COMO A CANÇÃO VIRA REVOLUÇÃO: CANÇÕES DE PROTESTO NO BRASIL DE ONTEM E DE HOJE

2 Jul 2019

 

 

“Gostava de ouvir aquelas canções que tinham conteúdo, que queriam desintegrar o status quo e eram contra o regime: as canções de protesto”.

 

Certamente já ouvimos, um dia, frases apaixonadas como essa daquele professor de História ou daquela nossa tia avó que foi militante durante a ditadura militar. Ou mais: um dia certamente podemos ter falado isso com orgulho em alguma roda de amigos.

 

É estranho associarmos canção de protesto à apenas um período, haja vista ser este um conceito tão denso, justamente por ser expresso em uma palavra que nunca será pretérita, obsoleta e vã em uma democracia ou em tempos de ditadura: protesto. Mudam-se os tempos, mudam-se as formas de resistência, de protesto, de defesa; de ataque. Mudam-se também as canções.

 

Mesmo em 1962, quando o então presidente João Goulart criou uma série de ações a favor das pautas de esquerda como a Mobilização Nacional contra o Analfabetismo, a Comissão de Cultura Popular (1963) e, já em 1964, o Plano Nacional de Alfabetização, os protestos comunistas pairavam contra o governo. Filmes, canções e poemas, fossem da esquerda ou da direita, protestavam.

 

A partir do Golpe de 1964, e principalmente a partir da instituição do AI 5 em 13 de dezembro de 1968, as canções (alguns segmentos dela) ganharam uma conotação mais acirrada de protesto, desta vez direcionada ao regime militar e à forma como a ditadura agia nas mais diversas esferas sociais. “Opinião”, de Zé Keti, “Caminhando”, de Geraldo Vandré, “Apesar de você” de Chico Buarque e “É proibido proibir” de Caetano Veloso, se tornaram símbolos de protesto e os jornalistas as mantiveram (e as mantêm) como hinos das passeatas no país. E isso não é difícil de verificar: basta escrever “canção de protesto no Brasil” no Google e logo seremos transportados para “uma época em que as canções eram armas políticas”. Será que essa época passou? Será que passará?

 

Não há dúvidas de que, de fato, essas canções foram armas; objetos de resistência, de consciência e de mobilização política. Mas algumas questões valem como reflexão:

 

Os compositores que defenderam os direitos dos deficientes físicos e das domésticas em suas canções durantes os anos de ditadura não protestavam? E os que criaram versos na luta pela instituição do divórcio, do uso das drogas, da adoção, da igualdade de gênero? Isso não é uma relevante forma de protesto? De fato, esse cantores existiram e foram fundamentais para grandes conquistas cotidianas da classe trabalhadora. Nos anos de 1970 os trabalhadores tiveram nessas canções várias de suas reinvidicações agudizadas e muitas se tornaram real¬¬idade. Era uma militância intuitiva, ou seja, criticavam práticas cotidianas comuns que atingiam a si e as pessoas de classes sociais baixas, como a truculência policial, falta de empregos, dificuldade nos transportes públicos. Geralmente as canções ilustravam o lugar social do próprio compositor.

 

Um desses compositores foi o goiano Odair José que, a partir das suas experiências nas ruas e periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, compôs canções como “Pare de tomar a pílula” (canção que confrontava a campanha do Governo Federal de estímulo ao uso da pílula anticoncepcional), “Deixa essa vergonha de lado” (letra que retratava os dilemas sociais da emprega doméstica) e “ Na minha opinião”, canção em que o cantor confrontava a instituição do casamento (“assinar papel pra quê?).

 

Afinal, será que em democracias as músicas não podem ser músicas de protesto? Racionais Mcs, Gabriel ‘ O Pensador’, Gog, Chico César, Skank (por que não?), Arnaldo Antunes. Esses nomes em nada nos fazem refletir e perceber reivindicações em suas composições?

 

A manutenção, mesmo que vulgarmente, do conceito de canção de protesto vinculado aos anos de 1960 e 1970 no Brasil, além de enfraquecer a memória das trilhas que ajudaram a derrubar os militares em fins dos anos 70 e início dos anos 80, cria uma esfera de utopia pretérita, ou seja, um saudosismo daquilo que se imagina não existir, mas que está cada vez mais latente nas periferias e também nos movimentos musicais e sociais. Canções como as de Emicida, Rael, Hazamat e outros artistas brasileiros fazem protestos abertos e incisivos contra o racismo, a violência policial, a desigualdade social e o preconceito de gênero.

 

Os protestos que surgem na arte fazem parte da insatisfação social, da angústia pessoal e existencial de qualquer tempo, em qualquer forma de governo. Seja na canção, no cinema ou na pintura. 

 

Nos anos 90, 2000 e agora, o Brasil produziu e continua a produzir eficazes músicas de protesto, canções de rebeldia e que com a difusão midiática (e as vezes confusão) chegam às mais diversas classes e públicos. A semente da revolução é plantada todo dia, em cada visualização dessas canções no Youtube ou Spotfy. Cabe aos ouvintes regarem, deixarem crescer e fazerem essa planta dar frutos.

 

 

 

Leia mais sobre o tema:

 

CAVALCANTI, Ivan Luis Lima. Ame, assuma e consuma: canções, censura e crônicas sociais no Brasil de Odair José (1972-1979). 2015. 141 f. Dissertação ( Mestrado em História) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/tede/8089

 

CAVALCANTI, Ivan Luis Lima. Censura moral e música na ditadura militar no brasil: o regime contra a transgressão da família e dos bons costumes. Disponível em: http://isociologia.up.pt/sites/default/files/working-papers/WP%2075.pdf

 

 

 

 

 

Ivan Lima é Licenciado e Mestre em História, professor e atualmente cursa Doutorado na Universidade do Porto (Portugal). Em sua dissertação de Mestrado discute censura e vendagem da música cafona durante a ditadura militar e em artigo recente discute a Censura Moral durante a ditadura militar no Brasil.

 

 

 

 

 


 

Editor responsável: Leonardo Nóbrega

 

 

 

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