UMA HISTÓRIA DE AMOR E GUERRA – O NARCOTRÁFICO E A GUERRA ÀS DROGAS

30 Apr 2019

        

 Carlos Somonte/Netflix

 

 

O ano de 1984 marca um dos muitos inícios da chamada Guerra às Drogas no continente latino-americano. Nesse ano, por sua dimensão, uma cena ganhou o mundo: a queima da maior plantação de maconha global até então, com 1000 hectares, no rancho El Bufalo em Chihuahua e não em Zacatecas, como insinua a quarta temporada do seriado Narcos, veiculado no Netflix. Posicionado na disputada fronteira do México com os EUA, o local não é casual: remete à longa história de dissenso, guerras e ilegalismos que forjaram esse espaço fronteiriço há dois séculos. Definida formalmente pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo em 1848, a fronteira foi modificada em 1853 pelo tratado de La Mesilla, quando o governo mexicano vendeu quase cinquenta mil quilômetros aos EUA.

 

O que a história do We´re gonna build a wall (Nós vamos construir um muro) ventilada por Donald Trump ad nauseam desde a campanha à presidência, em 2016, não conta é que essa fronteira já foi demarcada várias vezes. Em uma dessas ocasiões, em 1892, em El Paso, Texas, a missão que delinearia novas fronteiras partiu com sessenta trabalhadores, dentre estes alguns engenheiros, astrônomos e carpinteiros, mas a maioria era composta de um grande efetivo militar (CANTU, 2018). Nem sempre as estratégias dos líderes políticos acompanham a história, como essa mesma demonstra.

 

Fronteira Tijuana – San Diego, México, 2014. Arquivo pessoal da autora.

 

 

 

Essa é a breve memória que pretendo contar a respeito do México contemporâneo, uma história de amor, mas também de como o prefixo narco (em narcoestado, narcodemocracia, narcogobierno, narcoterrorismo, narcoinsurgencia, narcocultura e outros), tomou conta do país desde meados da década de 1980, como ilustrado no seriado Narcos. O cartel de Guadalajara, considerado a primeira organização de grande porte dedicada ao tráfico de drogas ilegais no México, transformou definitivamente a trajetória desse país. Formado em 1980 por Miguel Ángel Félix Gallardo, Rafael Caro Quintero e Ernesto Fonseca Carrillo, a organização se une ao cartel de Sinaloa no final dessa década.


A Guerra às Drogas tem vários começos, 2006 é mais um deles, em um país que parece se mover em ciclos de cem anos de insurreições, desde 1810, na Guerra da Independência contra a Espanha, com o saldo de 500 mil mortos e na Revolução Mexicana, em 1910, um século depois, com entre 500 a dois milhões de mortos. Mas foi duas semanas após Felipe Calderón assumir o poder em uma das eleições mais contestadas da história  contemporânea, que foi iniciado o período (2006-2012) que exibe o – disputado – número de 250 mil mortos . Calderón chegou a afirmar que a maioria dessas mortes na última década era de criminosos ligados aos cartéis de narcotráfico, cifra altamente improvável em um país em que menos de 5% dos crimes violentos são investigados, e cujas vítimas de assassinatos envolvem uma maioria de mulheres e crianças.


A história dessa guerra também pode ser contada a partir da correspondência frequente da Drug Enforcement Administration (DEA) aos escritórios da patrulha migratória estadunidense, por exemplo, com sua disposição de informação de modo taquigráfico: fotografias de partes mutiladas do corpo humano junto às notícias resumidas relacionados às atividades dos cartéis, com locais e uma descrição da carnificina ocorrida. Há uma mensagem para cada tipo de morte e mutilação, afirma Vulliamy (2011): uma língua cortada, por exemplo, significa que alguém falou demais. A diferença de outros tempos é que os mortos antes eram desaparecidos ou jogados no deserto, agora são executados e exibidos para todos – a guerra agora é, abertamente, contra frações cada vez mais expressivas do povo mexicano.


Esses corpos avolumados nos necrotérios da fronteira norte mexicana contam apenas uma das facetas da história dessa guerra. A fronteiriça Tijuana, desde os anos 2000, não possui instalações adequadas em seus necrotérios que acompanhem a velocidade dos assassinatos no local, com a intensificação das contendas relativas à dinâmica narco. Por sua vez, a história da modernização e expansão das instalações do necrotério de Ciudad Juárez, por exemplo, está ligada aos numerosos feminicídios na década de 1990. Trabalhadoras das maquilas, empresas estadunidenses com contratos precários de trabalho, as mulheres eram assassinadas, em sua maioria, voltando do trabalho para casa, formando um triste prelúdio da violência da guerra. Em 2008, pouco depois da declaração de guerra de Calderón, Juárez virou um dos palcos principais do conflito, adquirindo o título de cidade mais violenta do mundo, um local em que não somente as mulheres, mas todos, eram assassinados. A capital dos homicídios do mundo, em 2010, com uma média de oito homicídios por dia, era também uma cidade cujo muro apartava-a de uma das cidades mais seguras dos EUA, no mesmo ano, sua vizinha, El Paso .


Mas o que importa refletir sobre as nuances da Guerra às Drogas tão eficazmente mostrada por Narcos é como a panaceia de uma sociedade livre do consumo de psicoativos nos levou a uma realidade de desastrosas estratégias políticas e sociais. O histórico do proibicionismo tem alguns marcos mundiais: em 1961, com a Convenção Única sobre Estupefacientes; uma década depois, a Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas; e em 1988  a Convenção sobre o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas. Uma figura emblemática do proibicionismo estadunidense em seu auge foi a primeira-dama Nancy Reagan, cuja cruzada publicitária Just Say No! (“Apenas diga não!”) pode ser vista na abertura dessa temporada de Narcos.


O histórico da formulação dessa Guerra aparece como resposta imediata ao aumento do consumo de entorpecentes nos EUA depois da Guerra do Vietnam, sobretudo maconha, cocaína e heroína, advindas do México e da Turquia. Tokatlian (2017) e outros especialistas convergem, que essa guerra, dada à assimetria e permissividade de suas práticas, teve como um dos principais efeitos a multiplicação dos cartéis e seus chefes, druglords (senhores da guerra), ademais de pulverização de paraísos e práticas de lavagem de dinheiro e a diluição das fronteiras transnacionais da delinquência, além de dirimir a confiança e legitimidade nos governos latino-americanos. Em termos de estratégia militar, as movimentações nos últimos anos também fracassaram, com a fragmentação do crime organizado e subsequente aumento da violência dos carteis como um de seus resultados contraproducentes, mantendo o mercado ilícito em uma permanente situação de guerra e complexificando ainda mais o crime organizado.


Ademais, o que a queima pelo exército no rancho El Búfalo, como as inúmeras ações similares que representam desde então o sucesso na “guerra”, negligencia é como o desmonte enxuga-gelo do aparato repressivo estatal, em uma prática conhecida como combater e consentir, afeta a economia de camponeses, indígenas e trabalhadores rurais pobres, temporalmente vinculados ao cultivo de plantio e colheita de estupefacientes.


Assim, não importa quantas plantações de drogas ilícitas sejam queimadas, integral ou parcialmente, na América Latina, para consumo no mercado do norte, ganha força a posição de que o proibicionismo simplesmente não funciona. Muito pelo contrário, seu resultado mais imediato é de destruição e morte nos territórios mais pobres.


Atualmente, como lembra Tokatlián (2017), a economia das drogas ilegais é mais complexa que a imagem corrente na qual a produção do sul escoa para os consumidores do norte. Por um lado, os EUA já produzem maconha em grandes quantidades para seu mercado interno; por outro, a América do Sul atingiu o expressivo terceiro lugar no ranking mundial de consumo da cocaína.


O que não impede que a cadeia de produção que inclui as etapas de cultivo, processamento, tráfico, venda, lavagem e consumo, evidencie a assimetria financeira, outra faceta dessa guerra. Do cultivo da folha da coca na Bolívia, transportada até a Colômbia como pasta de coca, processada e transladada já como cocaína para o México, até o tráfico nas grandes cidades norte-americanas, como Nova Iorque e Chicago, onde atinge o mercado varejista, há uma enorme variação de preço. Essa cadeia retrata uma divisão internacional dos lucros: ao norte global, os lucros, ao passo que nos países do sul permanecem os efeitos danosos da cadeia de vendas do narcotráfico global. 


Outra faceta importante dessa história de guerra que mais assemelha-se a um relato de amor é a vinculação do poder político institucional aos grandes carteis de narcotráfico, também retratada em Narcos. Desde a década de 1980, por exemplo, uma reportagem do jornal Washington Post expunha que cerca de 10% do congresso colombiano financiou suas campanhas com dinheiro do tráfico ilegal de entorpecentes (TOKATLIAN, 2017). Tal imbricamento entre poder político e ilegalidade só costuma vir à tona quando algum escândalo atinge os primeiros escalões dos governos, como ocorreu com Ernesto Samper na Colômbia nos anos 1990 e muito recentemente no governo de Juan Orlando Hernández em Honduras.


Finalmente, essa história de amor não tem um final feliz, ou ao menos não até agora. A militarização, inicialmente pontual, de territórios inteiros no México desde a década de 1970, mas não exclusivamente, incluindo outros países na América Latina, justificada pelo combate ao narcotráfico, é um dos legados dessa guerra . Esse significativo incremento do aparato repressor, nos territórios mexicanos, iniciados por Calderón, acabou por forçar os pequenos contrabandistas fora do negócio e contribuir para que quatro grandes carteis atuais (Tijuana, Sinaloa-Sonora, Juárez e Golfo) se transformassem em hierarquias cada vez mais eficientes e reativas às inovações tecnológicas fronteiriças da DEA.


Se considerarmos as dinâmicas dos cartéis como semelhantes às facções criminosas no Brasil e sua prática de dominar territórios inteiros para poder defender seu negócio, além de eliminar fisicamente seus rivais, obter influencia política e garantir sua sobrevivência física, talvez consigamos enxergar mais facetas dessa história. Ela funciona igualmente por associação para demonstrar que pertencer é humano e atraente, sobretudo para homens jovens em territórios empobrecidos. Não à toa, o Cartel de Sinaloa retratado em Narcos se autodenomina um sindicato. Por último, o seriado retrata um momento de euforia inicial com o tráfico internacional de drogas: por diversas razões, na década de 1980 os grandes chefes dos cartéis não tinham no horizonte a possibilidade de passar sua vida atrás das grades. E isso implica em uma mudança radical nessa(s) história(s), a saber, a expectativa de comandar impérios de drogas como detentos dirime a ameaça da punição penal. São muitos inícios e um recrudescimento inegável em uma das histórias mais frequentes possíveis de serem relatadas sobre a Pátria Grande.

 

 

NOTAS

 

[1] Oficialmente lançada como doutrina pelo presidente estadunidense Richard Nixon, ainda na década de 1970.

 

[2] Uma compilação com o presidente Donald Trump afirmando que fariam os mexicanos pagar pela construção desse muro, em repetidas ocasiões, pode ser vista nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=ypNIs-H_NQc 

 

[3] As eleições de julho de 2006, no México, vencidas por Felipe Calderón, do Partido Accion Nacional (PAN), com 35,86% dos votos, uma margem de 0,64% de diferença do segundo colocado, André Manuel López Obrador, atual presidente, que então no Partido Revolucion Democratica (PRD), não reconheceu o resultado. Após meses de contenda, do que ficou conhecido como "Controvérsias e Irregularidades das eleições de 2006", com direito às acusações contra a esquerda abstencionista, consubstanciada no EZLN e na figura do então comandante Marcos, mas cujo resultado prevaleceu como a segunda vitória seguida do PAN, após o governo de Vincent Fox.

 

[4] Os cálculos de mortos variam, mas costumam incluir os desaparecidos cujos restos mortais nunca foram encontrados desde 2006. Para mais informações, ver: https://www.theguardian.com/world/2017/jun/21/mexicos-monthly-rate-reaches-20-year-high

 

[5] Para maiores informações sobre os feminicidios de Juárez, ver: https://www.elmundo.es/america/2009/11/19/mexico/1258636389.html

 

[6] O plano geral de combate contra o inimigo (grupos criminosos dedicados à produção, trânsito e venda de drogas ilícitas) colocado em prática desde o primeiro dia do governo Calderón ficou registrado nas 32 páginas da Directiva para el Combate Integral al Narcotráfico 2007-2012, um guia para a atuação do exército. A nomenclatura Guerra, teria sido decidida em uma reunião no estado de Morelos, em 2006, que contou com a presença do ex chefe da DEA, David Gaddis. Essa guerra declarada pelo presidente Felipe Calderón vem na esteira da Guerra às Drogas como doutrina

 

[7] Fonte: https://www.realclearpolitics.com/articles/2009/06/05/americas_safest_cities_96815.html

 

[8] Em um panorama que se mantém atualmente, contando com uma estratégia de combate que inclui uma legislação repressiva e controversa, com a Ley de Seguridad Interior, promulgada no final de 2017, que regulamenta o uso das forças armadas no combate ao crime.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CANTÚ, Francisco. The Line Becomes a River: Dispatches from the Border. Penguin, 2018. 


TOKATLIAN, Juan Gabriel. Qué hacer con las drogas – una mirada progressista sobre un tema habitualmente abordado desde el oportunismo político y los interesses creados. Buenos Aires : Siglo Veintiuno Editores Argentina, 2017.


VULLIAMY, Ed. Amexica: war along the borderline. Random House, 2011.

 

 

 

 

Simone Gomes é editora-chefe da Horizontes ao Sul, socióloga e docente na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Contato: s.ribeirogomes@gmail.com

 

A autora gostaria de agradecer a Pedro Borba, pela revisão criteriosa e generosa.

Editores responsáveis: Luna Ribeiro Campos e Pedro Borba

 

 

 

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