ÁGUA PARA VIAGEM

5 Jul 2018

 

Créditos da Ilustração: Felipe Jornada, 2008

 

 

Lorena Martins compartilha conosco alguns poemas de seu livro de estréia água para viagem, lançado em 2011 pela Editora 7 Letras. A poeta, natural de Dom Pedrito, Rio Grande do Sul, é formada em Letras/Francês pela UFRGS. Atualmente, vive em Tallinn, na Estônia, onde finalizou recentemente seu novo livro corpo continente, que aguardamos ansiosamente a publicação.

A escrita doce e envolvente de Lorena Martins pode ser conferida na seleção de poemas feita especialmente para a Horizontes ao Sul.

 

 

***

 

 

 

espelhos nas pontas dos dedos

a pluma do teu ego

                  os primos

                  os pregos

 

e o medo do corte

 

dores feridas

soltas na pia

pequena parede descascada,

                                                velada

                                                     e tu

 

tua pose

teu pêlo

teu palco

de doenças vestidas

 

minha raiva

 

(eu cicatrizando em ti).

 

 

 

***este poema também pode ser conferido em sua versão lindamente musicada pelo grupo Pato Preto, de São Paulo. o registro, feito por Tom Butcher Cury,  é de janeiro deste ano***

 


 

***

 

 

 

será denúncia

os cabelos que sem rima

abandonei

o passo lento escorado à janela

o olhar que nada vislumbra

mas que tudo pede

e é sede?

 

será renúncia

adormecer à parede

deitar como quem se veste

aos poucos

sob o desejo do outro?

 

será denúncia

os dedos calados à nuca

as mãos amarradas à cintura

à espera

e nela

o desterro?

 

será que derrama

e é grito?

 

 

 

***

 

 

 

a noite no sofá

é pele

cascata

que não alcança

a janela.

 

as tardes

se trancafiam

nos cantos da sala:

 

desperto

meu bonde abandono

a mão no parapeito

e minha garganta

 

que voa.

 

 

 

***

 

 

 

hoje, enquanto o dia gritava seus lugares,

lembrei de quando cresci.

 

cresci numa tarde

dessas em que o vento parece saudoso

suado

e num deslize

respira o rosto

e devaneia.

 

cresci como quem atravessa o trigo

arranca das árvores as folhas boas

e de qualquer vertigem passageira

o vestido.

 

cresci chorando sobre um gramado roxo,

destemperado,

que nos invernos cobria meus pés de terra

                                                         e formigava.

 

cresci diante dos meus olhos

épocas -

um só corpo ensolarado

enjoado.

 

eu ri quando cresci.

 

e despejei rumores, meias escuras

e copos pela metade.

 

assim que a noite,

não tão noite mas ríspida,

viu meus braços se alongarem,

os cabelos formarem cachos,

eu desfiz.

 

tramei meu conto.

 

quando cresci,

o cruzar de pernas que minha mãe ensinou,

o tom de voz que me era permitido,

a blusa de tricô

que escondia os mamilos,

 

amargaram.

 

foi então que amanheci.

cobri o embaraço com pitangas à boca

mergulhei onde era raso

desejei os meus pudores

e me vi

quando era quase entristecer.

 

eu cresci

e na moldura dos traços

rastros, lastros

eu te vi:

 

é um túnel.

 

 

 

                                                                                  ***

 

Para conhecer um pouquinho mais da poeta, é possível vê-la lendo alguns poemas do livro no link abaixo:

https://vimeo.com/81623864

 

Para comprar o livro água para viagem, acesse:

https://www.7letras.com.br/agua-para-viagem.html

 

 

 

 

Contato: lorena.martins@gmail.com

Editora responsável:  Luna Ribeiro Campos

 

 

 

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