PIONEIROS: POR QUE LUIZ DE AGUIAR COSTA PINTO?

 

 

 

A importância de Luiz de Aguiar Costa Pinto na sociologia brasileira e latino-americana talvez só seja equiparada ao relativo desconhecimento que envolve sua obra nos dias atuais, mesmo na cidade onde residiu e trabalhou durante parte significativa de sua vida – o Rio de Janeiro.

 

Nascido em Salvador, no seio de uma importante família baiana, Costa Pinto escreveu inúmeros livros, entre os quais trabalhos fundamentais sobre estratificação e raça (O Negro no Rio de Janeiro, 1953), problemas da modernização (Recôncavo: laboratório de uma experiência humana) e teorias do desenvolvimento (Sociologia e Desenvolvimento, 1963; Desenvolvimento Econômico e Transição Social, 1967), além de dezenas de artigos e papers. Alguns dos principais artigos do autor são peças substanciais no debate intelectual que forjou a sociologia brasileira, como o hoje clássico “Sociologia e Mudança Social”, publicado originalmente em 1947 nas páginas da Revista Sociologia.

 

A trajetória de Costa Pinto perpassou instituições fundamentais para a construção institucional das Ciências Sociais no Brasil, na América Latina e no mundo. Aluno da primeira turma de Ciências Sociais da Universidade do Brasil – atual Universidade Federal do Rio de Janeiro -, ingressou na graduação em 1939, formou-se em 1942, e rapidamente ascendeu ao quadro docente (primeiro como Professor Assistente em 1944 e depois como Livre Docente em 1947). Foi também coordenador da divisão de pesquisa do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) entre 1952 e 1954, instituição na qual outros cientistas de destaque, como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, procuravam pensar uma ciência social pública e relevante para o país. Em 1957, Costa Pinto tornou-se Diretor do Centro Latino-Americano de Pesquisa em Ciências Sociais (CLAPCS), iniciativa criada pela UNESCO com o objetivo de fomentar investigações em âmbito continental. Sob sua liderança, o CLAPCS iniciou programas de pesquisa comparada, organizou uma biblioteca, editou uma revista (América Latina), fomentou intercâmbios internacionais e contribuiu para a profissionalização do trabalho sociológico. Em 1959, o CLAPCS organizou o seminário “Resistências à Mudança”, que reuniu a nata da ciência social latino-americana em torno de debates sobre os problemas do desenvolvimento.

 

Muitos livros e projetos de Costa Pinto foram fruto dessa intensa circulação internacional. Em 1949, por exemplo, o sociólogo participou do Comitê de Especialistas da UNESCO sobre relações raciais, que incentivou um conjunto de pesquisas que tomaram o Brasil como laboratório, sendo conhecidas pelo nome de “Projeto UNESCO”. O seu clássico livro O Negro no Rio de Janeiro ocupa posição singular nesse conjunto. Ao analisar o processo de proletarização do negro na cidade do Rio de Janeiro, Costa Pinto demonstrou que os mecanismos de discriminação racial não eram sobrevivências da escravidão, mas ajustamentos contemporâneos que surgiam em resposta a processos de modernização estruturais que alteravam a estratificação social. Essa hipótese inovadora destoava tanto dos estudos de corte antropológico que enfatizavam a questão da “assimilação cultural” dos negros no Brasil como dos achados de Florestan Fernandes que seriam posteriormente consolidados no seu conhecido A Integração do Negro na Sociedade de Classes.

 

Em obras posteriores, Costa Pinto pôde trabalhar mais detidamente as particularidades do processo de desenvolvimento em países periféricos. Veja-se o caso do livro Recôncavo, publicado pelo autor em 1958, e de Sociologia e Desenvolvimento, de 1963. Nessas duas obras, Costa Pinto constrói uma teoria do desenvolvimento das sociedades periféricas. Segundo o autor, ao contrário do que ocorria nos países centrais, como Estados Unidos e Inglaterra, nos quais a mobilidade social de novas camadas se dava dentro de um sistema de posições sociais que se mantinha constante, nesses países novos os processos de mobilidade se davam ao mesmo tempo em que o sistema de posições se alterava de modo abrupto e veloz. Para complicar a situação, nos países periféricos os valores e as instituições políticas não necessariamente acompanhavam o processo de modernização econômica, o que produzia a convivência entre escalas de valores e orientações díspares e contraditórias. Essas tensões eram tidas por Costa Pinto como elementos constitutivos do desenvolvimento periférico, que não seguia o caminho linear tal como verificado nos países centrais.

 

Até o golpe de 1964, Costa Pinto realizou seu projeto intelectual em constante diálogo internacional, mas morando e trabalhando no Brasil, embora mantivesse rotina constante de viagens. O autoritarismo reinante o leva a uma peregrinação forçada por diversas universidades norte-americanas, nas quais ocupa posto de professor visitante. Mesmo assim, continua produzindo. O também clássico livro Desenvolvimento Econômico e Transição Social é publicado pela primeira vez em 1967, ganhando tradução em língua espanhola logo em 1969. Nessa obra, produzida a partir de conferências realizadas em 1964 e 1965, Costa Pinto esclarece as diferenças entre “desenvolvimento” (processo global de transição social, que incorpora uma dimensão planejada e racional de mudança) e “modernização” (processo de transformação na estrutura econômica e produtiva, mas sem que haja alterações nos padrões globais de educação, cultura e política). A percepção de que era perfeitamente possível aos países periféricos passarem por processos modernizadores que não implicavam “desenvolvimento” estava em linha com o que havia de mais original na produção sociológica latino-americana de sua época.

 

Nos anos de 1970, Costa Pinto continua a publicar sobre desenvolvimento, mas agora com o olhar voltado para a militarização das sociedades latino-americanas e as possibilidades de democratização do continente. Após um périplo por diferentes postos temporários, em 1976 logra obter uma posição permanente numa instituição do Hemisfério Norte: a Universidade de Waterloo, no Canadá, onde se estabelece até sua aposentadoria, no ano de 1985.

 

Finalmente, em 1989, cinquenta anos após o início do curso de Ciências Sociais da Universidade do Brasil, Luiz de Aguiar Costa Pinto retorna a sua instituição de origem (agora nomeada Universidade Federal do Rio de Janeiro) para receber o título de professor emérito. Embora tardio, o reconhecimento ainda em vida veio coroar a trajetória de um dos mais importantes e criativos sociólogos brasileiros. Desde então, teses e livros foram lançados para analisar essa rica trajetória, destacando-se a coletânea Ideais de Modernidade e Sociologia no Brasil: ensaios sobre Luiz de Aguiar Cota Pinto, editada por Gláucia Villas-Bôas e Marco Chor Maio e publicada pela editora da UFRGS em 1999. Costa Pinto viria a falecer poucos anos depois, em 2002, no Canadá.

 

 

O que ler para conhecer:

 

BRASIL JR, Antonio. (2012). “As ciências sociais no Brasil: estudo realizado para a Capes por L. A. Costa Pinto e Edison Carneiro”. Sociologia e Antropologia, v.02.03, p. 269-278. Disponível aqui.

 

VILLAS BÔAS, Glaucia. (2005). “Por que rever mais uma vez o conceito de marginalidade estrutural de L. de A. Costa Pinto”. Perspectiva – Revista de Ciências Sociais, v. 28, p. 79-103. Disponível aqui.  

 

MAIO, Marcos Chor; VILLAS BÔAS, Glaucia (Org.). (1999). Ideais de modernidade e sociologia no Brasil: ensaios sobre Luiz de Aguiar Costa Pinto. Porto Alegre, UFRGS, p. 125-144.

 

MAIO, Marcos Chor. (1997) “Uma Polêmica Esquecida: Costa Pinto, Guerreiro Ramos e o Tema das Relações Raciais”. DADOS – Revista de Ciências Sociais, v.40, n.1. Disponível aqui

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

PINTO, Luiz de Aguiar Costa. (1953). O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança. São Paulo: Ed. Nacional.

 

______________. (1958). Recôncavo: laboratório de uma experiência humana. Rio de Janeiro: CLAPCS.

 

______________. (1963). Sociologia e desenvolvimento: temas e problemas de nosso tempo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

 

______________. (1967). Desenvolvimento econômico e transição social. Rio de Janeiro: Instituto de Ciências Sociais.

 

______________. (1947). “Sociologia e Mudança Social”. Sociologia, São Paulo, v. 9, n 4, p. 287-331.

 

 

 

 

João Marcelo Ehlert Maia é professor associado do CPDOC/ Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas-RJ.

Contato: joao.maia@fgv.br

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

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