PIONEIRAS: UM ESTUDO SOBRE A CIÊNCIA POLÍTICA NO BRASIL POR MICHETTI E KERBAUY

6 Aug 2018

 

 

Créditos da Imagem: Hyuro

 

 

 

A Ciência Política costuma ser aludida no Brasil – e em outros cantos do mundo - como a mais masculina das grandes áreas das Ciências Sociais. Diversos indícios empíricos contribuem para essa percepção comum: pertencem a homens, por exemplo, a proporção majoritária de artigos publicados em periódicos acadêmicos, a composição predominante dos quadros docentes de instituições de pós-graduação e a atribuição frequente de créditos como referências fundacionais[1]. A presença minoritária de mulheres não redunda, contudo, em ausência de relevância dos trabalhos que elas elaboram. Partindo desta constatação, este ensaio pretende ressaltar a contribuição pioneira de um projeto de pesquisa de Heloisa Michetti e Maria Teresa Kerbauy, intelectuais que, ao final da década de 1960, buscaram refletir sobre as possibilidades de desenvolvimento da Ciência Política em contexto nacional[2].

 

O texto A Situação do Ensino e Pesquisa de Ciência Política no Brasil foi divulgado em 1969 na Revista de Ciência Política, periódico vinculado ao Instituto de Direito Público e Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas[3]. Fruto de trabalho iniciado dois anos antes, o artigo é interessante por motivos que, logicamente, excedem o gênero de suas autoras, e se baseia na formulação de questionários enviados às pessoas envolvidas em docência ou projetos de investigação com ênfase na política.

 

A produção do estudo foi motivada pela criação da Associação Brasileira de Ciência Política, mas não a que conhecemos nos dias atuais[4]. É uma experiência pregressa, escassamente mencionada inclusive pelos especialistas na história da disciplina no país e na América Latina. Pouco se sabe sobre a tentativa de formalizar a primeira rede de profissionais da área em território nacional. É dessa reunião, entretanto, que surge a iniciativa do levantamento coordenado por Michetti e Kerbauy, cujo o objetivo era tanto desvendar o incipiente campo científico da política, como contribuir para a difusão de conexões intelectuais entre as/os entusiastas/os de todos os cantos e regiões.

 

É comum que análises sobre determinadas áreas do conhecimento se proliferem quando suas respectivas comunidades científicas alcançam maior extensão e consolidação. A existência de centros de ensino, revistas especializadas e associações profissionais são alguns dos principais fatores estruturais que favorecem o surgimento de trabalhos desse porte. Michetti e Kerbauy, no entanto, escreveram antes da presença de uma “conjuntura favorável”, quando não existiam instituições de pós-graduação em Ciência Política no contexto brasileiro[5]. O desafio expresso na pesquisa era, nesse sentido, apreender em quais outras áreas de formação a disciplina começava a emergir. Na virada à década de 1970, as autoras chamavam atenção ao fato de que:

 

 

...em alguns centros há muitos cientistas trabalhando, ou no ensino, ou desenvolvendo pesquisas de real valor, o que sem dúvida alguma contribuirá para que a Ciência Política no Brasil alcance um estágio superior de desenvolvimento (1969: p.106).

 

 

O mais importante fator a ressaltar no escrito da dupla, por sua vez, diz respeito às inovações de abrangência em dados considerados em uma pesquisa sobre o universo da Ciência Política. Embora o artigo padeça de limitações contundentes – uma delas é a pequena parcela de respondentes dos questionários realizados e, portanto, a baixa relevância estatística dos resultados -, os três eixos em torno dos quais se constitui – formação universitária, ensino e pesquisa -, exploram uma diversidade de variáveis que é pouco recorrente em estudos prévios ou recentes. Leituras de textos do passado muitas vezes são mais enriquecedoras pelos caminhos que nos ensinam, do que necessariamente pelos resultados que expressam.

 

O conjunto de observações de Michetti e Kerbauy desafia pesquisadoras/es contemporâneas a elaborar trabalhos empíricos sobre disciplinas acadêmicas a partir de questões aos quadros docentes tão diversas como gênero, faixa-etária, local de residência e de conclusão do ensino superior, área de formação e tempo gasto, iniciativas de especialização complementar, concessão de bolsas de pesquisa nacionais ou internacionais, tipo de curso que lecionam, autores abordados como referências bibliográficas, quantidade de estudantes e horas aula, estágio de progressão de carreira, temas, lugar de desenvolvimento e duração de pesquisas, tipos, datas e formatos de publicação (livros, artigos, resenhas e ensaios), participação em congressos, dentre outros.

 

Este pequeno grande projeto iniciado em 1967 formulou indagações que possibilitavam conjugar temas como as desigualdades de gênero, a mobilidade científica, a internacionalização, a produção e circulação do conhecimento etc. Ainda que fracos, os resultados apontam, por exemplo, para o papel histórico de duas revistas especializadas que existiam na época e são um tanto esquecidas – a Revista de Ciência Política e a Revista Brasileira de Estudos Políticos, da Universidade Federal de Minas Gerais. No que toca às respostas de entrevistados sobre as referências ensinadas – divididas entre estrangeiras e nacionais -, é especialmente interessante verificar a presença de uma mulher: Maria Isaura Pereira de Queiroz, autora de Mandonismo Local na Vida Política.

 

A institucionalização da Ciência Política no Brasil nasceu e ganhou força em um dos períodos mais violentos da história do país. Enquanto a ditadura assombrava militantes e censurava reflexões intelectuais, as universidades públicas recebiam investimentos e distintas fundações estrangeiras fomentavam o desenvolvimento de disciplinas acadêmicas – com intuitos escusos ou não. Em tempos de crise política, fraturas na democracia, prisões controversas e futuros incertos, reflexões sobre a ciência – e principalmente sua função pública - seguem sendo impositivas. Revisitar o texto de Michetti e Kerbauy nos defronta com agendas transformadas, mas persistência de velhos impasses: qual grau de diversidade existe no campo intelectual? Quais são os temas de atenção da Ciência Política? Qual o futuro da disciplina? Quais desafios precisamos responder?

 

Informações sobre o passado e inspiração para desenhos de pesquisa são as duas contribuições mais explícitas do texto de 1969. Existe, ainda, uma instigante inconsistência que paira no ar: tendo escrito em período chave e proposto um recorte vasto de mapeamento inicial da Ciência Política, por que essas duas autoras não são citações mais usuais nos estudos – cada vez mais rotineiros no país – sobre a área? Michetti e Kerbauy não podiam imaginar, mas o alcance de um referido “estágio superior de desenvolvimento” da Ciência Política, ainda não significou abarcar a valorização igualitária do conhecimento produzido por homens e mulheres.

 

Apesar de Heloisa não ter seguido carreira acadêmica, tal como Maria Teresa,  hoje docente na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e na Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (UNESP), ambas fizeram parte de uma geração que almejou e, consequentemente, contribuiu à formalização da Ciência Política brasileira como uma área autônoma. Naquele tempo, no qual a observação do perfil de “gênero” de uma comunidade científica em ascensão era corajosa e rara, as duas marcaram um passo pioneiro.

 

Em 2018, todavia, não existem mais justificativas para tratar esse tipo de categoria analítica como um aspecto esporádico e desvalorizado. E muito menos para esquecer contribuições originais de grupos constantemente marginalizados. A inserção de mulheres no ensino superior, a crescente presença de movimentos sociais dentro das universidades e, no caso brasileiro, a posse da primeira acadêmica (feminista!) ao cargo de presidência da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) - Flávia Biroli -, são fatores que instigam e propiciam a confrontação das relações assimétricas e injustas entre sujeitos socialmente construídos. A Ciência Política também foi escrita no feminino e é essa memória que ainda precisamos revisitar.

 

 

 

Para conhecer o artigo completo, acesse: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rcp/article/view/59038/57505

 

 

 

NOTAS

 

[1] Para dados sobre as desigualdades de gênero na América Latina consulte Carpiuc (2016). Em relação à proporção de homens e mulheres nos quadros docentes de pós-graduação, o Observatório das Ciências Sociais (OCS), núcleo de pesquisa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, do qual faço parte, divulgará em breve um relatório que foi apresentado no XI Congresso da ABCP. Por fim, no que toca aos principais fundadores, a trajetória de Wanderley Guilherme dos Santos na Ciência Política brasileira é digna de menção. Um indício empírico de sua produtividade e notoriedade no campo pode ser verificado no artigo de Campos, Feres e Guarnieri, (2017), no qual WGS aparece como o autor com maior número de publicações na mais importante revista de Ciências Sociais do país (DADOS – Revista de Ciências Sociais). Além disso, ele também é o mais citado ao longo dos cinquenta anos de funcionamento e excelência do periódico.

 

[2] Quando publicou o artigo, o sobrenome de Maria Teresa Kerbauy era Miceli. Ver nas referências.

 

[3] Antes de 1967 a publicação se chamava Revista de Direito Público e Ciência Política. Essa alteração é sugestiva do interesse da instituição em formalizar a Ciência Política como um campo autônomo em relação ao Direito, movimento comum em diferentes processos de consolidação da área.

 

[4] A Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) que está em pleno funcionamento foi criada em 1986. Para conhecer mais sobre a instituição acesse: www.cienciapolitica.org.br/institucional

 

[5] Não existe consenso sobre a data de criação da primeira pós-graduação em Ciência Política no país. Exemplos desse conflito são as informações sobre o departamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): alguns autores dizem 1965 (Amorim Neto e Santos, 2005), o site da instituição e outros trabalhos afirmam 1966 (Bulcouf, Marquez e Carzodo, 2014), 1967 (Forjaz, 1997) ou 1969 (Leite, 2010; Barrientos del Monte, 2013; Lynch, 2016). Este texto optou por levar em consideração a delimitação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), principal instituição pública de consolidação da pós-graduação no Brasil.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMORIM NETO, Octavio. SANTOS, Fabiano. (2005), “La ciencia política en Brasil: el desafío de la expansión". Revista de Ciencia Política, v. 25, n. 1, pp. 101-10. 

 

BARRIENTOS DEL MONTE, Fernando. (2013), “La Ciencia Política en América Latina. Una breve introducción histórica”. Revista de Ciencias Sociales, v.20, n.61, pp. 105-133.


BULCOURF, Pablo. MARQUEZ, Enrique. CARDOZO, Nelson. (2014), “El desarrollo de la ciencia política en Argentina, Brasil y México: construyendo una mirada comparada". Anuario Latinoamericano Ciencias Políticas y Relaciones Internacionales, v. 1, pp. 155-184.


CAMPOS, Luiz Augusto. FERES, João. GUARNIERI, Fernando. (2017), “50 Anos da Revista DADOS: Uma Análise Bibliométrica do seu Perfil Disciplinar e Temático”. DADOS – Revista de Ciências Sociais, v.60, n.3, pp.623-661.


CARPIUC, Cecília. (2016), “Women and diversity in latin american political science”. European Political Science


FORJAZ, Maria Cecília. (1997), “A Emergência da Ciência Política no Brasil: aspectos institucionais”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.12, n.35. 


LEITE, Fernando. (2010), “Posições e Divisões na Ciência Política Brasileira Contemporânea: explicando sua produção acadêmica”. Revista Sociologia e Política, v.18, n.37, p.149-182.


LYNCH, Christian Edward. (2016), “Cartografia do pensamento político brasileiro: conceito, história, abordagens”. Revista Brasileira de Ciência Política, n.19, pp. 75-119.


MICHETTI, Heloísa Helena. MICELI, Maria Teresa. (1969), “A Situação do Ensino e Pesquisa de Ciência Política no Brasil”. Revista de Ciência Política, v.2, n.4, pp. 89-110.
 

 

 

 

Marcia Rangel Candido é uma das editoras da Horizontes ao Sul. Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação – INCT. Este ensaio é fruto de pesquisas para sua tese de doutorado, que estuda as relações de gênero e o desenvolvimento da Ciência Política em países centrais e periféricos, sob orientação de João Feres Júnior e coorientação de Fernanda Beigel.

 

 

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload