PIONEIRAS: NOVOS TEMAS, ESPAÇOS E CULTURAS - UM BREVE COMENTÁRIO SOBRE A OBRA DE MARIA MARGARET LOPE


Em 2018 completaram-se 21 anos da publicação do livro – O Brasil Descobre a Pesquisa Científica – os museus e as ciências naturais no século XIX (Editora Hucitec, 1997), de Maria Margaret Lopes. Reeditado em 2009, o livro destacou a importância dos museus de história natural na consolidação e no desenvolvimento de práticas científicas no país. Até então, a visão mais comum entre os historiadores das ciências no Brasil caracterizava a atuação dessas instituições como algo que teria “antecedido” a ciência moderna, que só viria a se consolidar com a criação das primeiras universidades, a partir dos anos 1930. Embora esses registros historiográficos constituam fontes de informação imprescindíveis para a história das ciências no país, falharam em não considerar os contextos locais de produção das ciências e suas especificidades, além de todo um movimento em torno dos museus de história natural.

Esse livro foi fruto da tese de doutorado defendida pela Professora Margaret Lopes no Departamento de História Social da Universidade de São Paulo (USP) em 1993. Margaret Lopes fez sua graduação em Geologia e o mestrado em Educação, ambos também pela USP, e essa formação interdisciplinar contribuiu com sua habilidade em articular temas originais de pesquisa, voltando olhares para espaços não formais de educação e temáticas como a participação das mulheres nas ciências, os estudos de gênero e ciências, museologia, história da paleontologia e das ciências de forma geral no Brasil.

Nos anos em que atuou como professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trabalhou em uma linha de pesquisa voltada à história e ao ensino de ciências e se articulou com grupos como o Pagu - Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp, do qual foi coordenadora entre os anos de 2000 e 2004. Foi também diretora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), no Rio de Janeiro, e assessora da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres da Presidência da República, além da consolidação de inúmeros projetos de pesquisa. Hoje aposentada da Unicamp, continua atuando como pesquisadora colaboradora no Pagu, no Programa de Ciências da Informação da UNB, e no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Museologia da USP, abrindo caminhos de pesquisa diversos.

Em seu livro, mencionado acima, discute a institucionalização das Ciências Naturais no Brasil que se deu, segundo sua argumentação, no século XIX, com base na prática dos Museus de História Natural, locais privilegiados para o entendimento do que foi esse processo. A ênfase do livro está na história do Museu Nacional do Rio de Janeiro, criado oficialmente em 1818 por incentivo da família real portuguesa a partir da antiga “Casa de História Natural”, popularmente conhecida como “Casa dos Pássaros”, que remete ao ano de 1784 e que por mais de 20 anos foi responsável pelo colecionamento e preparo de produtos naturais e objetos indígenas para enviar a Lisboa. Na época da fundação do museu, juntaram-se às coleções de peles de animais da Casa dos Pássaros, assim conhecida pelas aves empalhadas que compunham seu acervo, uma coleção de minerais raros conhecida como “Coleção Werner” trazida pela família real. O Museu Nacional do Rio de Janeiro foi por praticamente um século uma das poucas e a principal instituição brasileira dedicada primordialmente às Ciências Naturais.

Lopes analisou desde as primeiras décadas de atuação do Museu Nacional, até o período em que a instituição foi dirigida pelo botânico Ladislau de Souza Mello Netto, entre 1876 e 1893, considerado a época de ouro do museu com atividades de reorganização de laboratórios, publicações de inúmeros artigos no periódico da instituição – Arquivos do Museu Nacional, coordenação de cursos livres, provimento de concursos públicos para a contratação de naturalistas, organização de exposições e, claro, reunião de variadas coleções.

Utilizando ferramentas metodológicas da história social e enfatizando assim o caráter social das ciências, ou seja, a participação das pessoas e a influência dos grupos na construção das instituições científicas e no conhecimento que é produzido, Lopes abordou também a criação, ainda no século XIX, do Museu Paraense Emílio Goeldi (1866), do Museu Paulista (1894), do Museu Paranaense (1876) e do Museu Botânico do Amazonas (1883), sendo este último o único já extinto. Todos os outros mantêm atividades de pesquisa, catalogação, divulgação e educação até os dias de hoje. Nomeou esse movimento de proliferação dos museus no Brasil de “movimento dos museus”, caracterizando assim uma forma específica de se produzir conhecimento e de se articular relações sociais. Analisou esse processo como fruto da consolidação de diferentes elites locais e de iniciativas científicas regionais desencadeadas por um surto de desenvolvimento material no país no final do século XIX, que incorporou a valorização da ciência como prática concreta e como instituição social necessária na remodelação da imagem do país.

Apoiada nessas novas posturas metodológicas que construíram um entendimento mais amplo da História das Ciências, considerando-a inseparável de seu caráter humano, e também em uma ampla análise documental e de fontes coletadas nessas instituições, a tese da autora é essencialmente a negação da visão de que não havia produção científica no Brasil até o início do século XX, ou de que as atividades existentes eram “pré-científicas”.

Relembrar essa obra se faz extremamente significativo nesse momento em que testemunhamos a perda da maior parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro no trágico incêndio que atingiu a instituição no dia 02 de setembro de 2018. Esses espaços institucionais constituídos no século XIX, com o fim primordial de armazenar coleções e permitir o desenvolvimento de estudos sistemáticos, testemunharam que não só existiu atividade científica no Brasil naquele período, como também mantiveram vivos registros sobre a quantidade, a qualidade e continuidade dessas manifestações. O Museu Nacional abrigava inúmeras e antigas coleções de botânica, zoologia, mineralogia, etnologia, arqueologia, possuía um acervo linguístico, documental e bibliográfico imenso formado ao longo de 200 anos de funcionamento da instituição e reunido a partir do trabalho dedicado de inúmeros pesquisadores e pesquisadoras brasileiros, de expedições estrangeiras que se articularam com os representantes do museu para tornar possíveis suas viagens de pesquisa, e mantido através do trabalho árduo de técnicos e técnicas, estudantes e funcionários que dedicaram anos de trabalho a manter aquela instituição viva. Tal perda é irreparável, e livros como o de Margaret Lopes constituem agora os registros documentais que nos garantirão a possibilidade de retomar parte desses dados na formulação de novos estudos, pesquisas e reflexões sobre as inúmeras atividades científicas desenvolvidas no museu, sobre a diversidade dessas práticas, das coleções ali reunidas, e sobre as pessoas que deram vida a esse museu.

Além de seu trabalho sobre os museus do século XIX, Margaret Lopes fez-se presente no campo de estudos sobre questões contemporâneas da museologia do país, área na qual destaco seu artigo intitulado A Favor da Desescolarização dos Museus, publicado na revista Educação & Sociedade (n.40), em 1991, que teve grande repercussão nos estudos de museologia no país. Nesse artigo, que também já completa 17 anos de publicação, Lopes chamou a atenção para as atividades educativas dentro dos museus, argumentando que esses espaços carregam um potencial totalmente diverso da realidade escolar e por isso são propícios a outras formas de abordagem e relação com a cultura. Lembrando que grande parte do público em museus no Brasil é de grupos escolares, criticou a prática remanescente nessas instituições, inspirada ainda em modelos antigos do início do século XX, de simplesmente transpor metodologias e práticas do ensino escolar para o interior dos museus.

Apoiando-se na bibliografia da área, argumentou a favor do conceito de “animação conscientizante”, consistindo este em propostas de ações comunitárias, voltadas à transformação cultural e social através do incentivo à participação ativa e à criatividade dos usuários. Apontou a dificuldade entre profissionais da área em compreender que a proposta do museu pode ser diferente da proposta da escola, levando em conta que esses espaços baseiam-se fundamentalmente na linguagem visual e não verbal, sendo possível que as pessoas, por escolha própria de quais museus visitar, quais trajetos seguir, quanto tempo dedicar ou quais temas privilegiar, entrem em contato com leituras da realidade muitas vezes diferentes das veiculadas pela instituição escolar.

Essas renovações no pensamento museológico retratadas no texto de Maria Margaret Lopes foram capazes de estimular a importância em encarar os serviços educacionais dos museus a partir de novas perspectivas, destacando a necessária interdisciplinaridade na pesquisa sobre o objeto museológico e as diversas possibilidades desses espaços em contribuírem com o processo de formação cultural das pessoas a partir de novos modelos.

Além do campo de estudos sobre museus e museologia, Lopes foi também uma das precursoras dos estudos de gênero e ciências no Brasil. Essa linha de pesquisa, caracterizada por analisar a influência das divisões sociais e papéis de gênero na construção de práticas, instituições e discursos científicos, era ainda incipiente no Brasil nos anos 1990. Foi no primeiro número dedicado ao tema da revista Cadernos Pagu (10) – Gênero, Tecnologia e Ciência, em 1998, que Margaret Lopes publicou um artigo no qual fez uma revisão bibliográfica do campo de estudos, enfatizando a extensa discussão travada sobre o assunto especialmente na literatura norte-americana e analisando a obra de importantes referências do campo (“Aventureiras” nas ciências – Refletindo sobre gênero e História das Ciências no Brasil). Demonstrou a partir daí como teorias feministas vêm tentando superar pontos de vista dicotômicos no entendimento das ciências, contrapondo-se à oposição estrita entre objetividade e subjetividade que por muito tempo manteve as mulheres afastadas dessas práticas, seja por estereótipos, forma de organização das instituições ou segregação de tudo que era tido como feminino desses ambientes de produção de conhecimento.

No decorrer dos anos 2000, Lopes organizaria ainda mais três dossiês da revista do Pagu abordando essa temática, Cadernos Pagu (15) – Genero, ciências e história (2000), Cadernos Pagu (27) – Ciência, substantivo feminino, plural (2006), e o último em 2016/2017, o qual tive o prazer de ajuda-la a organizar, Cadernos Pagu (48/49) – Dossiê Gênero e Ciências: Histórias e Políticas no Contexto Iberoamericano. Os artigos reunidos nesses números englobaram desde discussões teóricas sobre as marcas de gênero na produção e epistemologia das ciências, passando por estudos sobre trajetórias de mulheres cientistas, reunião de indicadores sobre a participação feminina nas ciências, estudos historiográficos, antropológicos, filosóficos, sociológicos, todos abordando essa temática. Coordenou também no Pagu um projeto de pesquisa sobre a naturalista e militante feminista Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976), que trabalhou por 45 anos nas seções de zoologia e botânica do Museu Nacional do Rio de Janeiro, unindo assim seus principais campos de estudo: gênero, história das ciências e museologia.

Em meio a todo esse trabalho, incentivou e orientou inúmeras pesquisas e estimulou o crescimento desses campos de estudo, consolidando-se como uma referência importante em todas essas vertentes de pesquisa no Brasil. Pra quem quiser se aventurar pelos temas da história dos museus no país, dos estudos de museologia, das análises sobre gênero e ciências e trajetórias de mulheres cientistas, a obra de Maria Margaret Lopes é referência fundamental.

Mariana Sombrio é historiadora e trabalha atualmente como pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Museologia da Universidade de São Paulo (PPGMus - USP), onde desenvolve atividades de pesquisa e docência nas áreas de História das Ciências no Brasil, Estudos de Gênero e Ciências, Trajetórias de Mulheres Cientistas e Museologia, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Contato: marisombrio@gmail.com

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

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