PIONEIRAS DA CIÊNCIA POLÍTICA: POR QUE MARIA REGINA SOARES DE LIMA?

24 Jul 2018

 

 

Qualquer estudante de cursos na área das Ciências Sociais que tenha alguma disciplina sobre política internacional irá se deparar com uma referência obrigatória. Para além dos tradicionais Hans Morgenthau, Edward Carr e Joseph Nye, destaca-se uma autora brasileira, que dedicou sua vida e obra ao estudo das relações internacionais do país. Durante as últimas décadas, sobretudo com a ampliação dos cursos de Ciência Política e Relações Internacionais no Brasil, não há um professor que não tenha passado por suas mãos, ou um aluno que não tenha lido a obra de Maria Regina Soares de Lima.

 

Como profissional, Maria Regina deu aula em grandes universidades brasileiras, como a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), local no qual ainda exerce a docência. Ao lecionar disciplinas como Política Externa Brasileira e Teoria de Relações Internacionais, influenciou muitas gerações de professores/as, que aprenderam a fazer ciência com sua objetividade e rigor metodológico. Para além da sala de aula, foram mais de 100 dissertações e teses orientadas, bem como participação em bancas no Brasil e no exterior. Maria Regina também foi de bancas do Instituto Rio Branco, o que indica seu papel na formação do corpo diplomático brasileiro. O reconhecimento veio pela premiação da Medalha do Mérito da Defesa Nacional, concedida pelo Ministério da Defesa, em 2013.

 

Após ter feito o doutorado na Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, na década de 1980, Maria Regina voltou ao país e repartiu com a comunidade epistêmica brasileira todo o conhecimento adquirido. Publicou diversos artigos e capítulos sobre política externa brasileira, instituições internacionais e integração regional. Sobre esse último tema, dedicou-se à criação de um grupo de pesquisa que analisasse a cooperação com os nossos vizinhos imediatos na América do Sul: dessa iniciativa, surgiu há 15 anos o Observatório Político Sul-Americano, grupo que rapidamente tornou-se referência no assunto.

 

Para além da profissional irretocável, o pioneirismo de Maria Regina também deve ser relacionado com o aspecto pessoal. Em um campo masculinizado e eurocêntrico, Maria Regina abriu portas para muitas pesquisadoras latino-americanas, que passaram a acreditar que era possível superar as barreiras por meio de seu exemplo. Tal inspiração também fica clara pelo comprometimento que Maria Regina demonstra com a formação dos alunos enquanto cidadãos. Uma boa tese está, para ela, conectada ao bem-estar de cada um. A mesma sensibilidade demonstrada para escolher as palavras de seus artigos está presente no tratamento horizontal e sensível que tem com seus alunos (as) e orientandos (as). Por isso, este texto prefere fazer referência à Maria Regina e não à Soares de Lima. Sobrenomes nem sempre deixam em evidência o lado humano da autoria e, muito menos, o seu gênero.

 

Dentro da lógica competitiva e produtivista que tomou conta da carreira acadêmica, é um sopro de esperança encontrar profissionais que são, antes de tudo, boas pessoas. Por isso, a principal resposta à questão “por que Maria Regina Soares de Lima?” é que todos devem ter um pouco dela em suas vidas.

 

 

O que ler para conhecer:

 

LIMA, Maria Regina Soares. A Economia Política da Política Externa Brasileira: Uma Proposta de Analise. Contexto Internacional, v. 6, n.12, p. 7-28, 1990.

 

______________________. Teses Equivocadas Sobre A Ordem Mundial Pós-Guerra Fria. DADOS - Revista de Ciências Sociais, v. 39, n.3, p. 393-420, 1996.

 

______________________. Instituições democráticas e política exterior. Contexto Internacional, v. 22, n.2, p. 265-303, 2000.

 

______________________. A Política Externa Brasileira e os Desafios da Cooperação Sul-Sul. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 48, n. 1, p. 24-59, 2005.

 

 

 

Marianna Albuquerque é professora do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF), doutoranda em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) e coordenadora adjunta do Observatório Político Sul-Americano (OPSA).

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

 

 

 

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