DESESTRUTURANDO A CIÊNCIA POLÍTICA: UM ENSAIO SOBRE A ÍNDIA​[1]

9 Apr 2019

 

Jawaharlal Nehru University, Nova Deli, Índia

 

 

Nas últimas décadas, o ensino e a pesquisa em ciência política cresceram exponencialmente e ampliaram muito suas áreas de estudo. No entanto, essa expansão continuou atormentada por certos problemas intelectuais e epistêmicos persistentes, que parecem ser específicos da disciplina de ciência política, mesmo que não estejam completamente ausentes em outras disciplinas. Um dos principais problemas que a disciplina não conseguiu superar em todos esses anos foi o que os Rudolphs "lamentaram ser a divisão profunda e duradoura entre teoria e pesquisa empírica na ciência política" (RUDOLPH; RUDOLPH, 2009, p. 139). Eu argumentei em outro lugar que:

 

 

Tanto o “imperialismo teórico”, quanto a enorme confusão entre o empirismo (incluindo o fetichismo da fonte de algumas disciplinas) e o “modo empírico da prática intelectual” levaram os cientistas políticos a traçar limites autorreferenciais artificiais e abandonar o estudo das sociedades em suas múltiplas interconexões por estudos “especializados” e “regionalmente fechados” (GUDAVARTHY, 2011, p. 120).

 

 

Isso, em outras palavras, é o que os Rudolphs chamam de modo "orientado pelo problema" de abordar a questão, em vez de dividir artificialmente o assunto em áreas de especialização muito restritas. Muito do que é considerado teoria ou filosofia política na Índia faz pouca menção a referências históricas e sociológicas concretas; de fato, a maioria dos estudiosos que trabalha nessa área presume que muitos detalhes empíricos são obtidos por ricos quadros teóricos. Essa suposição se reflete não apenas em suas pesquisas, mas, na verdade, influencia muitos dos programas de ensino nas universidades. Alunos treinados em sistemas filosóficos abstratos raramente são testados em sua capacidade de compreender as nuances da história social e política da Índia. A teoria é vista como uma especialização fechada, quase ressoando o que Kosambi (2002, p. 59) observou em relação ao marxismo, ou seja, que é um modo de pensar e "não um substituto do pensamento". A suposição de que a busca pela teoria é de ordem superior em relação à pesquisa empírica, também ressoa quase como um tipo de hierarquização de sistema de castas/varna​[2]​.

 

O problema, entretanto, não é unilateral; grande parte das pesquisas realizadas na área do que é frequentemente chamado de "Política Indiana" é desprovida de ricas categorias teóricas. Essas pesquisas têm sido principalmente descritivas. Como os filósofos se orgulham de sua falta de profundidade nos detalhes empíricos, os que pertencem ao domínio da "Política Indiana" mantêm distância respeitável da teoria. A hiper-teorização e o empirismo são, então, "primos coloniais" próximos, que continuam a atormentar a disciplina da ciência política na Índia​[3]​. Além disso, a busca pela "Política Indiana" é estruturada segundo as linhas de especialização no estudo de instituições, processos e políticas públicas. Mesmo aqui, aqueles que estudam instituições raramente demonstram interesse em processos políticos; eles presumem que as instituições são mais bem estudadas pelo que são - insulares. Instituições são ensinadas e pesquisadas no sentido de investigar suas regras internas, estrutura organizacional - no nível de graduação, atende pelo inesquecível nome de "poderes e funções" - procedimentos, entre outros. O fato de que as instituições operam em um dado contexto social e político permaneceu, na maior parte das vezes, pouco pesquisado, bem como sua interface com categorias discursivas/teóricas. Muitos desses estudos sobre instituições, embora bem documentados, levaram a poucos debates teóricos ricos dentro da disciplina da ciência política.

 

A consequência mais gritante disso pode ser analisada no contexto do declínio da administração pública como uma disciplina na academia indiana. Ela começou com a promessa de trabalhar na interface entre a teoria (do Estado) e a aplicação concreta (para a formulação de políticas públicas). Se tivesse alcançado esse objetivo, talvez fosse uma das áreas de estudo mais criativas. Não obstante, dado o contexto dessa divisão endêmica entre teoria e análise empírica/concreta, ela não conseguiu alcançar nenhum dos dois objetivos. Não conseguiu desenvolver uma teorização mais relevante do Estado indiano e não foi levada a sério pelos formuladores de políticas públicas. Confrontou-se com a confusão de como lidar com a análise política, uma vez que abandonamos as preocupações normativas essenciais à teoria, e, ainda assim, não se reduzir ao mero empirismo da formulação de políticas públicas. Foi reduzida à dependência das ferramentas dos estudos de gestão e focou na teoria organizacional sem qualquer interface com as complexas dinâmicas políticas, econômicas e culturais da sociedade​[4]​.

 

Além disso, em outro nível, os experimentos para introduzir uma abordagem interdisciplinar permaneceram sem sucesso na Índia. Há um desconforto profundo desde os métodos pedagógicos até o recrutamento para cargos de ensino nas faculdades e universidades. De que maneira a "história econômica" pode subsidiar o estudo da "política indiana" contemporânea, ou como o estudo da teoria política pode informar a formulação de políticas econômicas, são questões que claramente permaneceram subdesenvolvidas como áreas de pesquisa​[5]​. A economia permanece técnica demais, a teoria política abstrata demais e a história muito detalhada e morosa. A interdisciplinaridade continua a ser uma terra de ninguém, e, claramente, não é um problema fácil de ser superado. O único consolo é que certamente não é um problema específico da Índia, mas que, na verdade, assumiu proporções globais. Refletindo sobre isso, Frederic Jameson argumenta que:

 

a profissionalização das ciências sociais (então) reforça os preconceitos empiristas e anti-teóricos... Como ele (o filósofo – ​minha observação​) pode escrever sobre a Revolução Francesa? Ele não é historiador, ele usa apenas fontes secundárias! Como ele pode escrever sobre a história dos sindicatos franceses e do anarco-sindicalismo? Ele não é historiador do trabalho! Como ele pode escrever sobre o malthusianismo francês e o peculiar desenvolvimento econômico da França? Ele não é historiador econômico. E quanto ao desmatamento chinês e ao ouro e prata do Novo Mundo espanhol - é óbvio que um filósofo não tem experiência em nenhum desses assuntos (JAMESON, 2009, p. 224).

 

Há, claramente, uma necessidade urgente de desestruturar a ciência política como é ensinada e pesquisada. Os programas de ensino nas universidades devem, em primeiro lugar, desencorajar ativamente a bifurcação de cursos ao longo das fronteiras artificiais entre a teoria política, a política indiana e as relações internacionais. Talvez não seja uma má ideia que os cursos sejam reestruturados e ensinados em parceria, para começar. A teoria política na Índia precisa ser ensinada com uma consciência afiada de suas próprias especificidades sociológicas e históricas; a "política indiana" tem que ser lecionada expondo as conexões de via dupla entre processos, instituições e políticas públicas, e as Relações Internacionais precisam ser ensinadas com alguns fundamentos filosóficos, e não um mero diálogo superficial sobre as ligações entre política doméstica e externa​[6]​.

 

Ademais, a pesquisa de jovens estudantes nos níveis de mestrado e doutorado precisa ser incentivada com uma nova metodologia e nesta interface sugerida. Isso poderia incluir o uso de material de arquivo, dados do censo, etnografia, em conjunto a (e não em lugar de) quadros teóricos ricos. Por exemplo, aqueles que se dedicam aos estudos eleitorais na Índia precisam estar equipados com debates teóricos sobre o modo de produção e a revolução passiva, e aqueles que se dedicam à filosofia precisam sair, sujar as mãos nos detalhes confusos da "Política Indiana", para que a teoria não permaneça normativa e, a política, empirista em sua essência. O primeiro levará ao "imperialismo de categorias", enquanto o segundo resultará apenas no "fundamentalismo da experiência". Esse tem que ser um processo de baixo para cima, desestruturando a divisão nociva que estruturou a disciplina, com as universidades provinciais ensinando principalmente a 'política indiana' e os centros metropolitanos, como Déli, que continuarão a oferecer uma teoria não contaminada​[7]​. Os centros provinciais precisariam de material de leitura acessível na teoria política que dê sentido à realidade local, incluindo a tradução em grande escala do material existente em inglês para várias línguas indianas​[8]​. Num processo análogo, aqueles nos centros metropolitanos precisam, obrigatoriamente, aprender uma língua indiana, se não mais​[9]​. Não seria, talvez, uma má ideia ter programas de intercâmbio mais fortes entre as universidades metropolitanas e as provinciais, tanto para o corpo docente como para os estudantes, em vez de um busca obstinada por intercâmbios, na maior parte das vezes, entre universidades indianas e europeias ou norte-americanas (nem mesmo as universidades em outros continentes do sul figuram como parte desses programas de intercâmbio).

 

Desmistificar a teoria só é possível se pudermos romper também com o fundamentalismo da epistemologia experiencial. Por exemplo, seria uma questão interessante para o debate entre cientistas políticos se os estudantes vindos de estados e regiões específicas precisam mesmo ser necessariamente encorajados a trabalhar sobre suas próprias sociedades, ou se seria intelectualmente desafiador pedir que eles trabalhem em agendas de pesquisa e áreas para trabalhos de campo que sejam ambas mais comparativas. Este tipo de pesquisa inter-regional, dada a natureza da diversidade na Índia, por si só, talvez, aumente o engajamento teórico, uma vez que precisariam abordar uma realidade que não é apenas distinta, mas também pode estar em desacordo com sua compreensão estabelecida sobre processos políticos. A natureza dessa teoria, no entanto, poderia ser aquela que é localizada – contra aquela que "fala de lugar nenhum”​[10]​. De outra forma, sinto que grande parte da pesquisa se tornou restritivamente conformista, mesmo que afirme ser crítica​[11]​. O debate sobre a disciplina precisa estar bastante consciente da necessidade de mudar de uma antiga episteme (descontinuidades artificiais, hierárquica, autorreferenciada, superespecialização) que orientou e ordenou grande parte da pesquisa até hoje, para uma nova episteme (foco temático, modo não hierárquico, interdisciplinar e multi-método) que aguarda a sua vez.

 

 

Artigo original​: “De-structuring Political Science”. (2013). ​Sudies in Indian Politics​, v.1, n.2, p.231-234.

 

 

 

 

 

NOTAS

 

[1] O ensaio é fruto da seção de discussão Ensinando-Aprendendo Política na Índia, coordenada por Rajeshwari Deshpande (rajeshwari.deshpande@gmail.com) e publicada na ​Studies in Indian Politics,​ periódico da SAGE.

 

[2] ​Na verdade, não seria uma má ideia estudar as origens sociais daqueles que se dedicam à pesquisa teórica na Índia. Eu, por minha parte, imaginaria que eles podem pertencer principalmente aos escalões mais elevados da localização social, e isso talvez precise de alguma explicação e alguma reflexão sobre o que pode ser feito sobre isso como uma correção dos métodos pedagógicos implementados no ensino e na pesquisa de teoria/filosofia política.

 

[3] ​Este problema é agravado, ainda, por habilidades linguísticas inadequadas em leitura, escrita e ensino de inglês.

 

[4] O p​rofessor Ram Reddy (ex-presidente da UGC), no decorrer de uma comunicação pessoal, observou certa vez que a Sociologia era um tema em busca de uma disciplina, e a Administração Pública era uma disciplina em busca de um tema.

 

[5] ​Mesmo em uma instituição como a Universidade Jawaharlal Nehru, que foi estruturada com um claro foco na abordagem interdisciplinar, a interação entre os membros do corpo docente de vários centros, ou os estudantes que optam por cursos transversais, é muito pequena.

 

[6] ​As Relações Internacionais como uma subdisciplina se manteve teoricamente limitada em suas fundações e, portanto, desempenhou um papel secundário para os formuladores de políticas públicas. Grande parte das pesquisas apenas endossava os imperativos da política externa em nome do "interesse nacional". Não conseguiu sair desse prisma que é fundamental para a disciplina, mesmo que alguns estudiosos tenham questionado teoricamente essas suposições de Morgenthau.

 

[7] ​É interessante, neste contexto, observar que em grande parte do sul da Índia a Ciência Política é praticamente igualada às Relações Internacionais. Ela continua sendo o ramo mais popular. Quais poderiam ser as possíveis razões sociológicas para isso ainda está por ser analisado. Eu acho que, em grande parte do norte provincial da Índia, a "Política Indiana" tem uma vantagem sobre outras áreas, deixando a teoria/filosofia para poucas universidades nas cidades metropolitanas, que, deste modo, permanecem, em grande medida, sem qualquer ponto de referência concreto. Muito da teoria pós-colonial na Índia veio como uma resposta a essa divisão e, em certa medida, forneceu um quadro para correção. No entanto, baseia-se em um elogio bastante exagerado e irrefletido do local, na ideia de comunidade e na celebração sem problemas do culto do subalterno. Eu lidei com algumas dessas críticas em um volume recente que editei (GUDAVARTHY, 2012).

 

[8] ​Sempre foi minha experiência ao apresentar trabalhos em seminários organizados por universidades provinciais que muitos acadêmicos e estudantes têm grande interesse na política local; eles têm muitas estatísticas e dados na ponta do lápis, grande interesse em procedimentos institucionais de órgãos locais, informações sobre personalidades e suas idiossincrasias e como isso influencia a formulação de políticas públicas, entre muitos outros aspectos fascinantes da prática de um modo muito orgânico de entender o que é, de outra forma, um projeto intelectualizado dentro do marco institucional. Há, entretanto, pouco interesse imediato em extrair generalizações e falar através de "categorias" que possam realmente ressoar ou desafiar sua própria compreensão, lembrando o que Marx disse sobre Feuerbach - faíscas que não iluminam!

 

[9] ​Pode ser útil debater se esta linguagem poderia ser preferencialmente outra que não a sua língua materna.

 

[10] ​Por exemplo, esta questão dos estudantes que se ocupam de suas próprias regiões emerge frequentemente na JNU (embora parcialmente injustificada) com estudantes vindos da região nordeste. Mas o mérito desta queixa é que grande parte da persuasão do corpo docente muitas vezes falha em alterar as conclusões que os alunos começam a desenhar antes mesmo de começarem suas pesquisas. Isso, creio eu, vale para todas as outras regiões.

 

[11] ​Ser crítico não é necessariamente ser não-conformista. A análise crítica em si e as categorias que produz, por exemplo, privilegiando o não linear ao linear, o particular e o local ao universal, entre outros, poderia ganhar uma posição hegemônica, bloqueando a interrogação de formulações que passam a representar uma análise crítica em tempos contemporâneos.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CHATTOPADHYAYA. Brajadulal. KOSAMBI, Domodar. "Combined Methods". In: Indology and Other Writings. New Delhi: OUP, 2002. 

 

GUDAVARTHY, Ajay. "Review of explaining India Democracy: A fifty year perspective, 1956–2006 by Lloyd I. Rudolph and Susanne Hoeber Rudolph". Indian Economic and Social History Review, XLVIII(1), January–March, p.117–120, 2011.

 

_________________. Re-framing democracy and agency in India: Interrogating political society. London: Anthem, 2012.

 

JAMESON, Frederic. Valences of the dialectic. London: Verso, 2009.

 

RUDOLPH, Lloyd. RUDOLPH, Susanne Hoeber. Explaining Indian Democracy: A fifty year perspective, 1956–2006. New Delhi: Oxford University Press, 2009.

 

 

 

Ajay Gudavarthy é professor no Centro de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Jawaharlal Nehru. É autor de Reframing Democracy and Agency: Interrogating Political Society (Anthem Press, London, 2012) e Politics of Post-Civil Society: Contemporary History of Political Movements in India (Sage, Delhi, 2013).

 

 

Tradução e edição: Raul Nunes, Gabriela Caruso, Marcia Rangel Candido e Simone Gomes

 

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

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