O ESTILO BOLSONARO DE GOVERNAR E A POLÍTICA EXTERNA

 

 

 

Introdução 

 

As últimas eleições no Brasil foram marcadas por forte polarização e pelo uso massivo das redes sociais em detrimento da mídia tradicional como mediadoras de discurso. Nas manifestações de rua dos anos anteriores e no debate eleitoral posterior predominou um sentimento de que o país estava inserido em um contexto global de descrença das instituições e da representação política feita pelos partidos tradicionais (GOHN, 2014). Nessa crise da promessa liberal de crescimento e acesso a benefícios, despontou como alternativa um discurso anti-corrupção, que associava o partido no poder a governos comunistas e ao descumprimento da lei. O resultado foi a eleição de Jair Bolsonaro (Partido Social Liberal, PSL), por um partido não tradicional e até então pouco expressivo. Bolsonaro é um ex-militar reformado, que, apesar de se colocar como um candidato anti-establishment, havia sido deputado federal por mais de duas décadas.

 

Junto ao chefe do Executivo, a crença nessa alternativa foi legitimada também no Congresso Nacional, com a eleição de candidatos com pautas conservadoras para ambas as casas legislativas. Por essa confluência de posições, analistas consideraram que estava em evidência no Brasil uma nova forma de fazer política, que pregava a completa ruptura com os governos anteriores. Foi comum o uso do termo “bolsonarismo” para referir-se a esse conjunto de ideias e práticas:

 

Nesse sentido, o bolsonarismo é aqui entendido como um fenômeno político que transcende a própria figura de Jair Bolsonaro, e que se caracteriza por uma visão de mundo ultraconservadora, que prega o retorno aos ‘valores tradicionais’ e assume uma retórica nacionalista e ‘patriótica’ sendo considerada profundamente crítica a tudo aquilo que esteja minimamente identificado com a esquerda e o progressismo. (FREIXO; PINHEIRO-MACHADO, 2019, p.19)

 

 

Nesse artigo, entretanto, propomos que chamar o momento político no Brasil de “bolsonarismo" é contribuir para a figura do "mito"e dar protagonismo a um personagem que não é nem o formulador central das ideias, nem as aplica de forma sistemática e racionalmente ordenada. Consideramos, portanto, que a eleição de Bolsonaro se inclui no avanço do conservadorismo, capitaneado pela ascensão mundial das narrativas da direita. De acordo com Fernandes (2016), a lenta recuperação da crise econômica, iniciada em 2008, gerou uma narrativa de esgotamento do modelo liberal em curso e de demandas por rearranjos no sistema internacional, em que os Estados faziam uso de discursos centralizadores para buscar a retomada do poder e do prestígio. Esse movimento, portanto, não foi exclusivo do Brasil nem capitaneado unicamente por Bolsonaro.

 

Para Bobbio (1994), os ideais desse espectro político de direita relacionam-se com o individualismo, a defesa da meritocracia, o rechaço da diversidade e das fugas de “padrões”, o militarismo e a defesa da segurança nacional, o patriotismo, o crescimento econômico, o anticomunismo e a identificação das classes altas com os ideais de sucesso e heroísmo. Nessa linha, em pesquisa feita com o conteúdo das postagens de grandes nomes dessa “nova”direita no Brasil, Messenberg (2019) identifica esses elementos em nomes centrais desse grupo, como Jair Bolsonaro e seu guru Olavo de Carvalho: repetem-se, à exaustão, termos relativos aos campos semânticos do anti-comunismo e do anti-petismo, como bolivarianismo e corrupção; valores de conservadorismo moral, como família tradicional e fé cristã; e princípios neoliberais, como empreendedorismo e meritocracia.

 

O objetivo desse artigo, portanto, é analisar como o estilo de governo adotado por Bolsonaro, nos marcos do conservadorismo, influencia na formulação e na implementação da política externa brasileira (PEB). Por ser um tema altamente centrado no Poder Executivo, em que a necessidade de composição de forças com o Congresso é matizada, propomos que Bolsonaro utiliza a PEB como um espaço de políticas declaratórias que buscam a fidelização de uma parcela mais radical do eleitorado. Argumentamos, no entanto, que tais medidas podem gerar atritos potenciais com uma das bases de sustentação do governo: os militares. Apontamos, ainda, as limitações dessa postura e os riscos envolvidos com a reformulação não só de princípios históricos da ação externa do país, mas também da estrutura do Ministério das Relações Exteriores.

 

 

Do “influenciador digital” ao Presidente: o Estilo Bolsonaro de Governar

 

Da mesma forma que os autores vêm utilizando o termo bolsonarismo, a literatura de análise de política externa busca empregar termos e conceitos para interpretar a ação do país nessa área. Dessa forma, é procedimento corriqueiro entre os analistas da política externa brasileira (PEB) nomeá-la a partir do principal enquadramento que o autor faz da mesma. Alinhamento automático, americanismo pragmático, americanismo ideológico, autonomia pela distância, autonomia pela participação e autonomia pela diversificação são exemplos de representações utilizadas largamente para caracterizar a política externa de algum período histórico ou de um governo específico. Os autores, geralmente, partem do relacionamento que o Brasil possui com os Estados Unidos para mensurar, a partir deste ponto, a capacidade de ação autônoma ou o nível de alinhamento que o país possui. Não está sendo diferente agora nas primeiras análises sobre a política externa do governo Bolsonaro.

 

Nessa linha, Medeiros, Villas-Boas e Andrade (2019), por exemplo, classificam a postura do governo como “americanismo ideológico”, em contraposição ao americanismo pragmático, que teria marcado governos anteriores, desde Ernesto Geisel (1974-1979). Nestes, a aproximação com os EUA teria sido feita de forma a garantir relações saudáveis com a grande potência, mas sem abrir mão de interesses vitais do país em trocas desiguais. O americanismo ideológico, por sua vez, abriria espaço para concessões de benefícios sem contrapartida e alinhamento incondicional. Exemplos históricos dessa modalidade de relação teriam sido os governos de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) e do general CasteloBranco (1964-1967). Em ambos, a PEB seguia o lema de que “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, nas palavras o ex-chanceler Juraci Magalhães.

 

Aceitando-se como válido este recurso analítico para marcar as diferenças entre as principais concepções da política externa e seus distintos matizes, que têm informado a política externa desde o pós-Segunda Guerra, cabem algumas observações dos limites deste enfoque de análise. Antes disso, porém, é necessária uma observação introdutória sobre as duas orientações acima referidas, notadamente o americanismo e a autonomia. Tal caracterização é de uso corrente nas teorias realista e neorrealista, com base na distinção entre uma política de equilíbrio (balance) e uma política de alinhamento (bandwagoning). Os diversos matizes utilizados podem ser vistos como pontos distintos em um mesmo contínuo, da posição mais alinhada à menos. O problema com esta distinção binária é que ela parte da premissa de variações apenas de grau nas orientações da política externa em uma mesma dimensão, simplificando um processo com uma topografia de agentes, interações e dinâmicas mais complexas, impossibilitando a percepção das descontinuidades, variações de sentido, e flutuações nas próprias orientações da política, como se toda a política externa se resumisse ao eixo alinhamento/não alinhamento (A/NA). Mesmo levando-se em conta que se trata da política externa de um país periférico, em que este eixo tende a ser dominante, é fundamental introduzir mais pluralidade e diversidade na análise. Ademais, o eixo A/NA opera, de forma limitante, apenas na dimensão internacional, excluindo outros vetores derivados da política doméstica. Finalmente, o vício classificatório tende a ossificar o entendimento da política externa e, praticamente, naturalizar o entendimento de um determinado período ou governo, no que diz respeito às suas orientações internacionais.

 

Portanto, partir da constatação que estamos diante de uma “novidade” com o americanismo ideológico, em curso na política externa de Bolsonaro, não acrescenta muito à análise. Na verdade, desde a Segunda Guerra, o “partido americano” entre as elites brasileiras sempre foi forte, manifestando-se em alguns momentos como mais ideológico e incondicional: conforme mencionado acima, o tema ganhou força no governo Dutra, reapareceu logo após o golpe civil-militar, em 1964, sendo atenuado a partir do governo Geisel, nos anos de 1970, e retornando com força no interregno Collor, nos anos de 1990, no auge da implementação das políticas de ajustamento e desregulamentação neoliberais pelos governos latino-americanos.

 

Nesse sentido, Hirst (2006) aponta que os Estados Unidos são uma presença constante nas orientações da PEB, com variações que podem se aproximar a cinco tendências: aliança, alinhamento, autonomia, ajustamento e afirmação. A autora argumenta que, durante o século XX, “este relacionamento, que atravessou diferentes fases no decorrer do século XX, oscilando entre bons e maus momentos, jamais cruzou a fronteira que pudesse conduzir a uma confrontação aberta de parte a parte” (HIRST, 2006, p. 92). Dessa forma, a aproximação com os Estados Unidos não é sem precedentes e nem a única forma de seguir uma PEB “ideologizada”. Se considerarmos a política externa como uma área de ação governamental vinculada às políticas públicas, toda PEB é ideologizada, no sentido de acompanhar as linhas mestras do programa partidário no poder.

 

Portanto, a novidade do atual governo não é a ideologia e nem o alinhamento com os EUA, mas os métodos utilizados para expor as intenções. Para se entender o que tem sido a política externa de Bolsonaro, na gestão de Ernesto Araújo, é preciso abandonar as explicações e paradigmas clássicos de análise da PEB, calcados na estrutura binária acima mencionada, e partir do entendimento da lógica de funcionamento político do governo atual. Em artigo recente publicado na Revista Piauí, Marcos Nobre (2019) fornece uma chave de leitura do governo que nos permite inserir a política externa na lógica de seu funcionamento e apontar sua funcionalidade para os objetivos do atual presidente. Para Nobre, o governo opera com base na premissa da destruição e da criação do caos como estratégia de governo, a fim de manter coesa sua base eleitoral.

 

Para o autor esta base é heterogênea, em que se confluem as figuras do lava-jatismo, do anti-petismo e do antissistema, mas “se caracteriza por representar a canalização de frustrações de segmentos que se acham não apenas excluídos do processo político e de seus benefícios, mas se consideram perdedores” (NOBRE, 2019, p. 30). Ainda que não seja maioria, esta base, segundo o autor, “é grande o suficiente para sustentar um governo. Algo em torno de 30% e 40% do eleitorado”. Garantir a fidelidade deste núcleo duro do bolsonarismo “é fundamental para manter o poder” (p.32). Dessa forma, a manutenção desse ponto de apoio depende do reforço de posturas e discursos que questionam a institucionalidade e as formas tradicionais de representação política.

 

Nobre (2019) argumenta que Bolsonaro utilizou a experiência de Donald Trump como modelo, mas que a aplicação ao Brasil apresentou novas questões que, por serem sem precedentes, dificultam análises e comparações. A mobilização de redes sociais feita nos EUA foi capitaneada pela estratégia de Steve Bannon, ex-assistente de Trump e estrategista-chefe da Casa Branca até meados de 2018, de utilizar dados e algoritmos para disseminar informações direcionadas às pautas conservadoras Entretanto, nos EUA, o Partido Republicano funcionou como um sistema de freios e contrapesos às aspirações radicais de Trump, e as dissonâncias entre presidente e base aliada culminaram no afastamento de Bannon como estrategista do governo.

 

Para o autor, não existe no Brasil atual algo semelhante ao Partido Republicano, que possa contrabalançar o discurso radical de Bolsonaro. Apesar da necessidade de negociar com o Congresso, o que implica em derrotas políticas e revisão de propostas, Bolsonaro não abriu mão da mobilização nas redes sociais, pois seu polo de mobilização radical construído por meio destas é, precisamente, a base de sustentação do governo. Para Nobre, esse mecanismo gerou um êxtase participativo em parcelas da população que não tinham acesso aos ambientes de decisão política. Freire (2019) conceituou essa estratégia como “democracia direta tuitada”.

 

Em linha semelhante, Miguel Lago enfatiza a construção do papel de “influenciador digital” de Bolsonaro ao longo dos últimos quatro anos até a vitória eleitoral (LAGO, 2019, p. 28). A manutenção deste papel e o uso da estratégia do caos para manter ativo e fiel seu eleitorado digital, não são, contudo, funcionais para a gestão pública, tampouco para sua ação como presidente, que implica em iniciativas e implementação de políticas públicas. As declarações via redes sociais, muitas vezes sem confirmação ou negociação com setores fortes no interior do governo, como os militares, geram incertezas e desconfiança sobre a real racionalidade por trás dos anúncios. Como ressalta Lago, por exemplo, a divergência entre os seguidores de Olavo de Carvalho e os militares é “o reflexo da tensão essencial entre o perfil das redes sociais e o presidente” (p.28). Nobre (2019) acrescenta que este estilo de governar, cria uma tensão permanente entre o polo “mobilizador das bases sociais em rede e o organizador, representado pelos militares” (NOBRE, 2019, p. 32). 

 

 

Impactos da “Estratégia do Caos” na Política Externa

 

É nesta tensão entre o perfil digital e a presidência que se insere o papel do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e a política externa do atual governo. As escolhas do MRE e da pasta da Educação, para colonizar os Ministérios com os seguidores fiéis de Olavo de Carvalho, não foram acidentais. Tendo sido o astrólogo-filósofo escolhido por Bolsonaro e seus filhos como a principal fonte doutrinal do governo, a nomeação de Ernesto Araújo para o Itamaraty se encaixa como uma luva neste duplo papel da política externa. Diplomata de carreira de uma das instituições com bastante prestígio no país e no exterior, e inserido profissionalmente em uma tradição e retórica da relativa continuidade da política externa, que remontaria aos tempos do Barão do Rio Branco, o escolhido teve uma carreira diplomática medíocre, sem qualquer destaque entre seus pares, nunca tendo ocupado um posto de embaixador no exterior (FREIXO, 2019).

 

Como discípulo fiel de Olavo de Carvalho, tende a repetir suas ideias à exaustão. Conceitos como “globalismo”, de conteúdo nebuloso, e “marxismo cultural”, que estariam infestando as instituições internacionais e as organizações não governamentais, são comuns em seus discursos e escritos. Por outro lado, professa uma admiração incondicional a Donald Trump, destinado a salvar o Ocidente, em sua perspectiva. Curiosamente, estas são as mesmas ideias difundidas por Steve Bannon, que se auto designou porta-voz do conservadorismo internacional, na sua pregação para criar um movimento global reunindo as principais lideranças de direita e extrema direita no mundo. Aparentemente, foi Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e chanceler informal do governo, que colocou ambos em contato com Bannon. Essa tendência se repete, ainda, na nomeação de Felipe Garcia Martins, também pupilo e admirador de Olavo de Carvalho, para a Assessoria Internacional da Presidência.

 

Com Ernesto Araújo, a política externa amplifica, com tonalidades internacionais, as redes sociais conservadoras e, simultaneamente, as coloca em sintonia com o principal movimento transnacional de articulação ideológica dos governos de direita e ultradireita atuais. Nas primeiras semanas de maio, Ernesto Araújo realizou um périplo de visitas a países europeus, que incluíram a Itália, Hungria e Polônia, todos governado por lideranças de nacionalistas e antissistema de ultradireita. Na Itália, encontrou-se com Matteo Salvini, um dos líderes na campanha contra a imigração irregular. Em Budapeste, com Viktor Orbán que tem ressaltado as semelhanças entre suas ideias e as do governo Bolsonaro, completando seu tour com a visita ao presidente da Polônia, Andrzej Duda, outro dos representantes atuais da ultradireita europeia [1]. 

 

Por outro lado, a partir de algumas das iniciativas oficiais de política externa, como a visita aos EUA, antes mesmo da tradicional viagem inaugural de mandato à Argentina, e as declarações do presidente de apoio explícito à política externa de Trump, inclusive algumas bastante polêmicas, como a promessa da mudança da capital de Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, além de explicitar o repúdio do atual governo ao passado petista e o retorno ao alinhamento incondicional aquele país, Bolsonaro pode exercer o papel de presidente. Neste papel, está respaldado por parte da comunidade diplomática, pelo establishment antipetista, pelo mercado, bem como pelos seguidores domésticos do “partido americano”, inclusive no meio militar. Neste papel, se dirige aos setores do sistema que o apoiam.

 

Cabe uma observação com respeito ao alinhamento incondicional aos EUA, uma vez que não está mais baseado, como no passado, nas velhas doutrinas da Segurança Nacional da Guerra Fria, que informa o partido americano no país. Sua origem são as ideias que circulam no circuito transnacional do radicalismo “olavista”, que informam o pensamento do chanceler formal (Ernesto Araújo) e informal (seu filho, Eduardo Bolsonaro). Exatamente por isso, alguns dos protagonismos destes dois chanceleres podem se chocar com a visão dos militares reformados dentro do governo. Foi o caso do anúncio extemporâneo de que o Brasil cederia uma base aos EUA, algo que não ocorria deste os anos 40, durante a Segunda Guerra, quando a base de Natal foi cedida aos norte-americanos no quid-pro-quo arquitetado por Vargas para garantir o financiamento dos EUA à siderúrgica de Volta Redonda. Logo após ser anunciado, o general Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), considerou o assunto um mal-entendido, e negou que haja plano de instalação da base[2].

 

Também tem provocado fricção nos militares dentro do governo o excessivo protagonismo de Ernesto Araújo na questão da crise venezuelana. O último episódio ocorreu recentemente após consultas frequentes de Araújo ao Secretário de Estado, Mike Pompeo, a propósito da possibilidade de os EUA utilizarem território brasileiro na eventualidade de uma intervenção militar por aquele país. No típico estilo de governar de Bolsonaro, o presidente mencionou a ideia de Trump, mas sem uma negativa contundente a esta eventualidade. Como resultado possível da pressão militar de dentro do governo, o protagonismo de Araújo foi cerceado e o próprio foi afastado da linha de frente da política brasileira face à crise da Venezuela. Acusando o golpe, o chanceler afirmou recentemente que está envidando todo seu esforço para encontrar uma solução diplomática à crise[3].

 

Causou desconforto no meio militar, também, o encontro entre Araújo e Bannon, nos EUA, para discutir a situação da Venezuela. Araújo declara-se um entusiasta da opção intervencionista, postura que não possui respaldo dos militares, setor que, em última instância, seria o responsável pela ação. Após o retorno ao Brasil, Araújo participou de reunião de emergência no Palácio de Planalto, com Bolsonaro e os ministros-gerais Augusto Heleno (GSI) e Fernando Azevedo (Defesa), no mesmo momento em que Juan Guaidó, presidente autoproclamado da Venezuela, conclamava o povo às ruas para retirar Nicolás Maduro do poder[4]. Como resultado da reunião, Bilenky (2019) aponta que Araújo e os militares possuíam informações divergentes e discursos opostos. Bolsonaro manteve o tom olavista e postou nas redes sociais mensagem em que reafirma que a intervenção será uma opção dele. O vice-presidente, Hamilton Mourão, representante da ala militar, por sua vez, foi à público negar a possibilidade de intervenção (BILENKY, 2019).

 

Essa cacofonia também gera impasses a partir da ação de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, como chanceler informal do governo. Deputado Federal e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo recebeu apoio e chancela do pai para representar o país em reuniões e encontros no exterior, em uma superposição de tarefas com Araújo. Por não ser funcionário do MRE, as iniciativas e ações de Eduardo Bolsonaro não estão respaldadas nos princípios da PEB, nem na hierarquia institucional do Ministério. Nesse sentido, Roberto Abdenur (2019), diplomata aposentado e ex-Secretário-Geral do Itamaraty, argumenta que:

 

A movimentação do deputado, que atua como chanceler paralelo, abre uma segunda trilha diplomática em prejuízo daquela que, conduzida pelo Itamaraty, deveria prevalecer no trato oficial com outros governos, inclusive os que não são de direita, e com os quais, diferentemente do que ocorre com a Hungria, tem o Brasil relações de grande densidade e dinamismo. Isso acontece com Alemanha, França, Reino Unido, Espanha, Portugal, entre outros importantes parceiros comerciais e fontes de investimento em nossa economia. A diplomacia paralela de Eduardo Bolsonaro, na ânsia de aproximação com forças da extrema direita, tem efeitos contraproducentes em nosso relacionamento com as grandes democracias europeias (ABDENUR, 2019, n.p.). 

 

Dessa forma, a premissa da destruição, que informa a “estratégia do caos” do estilo de governo de Bolsonaro, também guiou os passos da primeira reforma administrativa do Itamaraty, na gestão do atual Ministro. A reforma institucional[5] do Itamaraty, portanto, ainda está em curso, e insere-se na lógica de privilegiar apoiadores leais com cargos chave. A ideia de provocar uma reforma radical do conteúdo da política externa pregressa começou com a organização interna e implementada por via do desrespeito ao princípio basilar da hierarquia, em uma instituição corporativa cuja coesão depende exatamente da manutenção desta estrutura de gestão. Sendo assim, abriu-se espaço para jovens e ambiciosos diplomatas de carreira, a exemplo do próprio Araújo, alinhados ao pensamento da necessidade de eliminação dos vestígios das políticas externas passadas, vigentes desde a democratização do regime no final dos anos 80[6].

 

Entretanto, o expurgo não se resumiu a diplomatas associados à administração petista. Retirado do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais (IPRI), o Embaixador Paulo Roberto de Almeida era um conhecido crítico dos governos anteriores e um diplomata de reconhecida independência política (FREIXO, 2019). Essa necessidade de ruptura com os símbolos de governos passados também pode ser ilustrada pela reformulação do currículo do Instituto Rio Branco, responsável pela formação de diplomatas, em que foi eliminada a disciplina de História da América Latina. O tom anti-globalista e antissistema baseia essas mudanças, nas quais o objetivo é enfatizar a leitura de obras clássicas e afastar o estudo das políticas “ideológicas” dos últimos anos.

 

Ao romper com a hierarquia, substituindo a elite diplomática por jovens da carreira afinados com suas ideias, o Ministro justifica esta decisão com base em argumentos semelhantes ao de “anacronismo institucional”[7] do MRE, destilando o ressentimento típico de alguém que se vê como excluído da progressão meritocrática, cuja retórica tem sido uma das pedras de toque da legitimação do MRE perante à sociedade[8].

 

 

Conclusão

 

Argumentamos neste artigo que, para o entendimento da política externa do governo Bolsonaro, é necessário levar em conta não apenas sua ideologia, mas também o estilo de governo característico do atual presidente. Nesta moldura, a política externa alimenta as redes bolsonaristas do núcleo duro do apoio social, mas permite também o exercício da função de presidente, que se dirige às forças do sistema que o apoiam. A tensão entre o “influenciador digital” e a função de presidente é, contudo, permanente, e informa grande parte dos conflitos dentro do próprio Executivo. É difícil prever as consequências desta tensão para a estabilidade do governo nos curto e médio prazos, oscilando entre os dois papéis e, consequentemente, avaliar seu impacto nas orientações da política externa. No suposto de que o status quo seja mantido, é reveladora a capacidade da “estratégia do caos” na política externa em desafiar e abandonar alguns dos princípios de conduta que tem pautado a política externa desde a democratização, nos anos 80. Em pouco mais de quatros meses de governo, a lista é extensa: adesão incondicional à política de Trump; alinhamento às posições norte-americanas na América do Sul, com o abandono do tradicional papel de mediador nos conflitos regionais; no Oriente Médio, também deixando para trás o apoio à solução dos dois Estados na Palestina, com a adesão às teses expansionistas sionistas, assim como o engajamento em conflitos sobre os quais não temos qualquer capacidade de influência e que não atendem aos interesses brasileiros, como no caso do Irã. No plano das organizações internacionais, ressalta o enfraquecimento de uma política multilateral ativa, expressa por exemplo, na saída do pacto das migrações, abandono das posições prévias de adesão às medidas de mitigação das mudanças climáticas e adesão à tese da seletividade no caso dos direitos humanos.

 

Caso seja mantido o status quo, a continuidade no cargo do atual Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, depende de que seja mantida a influência de Olavo de Carvalho sobre as ações presidenciais e que as relações entre os dois chanceleres, formal e informal, não se deteriorem. Também pode ocorrer que diante de um agravamento da tensão no interior do Executivo, a política externa e seu Ministro possam ser sacrificados para recompor o equilíbrio dentro do governo. Em qualquer governo, esse tem sido o destino dos Ministros que não tem base de apoio dentro da burocracia do Estado e na sociedade civil e que dependem das boas relações com eminências de estatutos questionáveis. Nesta eventualidade, não quer dizer que a política externa vá se diferenciar muito do que tem sido até agora, apenas que ela terá um novo intérprete da ideologia conservadora professada pelo presidente.

 

 

Referências

ABDENUR, R. Artigo: Riscos da diplomacia paralela. Maio/2019, O Globo. Disponível em: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigo-riscos-da-diplomacia-paralela-23651422 (acesso em 15 de maio de 2019).

 

BILENKY, T. Primeiro Bannon, Depois os Generais. Maio/2019, Revista Piauí. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/primeiro-bannon-depois-os-generais/ (acesso em 15 de maio de 2019).

 

BOBBIO, N. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora Unesp, 1994.

 

FERNANDES, L.M. Da transição na ordem mundial à ruptura na ordem democrática nacional. Monções, vol. 5, n. 9, 2016, pp. 9-25.

 

FREIRE, V. T. ‘Parece que o pau está comendo’: Ideólogo do bolsonarismo prega agitação, propaganda e democracia direta tuitada. Março/2019, Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ viniciustorres/2019/03/parece-que-o-pau-esta-comendo.shtml (acesso em 15 de maio de 2019).

 

FREIXO, A. As Relações Exteriores – Bolsonaro, 100 dias. Abril/2019, Le Monde Diplomatique. Disponível em: https://diplomatique.org. br/as-relacoes-exteriores-bolsonaro-100-dias/ (acesso em 15 de maio de 2019).

 

FREIXO, A.; PINHEIRO-MACHADO, R. Dias de um futuro (quase) esquecido: um país em transe, a democracia em colapso. In FREIXO, A.; PINHEIRO-MACHADO, R. (orgs) Brasil em transe: bolsonarismo, novas direitas e desdemocratização. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2019., pp. 9-24.

 

GOHN, M.G. Manifestações de junho de 2013 no Brasil e Praças dos Indignados no mundo. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.

 

HIRST, M. Os cinco “As” das relações Brasil-Estados Unidos: aliança, alinhamento, autonomia, ajustamento e afirmação. In ALTEMANI, H; LESSA, A.C. (orgs.) Relações Internacionais do Brasil: Temas e Agendas, volume 1. São Paulo: Saraiva, 2006, pp. 91-128.

 

LAGO, M. Procura-se um Presidente. Maio/2019, Revista Piauí. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/procurase-um-presidente/ (acesso em 15 de maio de 2019).

 

MEDEIROS, K.P.; VILAS-BOAS, V.; ANDRADE, E. Política Externa Conservadora: uma nova matriz no Brasil? Março/2019, Le Monde Diplomatique. Disponível em: https:// diplomatique.org.br/79475-2/ (acesso em 15 de maio de 2019).

 

MESSENBERG, D. A cosmovisão da “nova” direita brasileira. In FREIXO, A.; PINHEIRO-MACHADO, R. (orgs) Brasil em transe: bolsonarismo, novas direitas e desdemocratização. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2019., pp. 25-49.

 

NOBRE, M. O Caos como Método. Abril/2019, Revista Piauí. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-caos-como-metodo/ (acesso em 15 de maio de 2019).

 

 

NOTAS

[1] Jamil Chade (2019): “Chanceler faz périplo por governos populista de direita na Europa”. Disponível em: www.jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/05/07/ chanceler-faz-periplo-por-governos-populistas-de-direita-na-europa/ (acesso em 15/05/2019). 

 

[2] Disponível em https://extra.globo.com/noticias/brasil/heleno-diz-nao-haver-nada-sobre-base-americanano-brasil-23355703.html (acesso em 15/05/2019).

 

[3] Marcelo Nagy (2019), “Araújo diz que Brasil manterá pressão para que militares abandonem Maduro”. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2019/05/09/araujo-diz-que-brasil-mantera-pressao-para-que-militares-abandonem-maduro.htm (acesso em 15/05/2019).

 

[4] Ver Conjuntura Latitude Sul, Abril/2019, p. 7. Disponível em: http://latsul.org/wp-content/uploads/2019/05/ Conjuntura_LATSUL_abril_2019-1.pdf (acesso em 15/05/2019).

 

[5] Ver mais em SANTOS, Leandro Wolpert. "Mudanças institucionais no Itamaraty nos primeiros meses do governo Jair Bolsonaro: entre a tradição da renovação e a ruptura da tradição diplomática brasileira". Boletim NEAAPE, v.3, n.1, abr. 2019.

 

[6] Ver Conjuntura Latitude Sul, JanFev/2019, p. 2. Disponível em: http://latsul.org/wp-content/uploads/2019/03/Conjuntura-Latitude-Sul-janfev-2019.pdf (acesso em 15/05/2019).

 

[7] Para uma análise do diagnóstico de “anacronismo institucional” presente em propostas reformistas do Estado, à esquerda e à direita do espectro político, ver Christian Edward Cyril Lynch “O Pensamento Político Brasileiro: Temas, Problemas e Perspectivas”, in C. E. C. Lynch; Elizeu Santiago Tavares de Souza e Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro, (orgs). Pensamento Político Brasileiro: Temas, Problemas e Perspectivas, Curitiba: Appris, 2019, pp. 9-40.

 

[8] Consuelo Dieguez (2019), “O Chanceler do Regresso”: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-chanceler-do-regresso/ (acesso em 15/05/2019).

 

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Esta publicação é fruto de parceria de divulgação científica da Horizontes ao Sul (HaoS) e do Observatório Político Sul-Americano (OPSA). O OPSA é um grupo de pesquisa de referência nas Relações Internacionais e na Ciência Política destinado à análise, ao monitoramento e ao registro de eventos políticos na América do Sul. O núcleo, coordenado por Maria Regina Soares de Lima, Letícia Pinheiro e Marianna Restum Albuquerque (coordenadora adjunta), tem sede no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).

 

 

Veja a edição completa do Boletim OPSA, n.1, jan./mar., 2019:

www.opsa.com.br/boletim-opsa

 

Conheça mais sobre o Observatório Político Sul-Americano (OPSA):

www.opsa.com.br

 

 

 

 

Maria Regina Soares de Lima é Professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) e coordenadora do Observatório Político Sul-Americano (OPSA).

 

Marianna Restum Albuquerque é doutoranda em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) e coodenadora adjunta do Observatório Político Sul-Americano (OPSA).

 

 

 

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Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

 

 

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