REAGINDO AO HORROR

1 Nov 2018

 

 

 

Estamos frente ao horror. Sem véus ou sombras, apenas nós mesmos diante do retorno daquilo que foi recalcado. Estamos sufocados pela nuvem tóxica que sai das ruínas da história. Dói imensamente ver o reino da injustiça prosperar. Essa dor, ocultada ou compartilhada, muitas vezes é convertida em melancolia, um combustível para a imobilidade. Como reagir frente ao horror? Como transformar a esperança em prática libertadora? 

 

O primeiro passo é recusar a normalização. Não nos adaptaremos, não nos acostumaremos, não banalizaremos. Irão tentar nos habituar, forçar a naturalização, mas o horror deve sempre nos indignar. A angústia que nos toma o peito quando nos deparamos com uma injustiça faz com que todos nós, viajantes solitários, possamos conviver ou invés de apenas viver. Ela é um toque especial de humanidade que nos lança a uma relação de troca não utilitarista com o outro. A perda disso é a perda do mais básico fundamento das relações afetivas.

 

Quando os gritos de revolta viram silêncio é porque o horror tornou-se regra. Revoltemo-nos! Se no céu há tempestade, sejamos nós os trovões. Só é possível alcançar a liberdade forjando uma força que rasga a história e germina o comum. Não se trata de mover grandes rochas, mas de domar o cotidiano pelos chifres e fazer do dia-a-dia um campo de batalha. Se a ordem tem um exército regular, devemos ser guerrilheiros. São eles que estão entrincheirados. Nós permaneceremos espreitando nas esquinas, atravessando as avenidas e dançando nas praças.  

 

Desobedientes e despudorados, assim seguiremos. Estamos sob duro ataque, portanto, temos o desafio de não permitir que o medo nos contenha. Transformá-lo em resistência é o que pode garantir a sobrevivência. Liberar nossas ações do domínio do medo é imprescindível para sonhar, lutar e vencer. Podemos abrir as portas para a esperança e desavergonhar nossa alegria, mesmo realizando que nos próximos anos quase nada será flores. Para tal, precisamos estar preparados para nos despir da esperança que cega e nos deixar envolver pela esperança que move.     

 

Tempos de crise nos exige coragem, força e reinvenção. Tão somente através da criatividade é que faremos nascer a liberdade. A repetição é uma poderosa arma de disciplinamento que só pode ser combatida com a crítica das práticas cotidianas e a recusa do hábito. A crítica é o meio pelo qual é possível implodir o muro que está em processo avançado de edificação. Por isso, faz-se necessário abrirmos novas rotas, construirmos pontes e túneis para atravessarmos este deserto rumo ao contingente destino sonhado e assim fazer um presente que nos dará melhores condições de, no futuro, fazer um outro presente e assim por diante.

 

Não podemos cair na tentação de nos amarmos demasiadamente. Não somos especiais. Muita gente viveu tempos bem piores. Somos vítimas, não coitados. Nós, latino-americanos, tomamos café amargo para não esquecer de como a vida é. "Caiu, levantou”, dizia o professor para as crianças, quando, por algum motivo, tropeçavam durante a prática esportiva. O derrotismo nunca levou ninguém a lugar nenhum. A cada tropeço cairemos melhor e levantaremos mais rápido, até que, enfim, conseguiremos voar. E então riremos daqueles que, como o bispo de Ulm, desdenharam de nós, quando um dia sonhamos tomar o céu de assalto.

 

Por fim, cuidemo-nos. A cada dia mais o perigo é o guarda da esquina, o homem bêbado, o vizinho armado, o arrogante togado. Sabemos bem para quem trabalham. Tiros, carteiradas e mandatos tentarão nos deter. Se até mesmo alguns privilegiados sofrerão no país dos privilégios, imaginem só qual será a sina dos massacrados de sempre. O que jamais podemos esquecer é que se o outro lado é forte, nós também somos; se eles têm punhos de ferro, nós temos gargantas de aço e corações de ouro. Nossa contra-marcha será longa e dolorosa, mas ao fim, venceremos.    

 

 

Rafael Rezende é editor associado da Horizontes ao Sul. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL).

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload