentre as obras de Hasenbalg, podemos citar Lugar de Negro (1982, Marco Zero Limitada, em parceria com Lélia Gonzales), Origens e Destinos (2003, Ed. Topboks, em parceria com Nelson do Valle Silva) e Cor e Estratificação Social (1999, Ed. Contracapa, em parceria com Nelson do Valle Silva e Marcia Lima).

 

A principal contribuição de Hasenbalg para a Sociologia brasileira está na utilização de técnicas e dados estatísticos robustos para mensurar as desigualdades de oportunidades entre brancos e negros no Brasil e, assim, dimensionar os efeitos do racismo na estrutura de classes no país. Suas conclusões e análises colocavam em xeque sociólogos influentes à época, tanto aqueles que negavam a existência de racismo entre os brasileiros, sobretudo os seguidores da obra de Gilberto Freyre, quanto a perspectiva teórica originada na obra de Florestan Fernandes, que reconhecia a existência de preconceito racial, mas considerava-o uma reminiscência atrasada e pré-moderna a ser naturalmente superada pela modernização nacional. O trabalho de Hasenbalg não só colheu evidências substantivas da existência do racismo no Brasil, mas também de suas consequências duradouras mesmo depois de nossa industrialização. O racismo seria, assim, operante na modernidade e fundamental na estruturação de nossas desigualdades sociais.

 

A partir de dados demográficos, Hasenbalg comparou pioneiramente as chances de ascensão e decadência socioeconômica de brancos, pretos e pardos, chegando a importantes conclusões. Primeiro, ao comparar as chances de ascensão social de dois indivíduos com condições de classe similares, ele percebeu que os autodeclarados “brancos” têm cerca de duas vezes mais chances de ascender socialmente do que os autodeclarados “pretos” ou “pardos”. Esse dado foi importante para mostrar que as desigualdades sociais entre esses grupos não se deviam somente à classe de origem e não eram uma sobrevivência do passado. Ou seja, a raça/cor dos indivíduos é um elemento fundamental na distribuição de oportunidades no mercado de trabalho do Brasil urbano e industrial independentemente de suas classes de origem. Esse dado é até hoje considerado evidência da discriminação racial brasileira. Segundo, Hasenbalg notou que os indicadores demográficos de “pretos” e “pardos” eram bastantes similares entre si. Essa conclusão foi fundamental para que o movimento negro, então em rearticulação, não apenas contasse com evidências empíricas da existência e difusão do racismo no Brasil, mas também pudesse se colocar como um movimento de maioria, representante de pretos e pardos, parte expressiva da população nacional (HASENBALG, 1977, 1979, 1988).

 

A matriz  apresentada abaixo ilustra o argumento, a partir da comparação das chances de mobilidade social entre brancos e não brancos (pretos e pardos) com base em três estratos (classe baixa, média e alta). Como é possível notar, brancos têm mais chance de ascender e permanecer em classes altas do que não brancos[1].

 

 

 

 

Este modelo de análise das nossas desigualdades raciais passou por inúmeras reavaliações e reparos por nomes como Sergei Soares, Ricardo Henriques, Carlos Costa Ribeiro, Rafael Osório etc. Mas suas conclusões básicas ainda não foram substantivamente desafiadas. Tais conclusões, ademais, subsidiaram a proposição e a consequente adoção de políticas focais como as ações afirmativas raciais. Para além de nossas profundas desigualdades de classe, existem desigualdades estritamente baseadas na raça/cor dos indivíduos e, portanto, não seria eficiente reduzi-las com políticas baseadas estritamente na classe.

 

Sendo assim, a obra de Carlos Hasenbalg não só contribuiu para denúncia do racismo no Brasil e a reorganização do movimento negro no fim dos anos 1970, como também para subsidiar, com análises científicas rigorosas, vários debates públicos e políticas estatais. Trata-se, portanto, de uma reflexão que não aparta qualidade metodológica e relevância política, dados demográficos e interlocução com os movimentos sociais. Essas duas dimensões do fazer sociológico eram, para ele, bases intelectuais indissociáveis do fazer acadêmico. É com rigor científico que se contribui para a explicação de nossas injustiças sociais e, em decorrência, para a busca de soluções eficazes que melhorem as relações na sociedade.


 

 

NOTAS

 

[1] Fonte: Relatório das Desigualdades Raciais e de Gênero do GEMAA (http://gemaa.iesp.uerj.br/wp-content/uploads/2017/08/Relato%CC%81rio_Corrigido-2.0.pdf).

 

 

REFERÊNCIAS

 

HASENBALG, Carlos. (1977), "Desigualdades Raciais no Brasil". DADOS – Revista de Ciências Sociais, n. 14.

 

HASENBALG, Carlos Alfredo. (1979), Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal.

 

HASENBALG, Carlos Alfredo. SILVA, Nelson Do Valle. (1988),  Estrutura social, mobilidade e raça. Rio de Janeiro; São Paulo: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro; Vértice, 200 p.

 

 

 

Luiz Augusto Campos é Professor de Sociologia e Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), onde edita a revista DADOS e coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório das Ciências Sociais (OCS).

 

 

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Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

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