ENTRE CAVALOS E PADRES, EU PREFIRO TOMAR CHUVA

26 Jun 2018

 

 

   

No comentadíssimo livro Homo Deus, Yuval Harari (2017) relata o experimento feito no início da década de 1900 na Alemanha, que consistia no questionamento de uma sequência de cálculos aritméticos ao cavalo Hans, seguidos por respostas em batidas de casco: “Quanto é vinte menos onze? Hans batia nove vezes, com uma precisão prussiana condecorável”. (p. 135)

 

Tal feito foi repetido, de região em região, de cidade em cidade, até chamar a atenção da junta alemã de educação, que em 1904 teria designado uma comissão científica a fim de provar que se tratava de uma fraude. Afinal, como poderia ser verdade?

 

Mas a despeito de tal convicção, suas tentativas foram frustradas, pelo menos até 1907, quando o psicólogo Oskar Pfungst finalmente desvendou o mistério:

 

Hans obtinha as respostas certas acompanhando atentamente a linguagem corporal e a expressão facial de seus interlocutores [...] À medida que Hans se aproximava do número correto de batidas, os humanos mostravam-se mais tensos e, quando ele dava a batida que correspondia ao número correto, a tensão atingia o clímax. Hans sabia como reconhecer isso pela atitude corporal e pela fisionomia dos humanos. Ele então parava de bater e via como a tensão dava lugar à admiração ou ao riso. Hans sabia que tinha acertado. (2017, p. 136)

 


Eis o feito e sua explicação...

 

Cento e dez anos depois, o economista estadunidense Richard Thaler[1] ganharia o Nobel de Economia pelos resultados de uma pesquisa que teve como premissa fundamental o seguinte entendimento: as decisões de cunho econômico nem sempre estão calcadas na racionalidade, em um encadeamento lógico entre meios e fins com avaliação de custos. Ou seja, para Thaler, muitas dessas decisões têm fatores subjetivos como principal esteio, e não os ditos racionais. 

 

Epistemologicamente filiado à economia comportamental, tributária do behaviorismo, Thaler empreende alguns experimentos com o objetivo de entender as influências psicológicas e culturais contidas nas decisões econômicas. Um dos experimentos, nomeado efeito extorsão, ocorre quando os indivíduos em um dia chuvoso se recusam a comprar um guarda-chuva, mesmo ele sendo relativamente barato e extremamente necessário e útil naquele momento, pois entendem que o preço está mais caro do que o de costume. Assim, ao se sentirem extorquidos, optam pela negativa e pela sujeição à intempérie. O resultado de suas pesquisas foi a de que há uma previsibilidade na irracionalidade.

 

Por que trazemos esses dois exemplos? Porque a partir deles podemos discutir dois elementos metodológicos essenciais para a prática de pesquisa em Ciências Sociais:

 

1. Sobre a racionalização do conhecimento em face de uma especificidade epistemológica que não está atrelada aos mesmos pressupostos das Ciências da Natureza de controle das variáveis estudadas (WEBER, 2001);

 

2. Em como lidar com alguns desafios durante o processo de entendimento de um fenômeno social.

 

Primeiro cabe destacar que o nosso olhar sobre esses elementos está alicerçado no pressuposto trazido por Harari (2017, p. 150) de que a antítese realidade objetiva – “[...] que existe independentemente de nossas crenças e sentimentos” e o autor cita como exemplo a força da gravidade, mas poderíamos dizer sobre tantos outros como a capacidade solvente da água – e a realidade subjetiva, diametralmente oposta, pois constituída por valores, convicções e envolvimentos pessoais, é chacoalhada por um terceiro nível de realidade, o nível intersubjetivo, dependente da comunicação entre humanos, e porque não entre actantes (LATOUR, 1994).

 

O historiador Harari (2017) cita o exemplo do dinheiro que, lastreado na fidúcia, só se constitui como valor de troca se o agente recebedor o entender como valorativo e em qual escala. Mas podemos mencionar outros tantos, como o experimento efeito extorsão de Thaler, já que objetivamente chove e podemos ficar molhados, subjetivamente posso gostar de tomar chuva, mas intersubjetivamente odeio imaginar ser enganado por alguém!

 

Como um pesquisador social pode captar o nível intersubjetivo de realidade? Gunther (2006) nos dá uma pista ao sistematizar três aproximações empíricas voltadas a esse objetivo, uma delas é a observação dos comportamentos na realidade concreta, nesse âmbito podemos destacar a etnografia, a observação participante. Nesses termos, fica a pergunta, se não tivesse feito uma observação sistemática, Oskar Pfungst teria resolvido o enigma do cavalo inteligente?

 

Podemos dizer que sim com base na definição de Giddens (2017) de que a ciência pode ser entendida como um método sistemático de investigação empírica, análise de dados e avaliação de teorias à luz de comprovações e argumentações lógicas.

 

Assim, a simples descrição como feita antes de o enigma ter sido elucidado pode nos levar a conclusões equivocadas, mas não queremos dizer que a partir da observação sistemática uma dada racionalidade vai se tornar auto evidente como o empirismo saxônico nos quis fazer entender, ou mesmo que a irracionalidade, como dita por Thaler, será eliminada da construção do conhecimento, já que além de seu caráter reflexivo, há uma multiplicidade de paradigmas aos quais nos filiamos (SARTORI, 1981) e que nos conduz não a uma única explicação, mas em previsibilidades.

 

A outra advém da criação de situações artificiais a fim de observar o comportamento social, pela técnica de experimentos – que sem resumi-lo a estímulos / respostas, foi empregada por Thaler.

 

Por fim, e não menos interessante, podemos perguntar às pessoas sobre o que elas pensam – atitudes a partir de uma avaliação de valores – e como agem ou agiriam – referente ao posto em prática (INGLEHART, 2005), tendo como técnicas fundantes a entrevista (com suas variações de estruturação) e o survey (de caráter quantitativo e padronizado).

 

Falando mais sobre o perguntar e deixando de lado as idiossincrasias, potencialidades e limitações de cada técnica, vamos usar mais um recurso anedótico: dois padres, supostamente fumantes (hipótese de pesquisa?), se deparam com um dilema, se é pecado fumar e rezar ao mesmo tempo. Diante da incógnita, decidem recorrer a instâncias superiores (mundanas). Dias depois os dois padres se encontram para confrontar as respostas obtidas. Para um deles, o superior responsável disse que “tudo bem”. O outro revelou o vaticínio de seu superior: “é pecado”. Meu Deus! E agora? Estaria a igreja partindo de bases epistemológicas tão distintas no que se refere ao comportamento de seus sacerdotes?

 

Confusão armada, os dois decidem conferir as perguntas feitas: o de consciência tranquila teria perguntado se é pecado rezar enquanto fuma; e o supostamente em pecado perguntou se é pecado fumar enquanto reza (BRADBURN; SUDMAN; WANSINK, 2004). Moral da história: o desenho de pesquisa, a formulação de perguntas alicerçadas na teoria e nos objetivos de pesquisa são fundamentais para se chegar a algum nível de explicação ou compreensão do fenômeno social.

 

Isso nos leva ao primeiro elemento metodológico dito acima, sobre a racionalização e aparente incompatibilidade entre a objetividade e a subjetividade. Cabe dizer que o processo de racionalização, na diferenciação dos valores e das vivências e no desencantamento do mundo, é uma temática cara ao pensamento weberiano. Nesse sentido, para Weber (2002) estamos imersos em um processo civilizatório que não tem fim, algo sísifico[2] que só nos permite captar o provisório e nunca o definitivo. Isto posto, por que continuamos a fazer ciência? Pelo próprio processo de racionalização!

 

E fazemos ciência considerando que diferentemente de experimentos feitos em laboratório, onde há um acentuado controle das variáveis, estamos lidando com um objeto que é sujeito ao imponderável e definido culturalmente pelo pesquisador, em sua escolha e delimitação.

 

Assim, devemos tratar objetivamente o subjetivo pela ordenação da realidade dada segundo categorias que são subjetivas no sentido específico de representarem o pressuposto do nosso conhecimento, mas que validam objetivamente o saber empírico (WEBER, 2001). Ou seja, racionalizando a irracionalidade no abandono da busca pela verdade absoluta e pela hegemonia da racionalidade instrumental ante à substantiva (HORKHEIMER, 2002).

 

[1]https://www.nytimes.com/2015/05/10/upshot/unless-you-are-spock-irrelevant-things-matter-in-economic-behavior.html Acessado em: mai. 2018.

 

[2] Em referência ao livro de Albert Camus “O Mito de Sísifo” quando o autor relata no absurdo a condenação de um homem à eterna tarefa de rolar uma pedra até o cume da montanha desde o chão, sempre.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

BRADBURN, Norman; SUDMAN, Seymour; WANSINK, Brian. Asking Questions: The Definitive Guide to Questionnaire Design - For Market Research, Political Polls, and Social and Health Questionnaires. John Wiley & Sons, 2004.

GIDDENS, Anthony. Conceitos essenciais da Sociologia. São Paulo: Editora Unesp, 2017. GUNTHER, Hartmunt. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: Esta é a questão? Psicologia: Teoria e Pesquisa Mai-Ago 2006, Vol. 22 n. 2, pp. 201-210. In: http://www.scielo.br/pdf/ptp/v22n2/a10v22n2 HARARI, Yuval Noah. Homo Deus. Uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. São Paulo: Centauro, 2002.

INGLEHART, Ronald. Modernization, Cultural Change and Democracy. USA: Editora Cambridge, 2005. LATOUR, Bruno. On technical mediation: philosophy, sociology, genealogy. Common Knowledge, v. 3, n. 2, p. 29-64, 1994.

SARTORI, Giovanni. A política como ciência. In: A política: lógica e métodos nas ciências sociais. Brasília: Editora da UNB, 1981

WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais: parte 1. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da Unicamp, 2001. ____________. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2002.

 


 

 

 

Tathiana Chicarino é doutoranda em Ciências Sociais pela PUC/SP. Professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Pesquisadora do NEAMP PUC/SP e do Grupo de Pesquisa "Comunicação e Sociedade do Espetáculo" da Faculdade Casper Líbero. Bolsista FAPESP.

Contato: tschicarino@gmail.com

Editora responsável: Natasha Bachini

 

 

 

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