BREVE MANUAL DE ESCRITA E COMUNICAÇÃO PARA CIENTISTAS SOCIAIS

11 Dec 2018

 

Ejercicio de una pausa, 2017. Por Hyuro

 

 

 

O objetivo do presente texto é fornecer dicas de escrita e comunicação de pesquisas acadêmicas em ciências sociais[1]. Este exercício tem início a partir de um breve relato de trajetória e prossegue com a apresentação de sugestões de atividades individuais e coletivas capazes de contribuir para melhorar uma tarefa constantemente associada ao desprazer.

 

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Considero relativamente tardio meu despertar ao valor das reflexões sobre escrita científica. Em quatro anos de graduação, dois de mestrado e quase três de doutorado na área das ciências sociais, encarei os processos de redação apenas como uma pequena parcela das obrigações da rotina acadêmica. Meu incômodo com essa percepção fica ainda maior ao constatar que ela é generalizada. Existem pouquíssimos cursos de instrução para estudantes de primeira viagem e muitas discussões sobre escrita transitam em torno de questões com fundo negativo, como a superação de “bloqueios criativos”, ou a administração das pressões de trabalho, dos prazos e da necessidade de produzir. É claro que são aspectos importantes, mas eles deixam evidente uma contradição: escolhemos trabalhar em um campo de conhecimento que sobrevive, tanto quanto outros, da produção e circulação de comunicação escrita, mas acabamos por amar a leitura enquanto criamos horror ao processo que dá luz ao seu conteúdo.

 

Quando me refiro a “horror”, não estou dizendo que todas as pessoas têm repulsa à escrita, ou que os desafios durante essa atividade redundam necessariamente em depreciação dela, mas sim que há pouca atenção às práticas que podem trazer prazer às caminhadas profissionais e tornar a divulgação do nosso trabalho mais próspera. É fundamental nos deslocarmos da posição de “escritores por obrigação”, contrapormos o imaginário de tortura produtiva e observarmos com maior aprofundamento como construímos nossos textos, o que queremos comunicar, quem desejamos alcançar e qual o mérito disso.  Exponho a seguir algumas das estratégias que têm me ajudado a amenizar as inquietações de início de carreira e estimar o conhecimento como bem público, o que acredito ser tarefa diária de cientistas. Espero que elas sejam úteis a vocês. 

 

As indicações listadas nas próximas linhas possuem duas frentes: por um lado, qualquer pesquisador(a) que tenha como objetivo seguir carreira acadêmica precisa se adaptar às convenções de suas respectivas comunidades científicas. Essa adaptação consiste em entender quais estruturas de comunicação são mais aceitas pelos pares profissionais, uma vez que a conquista de publicação de artigos, ou mesmo de livros, em veículos prestigiados requer o domínio de certos padrões de apresentação de ideias.

 

Por outro lado, ser aceito em uma revista acadêmica ou obter o privilégio de ter um livro editado nem sempre significa eficiência na exposição acessível dos argumentos. A participação em círculos especializados não deve nos fazer esquecer da função pública da produção científica e de como é relevante que ela atinja o maior número possível de interessadas(os). Buscar uma escrita clara e concisa, portanto, é mais um desafio fundamental a ser perseguido por acadêmicos(as).  

 

 

Dica n.1: apresentação da estrutura do texto

 

Uma das primeiras coisas a observar em uma produção escrita é a estrutura de apresentação das ideias conforme o formato da publicação. Em artigos, por exemplo, o ideal é que o resumo seja capaz de fornecer um pequeno mapa sobre o texto, salientando (1) os acréscimos à literatura, (2) o objetivo do trabalho, (3) a metodologia empregada na pesquisa e (4) as conclusões gerais. No texto completo, esses elementos devem aparecer com clareza e seguir uma estruturação organizada. 

 

Os livros acadêmicos dão mais espaço às reflexões, mas geralmente possuem um ordenamento similar. A síntese da publicação pode aparecer na contracapa, nas orelhas, no prefácio, no posfácio e, obviamente, na própria introdução. As melhores obras costumam elucidar o que será tratado em cada capítulo e fazer um panorama do argumento geral sempre que possível. Embora você tenha total domínio sobre o tema do seu trabalho, é imprescindível saber diferenciar a posição dos leitores: mesmo que eles sejam próximos a sua área de estudo, são pessoas com experiências díspares e uma exposição mais pedagógica de ideias só tem a acrescentar na promoção de diálogo.  

 

Restam ainda os relatórios de pesquisa, as resenhas, os trabalhos para apresentar em congresso e até mesmo as contribuições acadêmicas para grandes meios de comunicação ou blogs. Boas estratégias de comunicação podem variar muito em cada um desses casos e é por isso que a Dica n.2 me parece substancial.

 

 

Dica n.2: estude o padrão de importantes publicações

 

Os desafios de escrita são tema de uma série de livros, artigos e posts em redes sociais. A leitura de manuais e as dicas de especialistas oferecem contribuições inestimáveis às práticas de redação. Não obstante, outro jeito eficiente para adquirir experiência em produção científica é observar a própria produção da área. Tendo como ponto de partida o formato de publicação que você quer desenvolver, busque os melhores exemplos do que foi elaborado no mundo acadêmico: se for uma resenha ou um artigo, procure os periódicos mais prestigiados; se for um livro, leia os premiados ou os consagrados como “clássicos”; e assim por diante...

 

Em aproximadamente dois anos de trabalho como assistente editorial da DADOS – Revista de Ciências Sociais, obtive como um dos legados o hábito de ler resumos de artigos, independente deles terem conteúdo diretamente relacionado ao meu tema de pesquisa ou não. Isso é bom por permitir o contato constante com estratégias eficientes de comunicação. Ademais, a rotina facilita a naturalização dos padrões aceitos em comunidades científicas. O caso da DADOS é exemplar pois consiste em um periódico com mais de 50 anos de tradição e avaliação excelente em um amplo escopo de áreas, tal como a Ciência Política e as Relações Internacionais, a Comunicação e Informação, o Direito, a Educação, a História, a Sociologia e a Demografia[2].

 

 

Dica n.3: atenção à repetição de palavras

 

Apesar de muito simples, essa sugestão toca em um dos principais problemas de textos acadêmicos, independente do nível de formação do autor. A repetição de palavras é favorecida pelo cansaço que as rotinas de produtividade em escrita podem gerar. Ao mesmo tempo, é uma das coisas mais perturbadoras à disposição de leitoras(es). Para quem tem contato com um texto pela primeira vez, perceber erros tolos como a recorrência de uma mesma palavra em frases e parágrafos é franco desestímulo ao término da apreciação do trabalho.

 

Existem algumas ferramentas na internet que avaliam repetições em pequenos trechos de texto e diversos editores de escrita (como o Word  ou o LibreOffice) oferecem um mecanismo de busca que permite verificar quantas vezes uma palavra aparece no corpo de um documento. Outra dica eficiente é deixar aberto o dicionário de sinônimos, assim você pode consultar palavras com significados similares e evitar o bloqueio de criatividade. Eu não conheço outros instrumentos de fácil acesso além desses. Entretanto, podemos sempre recorrer ao crivo dos próprios seres humanos: pedir a colegas de pesquisa uma revisão amigável, pagar um profissional ou retomar revisões individuais após breves descansos.

 

 

Dica n.4: cuidado redobrado com os pecados mais convencionais da escrita

 

Ainda que a formação de estudantes de humanas consista em extensivas atividades de leitura e escrita, não é raro que escolhas equivocadas continuem a se reproduzir: as crases fora do lugar, ou o excesso de voz passiva e gerúndio em textos científicos são indicadores comuns disso. Na menor sombra de dúvida, consulte o Google, volte aos manuais de redação acadêmica, observe novamente artigos da sua área e não se culpe. Escrever não é tarefa fácil e todos nós aprendemos diariamente.

 

Outro aspecto polêmico e que eu particularmente considero um pecado capital é a tentativa exacerbada de procurar diferenciação na escrita. A troca de palavras simples por termos rebuscados ou as frases extenuantes que exigem leituras repetitivas para entendimento são barreiras muito fortes ao prazer da leitura e à compreensão do conteúdo do texto. A comunidade acadêmica já é suficientemente isolada e o momento de comunicação de pesquisa é justamente a chance de superar um pouco essa condição.  

 

 

Dica n.5: abandone as torres de marfim (ou ao menos tente)

 

Melhorar a redação de documentos propriamente acadêmicos, conforme sugerido na Dica n.4, é relevante, mas não suficiente. Dentre as mais variadas percepções sobre o que deve ser o horizonte da comunicação científica, parece existir certo consenso que o alcance do trabalho dos pesquisadores é cada dia mais difícil de examinar. Ao mesmo tempo em que se expandem os veículos e os instrumentos de divulgação de textos, aumenta a frustração entoada na frase “escrevemos artigos que ninguém vai ler”, lugar comum nos círculos universitários. As novas características do sistema científico e dos meios de comunicação estruturam um ambiente de massiva e acelerada disponibilidade de publicações escritas, o que torna a atenção do público um êxito cada vez mais complicado de conquistar e profundamente afetado por desigualdades de recursos. 

 

No entanto, as dificuldades na criação de diálogos dentro e fora dos centros de ensino e pesquisa não nasceram hoje. Muitos críticos do conhecimento produzido em instituições de formação superior alegam que os acadêmicos escrevem exclusivamente de forma elitista e pouco acessível à população que não faz parte de comunidades profissionais especializadas. 

 

Não existe possibilidade de superação desses desafios se os cientistas sociais não abraçarem o dever de escrever também para o grande público. A redação de ensaios, resenhas e relatórios resumidos de pesquisas é substancial para fomentar a democratização dos resultados de grandes estudos. Assim como o uso inteligente das redes sociais enquanto suporte de divulgação. Mas mais que isso: escrever sucintamente sobre seu tema de pesquisa ajuda você a organizar suas ideias, contribui para que as pessoas próximas entendam melhor o que constitui seu trabalho (seus parentes podem parar de achar que você faz serviço social!), facilita as interações com acadêmicos de áreas correlatas e notabiliza a sua especialidade para os colegas de profissão.

 

 

Dica n.6: organize leituras críticas coletivas

 

A escrita é reconhecidamente uma atividade solitária. Há certo consenso sobre a noção de que o exercício da leitura e a prática contínua de redações melhoram a qualidade da produção textual de cada autor. Contudo, atribuir os êxitos de escritores apenas a qualidades e vocações individuais é ignorar uma extensa rede de aprendizado e interferências. Professores, amigos de profissão, editores e tantos outros sujeitos afetam direta ou indiretamente as condições de criatividade das pessoas. Uma das evidências fundamentais disso é que nem sempre conseguimos apreender nossos erros. Vícios de escrita são mais facilmente percebidos por leitores críticos.

 

A criação de grupos de leitura, o desenvolvimento de relações de confiança com amigas e a disposição de espaços institucionais para debate sobre projetos de pesquisa, artigos e livros é uma das melhores fontes de aperfeiçoamento de redação. Não hesite em compartilhar suas produções escritas com pessoas próximas. A crítica que você vai receber desses grupos é potencialmente mais atenciosa do que a do público geral. 

 

 

Dica n.7: entenda as normas de comunicação na academia, mas não se anule

 

O domínio das convenções de divulgação científica em seus diferentes formatos proporciona melhor circulação do conhecimento e ajuda a promover a ciência nos espaços públicos. Esse processo é imprescindível em tempos de crescente precarização das universidades públicas, perseguição a pesquisadores e desvalorização de professores. Não esqueça, entretanto, que nenhum manual do mundo te ensina aquilo que realmente move as novas descobertas e as transformações globais, aquilo que só o desfrute de liberdade intelectual, a curiosidade literária, as experiências vividas e as trocas coletivas proporcionam: o pensamento crítico. 

 

 

 

NOTAS

 

[1] Agradeço aos comentários e a leitura cuidadosa dos amigos Marcelo Borel e Simone Gomes. 

 

[2] Clássificação Qualis Periódicos – 2013-2016. Acesse aqui

 

 

 

Marcia Rangel Candido é  uma das editoras da Horizontes ao Sul. Atualmente é pesquisadora visitante no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge, contemplada no edital do PDSE da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). No Brasil, é vinculada ao Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (CAPES/Brasil-INCT) e doutoranda em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), sob orientação do professor João Feres Júnior. 

  

 

 

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