DOIS POEMAS DE BARBARA GRILLO


Nesses anos

foi só o encontro com

o mar que me fez entender

o carinho da areia

quando como um favor engolia meus pés e me fez mesmo acreditar que os passos mais pesados aqueles quase afogados fazem parte desse ínfimo espetáculo onde toda imensidão ressurge no revoar de cada grânulo que antes me fez tropeçar mas que, agora, como uma onda me carrega indo e voltando exatamente para onde eu deveria estar e então você me pergunta se eu não deveria gritar aqui, de baixo, é difícil dizer mas acredito que com guelrás novas as coisas vão mudar porque daqui já não é possível falar mas as ondas agora como melodia me fazem acreditar que todas as canções de socorro estão bem aqui espero que escute o meu cantar seja como onda seja como maré alta espero que entenda, agora só posso habitar o mar.

-

sabe-se lá

quais cobras habitam o sertão

mas se acaso fosse a minha porta

decifraria seus nomes

meus medos

conhecimentos que vem de antes

antes de mim mesma

das vozes ao redor

dos ventos que gelam o suor

é provável então

que minhas cobras habitem

o topo de minha cabeça

e como medusa

se deleitem ou

meu objetivo único seja

congelar esses momentos

dando basta à solidão.

vozes de meus algozes

só alimentam meus bichos

fazem crescer

mas não permito

que me cortem a cabeça

por isso olho

pro meu corpo, o corpo

de dentro do corpo

as vozes cessam

o vento agora

só pode se sentir

como melodia

minhas cobras morrerão

e minha voz

me faz ouvir

aquilo que agora é

meu canto

minha oração.

Barbara Grillo é cientista social, antropóloga em potencial - mestranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA - UFRJ). Gosta de escrever poemas nas horas vagas ou não.

Editora responsável: Marcia Rangel Candido

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