PIONEIRISMOS NA ARGENTINA: O FEMINISMO E A REFORMA QUE MUDOU OS RUMOS DE UNIVERSIDADES LATINO-AMERICANAS

10 Jul 2018

 

Os partidários da inferioridade mental da mulher querem impedir seu acesso a todas as carreiras liberais, condenando-a à servidão da casa, onde deve esgotar-se nas funções de reprodução para agradar ao mestre, entregue durante toda a sua vida à criação de filhos.

 

Mercedes Gauna, "La Mujer", La Cumbre, janeiro de 1918

 

Foto n.1: Delegação Uruguaia no I Congreso Internacional de Estudiantes Americanos (1908).

Fonte: Evolución n° 21, 22, 23 y 24, marzo/junio de 1908, p. 177. 

 

 

[Comentário das/os editoras/es: embora, há cem anos atrás, a Reforma Universitária argentina tenha ressoado por diversos países latino-americanos, ela segue sendo um evento pouco conhecido no Brasil. Natalia Bustelo, entretanto, vai além das discussões históricas convencionais sobre os diversos sentidos revolucionários que disputavam o cenário de lutas pela democratização das universidades no século XX. O feminismo e a participação de mulheres em movimentos políticos, aspectos frequentemente invisibilizados em narrativas sobre o passado, são observados nas próximas linhas como elementos relacionados a processos sociais mais amplos. A produção intelectual de Bustelo proporciona, ademais, indícios satisfatórios do pioneirismo das argentinas em relação às demandas por igualdade de gênero no ensino superior].

 

-

 

Em sua extensa e massiva implementação na Argentina, o movimento da Reforma Universitária não tinha nenhuma mulher entre seus líderes. Tampouco as demandas de acesso à educação superior para as mulheres e, mais genericamente, para a igualdade civil e política, foram incorporadas à agenda reformista. Sem dúvida, a Reforma e o movimento feminista - que no final da década de 1910 também registrava um importante desenvolvimento - tiveram menos associação do que desde o presente desejaríamos. Mas essa decepção não nos impede de recuperar alguns de seus encontros mais sugestivos.

 

Quando, em meados de 1918, eclodiu a revolta estudantil que iniciou a Reforma Universitária em Córdoba, várias mulheres estudavam na Faculdade de Medicina de Buenos Aires e as estudantes da Faculdade de Filosofia e Letras alcançavam um terço das matrículas. Um grupo de graduandas ligadas ao Partido Socialista fundou a União Nacional Feminista em abril daquele ano e entre 1919 e 1921 elas iriam editar, como órgão da União, “Nuestra Causa. Revista mensual del movimiento feminista”.

 

 

Depois de superar vários obstáculos institucionais e culturais, as mulheres começaram a ingressar na Universidade de Buenos Aires no final do século XIX. Naquela época, os estudantes organizavam as primeiras associações destinadas a exigir das autoridades universitárias e do governo uma reforma que melhorasse a educação.

 

 

As mulheres, por sua vez, fundavam em 1901 o Conselho Nacional de Mulheres para reivindicar direitos civis, entre os quais se encontrava o de receber formação em medicina, advocacia e engenharia, bem como a habilitação para o exercício dessas profissões liberais. Em 1906, as mulheres que se identificaram com uma maior equalização entre os gêneros se afastaram do Conselho para fundar o Centro Feminista e, no ano seguinte, a associação Universitárias Argentinas. Durante o Centenário da Revolução de Maio, essas estudantes universitárias organizaram o I Congresso Feminino Internacional da República Argentina, no qual quase cem mulheres discutiram durante cinco dias, entre outras questões, sobre o direito a receber educação. Nesses mesmos dias, o Conselho organizou um Congresso de Mulheres Patrióticas e o nacionalismo viril e belicista que este evento reforçou duraria durante a Reforma, tanto através de alguns grupos de mulheres, como de agrupações de professores e estudantes anti-reformistas.

 

Em 1908, as reformas universitárias exigidas pelos estudantes pareciam se aproximar das demandas igualitárias do feminismo. Em janeiro daquele ano, uma centena de jovens universitários da América do Sul se reuniu em Montevidéu no primeiro Congresso Internacional de Estudantes Americanos. Clotilde Luisi, a primeira advogada da América Latina e já uma feminista determinada, não apenas fazia parte da delegação de estudantes uruguaios, como também assumia a apresentação do projeto fundador da Liga Americana de Estudantes [ver foto n.1].

 

 

Capa dos Anais do I Congreso Femenino Internacional de la República Argentina.

Fonte: AAVV, Primer Congreso Femenino, Buenos Aires 1910, Actas y Trabajos, EDUNC, Córdoba, 2008 [1910].

 


Em Buenos Aires, Alicia Moreau, uma das principais figuras da União Feminista Nacional, era convidada pelo Centro de Estudantes de Filosofia e Letras para inaugurar, em abril de 1918, um ciclo de conferências no qual dissertou sobre “a educação da mulher e os problemas contemporâneos”, mas, no ano seguinte, o Centro foi dirigido por jovens que se distanciaram do igualitarismo, tanto do feminismo, como da Reforma, para se aproximar a Liga Patriótica Argentina e sua preservação da ordem social – que incluía a relegação das mulheres ao âmbito doméstico e às tarefas exclusivas de cuidado -.

 

Muitas estudantes participaram dos atos da Liga e, ademais, algumas levantaram suas vozes para exaltar a condição sentimental da mulher. Entre elas, Celina Balán ressaltava que, naquela Faculdade, as mulheres tinham "recebido sábias lições de prudência e integridade moral" e que o gênero colocava "a dose de ingenuidade doce no conjunto; a mulher, que em vez de liderar multidões, eu gostaria que fosse o ritmo docíssimo dos consolos, alma sensitiva para enxugar as lágrimas que os vencidos choram". Entre aquelas que mais decididamente refutaram a condição de Magdalenas das universitárias argentinas, destacaram-se Herminia Brumana e Mercedes Gauna. No início de 1918, Gauna oferecia no jornal estudantil La Cumbre uma das mais fortes alegações locais em favor da entrada das mulheres na universidade:

 

Dado que contamos, sustentava, com indiscutíveis provas científicas sobre a igualdade entre o homem e a mulher e com o importante trabalho que mostraram no campo da indústria e da ciência desde a Grande Guerra, os obstáculos à educação universitária respondem exclusivamente "à mácula egoísta que pesa na inteligência masculina".

 

 

Iniciada a Reforma, Brumana se encarregava de completar esta alegação desde as revistas estudantis de Buenos Aires que apostaram em unir a Reforma Universitária e a Revolução Social. Com efeito, Clarín e Insurrexit [revistas da época] difundiram notas nas quais Brumana insistia em censurar as mulheres que endossavam e reproduziam o lugar subalterno atribuído a elas pelas sociedades modernas.

 

Cartaz fixado nas paredes da Universidad Nacional de La Plata em março de 1921.

Fonte: documento da coleção “Reforma Universitária”, Museo de Instrumentos Musicales Emilio Azarini, Universidad Nacional de La Plata.



As intervenções de Gauna e Brumana não lograram a convergência entre Reforma e Feminismo, mas seguramente influíram no grupo de estudantes do Liceo de Señoritas de La Plata, que em 1920, protagonizou a primeira greve de estudantes mulheres da Argentina.

 

As senhoritas defendiam a gestão do “anarquista” Saúl Taborda no Colegio Nacional dependente da Universidad Nacional de La Plata. E, diante dessa participação na fração mais radicalizada da Reforma, o reitor da universidade, Carlos Melo, questionava a honra e o direito a estudar das grevistas. Como resposta, Carlos Astrada, Héctor Roca, Luis Aznar e outros líderes reformistas de Buenos Aires impugnaram mais uma vez o reitor e saudaram a identificação dessas “mulheres, quase meninas” com o que declaravam como o autêntico espírito da Reforma.

 

O centenário da Reforma nos encontra com um movimento estudantil pouco mobilizado e com universidades que estão longe de cumprir a função científica, social e democrática que ansiavam os primeiros líderes reformistas, mas esse centenário também coincide com uma nova onda feminista que, se vencer a tensão de se tornar juiz e executor dos homens, poderá trazer o entusiasmo e a decisão que ainda faltam para construir essas universidades igualitárias que começaram a exigir Moreau, Gauna e tantas outras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Natalia Bustelo é doutora em História pela Universidad Nacional de La Plata, docente da Universidad de Buenos Aires (UBA) e da Universidad Nacional de San Martín (UNSAM). É também membro do Comitê Acadêmico do Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas en la Argentina (CeDInCI) e autora de Todo lo que necesitás saber sobre la reforma universitaria, publicado em 2018 na Argentina.

 

 

Editoras/es responsáveis: Marcia Rangel Candido e Rafael Rezende

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Relacionados
Please reload