• Jennifer Cyr

OS GRUPOS FOCAIS E A CIÊNCIA POLÍTICA


Capa do livro lançado este ano pela Cambridge University Press.

Por que os emigrantes decidem deixar seu país? Em que condições eles voltariam? Qual é a "marca" que caracteriza o partido PRO da Argentina? Como podemos entender a contínua lealdade dos chavistas ao governo apesar da crise humanitária na Venezuela?

Essas questões de pesquisa abordam temas distintos: migração, partidos políticos, identidade política. A despeito de sua diversidade, as perguntas compartilham algo em comum: todas elas podem ser respondidas usando grupos focais.

Se a resposta te surpreende, não se preocupe: você não está sozinha! Mesmo sendo amplamente usados em outras disciplinas, os grupos focais não são um método muito frequente na ciência política. Isto, argumento, é uma lástima para a área, porque os grupos focais conseguem medir coisas e lidar com questões que outros métodos não podem.

Desde que eu comecei a escrever sobre grupos focais (por exemplo, Cyr, 2016, 2018, 2019), muitos colegas "saíram do armário", confessando que, apesar das tendências quantitativas do mainstream da ciência política, ocorreu a eles usarem os grupos focais dentro de seus próprios projetos de pesquisa. No entanto, não sabiam por onde começar.

Parte do problema, eu diria, é que existe desconhecimento sobre como explorar os êxitos comparativos dos grupos focais. Em um livro recentemente publicado pela Cambridge University Press - Focus Groups for the Social Science Researcher, 2019 -, busco definir e explicar suas vantagens, com o objetivo de explicitar melhor quando e como devemos usar grupos focais em nossos projetos de pesquisa. Essas vantagens são derivadas de três características que, tomadas em conjunto, tornam o método particularmente útil para contemplar certas questões.

Vamos explorar, brevemente, as três vantagens, uma por uma.

O social no grupo focal

Para começar, um grupo focal é um método de coleta de dados que usa interação social. Os dados são gerados através das conversas que ocorrem entre um grupo de pessoas reunidas para responder a uma série de questões propostas por uma moderadora.

Como se nota na definição, uma característica importante do grupo focal é que a forma dele é inerentemente social. Os participantes sentam juntos, contemplando, em conjunto, uma pergunta que lhes foi feita. A pessoa que responde primeiro, faz isso sabendo que há outras pessoas ouvindo, pensando em sua resposta e, dependendo da evolução da conversa, reagindo ao que os outros disseram. Esse processo social é uma réplica dos múltiplos processos sociais que acontecem no dia-a-dia, ajudando-nos a forjar um senso coletivo e, ao mesmo tempo, facilitando a criação de opiniões individuais.

Graças à sua natureza social, grupos focais ajudam a entender processos altamente sociais em sua criação e evolução. Por exemplo, identidades políticas, como o chavismo mencionado acima, são forjadas através de processos sociais. Uma pessoa aprende sobre o chavismo através de suas interações com outras pessoas – algumas chavistas, outras não - em conversas diárias, em debates, e quando escuta um chavista falar. A identidade política - como qualquer identidade social - é construída enquanto uma pessoa está reagindo ao que aprende do chavismo - o bom, o mau, o neutro - em seus relacionamentos com os outros.

Nos grupos focais, esses processos sociais podem ser replicados. É um espaço, também, onde é possível compartilhar experiências em comum como, por exemplo, a migração de um país a outro.

Privilegiando os participantes

Em segundo lugar, é importante enfatizar a natureza "emic" dos dados gerados. Os dados "emic" são aqueles que provêm de forma orgânica dos próprios sujeitos. Ou seja, uma pesquisadora prepara uma série de perguntas para os participantes, mas essas perguntas geralmente são muito abertas - isto é, sem nenhuma resposta "correta" - e sem uma interpretação necessariamente precisa.

Essas questões abertas fazem com que se privilegie a perspectiva dos participantes no grupo focal. Não é comum impor uma lista de respostas para as quais os participantes escolham entre elas. Pelo contrário, nos grupos focais, os participantes são os que determinam até onde vai a conversa. A pesquisadora, por sua vez, segue os participantes e aprende na viagem.

Graças à qualidade "emic" dos dados gerados, os grupos focais são úteis em um estágio inicial de uma pesquisa - quando a pesquisadora busca aprender algo novo e, eventualmente, formular hipóteses. Os dados "emic" também ajudam a entender melhor os processos de tomada de decisão e, ao mesmo tempo, revelam como as pessoas falam sobre determinados tópicos ou coisas.

Dados, dados e mais dados

Nos grupos focais, os dados podem ser gerados em três níveis diferentes: o individual, o coletivo e o interativo. Saber quando usar cada nível de dados é muito importante para poder explorar completamente o grupo focal. Uma pesquisadora que busca entender as opiniões dos indivíduos a partir de, por exemplo, um discurso, um produto ou uma mensagem de campanha (uma enfoque de marketing para grupos focais) analisará os dados gerados no nível individual. Ou seja, registrará as reações de cada pessoa (como indivíduo) ao assunto em consideração. Um grupo focal, nesse sentido, permite à pesquisadora coletar várias opiniões ou reações, a fim de quantificá-las (p. ex., "a maioria pensa assim"; "ninguém se encantou com o lema proposto"; "80% respondeu positivamente à questão ").

Surpreendentemente, a maioria dos estudos não desvela a natureza social dos grupos focais. Em uma meta-análise sobre o uso de grupos focais em periódicos de ciência política e sociologia (Cyr 2016), mostrei que aqueles que usaram grupos focais em seus projetos de pesquisa tenderam a se concentrar no nível individual. São, de longe, os dados mais utilizados pelos pesquisadores - um resultado irônico - e até, às vezes, problemático. Dentro dos contextos sociais, é muito difícil saber se a opinião expressa por uma pessoa é a “verdadeira” ou a que foi influenciada pelo grupo.

Para explorar melhor esse método, devemos focar a análise no nível do grupo e/ou no nível interativo.

As conversas que ocorrem em um grupo focal geralmente chegam à uma conclusão. Estas conclusões são fonte de informação. Pode ser que os participantes concordem, por exemplo, sobre quais ações se qualificam como atos cotidianos de corrupção. Mas também pode ser que não. Em ambos os casos, a pesquisadora apreende algo sobre corrupção e como ela é percebida dentro de um determinado grupo. Normalmente, o nível de grupo é o foco da análise quando uma pesquisadora usa grupos focais como um pré-teste para outra metodologia, por exemplo, para confirmar ou revisar uma bateria de perguntas em um questionário ou para refinar um tratamento para um experimento.

Os dados gerados a nível de grupo também são apropriados para explorar como uma ideia é discutida (p. ex., racismo na África do Sul) e para entender melhor o significado de alguma questão ou tópico para um grupo de pessoas (p. ex., uma política orientada para ajudar com o vício em drogas).

Por fim, o nível interativo é particularmente útil para explorar novas questões ou para provocar novas ideias. Este nível representa as pequenas trocas que ocorrem durante uma conversa. Muitas vezes, uma pergunta feita pela moderadora estimulará uma conversa pouco linear: com oscilações, acordos e desacordos e desvios surpreendentes. São as surpresas - ou respostas inesperadas - que podem servir para refinar ou reformular uma hipótese ou até desencadear um novo projeto de pesquisa.

A beleza dos grupos focais como método de coleta de dados é que uma pesquisadora pode explorar diferentes níveis para lidar com diferentes questões simultaneamente. Os usos do grupo focal são múltiplos; o potencial do método é, portanto, muito alto.

Contemplando um exemplo

Para terminar, voltemos à questão sobre os chavistas, feita no início do artigo. Suponhamos que uma pesquisadora queira entender por que, apesar das múltiplas crises que a Venezuela enfrenta hoje, existe um grupo significativo de venezuelanos (os chamados "chavistas") que permanecem leais ao governo. Como parte deste projeto, a pesquisadora decide organizar seis grupos focais em Caracas, cada um composto por dez pessoas que se identificam como chavistas.

O principal objetivo dos grupos focais é entender o significado de ser "chavista" para essas pessoas. Como são as pessoas que se identificam como chavistas? Como se descrevem? Como se distinguem dos antichavistas?

Novamente, o processo de construção de identidades políticas é algo que é feito através de dinâmicas altamente sociais. O grupo focal é, portanto, particular – e, inclusive, especialmente adequado - para lidar com essas questões, porque ajuda a replicar o ambiente social no qual a identidade chavista foi formulada na vida real. É também um espaço onde vários chavistas podem compartilhar sua experiência de auto-identificação e, consequentemente, construir, de forma intersubjetiva, um significado do que é ser um chavista. Uma pesquisadora que queira entender melhor o chavismo hoje em dia vai querer usar grupos focais.

Os grupos focais, como qualquer outro método de coleta de dados, têm suas limitações. Mas, usado de forma cuidadosa e pensando nos recursos listados aqui, os frutos gerados pelo método são vários.

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Este texto foi publicado em versão similar no idioma espanhol no website mexicano Oraculos. Disponível aqui.

Jennifer Cyr é professora associada de ciência política e estudos latino-americanos na Universidade do Arizona e integrante da Red de Politólogas. É autora do recém-lançado Focus Groups for the Social Science Researcher (2019) e de The Fates of Political PartiesInstitutional Crisis, Continuity, and Change in Latin America (2017), ambos publicados pela Cambridge University Press.

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

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