DAS MULHERES QUE TÊM DENDÊ

9 Jul 2018

 

 

Créditos da Imagem: Dendê. Rosa Vieira, junho 2017 - arquivo pessoal

 

 

Quando o silêncio sobre a África em geral se quebra na grande mídia brasileira é para divulgar imagens de epidemias ou conflitos. Recentemente não foi diferente. Acompanhando Le Monde, New York Times e outros jornais internacionais, ela publicou diariamente notícias sobre o ebola na República Democrática do Congo (RDC). Aos movimentos de oposição ao presidente Joseph Kabila, aos belos tecidos, aos artistas, aos escritores, à produção acadêmica, à comida não se destinou uma linha. Até aqui nada de novo. Mudam-se os lugares, os personagens e as mesmas imagens negativas sobre um continente se reproduzem. Guillaume Lachenal num artigo de 6 de junho no jornal Libération já mostrou como o ebola se tornou um produto de financiamento. Não quero dizer que ele seja de pouca importância. Eu também passei a me preocupar quando choveram mensagens de familiares e amigos me alertando para tomar cuidado ou até mesmo deixar de ir para o Congo Kinshasa. Enchi minha mala de vidrinhos de gel higiênico anti-vírus, que nunca tirei da embalagem. Não estou perto de qualquer zona de risco da epidemia, só que depois de tanta produção do medo é difícil convencer as pessoas próximas disso. 


Ao chegar por aqui, nas casas, nos táxi-coletivos, nas feiras, o assunto não é a doença, ao menos não esta doença. Congoleses estão com makambo na mutú ("problema na cabeça", preocupação, como costumam falar) principalmente quando a venda não vai bem. Na RDC, vender um produto para fazer um dinheiro é algo generalizado. Casas de diferentes classes estão inseridas em um universo de venda, seja vendendo no quintal, na igreja, nas feiras, revendendo mercadorias compradas no exterior ou nos vilarejos rurais. A venda pode ser algo que complementa uma renda fixa, um salário e o orçamento da casa. Mas também é a atividade diária à qual muitas mulheres se dedicam e da qual dependem famílias. Praticamente 90% das feiras são movidas por mulheres que são chamadas de "detaillantes" por venderem em "detalhe", em pequenas quantidades definidas por tipos diversos de medidas. Elas vendem de tudo: frutas, legumes, grãos, farinhas, óleo de girassol e também óleo de palma, o nosso azeite de dendê.

 

Vestida com um avental para não sujar sua roupa, Ma¹ Henriette coloca um pouco de fogo ao lado de uma lata com óleo de palma para vendê-lo mais destilado num mercado em Matadi, cidade portuária da província do Congo Central. Ela inclina levemente seu corpo, enche uma caneca do óleo e entorna-o numa garrafa de vidro de coca-cola que, além das garrafas de Vitalo (refrigerante), de Primus (cerveja) e de uma latinha bem pequena de molho de tomate, serve de medida. Mafuta mbila, como é chamado em lingala², foi o primeiro produto que Ma Henriette passou a comercializar e é o que lhe traz mais dinheiro. Para vendê-lo, é preciso dominar uma técnica específica, não só de saber como se vende, um aprendizado prático e intelectual, mas avaliar bem a sua qualidade e evitar qualquer desperdício. Aos domingos, Ma Henriette costuma usar o dinheiro que fez no dia com a sua barraca na feira para pagar os galões de óleo de palma que havia pego com a Ma Julie, sua fornecedora. 

 

Esta outra mama vive entre a cidade e o seu vilarejo de origem. Nascida na região da floresta do Mayombe, ela costuma ir pra lá toda semana comprar galões de óleo de palma para revender em Matadi. Parte na madrugada de segunda e chega de manhã, quando seus familiares e pessoas de vilarejos próximos já estão produzindo o óleo. Passam alguns dias subindo nas palmeiras, resquícios de antigas plantações, para recolher seus frutos. Segunda é o dia de submetê-los à fervura numa lata enorme, posteriormente entornada nos wax (grande instrumento de madeira que permite extrair o óleo). Pouco a pouco enchidos, os galões são vendidos às terças no mercado de um dos vilarejos. 


A RDC só tem duas estações, a da seca (elanga) e a da chuva (mbula). Na da seca, que vai de maio a setembro, não há grãos em abundância. O preço dos galões sobe e nem sempre Ma Julie consegue levar muitos para a cidade. Da última vez comprou dezesseis, além de vassouras e esteiras de palha, que foram amontoadas próximas à casa de um conhecido. Quando o caminhão que parte para Matadi alcança o vilarejo não há como ignorar a sua presença. Além do tamanho, que contrasta com as casas baixas de tijolo sobre as quais se derrama o verde da floresta, há um intenso movimento de comerciantes procurando um lugar confortável entre os galões e garantindo que seus produtos sejam bem guardados. A viagem é demorada. O caminhão pára, entra mais gente com sacos de feijão, cachos de banana e folhas de mandioca. O motor morre no trajeto e horas se passam até partir novamente. Ma Henriette aguarda toda quinta os galões de Ma Julie, mas já aconteceu de chegarem na cidade somente sexta à noite. Uma manhã sem óleo de palma afeta a sua venda, seus planejamentos e manejos das dívidas. O líquido vermelho alaranjado gera dinheiro que circula entre familiares e com outras mamas comerciantes, serve para pagar a escola das crianças, comprar produtos para repor na barraca, investir através do likelemba, associação que funciona como um espécie de banco informal gerida sempre por uma pessoa. 


Falar em óleo de palma atualmente remete às grandes plantações do sudeste asiático, criticadas por movimentos ambientalistas. Mas há tempos ele é item importante na culinária da África. Desde o final do século XV ele é comercializado pelos europeus e o fim do tráfico negreiro foi seguido por uma intensificação da sua exportação, sobretudo para alimentar o processo de industrialização inglês. Peça chave para movimentar a maquinaria europeia, na RDC as grandes plantações de óleo de palma para exportação se sedimentaram apenas a partir de 1920. No início do século XXI, a produção em grande escala se extinguiu completamente no país, apesar dos recentes interesses empresariais internacionais em reavivá-la. Commodity central do capitalismo compondo uma variedade infinita dos produtos de beleza e de doces industrializados que consumimos no mundo de hoje, o óleo de palma é, por outro lado, uma substância com usos particulares nas casas congolesas. 


Além do fufu (massa feita de farinha de mandioca), feijão, peixe, frango e verduras fazem parte da culinária congolesa e são frequentemente preparados com óleo de palma. Ele também é utilizado para passar nos corpos de mulheres e crianças para evitar o ressecamento da pele, embora alguns congoleses da cidade se refiram a esta prática como um hábito de pessoas do "interior", já "ultrapassado" nas áreas urbanas. Ma Henriette havia me dito que era "coisa do passado" e que agora eles usam "lait de beauté". Mas certo dia, dentro do táxi coletivo, ouvi sua voz comentando com outra congolesa que passar óleo de palma no rosto à noite é bom para a pele. Fiquei interessada em experimentar. Isso não é pra mundele (branca), ela respondeu esboçando um sorriso pra mim. Depois do trânsito sob um sol forte que invadia as janelas laterais do carro, saltamos. Do outro lado da rua nos chamava a filha de Ma Julie: os galões chegaram. Fiquei feliz, amanhã Ma Henriette terá dendê para vender.

 

 

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¹ Na RDC, "mama" e "papa" são usados para chamar mulheres e homens. As explicações variam sobre quando mama/papa passa a ser usado para se referir a uma pessoa. É utilizado para chamar pessoas que já não são consideradas mais "bana" (crianças). Pode ser um sinal de respeito, mas também já ouvi que uma mulher só passa a ser chamada de "mama" depois que casa. As crianças, por vezes, chamam moças que ainda não se casaram de "mama".

² Lingala é uma língua bantu falada na República Democrática do Congo e em outros países. Na província do Kongo Central também se falam outras línguas, como o Kikongo, igualmente idioma bantu. Lingala é uma língua de Kinshasa, mas também está presente em outras províncias. Em Matadi, as pessoas por vezes misturam estas duas línguas ou mudam de uma pra outra na mesma conversa.

 

 

 

*Rosa Vieira é doutoranda em Antropologia Social no Museu Nacional (PPGAS/UFRJ). Esse texto foi escrito em Matadi, República Democrática do Congo, exclusivamente para a Horizontes ao Sul. 

Contato: rosacrvieira@gmail.com

Editora responsável: Luna Ribeiro Campos

 

 

 

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